O Pedro Picoito, que é de direita e com quem muitas vezes não concordo, tem toda a razão quando escreve neste post:
"É uma cruel ironia. Na mesma semana em que o Primeiro-Ministro descreve a economia portuguesa com uma das suas fórmulas trôpegas (“a selecção natural das empresas que podem melhor sobreviver está feita”), ficamos a saber, pelo Público, que nove empresários da restauração se suicidaram nos últimos três meses e 11 mil empresas do sector foram à falência. José Manuel Esteves, secretário-geral da Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, acrescenta que se trata muitas vezes de “microempresas de cariz familiar, e por isso as consequências são ainda mais gravosas”.
O Governo, entendamo-nos, não pode ser directamente responsabilizado por estas mortes. Mas a frieza dos números mostra a realidade, na vida das pessoas, do “processo de ajustamento” que Passos quer fazer passar por natural, inevitável e certo como uma lei da ciência. Vivemos acima das nossas posses? Pois agora morremos abaixo das nossas posses. As espécies, quando não se adaptam, extinguem-se, lá dizia o Sartre.
Se o Primeiro-Ministro tivesse um bocadinho de mundo fora das jotas e dos negócios de favor, saberia que há metáforas insultuosas. Sobretudo quando vêm de um parasita que sempre fugiu à “selecção natural” graças a hospedeiros bem colocados. Mas não tem. A selecção natural dá-se por pequenos passos."
"Acabei de ouvir o pastel de nata afirmar que se não fossem pessoas como o Dr. Franquelim jamais a fraude do BPN teria sido investigada de forma tão eficaz. Tão eficazmente foi investigada, que os impostores continuam todos à solta. Se é este o conceito de eficácia do pastel de nata, bem podemos continuar de mãos nos bolsos a ouvir esta gentalha falar de chicana política, cabala, linchamento, perseguição, epítetos muito comuns quando a realidade é a mais crua de todas e ninguém quer saber dela para nada: nenhuma consciência ou vergonha pesa sobre os filhos da puta, e nenhuma raiva, repulsa ou desprezo sacode as putas. Quem diz putas diz povo, entenda-se." - Henrique Fialho.
Começou hoje a segunda fase da votação para os melhores blogues de 2012 promovida pelo Aventar. O Arrastão foi um dos 5 escolhidos finais na categoria "Actualidade Política - Blogues Colectivos". Podem ir lá votar (uma vez a cada 24 horas) que a gerência agradece. A bem de um Portugal mais sustentável, sem Coelho e Gaspar na cadeira apodrecida onde se sentam.
Mais uma vez, o Aventar realiza uma votação para os melhores blogues e bloggers do ano. O Arrastão está nomeado na categoria de "Actualidade política - blogue colectivo". Ide lá e votai.
"Acabei de ouvir Miguel Relvas dizer, com o seu já habitual ar de sabujo, que o apoio aos mais desfavorecidos é uma preocupação permanente deste Governo. Perante a impossibilidade de ser ouvido por esta gente, perante esta espécie de surdez desprovida de qualquer noção de civilidade no serviço prestado ao país, vou escrever como se eles não nos estivessem a ouvir.
Que país é este que aceita que um bando de filhos da puta confisque impunemente o resultado do trabalho de milhões de pessoas? Quão insensível é preciso um bando de filhos da puta ser para anunciar ao país uma redução do salário mínimo? Eu sei que muita gente sente já ter assistido a isto antes, mas este não é um bando de filhos da puta qualquer. É uma espécie refinada de filho da puta, tão perigosa pela sua ignorância quanto pela capacidade inesgotável de mandar um país inteiro para o caralho que o foda. Bem sei que é um bando de filhos da puta com maioria absoluta. Infelizmente, demasiados eleitores desconheciam, à data das eleições, que estavam a mandatar um bando de filhos da puta com tão especial vocação para foder o mexilhão. Quiseram acreditar que este não era um bando de filhos da puta. Infelizmente, jamais imaginaram que este viesse a tornar-se o maior bando de filhos da puta que o país já viu no poder, e a mais séria ameaça ao modo de vida de todos os que diplomaticamente têm aceitado a pior forma de governo, salvo todas as outras.
Está ali um bandalho dum funcionário descansado na televisão a dizer-me que as empresas são locais de cooperação entre patrões, empregados e a cona da mãe dele. Amigo: locais de cooperação o caralho que ta foda. Este pulha dum cabrão, que nunca trabalhou numa puta duma empresa na vida, assim como a maioria destes inefáveis cabrões, que eu podia alegar não terem outro nome, não fosse o facto de já os ter apresentado como filhos da puta, mas dizia eu, este filho da puta, bandalho e pulha dum cabrão, sobejamente merecedor de todos os insultos que me forem ocorrendo, diz-me que a empresa é um local de cooperação. As empresas, cabrão desumano, são locais onde as pessoas convivem de forma mais ou menos saudável com um modo de vida/ocupação de tempo que, de forma mais ou menos saudável, aceitam ao longo de parte das suas vidas. Então explica-me lá, ó javali cagado pela arca, em que é que uma empresa é um local de cooperação, e não uma desesperada forma de prisão, quando um bando de filhos da puta destrói qualquer possibilidade de as pessoas terem uma remota esperança de construir algo edificante a que possam chamar vida, esperar que esta subsista, se mantenha e evolua positivamente sem a ajuda, mas especialmente sem a constante sabotagem, de um bando de filhos da puta. Se o referido bando de filhos da puta nos estivesse a ouvir, ouvir-se-ia por esta altura um deles dizer, de forma inacreditavelmente ponderada, dotado da mais fina filha-da-putice - que este bando de filhos da puta confunde com elevação, humanidade, sentido de estado e afins – diria que eu, e vocês todos, passámos estes anos todos a viver acima das possibilidades.
Mas quais anos, meu filho da puta? E quais possibilidades? Trabalho que nem um cão há 6 anos, a tempo inteiro mais as horas todas que não me pagaram, e o número de reduções salariais que tive, impostas por este bando de filhos da puta, é já próximo do número de empregos que tive na minha ainda curta carreira. Comprei um carro em segunda mão, uma mota para poupar no que não podia gastar com o carro, e vou jantar fora e ao cinema. Comprei uns discos, uns livros, fiz meia dúzia de viagens baratas, comprei uns móveis do Ikea e, durante o processo, paguei uma renda e uma catrefada de impostos. Vá lá, tentei ser feliz sem pedir ajuda a ninguém nem ir preso. Aceitei o mais serenamente que pude as regras do jogo, isto é, trabalho, trabalho e trabalho para usufruir do resto e conservar, em doses iguais, a saúde mental e a ambição, a primeira das quais começa a desvanecer-se, como se lê. E, no final de uma semana de 60 horas de trabalho que aceitei de bom grado por considerar justa e saudável a "relação de cooperação" mantida com quem me paga, ligo a rádio e é-me anunciada, por um filho da puta de currículo construído a favores, é-me anunciada a ideia peregrina com que este bando de filhos da puta, sem critério nem humanidade, resolveu premiar um país inteiro, que na sua maioria vive em muito piores condições do que eu.
Reduzir o salário mínimo? Aumentar ainda mais a precariedade de quem trabalha a recibos verdes? Transferir uma soma obscena de dinheiro dos trabalhadores para as empresas num país com clivagens sociais e económicas absolutamente trágicas, numa esperança infundada de que isso promova emprego? Isto já não cabe na cabeça de ninguém, e há um bom motivo para existir hoje uma impensável maioria que vai de António Nogueira Leite a Bagão Félix, passando pelos 4 sem abrigo que contei de casa até ao trabalho, mais as lojas falidas. Não é simbolismo nem retórica nem injustiça poética: isto é a vida, conforme ditada por um bando de filhos da puta, a abater-se sobre um país inteiro, dia após dia, cêntimo após cêntimo, impossibilidade após impossibilidade. Haverá um pingo de decência nestas cabeças? Milhões de vozes manifestam em uníssono a vontade literal de esganar estes filhos da puta, ao mesmo tempo que consideram, infelizes, a hipótese de fugir do seu próprio país, e estes filhos da puta aparentam não sentir nada. Foda-se, reduzir o salário mínimo. Há gente que merece o pior de nós. E é assustador que aí se inclua o Governo do meu país."
É o nome do blogue que junta dois dos escribas que mais gosto de ler, Luís M. Jorge e Filipe Nunes Vicente, a Pedro Picoito. Saber que entrarei em desacordo com certamente mais de cinquenta por cento dos posts que por lá se publicarão é, como diz o outro, apenas um pormenor a que não darei importância. Visita obrigatória.
Alguém pode explicar à Helena Matos que actualmente o ANC é tão socialista quanto o PC chinês e o MPLA são comunistas? E digam-lhe também que neste momento o Governo em que ela votou anda vender monopólios naturais da economia portuguesa ao comunismo contra o qual ela tanto tem lutado - pelo que vai escrevendo, ainda não deve saber do destino da EDP e da REN.
O deputado Michael Seufert, a quem eu me refiro nest post, decidiu esclarecer algumas das questões levantadas por mim e pelo Daniel também aqui no Arrastão.
Registo a correcção do texto, que contrasta vivamente com um texto repleto de indignação insultuosa de um seu colega de blogue. E registo sobretudo a vontade de acrescentar à sua biografia dados que estavam omissos na sua biografia oficial e que tornam parte do que eu escrevi injusto. Não é difícil admitir isto, dado que qualquer opinião é construída a partir dos dados disponíveis. E o que eu sabia do deputado Seufert era que o seu percurso profissional contrastava com o discurso moralizante sobre os desempregados. Não se trata, e aí continuo a não concordar com Seufert, de um ataque pessoal; trata-se de combater as ideias que ele defende expondo as contradições entre teoria e prática. Profissional, sublinhe-se, porque acho que quando falamos do foro privado esta táctica não é legítima. E é preciso reforçar esta ideia: a minha questão com Seufert não era a defesa do empreendedorismo por si só, mas sim esse discurso que pretende culpabilizar os desempregados pela situação em que se encontram. Digamos que esse tipo de argumento (presente na entrevista que Seufert dá ao P3) personaliza a questão, ao tratar os desempregados de uma forma paternalista e arrogante. A frase "sair da zona de conforto" é bastante ofensiva para a esmagadora maioria dos jovens desempregados e é inaceitável durante um período em que arranjar emprego é praticamente impossível. Para além do mais, falar de empreendedorismo quando as entidades bancárias não estão a conceder créditos às PME's é repetir um discurso governamental formatado que não colhe na realidade. Parece-me evidente que quem fala assim ou age de má fé ou não conhece realmente a área sobre a qual tem uma opinião tão forte. Como prefiro pensar que as pessoas (sejam ou não políticos) acham que sabem do que estão a falar quando têm um discurso vincado e acreditam naquilo que dizem, parti do princípio de que Seufert tinha pouco conhecimento empírico sobre o "empreendedorismo" e as dificuldades por que passa a economia real. Os acrescentos biográficos que ele faz no post são vagos, mas preenchem lacunas no meu, admito, preconceito.
Honra lhe seja feita: pode estar errado nas suas ideias, mas mostra uma louvável vontade de esclarecer e dialogar. Pena as considerações generalizantes sobre o BE e os juízos de valor sobre a minha mundividência. Mas enfim, não se pode ter tudo, e nem me posso queixar muito: também eu fiz um juízo de valor sem conhecer a totalidade da pessoa. Ninguém é perfeito.
O Rodrigo Moita de Deus, na ausência de uma coluna vertebral e do mínimo sentido de decoro, decidiu dedicar-se a jogos florais e a outras brincadeiras de criança. Compreendo: é a vidinha, contra ela não há "gritos de liberdade" que resistam.
A minha alegoria com zombies provocou várias reacções, da direita à esquerda. Uma vez mais, confirmaram-se as minhas ideias sobre estas duas facções: se a direita neoliberal age motivada pela desonestidade intelectual e pela hipocrisia, a esquerda revolucionária de sofá responde com uma grande dose de paternalismo em relação ao povo que a abandonou e se atirou nos braços de um capitalista no dia do trabalhador; e sobretudo com uma violência verbal própria de matarruanos, de gente habituada a espetar picaretas nas cabeças dos adversários políticos. Sinceramente, estou bem onde estou, obrigado, apesar de não ser militante de qualquer partido - e os dois textos do Daniel Oliveira, defendendo serena e racionalmente uma posição diferente da minha, reforçam esta ideia. Apenas lamento que a referência aos subversivos zombies de Romero tenha passado despercebida a toda a gente. Um tipo anda aqui a esforçar-se para promover a revolta e a pilhagem nas lojas simbólicas do consumismo, e só o André Azevedo Alves é que percebe. Leva a palma, ele e o João José Cardoso, que captou o essencial da mensagem romeriana.
Ler este delicioso texto da Morgada de V. Um excerto:
"Fast forward para o presente: Portugal, 2012. A Troika ocupou o país. Aconselhado pelos burocratas da Comissão Europeia e do FMI, o ministro da Saúde fecha hospitais e maternidades. Relatos na imprensa dão conta de gente a morrer com cancro por não conseguir pagar os tratamentos. O povo deixa de ter dinheiro para as urgências. Estar de baixa passa a ser um luxo reservado a doentes ricos. Comer também: criancinhas vão para a escola sem terem jantado, e pequeno-almoço, viste-lo. Mas o Governo está atento à saúde dos menores: vai proibir os paizinhos de fumar no carro, e exigir além disso a colocação de “advertências mais explícitas nas embalagens que mostrem e exemplifiquem as consequências do tabagismo na saúde”, Paulo Macedo dixit. Não sei o que é que este ministro anda a fumar, mas deve ser MUITO fixe."
Para não escrever um palavrão, a única coisa que Gaspar, o seu lapso e o Governo merecem, deixo aqui um texto de Luís Menezes Leitão, do Delito de Opinião:
"Esta notícia do suicício de um pensionista grego de 77 anos em plena Praça Syntagma reveste-se de um enorme simbolismo. Trata-se de um cidadão que tinha um contrato com o Estado, pelo qual ele asseguraria a sua reforma em virtude dos descontos que fez durante uma vida inteira. Para satisfazer os credores estrangeiros, o Estado quebrou esse contrato, cortando-lhe essa pensão, deixando o cidadão na miséria. Provavelmente o cidadão achou que o seu Parlamento o defenderia e que a Grécia tinha uma constituição que o protegeria. Quando viu que o país tinha passado a ser governado pelos credores estrangeiros, pôs termo à sua vida precisamente na praça da Constituição onde se encontra o parlamento grego. Ora, um país em que os cidadãos se matam em frente ao seu Parlamento é um país que já morreu.
Por cá, infelizmente as coisas não vão muito melhor. O tribunal constitucional também aceitou cortar salários e pensões, desde que o corte fosse temporário. A argumentação é ridícula, uma vez que enquanto dura o corte de salários as pessoas podem entrar em insolvência e ficar na miséria. No entanto, já veio a Comissão Europeia pedir que o corte se torne definitivo e o Primeiro-Ministro imediatamente referiu que o dinheiro confiscado só será devolvido a partir de 2015 e às pinguinhas. Um Estado que prefere proteger os credores estrangeiros em lugar dos seus funcionários e pensionistas é um Estado que não se respeita a si próprio. Para defender o Estado português, exige-se aos governantes algo mais do que pôr a bandeira de Portugal na lapela do casaco: exige-se que protejam os cidadãos portugueses."
"Este é o valor que o governo não quer transferir para as autarquias para que paguem as suas dívidas, o que fará com que micro/pequenas/médias empresas com viabilidade e facturação continuem a falir e despedir.
Este é o valor que o governo quer dar à banca privada e aos seus accionistas para que mantenham os seus rácios. Não se traduzirá directamente na criação de um único posto de trabalho e/ou dinamizará a economia.Não há dinheiro… só para alguns."
Gosto muito de ler a Helena Matos. Dentro do género feminino, é a minha ex-maoísta preferida - e não interessa se não conheço outra. Em geral, até aprecio mais as qualidades do Pacheco Pereira, mas a Helena leva a palma a qualquer antigo lutador do exércio do povo num aspecto: a maneira como (não) lida com os seus fantasmas de juventude em revolta.
Olha-se para os posts mais recentes do Blasfémias, e vê-se a Helena indignada com o facto do povo de Beja estar indignado com a nova toponímia do munícipio. É bestial, o raciocínio de Helena. Pois não houvera o povo de aceitar que as ruas da cidade levassem o nome de antigos bufos da PIDE. Caramba, o salazarismo foi uma ditadura tão fofinha, comparado às maldades de Agostinho Neto e de Che Guevara. O delírio não paga imposto, e acaba por ser louvável o combate diário que leva a cabo no blogue onde escreve, no jornal que lhe paga - há ainda algum? O Público parece que dispensou os seus serviços - e nas intervenções televisivas, esconjurando do seu corpo antigos amores, que a possuíram em tempos. A ir por estes caminho, a culpa apenas será aplacada quando o cilício apertar forte ou ela engrossar as brigadas internacionalistas de uma quaquer Frente Nacional. Esperemos por esse dia.
Mas, enquanto não chegamos lá, rejubilemos. No post seguinte, Helena estremece de frémito; o povo apedrejou autocarros algures em Lisboa, e isso levou a que a Carris esteja a repensar as supressões que levou a que aquela parte da cidade ficasse com um serviço de transportes de terceiro mundo. "Apedrejar compensa!", escreve Helena, e quase se consegue adivinhar a lágrima que lhe correu pelo rosto, ao recordar os tempos em que o cocktail molotof era a caneta que ganhava batalhas, conquistava o mundo! Nas ruas, claro, que as revoluções não são para se fazer sentado à frente do PC. A velha veia revolucionária, latejante, ao ver que o monopólio da violência que o Estado detém pode, a qualquer momento, ser beliscado pela vontade do povo.
Claro que ela disfarça, e se indigna muito com as "reengenharias sociais" que os seus antigos companheiros de armas estão a estimular, com a imprensa de esquerda que domina o país e tal e tal, e por aí fora. Mas eu, por ser um grande admirador, de longa data, sei ler nas entrelinhas. Os amanhãs que cantam fazem ferver o sangue, a luta estimula, o combate pela liberdade e pela justiça social empolga! Helena, camarada, estou contigo: quando voltares a sair do armário onde te enfiaste, serei o teu primeiro defensor. Nunca é tarde para voltar a antigas paixões...
Que exagero, caro Luís. Extrapolar sobre intenções não é racional. O tom do meu post é forte, e intolerável, se quiser, mas olhe que mesmo assim não se aproxima do nível do post do sr. Eurico de Barros. E ainda por cima o que ele faz é tiro ao morto, numa data que recorda o desaparecimento de um grande músico e poeta. E isso não pode ter desculpa.
E mais algumas coisas:
O post do sr. Eurico de Barros não tem dados factuais; tem interpretações de dados factuais e especulações sem fundamento. O que é completamente diferente. Eu explico:
- José Afonso era defensor da revolução armada? Onde, em que situação? Em Portugal, foi-o com certeza, mas julgo que todos aí no Forte defendem pelo menos uma revolução armada, o 25 de Abril. É a essa que o sr. Eurico se refere?
- José Afonso era defensor da ditadura do proletariado. Partindo do princípio que este é um dos fundamentos do comunismo, poder-se-á dizer isso, dado que ele foi apoiante do PCP. Mas era também o homem que se afastou do partido e dizia de si ser o "seu próprio Comité Central". As pessoas mudam ao longo da vida, como muitos antigos militantes do MRPP que agora se movimentam na esfera ideológica deste governo poderão explicar-lhe.
- Escrever "princípios perigosamente lunáticos da esquerda mais radical " é um facto em que sentido? Opinião, pura subjectividade. E ideologia.
- Gostaria de saber quais as acções violentas que ele glorificava nas suas canções. Aludir sem citar é fácil. Não é necessariamente certo. "Atirar aos fascistas de rajada" é o único exemplo. É censurável? É. Mas seria inqualificável se ele tivesse escrito, por exemplo, "atirar aos sociais-democratas de rajada".
- "Demenciais campanhas de dinamização cultural" é uma opinião, bastante simplista e parva, por sinal, não um facto. Nessas campanhas andaram centenas de pessoas, e eram sobretudo ingénuas e inofensivas. Não cresci nesse tempo mas conheço gente que cantou e tocou por todo o país. Recordam essa época com a nostalgia de quem olha para a inocência própria da juventude. E, para além do mais, foi um momento único, em que grandes artistas andaram a mostrar o que criavam a gente que apenas conhecia o nacional-canconetismo da rádio e da televisão a preto e branco. Demenciais porquê?
- Escrever que Zeca defendeu as arbitrariedades e ilegalidades da Reforma Agrária é uma opinião, não um facto. Se o sr. Eurico tivesse escrito "defendeu a Reforma Agrária", passaria a ser um facto.
- Do lado "errado" da barricada no 25 de Novembro esteve muita gente mais do que respeitável. E claro que é uma opinião achar que se esteve do lado errado ao apoiar Otelo e ter estado com os paraquedistas de Tancos no 25 de Novembro.
O meu texto ataca o homem? Sim, admito. Mas de um modo muito mais suave, "tolerável", do que o sr. Eurico o faz em relação a Zeca Afonso, um morto que não se pode defender.
Quanto ao resto, à caracterização que eu faço do Forte Apache, diga-me, a sério, está assim tão longe da realidade? Insultos, eu? Até acho que fui bastante brando, tendo em conta o despropósito da alarvidade escrita pelo sr. Eurico.
Por apenas 6 votos, o Arrastão venceu as forças do lado negro obscurantista representado pelos saudosistas monárquicos do 31 da Armada. Ganhámos na categoria "Actualidade Política - colectivos" na votação promovida pelo blogue Aventar. Estamos todos de parabéns. Obrigado pela preferência.
O Arrastão está nos cinco finalistas da votação que está a decorrer no Aventar na categoria de "Actualidade Política". Do que é que está à espera para votar?
"O desemprego é infelizmente uma realidade há vários anos nesta área e a situação não irá melhorar. Certamente nunca a curto prazo. Mas as claques que têm vindo a reagir de forma indignada, muitos dos quais nem sequer se deram ao trabalho de lerem o que realmente Pedro Passos Coelho disse, denota que em Portugal há uma série de pessoas que prefere que os políticos mintam."
Este tipo tem toda a razão. Onde é que já se viu, o pessoal ficar indignado com a verdade? Felizmente que ainda há políticos honestos, sinceros, que nunca mentem e dizem sempre a verdade - a redundância é propositada, o nosso primeiro-ministro merece todos os pleonasmos do mundo. Um homem sério, com planos para o futuro, que sabe o que quer para o país. Que ingratidão, ninguém compreender a visão deste homem!
Este texto do Luís M. Jorge. Com uma especial dedicatória (minha) a alguns comentadores aqui do Arrastão. Não preciso de dizer quem são.
Para alguma coisa há-de servir lermos Júlio Dinis: sempre nos dá um retrato do Portugal caciqueiro, sabujo e vil que antes de gritar merda repara no lado de que a merda vem.
Assistir ao comportamento da opinião pública nestes dez ou vinte anos em que foi passando das mercearias para os blogs e dos terços a Salazar para as invectivas em economês é um exercício doloroso e acabrunhante.
Os que fustigaram Cavaco por ser um parolo novo-rico, autoritário e rodeado de corruptos foram os mesmos que perdoaram a Sócrates a saloiice de fatinho laroca, o despotismo e a máfia que agora ocupa os conselhos de administração dos empreiteiros.
Não se espere mais consciência cívica dos apoiantes deste Governo. Às suspeitas sobre ministros respondem com um assobio para o ar, ao saque dos lugares públicos com um sorriso amarelo, às incursões ansiosas nos media com um encolher de ombros, às privatizações que se preparam sabe deus como dedicam silêncios fecundos, ao abuso das polícias uns considerandos filosóficos.
A única ética que sensibiliza a opinião pública lusitana é a que se pratica no comentário aos jogos da Liga: os nossos filhos da puta são melhores que os filhos da puta dos outros. Eis o seu credo e o fundamento da sua razão prática.
Que uma democracia sobreviva e frutifique entre gente assim é um milagre. Mas os milagres não existem, não se merecem nem, como veremos, costumam ser eternos.
O Renato resolveu insultar toda a gente do Arrastão repegando as teses do seu guru, o Carlos Vidal. É muito fácil insultar o Renato distorcendo as suas ideias, resumindo a sua carreira profissional e até amplificando as suas contradicções políticas. Apesar de ter deixado hoje de ser cordial com ele não o vou fazer.
O primeiro número da revista que publica o melhor dos blogues portugueses. Há gente do Arrastão lá dentro, mas isso, evidentemente, é apenas um pormenor. Facebookem-na.
Não acho que esteja a polir o revólver, caro Francisco, mas julgo que a expressão que usa facilmente pode servir para encostar alguém às cordas do preconceito. Atenção: esse tal "preconceito antropológico ocidental" pode até ser real em alguns casos. Contudo, a sua existência não impediu que esteja a ser feito o necessário para manter a ameaça do terrorismo islâmico sob controlo. É uma questão perfeitamente secundária, neste caso, e, devolvendo o brinde, a frase, no seu texto, é apenas usada em tom provocatório.
A questão parece-me muito simples: o terrorismo deve ser tratado como aquilo que é, um acto criminoso. E as democracias devem evitar que aconteça, sempre (mas não recorrendo a qualquer meio, seja a tortura ou, mais grave, uma guerra preventiva). Seja de extrema-direita neonazi, de extrema direita islâmica ou de extrema-esquerda. Agora, tentar perceber as razões da existência de extremismos islâmicos violentos não me parece que seja consequência de um "preconceito antropológico ocidental". E certamente o Francisco concordará comigo se eu disser que a agressividade do mundo islâmico em relação ao Ocidente é, em parte, resultado directo da violência exercida sobre os países árabes. Violência em forma de ocupação territorial - como é o caso da presença de Israel na Palestina -; violência de guerras preventivas que pouco ou nada ajudam à pacificação do Médio Oriente - como é o caso do Iraque; e violência exercida indirectamente, por via do apoio que as democracias ocidentais dão às petroditaduras do Golfo. Pretendo com esta enumeração desculpar actos terroristas? De modo algum, porque um crime é sempre um crime, seja qual for a razão por detrás dele, e matar inocentes a milhares de quilómetros de distância é, definitivamente, um crime. Como também é crime a morte de civis em resultado de ocupações de países soberanos. E atenção, que não falo de guerras entre nações; falo de ocupações criminosas, nas quais a discrepância de poder entre as forças militares em combate não permite que se possa falar em guerra.
Do mesmo modo, reduzir o duplo atentado de sexta-feira a um acto de um alucinado é esvaziar a importância das motivações políticas de Anders Breivik. Mas é isso que estamos a ouvir diariamente: Anders é um louco solitário, e o facto de ter ligações à extrema-direita é apenas um pormenor. É um caso previsível de double standards: a loucura nunca é a causa primária para atentados perpetrados por terroristas islâmicos. Porquê? Porque um acto de loucura é um acto solitário; e sendo um acto solitário, é uma excepção, não nos vincula, enquanto sociedade, ao indivíduo que o pratica. Enquanto que um atentado terrorista, despojado da insanidade solitária do atirador que mata dezenas, vincula toda uma cultura. Excluímos os nossos loucos, diferenciamo-los do resto da sociedade, afirmando: "nós não somos assim, isto é uma excepção". Mas vinculamos milhões de muçulmanos à violência praticada por uma minoria (de loucos de Deus). De que lado está o "preconceito antropológico ocidental"?
A autora de um dos meus livros do ano que passou, Viva México, tem um blogue, Atlântico-Sul. Uma oportunidade para acompanharmos diariamente o que vai acontecendo no Brasil, pela mão virtual da nossa melhor jornalista de reportagem, Alexandra Lucas Coelho, agora correspondente do Público naquele país. Sempre naquela linguagem balançando entre o distanciamento jornalístico e a proximidade das pessoas e dos lugares que vai conhecendo. Um primor.
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