Com o risco de me transformar num “decadista”, deixo aqui o meu segundo texto sobre a década. O primeiro era sobre as minorias, e foi uma encomenda da Visão. O segundo é sobre a direita (o Henrique Raposo escreveu sobre a esquerda) na década, foi escrito para a Única, do Expresso. Aqui vai.

Durão Barroso esperava na pista de aterragem, ao fundo das escadas por onde desciam, um a um, os líderes mundiais que anunciariam o começo da guerra do Iraque. Nas Lajes, o primeiro-ministro ensaiava um casamento que só poderia sair da cabeça de alguém que não tinha os pés bem assentes na direita portuguesa: a geminação com a direita internacional e, mais especificamente, com a direita americana.
Mas a tentativa de Barroso parecia ser a conclusão lógica da década anterior. Doze anos antes, com a queda do Muro de Berlim, uma dama de ferro em Downing Street e um actor na Casa Branca viam confirmadas as suas promessas globais. Não se tratava apenas de enterrar o comunismo, mas de vergar a espinha aos sindicatos, dar mais espaço de manobra à desregulação da economia e mandar cantar uma missa ao Estado Providência que durante décadas garantira prosperidade à Europa. No meio surgiu a Terceira Via, a oportunidade para a esquerda tradicional se entregar, qual Egas Moniz, de corda ao pescoço.
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O cavaquismo era a versão portuguesa dos ares do tempo: provinciano e estatista, Cavaco limitara-se a privatizar os destroços da revolução e a distribuir sem grande critério os dinheiros europeus. Ao contrário do que acontecia por esse Mundo fora, a direita nacional continuava temerosa do seu próprio nome. Dependente de um partido sem identidade que Cavaco moldara sem dificuldade à sua própria personalidade. Longe dos grandes debates ideológicos, agarrada à figura do senhor de Boliqueime.
Ao tentar colocar a direita portuguesa no centro do Mundo, Barroso trazia consigo a tendência esquerdista para a internacionalização política. Os seus ideólogos de serviço – de Pacheco Pereira a José Manuel Fernandes – vinham da mesma família. E eram acompanhados por jovens voluntaristas saídos de fresco da tresleitura dos liberais da moda.
À desregulação da economia juntava-se coerentemente a desregulação das relações internacionais. O Império benigno que o staff de Bush impunha na Casa Branca assentava em três ideias: que a democracia, como o Capitalismo, era exportável à força; que a guerra era, como sempre foi, um motor fundamental para as economias; e que o anterior embate ideológico que garantira coesão ao “Mundo Livre” deveria ser substituído por um choque de civilizações que serviria de cimento ao Ocidente. Temos de conceder que este voluntarismo e vanguardismo – comum no passado da esquerda – tinha mais “sex appeal” do que a velha direita caseira.
Só que a ideia do confronto civilizacional esbatia as fronteiras que durante décadas foram sendo traçadas entre a direita democrática e a extrema-direita. Nos EUA e em muitos países europeus o cordão sanitário pura e simplesmente desapareceu. A nova direita “em guerra” cedeu, sem espaço para recuo, às pulsões securitárias e a alguma xenofobia.
Mas convenhamos que estamos a falar de Portugal. Não chegam uns jovens e uns ex-maoistas à procura de mundos perfeitos para contrariar hábitos antigos. Na verdade, naquela pista de aeroporto, Durão Barroso era um homem só. Apenas o mordomo numa festa que não era sua. A direita portuguesa, essa, permanece na sua modorra provinciana e anti-liberal. A sua base programática ainda é determinada por empresários de pequeno porte à espera da mama orçamental e em pânico com a invasão bárbara da globalização. Ainda vive das pequenas tricas domésticas e a leste de todos os debates internacionais. As suas leituras ficam-se pela e “Hola” e pela “Caras” e olha com desconfiança para estrangeirados demasiado modernos.
No Mundo tudo desabou. A aventura de fazer cair as peças do dominó que levariam a democracia ao Médio Oriente foi uma tragédia da qual ninguém sabe bem como sair. A bolha do capitalismo especulativo rebentou na cara de todos. O choque de civilizações serviu a agenda de partidos que na Holanda, na Áustria, em Itália e no leste europeu espalharam a insanidade.
Depois do vendaval dos últimos três anos sobrou, da direita americana, Sarah Palin e as imagens de Guantánamo e Abu Ghraib. A direita europeia, ainda no poder, converteu-se sem qualquer sinal de resistência ao intervencionismo estatal. Em Portugal, os jovens ideólogos continuam a pregar a sua boa nova como se nada tivesse acontecido. As notícias chegam sempre mais tarde à província.
A vida política portuguesa regressou depressa à normalidade. Depois da partida de Durão Barroso, o PSD voltou ao seu estado natural: o desnorte político e o absoluto nulo ideológico. Ao fim de cinco anos prepara-se para eleger o seu quinto líder. Nem uma ideia cintila naquelas cabeças para alem do apoio às “piquenas” e médias empresas. Sem agenda própria, entrega-se aos pequenos casos da política nacional e a lutas fratricidas sem qualquer conteúdo. E todos sabemos que se a direita portuguesa não vingou quando as coisas no Mundo lhe corriam de feição não é agora que passará a existir.
12 comentários 10 Jan 10 em Sem categoria



Reviver o passado, faz parte da 1ªquinzena do ano, mas ontem fiquei preocupada, com a maneira como falou do défice, no E.M. Uns empurram que sim, outros empurram que não, mas eu sei, quem vai acabar por ficar entalado, nem que seja com o IVA, aquele imposto cego que custa, sempre, muito mais ao “mexilhão”.
Às vezes penso que não haverá mais votos no BE e no PCP, porque não chegam só os conceitos, há alguns eleitores sequiosos de os ver traduzidos em soluções concretas e prácticas. Desculpe lá o desabafo, mas aqui será o sítio perfeito, para falar destes assuntos, com 7 autores e muitos comentadores.
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O mordomo de serviço….
Jeeves!…
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Não acham curioso que o video das declaração públicas de Durão Barroso das Lajes não exista em lado nenhum na Internet? Mesmo as de Bush, Aznar e Blair são muito difíceis de encontrar.
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José Bastos Reply:
Janeiro 10th, 2010 at 13:30
Luis, é um pouco como as imagens de jogadas crucias em que o Benfica foi benificiado, é que nem vê-las.
Só lembrar que quando muitos dos jovens ideologos da “nova direita” portuguesa que o Daniel referiu, diziam que Barroso na Europa era um grande prestígio para Portugal e que poucos anos depois se queixaram que a Europa ficaria sem rumo quando alguém que nem conseguiam pronunciar correctamente o nome (Rompuy) seria presidente do Conselho, esqueceram-se de que Durão Barroso deve a sua fama e ascenção a uma cimeira em que era apelidado de “Burroso” pelos mídia internacionais, e que teve de retirar o sobrenome “Durão” porque ninguém na Europa o conseguiria pronunciar. Mentalidade tacanha à portuguesa.
Excelente artigo Daniel. Parabéns. Tive verdadeiros orgasmos intelectuais ao ler este artigo.
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@José Bastos
Com a diferença de que os alegados benefícios ao Benfica conduzem a coisas ligeiramente menos graves do que as milhares de vidas exterminadas com a invasão do Iraque para além das que se perdem diariamente devido ao estado em que as coisas ficaram após a invasão.
“Foi uma decisão acertada”:
http://videos.sapo.pt/azC5jrkvzwCSweaTfUO7
Faltam as declarações originais da época.
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Lúcido e objectivo. Parabéns,
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DO,
Se calhar é um preciosismo, mas Blair não se pode dizer que seja propriamente de direita, pelo menos no papel , já que na pratica…
Num destes dia falava com um amigo sobre este assunto e dizia ele: se calhar nem foi o Bush ter ganho…o problema começa com a reeleição de Bush.
Como é que o povo (USAs) sabendo como Bush ganha a 1ª eleição e como tratou a guerra matando milhares no Iraque, o volta a eleger???
Mas duvidas não há , se o mundo está como está devesse em tudo á actuação destas 4 sinistras figuras da politica mundial. (Bush, Blair, Aznar, e Barroso ).
Feito o que fizeram, Bush, deve estar na maior num qualquer rancho rodeado de cavalos…Blair e Aznar a ganhar valores fabulosos com as merdas que vão debitando e, Barroso, candidato único, é reeleito na Europa, quando a Europa por ele gerida falha em toda a linha na forma como trata a crise por eles criada.
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Pela boca, ou por outro sitio qualquer….
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“Não se tratava apenas de enterrar o comunismo, mas de vergar a espinha aos sindicatos, dar mais espaço de manobra à desregulação da economia e mandar cantar uma missa ao Estado Providência que durante décadas garantira prosperidade à Europa.”
Eu julgava que havia sido a prosperidade que havia permitido o Estado Providência, e não o contrário. Decretar a Providência com descaso do que a economia permite é precisamente uma das causas dos desiquilíbrios económicos que nos afligem, a nós e a outros. E os míticos (míticos porque o que sobre eles se diz reporta a uma realidade que já não existe) países nórdicos o que têm vindo a fazer há mais de uma década é desconstruir uma parte do peso e rigidez das previdências e providências locais. Mas esta é uma divergência sem solução: como o crescimento económico acompanhou a expansão do Estado Social, imaginar que esta provocou aquele é um artigo de fé plausível. Eu sou de outra Igreja, a da Razão.
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Barroso foi um borra botas. Foi um cobardolas.
Tanta merda com a sua vinda para o PSD e depois foi o que se viu.
Rais’parta tanto D. Sebastião
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Mas o que é que o terrorismo teve a ver com a invasão diraque?
…gandas palhaços!
P.S. O Furão tem cara de chines
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