Quarta-feira, 18 de Setembro de 2013
por Sérgio Lavos

Aquilo que já muitos pais e todos os agentes do ensino sabiam tornou-se agora público: Nuno Crato, ministro do rigor e da exigência, acabou com a obrigatoriedade do ensino de Inglês no 1.º ciclo, no âmbito da redução das Actividades Extra-Curriculares - isto depois de no ano passado ter reduzido o número de horas da disciplina no 3.º ciclo e ter acabado com opção de Francês no 5.º ano. O despacho saiu em Julho, mais ou menos na mesma altura em que andava a ser estudada a introdução de um teste de inglês no 9.º ano - o absurdo disto seria cómico se não fosse trágico. Agora há muitas escolas que não estão a oferecer essa actividade, criando uma desigualdade inadmissível entre alunos.

 

Crato está a ser um desastre para a escola pública, e por arrasto para a sociedade portuguesa. A obrigatoriedade do Inglês, uma medida de Maria de Lurdes Rodrigues, foi pensada para responder aos desafios da globalização. Num mundo global, é essencial o domínio da língua inglesa. É simplesmente caricato que se crie exames e testes, reduzindo-se o número de horas lectivas das disciplinas para as quais são criadas as provas de avaliação. Crato soma incompetência a cegueira ideológica, uma mistura que vai fazer Portugal recuar nos rankings da educação, o que irá certamente prejudicar a competitividade do país a médio prazo. Não há projecto, não há fio condutor, uma ideia que seja para o país. Não haverá desenvolvimento com este Governo, apenas retrocesso, desigualdade e benefício de grupos privilegiados da sociedade e da economia. Vamos pagar muito caro estes anos de desvario sem travão desta cambada.


por Sérgio Lavos
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Segunda-feira, 16 de Setembro de 2013
por Sérgio Lavos

Continua a saga de um início de ano escolar "perfeitamente normal". Escolas que não abrem por falta de professores ou por não terem condições devido à paragem das obras de requalificação, em vários pontos do país, protestos em diversas escolas, falta de contínuos em inúmeros estabelecimentos, milhares de horários sem professores e milhares de professores por colocar nesses horários. A mistura entre a vontade de destruir a escola pública - redução do número de turmas, de contínuos e de professores - e a pura incompetência - vários atrasos nos processos que dão início ao ano escolar, desde a colocação dos professores à organização dos agrupamentos - leva a que este esteja a ser um ano muito complicado para milhares de famílias em todo o país. Quem é que quer mesmo prejudicar os alunos? Serão os professores que fizeram em Junho passado greve aos exames ou Nuno Crato e o Governo a que ele pertence?


por Sérgio Lavos
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Quinta-feira, 12 de Setembro de 2013
por Sérgio Lavos

 

A entrevista que Nuno Crato hoje deu ao telejornal da SIC mostrou de que fibra é feito o ministro. Habituado a anos e anos de entrevistas feitas por Mário Crespo - naquela amostra de jornalismo que é o Jornal das 9 da SIC Notícias quando apresentado por este - Crato, quando se vê em apuros, pica o ponto em vários canais tentando, naquele jeito maviosamente sonso, intoxicar a opinião pública com um volume de propaganda claramente prejudicial à saúde mental da pessoa mais resistente. Antes do Verão, no auge das greves aos exames, Clara de Sousa recebera-o de braços abertos e a entrevista foi uma amena conversa sobre as propostas do ministro para salvar o futuro das nossas crianças - o rigor, o rigor. Na entrevista de hoje, Clara de Sousa redimiu-se dessa prestação e fez quase todas as perguntas que deveriam ser feitas. O ministro, esperando o mesmo tom de antanho, respondeu à primeira pergunta da jornalista com um "se me tivesse avisado que ia fazer essa pergunta, eu tinha-me preparado". O despudor da confissão serviu de mote para o resto da conversa (nada amena, desta vez), e lá foi respondendo, entre sorrisos cínicos, atrapalhações e esgar de sobrancelhas. Pelo meio, acabou por conseguir introduzir algumas mentiras - Crato parece-me mesmo um mentiroso tão habilitado como Passos Coelho; enquanto este mente friamente e com uma monumental cara-de-pau, o ministro da nossa Educação disfarça a mentira com gentilezas e a propaganda com delicadezas. Mas por baixo da pátina de pessoa séria - e há tanta gente séria por aí a lixar-nos a vida - vislumbra-se a podridão de um governante que está a destruir todos os progressos de quarenta anos de escola pública.

  


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

Na escola EB1 de Marinhais, devido à ordem de Crato de baixar o número de turmas, há alunos do 1.º ano a frequentar turmas de 2.º ano, e uma turma em que metade dos alunos são do 4.º ano e a outra metade é do 1.º ano.

 

Em Santo Tirso a maior parte das EB1+JL não têm auxiliares de acção educativa atribuídos. 

 

Na escola de Loulé que eu mencionei ontem, todas as turmas do 1.º ciclo têm alunos de vários níveis de ensino, excepto uma do 3.º aluno, que tem apenas 11 alunos. Por concidência, nessa turma está inscrita a filha de uma das professoras da escola.

 

Há escolas que se recusam a inscrever alunos com mais de 18 anos, muitos alunos que não têm sequer lugar em escolas do agrupamento da área de residência a que pertencem, alunos que queriam frequentar o ensino profissional que não encontraram vaga e tiveram de ir para o ensino regular - isto quando Crato continua a afirmar, sem qualquer vergonha, que este tipo de ensino é a grande aposta do Governo -, múltiplas turmas com mais de 30 alunos, turmas com mais do que dois alunos com necessidades educativas especiais (chega a haver turmas com seis), e que têm mais de 20 alunos (o limite quando há alunos com este tipo de necessidade), e nenhum professor contratado foi ainda colocado, havendo milhares de turmas ainda sem professores em algumas disciplinas. No total, estima-se que 20% dos horários ainda não tenham professor atribuído (de acordo com o DN).

 

Pedro Passos Coelho já veio elogiar Nuno Crato pelo esforço que está a fazer para destruir o ensino público. Parece-me mais do que justo.

 

Adenda: pela primeira vez desde a implementação do programa de actividades extracurriculares, o ano vai iniciar-se sem que haja professores para leccionar essas actividades. Isto acontece em inúmeros agrupamentos por todo o país. Deixo aqui, a título de exemplo, um comunicado da Câmara Municipal de Évora para todos os encarregados de educação do concelho.


por Sérgio Lavos
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Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013
por Sérgio Lavos

A um dia do início oficial do ano escolar, o caos está instalado em inúmeras escolas do país. Há centenas de relatos de turmas no ensino básico e secundário com mais de 30 alunos - infringindo o limite instituído na lei de 30 aluno -; há centenas de turmas do 1.º ciclo nas quais estão colocados alunos de vários níveis de ensinohá alunos que ainda não sabem em que escola vão estudar; a disciplina nuclear de matemática, nos anos em que existe um novo programa - 1.º, 3.º, 5.º e 7.º ano - ainda não tem manuais e os professores nem sequer tiveram direito a dar a sua opinião sobre a escolha do mesmo. Tudo isto no dia em que Nuno Crato e Pedro Passos Coelho decidiram inaugurar uma escola que já tinha sido inaugurado há mais de um ano, cercados por barreiras policiais e sem a presença dos pais e encarregados de educação, deixados à porta. Crato, aliás, mentiu hoje descaradamente ao afirmar que a razão para a existência de turmas mistas é a existência de menos alunos em escolas pequenas. Na notícia do Diário de Notícias é referido o caso da escola da Quinta de Marrocos, em Benfica, que tem 15 turmas, das quais 10 têm alunos de anos diferentes. Também me chegou um caso passado numa escola do 1.º ciclo em Loulé, com centenas de alunos, onde os alunos do 3.º ano foram integrados em turmas do 4.º ano, sem qualquer razão para isso, até porque estamos a falar uma escola em zona urbana.

 

O que se está a passar neste momento é demasiado grave. É uma monumental trapalhada provocada pelo frémito de Crato em deixar professores no desemprego - não nos esqueçamos de que a redução de turmas imposta este ano visa enviar mais uns quantos milhares de professores para o desemprego -, e significa a degradação completa do ensino público em Portugal, isto na semana em foi anunciado um reforço das verbas que servem para financiar o lucro das escolas privadas. Turmas com quase 40 alunos, alunos dos quatro anos do 1.º ciclo numa turma só, estudantes que ainda não sabem em que escola vão estudar, tudo está a ser possível. Tudo feito às claras, sem vergonha, enquanto se inauguram estabelecimentos que já tinham sido inaugurados há um ano. Estamos a falar do futuro dos nossos filhos. Até quando aguentaremos isto?

 

Nota: quem conhecer outros casos semelhantes aos que eu descrevo, noutras escolas, deixe nos comentários ou envie-me um mail (no topo do blogue). Serão publicados no corpo deste post. 

 

Nota 2: por onde é que anda a FENPROF, que organizou tantas manifestações quando apenas estava em causa a avaliação dos professores do quadro? Os lamentos para as televisões de Mário Nogueira não são suficientes. Quando é que os professores voltam à rua?


por Sérgio Lavos
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Quinta-feira, 5 de Setembro de 2013
por Sérgio Lavos

Estado vai apoiar directamente alunos dos colégios, anuncia Crato.

 

Aqui está a concretização do golpe. O Estado (todos nós, contribuintes) vai passar a financiar apenas um grupo de privilegiados que anda em colégios privados e no ensino cooperativo. Note-se que não está previsto financiamento individual a quem anda no ensino público nem nada que se assemelhe ao cheque-ensino, que supostamente seria atribuído a todos os alunos, independentemente da sua origem, e que poderia ser usado no privado ou no público. Na prática, o Governo pretende entregar o nosso dinheiro directamente aos colégios particulares, estendendo a estes o actual modelo que beneficia o ensino cooperativo, financiando o lucro de privados (uma autêntica renda). Ao mesmo tempo, aprofunda a desigualdade já existente entre pobres e ricos, criando um ensino de primeira (alguém acha que os colégios privados vão passar a aceitar alunos de meios desfavorecidos?) e outro de segunda - as escolas públicas vão sendo cada vez mais depauperadas. Resumindo: corta-se no ensino público e entrega-se a poupança a mãos privadas. E ainda têm a pouca vergonha de chamar a isto "liberdade de escolha". Quem andou a lutar por um país mais livre e igual, mais democrático, vai certamente gostar desta coisa em que este Governo nos está a transformar.


por Sérgio Lavos
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Quinta-feira, 1 de Agosto de 2013
por Sérgio Lavos

 

Lembram-se da aposta no ensino profissional prometida por Nuno Crato, no início desta legislatura? Esqueçam-na. O ministro do rigor e da exigência, uma promessa enquanto escritor de best-sellers anti-facilitismo, transformou-se no carrasco do Ensino em Portugal, com terríveis consequências a médio e longo prazo. 

 

A 27 de Julho, dois meses depois da data prevista e a menos de dois meses do início do ano lectivo, o ministério da Educação enviou para as escolas a informação sobre a nova rede escolar. Como os professores e as escolas em geral são mais competentes do que Crato e o ministério da Educação, as turmas, nesta data, já estavam feitas. Os cortes draconianos na rede escolar, que atingem o ensino regular e sobretudo o profissional, apanham milhares de alunos já matriculados em turmas que deixarão de existir. Lá se vai a aposta no ensino profissional, tudo em nome de uma austeridade que agora foi rebaptizada pelos propagandistas do regime como "novo ciclo". O resultado? Dois mil alunos que tinham escolhido a via profissional vão ficar sem aulas durante o próximo ano e mais 300 professores poderão ser despedidos. A meta de pelo menos 50% dos alunos do Secundário no ensino profissional, prometida por Nuno Crato com pompa e circunstância, foi definitivamente esquecida, apesar do ministro continuar a mentir na televisão dizendo que nenhum aluno ficará sem turma. 

 

Já lá vão dois anos desde que esta desgraça em forma de Governo atingiu o país. Dois anos de destruição de conquistas civilizacionais de décadas. Daqui a algum tempo veremos em que lugar Portugal estará nos rankings da educação. Só há uma classe que o ministro Nuno Crato não descura: o ensino corporativo. O aumento da dotação orçamental, tanto em 2012 como 2013, prova quais são os objectivos deste Governo. Com mais ou menos fogo-de-artifício, o desmantelamento do ensino público continua. Afinal, quem quer mesmo prejudicar os alunos?

 

Adenda: a ler também este texto.


por Sérgio Lavos
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Quarta-feira, 24 de Abril de 2013
por Sérgio Lavos

Fica aqui a reacção de Santana Castilho, especialista em educação e cronista do Público, à entrevista pejada de mentiras que Nuno Crato deu à RTP:

 "Reajo, a quente e indignado, a uma entrevista que acabo de ver em directo, na RTP1, no Telejornal das 20.00. Nuno Crato pode revogar autocraticamente o programa de Matemática para o ensino básico. Porque a Lei não tipifica o crime pedagógico. Pode asnear em público, porque a asneira é livre. Pode escravizar os professores, até que eles consintam. Pode ir mais ao bolso dos pais, se eles não reagirem. Mas não mente sem pudor, nem manipula a opinião pública com descaro, porque eu não deixo. Por dever cívico.

Crato disse que o programa que anulou estava datado e era antigo. Crato mentiu. Pode não gostar dele, mas não pode apagar a actualidade científica e pedagógica que o informa. Datadas e ridículas são as metas que tem parido. As de Matemática, as de Português, as de História, todas. Bafientas. Exalando naftalina. Inaplicáveis. Inúteis, como ele.

 

Questionado pelo jornalista quanto ao êxito, internacionalmente reconhecido, dos nossos resultados em Matemática, Crato disse que estávamos a ser comparados com os medíocres e continuávamos abaixo da média. Crato mentiu. Fomos 15º em 50 países. Ficámos muito acima da média. Fomos o país do mundo que mais progrediu nos resultados em Matemática. Ultrapassámos a Alemanha, Irlanda, Áustria, Itália, Suécia, Noruega e Espanha, entre outros. É intelectualmente desonesto dizer o que Crato disse.

 

Falando da palhaçada do concurso que tem em mãos, Crato recordou que em 2009 abriram 30.000 vagas, para entrarem poucos mais que 300 professores. Crato mentiu. Foram cerca de 20.000 as vagas de 2009. Quanto aos que vão entrar agora … veremos, adiante, o logro que está a congeminar.

 

Interrogado sobre os manuais que irão para o lixo e sobre as actividades de enriquecimento curricular que os pais passarão a pagar, Crato foi artista e saiu de fininho, como um vulgar cínico.

 

Parafraseando Almada-Negreiros, o Crato é um soneto dele próprio! Deplorável!"

(Via Facebook.)


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

O génio discreto que dá pelo nome de Nuno Crato continua na senda de uma revolução silenciosa. Não interessa que as mudanças que foram acontecendo nos últimos anos tenham levado a que Portugal fosse subindo paulatinamente nos rankings internacionais de educação. Não importa que, por exemplo, os resultados mais recentes de alunos portugueses em testes internacionais de matemática tenham mostrado que a aposta em programas de aprendizagem progressiva, inspirados nos sistemas finlandês e sul-coreano, tenha vindo a ser um assinalável sucesso. Não, Nuno Crato  tem um problema com a realidade (e nisto limita-se a ser igual aos seus comparsas de Governo). Ele acha, sinceramente acredita, que a melhor maneira de aprender matemática é através da memorização. O seu fascínio pelos métodos do antigamente é, na verdade, exemplar. Já o tinha mostrado ao introduzir exames da 4.ª classe (e não na mesma escola que frequenta, não vá a miudagem decidir investir na fraude), ao apostar no ensino profissional desde o 5.º ano, ao acabar com o apoio a alunos com dificuldades - quem não conseguir acompanhar o ritmo, que vá para açougueiro. Agora, é o regresso às tabuadas e a uma aposta na memorização como método. Não surpreende. Não queremos que as crianças de hoje tenham espírito crítico e compreendam aquilo que lhes estão a ensinar. Se isto acontecesse, onde poderia Miguel Gonçalves recrutar o novo Homem, pronto a embarcar no maravilhoso mundo do empreendedorismo?

 

Quem tem filhos neste momento a estudar sabe que até que ponto o discurso que tanta gente comprou, contra o "eduquês", é uma fraude propagandística absoluta. Os programas que neste momento são ensinados no ensino básico e secundário são bastante mais intensos, complexos e exigentes, sobretudo ao nível da compreensão e do raciocínio, do que eram há vinte ou trinta anos. E certamente preparam melhor as crianças para o mundo em que vivemos do que preparava a escola salazarista. Os programas do 5.º ano (estudados pelo meu filho numa escola pública), por exemplo, contemplam matéria e metas curriculares a que eu apenas tive acesso no 8.º ano. Outro exemplo: a notícia do Público cita Filipe Oliveira, um dos autores do novo programa de matemática para o ensino básico. Este diz que esta mudança vai levar a que as calculadoras deixem de ser usadas. Ora, em cinco anos de ensino público, nunca o meu filho, ou os seus colegas, precisaram de usar calculadoras. Portanto, ou o responsável, lá do seu pedestal universitário, mente (e é lamentável que o Público dê destaque à mentira de Filipe Oliveira), ou foi mal informado, ou os professores não seguem os programas. Peguemos no exemplo em questão, as tabuadas. Crato sonha com miúdos a debitarem de cor os números, em jeito de lenga-lenga, como acontecia durante o Estado Novo. A memorização da tabuada, que até pode ser útil em determinados casos, limita-se a repetir processos de automatização do pensamento. O actual método insiste na compreensão da operação de multiplicação. Uma criança sabe que oito vezes sete é igual a cinquenta seis porque a ensinam que oito conjuntos de sete unidades dá a soma de cinquenta e seis. Este raciocínio pode ser aplicado a qualquer operação de multiplicação. A simples memorização permite que apenas se saiba de cor as tabuadas até ao nove. A partir daí, o cálculo encalha, como saberá qualquer pessoa que tenha decorado a tabuada sem a entender.

 

De uma coisa podemos estar certos: se este Governo tiver a oportunidade de aplicar estas mudanças retrógadas no ensino, assistiremos a médio prazo a um retrocesso enorme. Os progressos das últimas décadas - podiam ter sido sempre mais, claro - irão ser desbaratados, de uma penada. Eu sei que há muitos professores que aplaudem estas mudanças; sobretudo os que se formaram sem espirito crítico e que na verdade nunca se adaptaram ao ensino dos novos métodos que permitiram a evolução. É fácil de entender porquê: é mais simples, e mais rápido, obrigar um aluno a decorar tabuadas do que explicar-lhe os passos que levam ao resultado final. No fundo, o sonho de Crato é ter um país de autómatos a ensinarem, na linha de montagem, os autómatos que virão. O maior perigo que neste momento o país corre é este: deixarmos de ter um futuro. E Nuno Crato está a dar o seu melhor para que isto aconteça.

 

Adenda: Sobre o uso de calculadoras no ensino básico, é muito interessante ver este estudo publicado no site da associação americana de professores de matemática. Não é que os alunos que usam calculadores têm melhor relação com a matemática do que os que não usam? (Via twitter do Pedro Magalhães.)


por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 25 de Setembro de 2012
por Sérgio Lavos

Os escritórios de advogados que cobram fortunas por pareceres jurídicos pedidos pelo Governo não devem estar a sentir muito a crise. Mas o que haveremos de fazer? Quando um ministro, José Pedro Aguiar Branco, continua a fazer um part-time no seu escritório de advogados, e os deputados do PSD e do CDS escolhidos para a comissão de acompanhamento das privatizações da EDP e da REN pertencem também aos escritórios que defendem a outra parte do negócio, que poderemos esperar nós de Crato? Queriam o quê, rigor e exigência?


por Sérgio Lavos
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Quinta-feira, 30 de Agosto de 2012
por Sérgio Lavos

 

A notícia de ontem, que confirma o projecto de Nuno Crato que prevê a obrigatoriedade dos alunos com mais de duas reprovações seguirem o ensino vocacional, mostra até que ponto este Governo está empenhado em regressar a tempos antigos, quando um filho de criado estava destinado a ser apenas criado, por muitas capacidades que tivesse, e um filho do senhor doutor seria sempre também senhor doutor, fossem quais fossem as aptidões mostradas. É uma escolha claramente ideológica que reafirma uma visão do mundo retrógada, promovendo a desigualdade no acesso às oportunidades e uma sociedade classista e com uma reduzida mobilidade social. Esta crónica de André Macedo no DN é bastante elucidativa sobre as razões que motivam Crato, o economista:  

 

"O ministro da Educação quer desenvolver o ensino vocacional. Muito bem. Como seria bom que os estudantes pudessem escolher formações técnicas capazes de lhes transmitir (também) um saber profissional. Como seria excelente que estes cursos respondessem (também) às necessidades do mercado de trabalho. Como seria bom que não se desperdiçasse recursos atirando para cursos superiores pessoas que não os querem fazer. Já se pensou no tempo que poderíamos poupar? Na inteligência, energia e talento que um plano assim libertaria? Aposto que seríamos um país mais feliz e competitivo.

Mas se é assim tão evidente, porque nunca se deu este passo como deve ser? Porque será que a concretização se revela tão difícil? Porque será que as famílias e os alunos evitam esta escolha? A resposta está no projeto macabro de Nuno Crato. De acordo com o ministro, quem irá para estes cursos? Ora bem, além dos voluntários - coitadinho, tem 14 anos, mas não dá para mais... -, os que chumbarem duas vezes no ensino secundário também têm o destino traçado. É um castigo: és uma besta, vais já para jardineiro; sim, terás mais uma oportunidade para voltar ao ensino regular, mas para já ficas-te por aqui. Depois, se passares os exames do 9.º ou 12.º anos, logo veremos.

Não há dúvida: se a via profissional é apresentada como uma punição, é lógico que poucos - entre os bons e talentosos - quererão juntar-se a este gueto onde a qualidade será ridiculamente baixa. É lógico que só as famílias mais pobres ou desinformadas aceitarão este afunilamento precoce, cruel e estúpido das perspetivas. Os outros nem por um segundo pensarão em seguir este caminho (a segunda divisão!) que o próprio Governo se encarrega à partida de desvalorizar. O que isto revela de Nuno Crato é apenas um terrível cheiro a naftalina.

Na Alemanha, pátria do ensino vocacional, ninguém é chutado da "escola regular". Não se fecham portas. Não se elevam barreiras aos 14 anos em lado nenhum do mundo civilizado. Avaliam-se competências, oferecem-se alternativas. Não se apressam escolhas à reguada. A ligação às empresas é uma das maneiras de fazer isto com algum êxito: são as associações de empresários que, na Alemanha, ajustam a oferta de cursos profissionais às necessidades do mercado. Não há rigidez, há flexibilidade e oportunidade - a oportunidade de, na idade adequada, estagiar numa empresa. É por isso que 570 mil alunos alemães se inscreveram nestes cursos em 2011, contra os 520 mil que preferiram a universidade. Não foi porque lhes enfiaram orelhas de burro na adolescência.

Nuno Crato vive preocupado em exibir autoridade. Quer chumbar, punir, travar. Vê a escola como um centro de exclusão, não como espaço de desenvolvimento de competências sociais, culturais e técnicas - com regras, competição e exigência. Não tem um plano educativo desempoeirado: sofre de reumatismo ideológico. Engaveta os alunos. Encolhe o País. Reduz a riqueza. É matemático."

 

Adenda: em relação à segunda parte da crónica, encontrei no blogue Boas Intenções, mantido por uma portuguesa residente na Alemanha, objecções que me parecem importantes, sobretudo porque reforçam como é errado o modelo (?) proposto por Crato. Fica aqui o post:

 

"Este texto, hoje tão celebrado por essa internet fora, é mais um exemplo do mesmo - a análise é boa, a crítica é justa, a segunda parte é ou ignorância ou é demagogia. E, com um acesso tão facilitado à informação como aquele que temos hoje em dia*, não sei se há uma verdadeira distinção entre ignorância e demagogia - são duas facetas diferentes do vale-tudo argumentativo e da falta de exigência e honestidade intelectuais que tornam possível o triunfo dos Nunos Cratos desta vida.

(*os relatórios da OCDE por exemplo podem ser lidos em várias línguas e são muito claros quanto às consequências da separação das vias de ensino e aos resultados de diferentes modelos de separação das vias de ensino, independentemente da sua permeabilidade. No caso específico da Alemanha, o país da OCDE que em conjunto com a Áustria separa as crianças mais cedo, aos 10 anos, os números reais da permeabilidade entre vias de ensino são irrisórios, a desigualdade é preocupante e os indicadores sugerem uma muito reduzida mobilidade social, com muito poucas crianças cujos pais não tinham formação universitária a frequentarem cursos superiores - em 2012 mais de dois terços dos estudantes universitários alemães eram filhos de pais com educação superior e só 2% vinham de agregados familiares cujos pais tinham apenas concluído uma educação profissional ou a Hauptschule, a menos exigente das três vias de ensino. É este sistema que André Macedo pinta de cor de rosa como o paraíso do ensino vocacional)"

por Sérgio Lavos
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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2012
por Sérgio Lavos

A continuada aposta do ministro da Educação no regresso ao passado teve ontem mais um desenvolvimento. A meta de 50% de alunos inscritos em cursos profissionais, significa, para quem possa estar distraído, que Nuno Crato quer que 50% dos alunos que frequentam o ensino obrigatório não tente sequer entrar no Ensino Superior. Isto, num país com uma das mais baixas taxas de licenciados da OCDE, mas também simultaneamente aquele onde ser licenciado faz realmente a diferença na hora de obter emprego (dados de 2007). A aposta no Ensino Profissional acentua a desigualdade no acesso à Educação e sinaliza uma aposta num ensino elitista que facilita a vida aos alunos vindos das classes sociais mais favorecidas - as escolas privadas com contrato de associação viram os seus subsídios serem generosamente reforçados em 2011, num período em que o desinvestimento na escola pública é evidente e quando o memorando da troika obrigava claramente a que esses apoios fossem reduzidos*. E, se olharmos bem para os cursos oferecidos, ainda se torna mais absurda e retrógada esta salazarenta política educativa: comércio, bens transacionáveis, restauração, indústria; precisamente as áreas da economia que mais estão a sofrer com a catastrófica política do Governo PSD/CDS. Será Crato um genial visionário, ou apenas um idiota preconceituoso e alienado do mundo em que vive?

 

*Acrescentada informação, seguindo sugestão de alguns comentadores.


por Sérgio Lavos
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Quarta-feira, 25 de Julho de 2012
por Sérgio Lavos

O ano escolar ainda não começou, mas Nuno Crato já dá cartas na exemplificação dos valores que prometeu implementar antes de ser ministro:

Desemprego entre os professores subiu 151% só num ano.

 

Representantes da comunidade educativa unidos contra Crato.

 

Aplicação do MEC para concurso lança professores contratados "no desespero".

 

“Anomalia" obriga a contactar professores contratados que já concorreram.

Valha-nos o ensino privado, universidades prestigiantes como a Lusófona ou estabelecimentos exigentes como os colégios que conseguem ter as melhores classificações nos rankings anuais, exemplos de empreendedorismo, competência e rigor a toda a prova.


por Sérgio Lavos
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Segunda-feira, 23 de Julho de 2012
por Sérgio Lavos

"Representantes da comunidade educativa unidos contra Crato. (...)

 

De hora a hora a hora um funcionário aparecia para chamar ora os representantes dos directores, ora os dos pais, ora os dos professores – e todos responderam o mesmo, que tinham pedido uma reunião em conjunto e que apenas subiriam se fossem recebidos em conjunto”, relatou Manuel Pereira, dirigente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE). Ao PÚBLICO, escusou-se a classificar a atitude de Nuno Crato, dizendo que “as atitudes ficam com quem as pratica”. Mas lamentou que o ministro “tenha perdido uma oportunidade única de perceber as preocupações que são transversais a toda a comunidade educativa”."

Um ministro que não quer ouvir os agentes da área sobre a qual legisla, que talvez preferisse dividir para reinar, governar sozinho. Um ministro de outro tempo, tão retrógado como haver exames nacionais na 4.ª classe. Bate certo.


por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 5 de Junho de 2012
por Sérgio Lavos

 

Bom texto do Alexandre Homem Cristo no Cachimbo de Magritte (mesmo não concordando com tudo o que é escrito):

"No debate público, em particular no da educação, os mitos tendem a sobrepor--se à realidade. Um dos mais perniciosos desses mitos é o de que a educação está hoje pior do que antigamente. Este mito, mesmo não o explicitando, visa elevar o sistema educativo durante o Estado Novo a uma espécie de Éden da exigência escolar para, comparativamente, se criticar o facilitismo do actual sistema. O que inquieta no mito não é que um certo grupo acredite nele. Inquieta que essa convicção se tenha tornado numa narrativa popular, repetida à exaustão num discurso catastrofista sobre a educação portuguesa.

 

Comecemos pelo início. Era, antigamente, o sistema educativo melhor e mais exigente? Não há um único indicador que verifique, ou sequer sugira, que a educação portuguesa estivesse melhor nesse período. Muito pelo contrário. O acesso à escolaridade era limitado, e não universal, estando geralmente reservado aos alunos cujas famílias conseguiam suportar os custos de ter os filhos a estudar. Os números são claros: em 1970, o país tinha 27 mil alunos matriculados no ensino secundário, e em 2008 tinha 350 mil (13 vezes mais). A exigência dos currículos escolares reflectia essa realidade social. Ensinar literatura a alunos que têm bibliotecas em casa não é o mesmo que ensinar a alunos que nunca viram um livro na vida – não se pode comparar o aluno médio de uma elite com o aluno médio de um país sem cair na demagogia. Que um sistema elitista na selecção de alunos fosse igualmente elitista nos conteúdos curriculares não é surpreendente, mas fica longe de ser um modelo inspirador.

 

Mais ainda, este mito desvaloriza o incrível desenvolvimento social que o nosso sistema educativo possibilitou. Os índices de escolarização real passaram de 14% para 90%, no 3.o ciclo do ensino básico, e de 4% para 70% no ensino secundário, entre 1970 e 2010. Temos hoje investigadores doutorados cujos avós eram analfabetos, e professores universitários filhos de quem mal frequentou a escola. Estes são indicadores do nosso sucesso, resultado da democratização do sistema, que de modo algum impediu que tivéssemos hoje uma elite estudantil muito melhor do que a que a precedeu.

 

Dizer isto não é negar o longo caminho que temos pela frente, nem ignorar o facilitismo e algumas outras decisões erradas que no passado prejudicaram a educação. É verdade que precisamos de mais exigência e de melhores currículos. Mas sem esquecer que a exigência não é um exclusivo do passado e que a nossa relação com o conhecimento se alterou. É que, ao contrário do que afirmam os crentes no mito, o currículo de português não ficará melhor só com mais um ou menos um clássico da literatura portuguesa. Ficará quando todo o currículo nacional for pensado com base no princípio da autonomia escolar, permitindo às escolas uma efectiva adaptação às necessidades educativas dos seus alunos. A única resposta legítima ao pluralismo é mais diversidade, e não mais centralismo."


por Sérgio Lavos
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Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011
por Sérgio Lavos

Premiar os melhores alunos nas escolas portuguesas, incentivando o trabalho e o mérito. Mas depois do trabalho feito, obrigar os alunos a abdicarem do prémio pelo qual tanto se esforçaram em prol de "famílas mais carenciadas". No fundo, incutir nas nossas crianças valores mais humanos do que a meritocracia ou a competitividade. E ainda bem que o sr. ministro, que, antes e depois de ser nomeado para a função, não se tem cansado de insistir na valorização destas características, mudou de ideias a tempo - na realidade, a poucos dias do acontecimento. Nem tudo está perdido.


por Sérgio Lavos
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