Aqui está um dos profissionais da desordem de que falou o ministro da Administração Interna. O tal que ficou ofendido quando uma jornalista lhe perguntou se havia agentes infiltrados. Parece que tinha razões para ficar indignado. Os agentes não eram infiltrados, mas sim provocadores.
Sabemos que o Orçamento para 2013 é suicidário. Sabemos que é um orçamento de urgência que visa não só cobrir o buraco orçamental previsto para o ano que vem como também o que ficou a descoberto este ano, a estrondosa derrapagem orçamental que o Governo já não consegue esconder. Sabemos que existe uma folga de alguns milhares de milhões no orçamento porque Gaspar sabe que as previsões de receita, de corte de despesa e de desemprego são absurdamente irrealistas. Sabemos que, devido ao falhanço brutal nas previsões de 2012, Gaspar teria de dinamitar a economia para conseguir atingir a meta do défice. Sabemos que este orçamento é incumprível, sobretudo por causa dos juros que temos de pagar, não só dos empréstimos anteriores ao memorando, mas também dos que pedimos à troika. Nove mil milhões de euros por ano de juros é um valor que nem o maior génio das finanças de sempre conseguiria cobrir. E Vítor Gaspar não é um génio. Não só não é um génio, como erra todas as previsões, consecutivamente. Este ano vamos para o quarto orçamento rectificativo, coisa que não se via desde o PREC. E para além de ser incompetente no papel de ministro das Finanças, é também intelectualmente desonesto. Depois do FMI ter vindo a terreno dizer que o multiplicador usado para calcular o efeito da austeridade na economia (por cada euro cortado a economia contrair-se-ia 50 cêntimos) estava errado, propondo novo multiplicador (por cada euro poupado, a economia contrai-se entre 0.9 e 1.7 euros), Gaspar persiste em usar o multiplicador antigo nas previsões para 2013 e depois. E não admite que o faz, tendo-se recusado a responder a uma pergunta directa de um jornalista na conferência que se seguiu à apresentação do orçamento e desvalorizando a opinião do FMI. Não é só incompetência. Não é só fanatismo ideológico. É um inacreditável autismo que está a levar o país a um buraco de onde será muito difícil sair. Vítor Gaspar tem mesmo de ser parado - até porque o inábil deslumbrado Passos Coelho nunca o irá fazer.
*Como deveria ser evidente, uso a caracterização em sentido figurado e não pretendia ofender, de modo algum, quem sofre deste gravíssimo problema, nem as respectivas famílias.
Agora pode dizer-se com toda a propriedade: este é um Governo que pratica políticas assassinas. Que outra coisa se poderá dizer de um executivo que deixa morrer a população de que é suposto cuidar?
Portugal é o único país onde a austeridade exigiu mais aos mais pobres.
O meu sincero obrigado ao Governo PSD/CDS (com a extraordinária contribuição do Governo Sócrates). Conseguimos ser os primeiros em alguma coisa: o empobrecimento. Estamos todos de parabéns.
O relatório da Unesco sobre o projecto de construção da barragem do Tua, no Aventar. Pronto há seis meses, até agora nenhum jornal o tinha publicado (que surpresa) e tanto o ministério do Ambiente como a secretaria de Estado da Cultura se mantêm silenciosos sobre os pormenores do mesmo. A história de uma barragem que vai produzir apenas 0.6% da energia nacional destruindo irreversivelmente a paisagem envolvente e a histórica Linha do Tua, classificada como Património Mundial pela Unesco. Para além de incontáveis hectares de terra para a produção de vinho do Porto. Tudo para que uma empresa privada (neste momento, a 100%), a EDP, possa ter um lucro de dezasseis mil milhões de euros e os seus gestores recebam os prometidos bónus. Um caso exemplar do modo como funciona a rede de interesses económicos das empresas privadas e da sua relação com os partidos do arco do poder, PSD, PS e CDS. O problema não é haver excesso de Estado, como é evidente; é o Estado funcionar como canal de financiamento de projectos privados duvidosos que prejudicam os contribuintes e enchem os bolsos dos accionistas das empresas que deles beneficiam, assim como os dos gestores, quase sempre antigos governantes ou políticos destes três partidos.
(Via 5 Dias.)
Não será coincidência que, nesta época de solidariedade hipócrita e de caridadezinha cristã, quando os ricos aliviam a sua consciência pesada ofertando migalhas aos pobres, seja anunciado que a quebra na duração dos subsídios de desemprego, numa altura em que este cresce em flecha, poderá chegar aos 75%. A medida é burra e completamente errada em termos económicos. Mas é sobretudo uma afronta a quem andou anos, décadas, a contribuir para a Segurança Social, e se vê no desemprego. E é um crime, cometido em nome de uma ideologia neoliberal assassina. Não poderá haver desculpa. Espero que, mais cedo ou mais tarde, o povo demonstre a estes criminosos inspirados por ideias económicas extremistas que há limites para o delírio em que o país parece ter entrado. E seria melhor que fosse mais cedo. Antes que seja demasiado tarde.
Outra maneira de reduzir a população portuguesa, para além da emigração forçada: esperar que os doentes que aguardam uma operação ou um transplante morram. Qual será o número de portugueses a partir do qual o Governo já consegue governar? Nove milhões, oito? É que os incentivos à natalidade também estão a acabar e, já se sabe, uma morte é uma tragédia, milhares, apenas um número.
Enquanto o Governo se encontra reunido preparando o nosso futuro - outro modo de falar da liquidação total do Serviço Nacional de Saúde, da Segurança Social, da Educação e das empresas públicas que dão lucro -, a Inglaterra e outros países preparam-se para a guerra. Os planos de evacuação de Portugal e Espanha estão a ser preparados, para que os cidadãos britânicos consigam escapar do Titanic. Parece mentira? Pois. Mas o que pertencia há uns tempos ao domínio da ficção surreal, agora é verdade. Depois de um secretário de Estado ter pedido há umas semanas para os portugueses saírem da "zona de conforto", hoje, o administrador da insolvência do país aconselhou os professores a emigrar. Nem vale a pena falar no investimento que o Estado fez na formação das dezenas de milhar de formados que estão desempregados ou trabalham em empregos precários. Investimento que o primeiro-ministro prefere oferecer a outros países. Uma declaração destas é criminosa, uma enormidade. Apenas conseguimos compreender isto se Coelho tiver uma coisa em mente: a emigração em massa irá facilitar a sua governação. Com menos desempregados no país, há menos prestações sociais a pagar, os números do desemprego baixam, e sobretudo a massa crítica do país - não nos podemos esquecer que são jovens com formação superior, muitos deles com doutoramento, que estão a sair - deixa de existir, e com ela a contestação, a crítica, a possibilidade de se fazerem as coisas de maneira diferente. Facilitar a vida a quem se prepara para comprar o país, eis o que parece ser a principal motivação deste Governo. Não sei se perceberam, mas Portugal acabou, enquanto nação independente. Depois, não se queixem.
Até matar o doente. Preto no branco, claro como a água. Pedro Passos Coelho, na entrevista de ontem, não poderia ter revelado mais. As medidas de austeridade provocam recessão? É verdade. O que fazer? Repensar as medidas, atenuar o seu impacto na economia, chegar a quem mais pode pagar - a banca, os ricos, as mais valias financeiras - e fazê-los pagar mais? Não, aplicar as mesmas medidas ainda a mais gente. Começa a não ser apenas teimosia, incompetência ou ideologia: chegamos ao foro criminal. Quem, deliberadamente, leva milhões à pobreza e o país à destruição, terá de ser julgado, mais cedo ou mais tarde. Que a entrevista sirva para memória futura.
"Quanto mais corto nos benefícios sociais, mais agitação social tenho. O nível expectável de agitação aumenta maciçamente à medida que cai a despesa do Estado."
"Se tudo desabar na agitação social, haverá um segundo ciclo em que nos vamos deparar com menos crescimento e receitas fiscais ainda mais baixas. Depois tem que se cortar outra vez e vamos acabar numa espiral, vamos acabar por destruir grande parte do tecido social e político que mantém a estabilidade na Europa."
"É o que os alemães viveram no início da década de 1930. A cada ano, o governo tomava novas medidas orçamentais, reduzia os salários da função pública, tentava equilibrar o orçamento e sempre que fazia isto a economia contraía ainda mais, as receitas fiscais era ainda mais baixas, o governo tinha de cortar mais e, no final, destruiu a democracia alemã. Repetir este erro é completamente imperdoável, em 2011."
Hans-Joaquim Voth, académico co-autor do estudo "Austeridade e Anarquia: Cortes Orçamentais e Agitação Social na Europa, 1919-2009". Artigo completo no Diário de Notícias.
Aumentar impostos às classes baixa e média. Cortar-lhes os subsídios de férias e de Natal. Aumentar impostos sobre o consumo. Cortar nas compartições de medicamentos. Deixar que a Galp e a Petrogal continuem a chafurdar no seu desmando monopolista, fazendo com que Portugal tenha os preços de combustíveis mais altos da União Europeia (em relação ao ordenado médio). Cortar nas ligações dos subúrbios à capital e na rede de transportes públicos citadina, depois de anos de investimento nessa mesma rede. Aumentar brutalmente o preço dos transportes públicos. Daqui a uns tempos, nem de carro, nem de autocarro; vamos todos a pé para o trabalho - até porque ciclovias, nem vê-las. Pelo menos, decretando o recolher obrigatório na cidade de Lisboa (com a supressão das carreiras nocturnas e o encerramento do metro às 23, em algumas linhas às 21), iremos poupar uns bons cobres em copos. Está certo.
E o que é que estas três entidades têm em comum?
E o Presidente da República, tem feito o quê? Cowspotting. Lindo.
Apesar dos lamentos de Passos Coelho sobre a "gravidade" da situação na Madeira, da gentil lembrança do PR e da "análise" da Procuradoria-Geral da República, não tenho dúvidas de que nada vai acontecer a Alberto João Jardim, nem dentro do seu partido - a retirada da confiança política, como deveria ser - nem fora - a hipótese de alguma vez ser provado o crime de "dolo" com dinheiros públicos é risível. E toda a gente encara a impunidade com a maior das levezas, sabendo que o curso dos acontecimentos desemboca sempre em nada. A falência do país será coisa de pouca importância- moralmente, estamos falidos há muito.
*Foto retirada do Guardian
Tudo começou com a morte de um taxista de 29 anos, pai de 4 filhos. Atingido por tiros da polícia. Como em França, um excesso policial que levou à morte de um inocente (até prova em contrário), levou a uma escalada de violência nos bairros periféricos e pobres de Londres. Do protesto legítimo das pessoas do bairro onde morava o taxista, Tottenham, rapidamente se chegou a um estado de quarteirões inteiros sitiados, à criminalidade pura. Em pleno Agosto, tempo de férias escolares. Muitos dos jovens envolvidos nos distúrbios costumavam ocupar os seus tempos em centros de diversão que o Governo fechou no âmbito das medidas de austeridade levadas a cabo no país. Quem culpar? Os criminosos que destroem património público e privado, o acto policial que espoletou a revolta ou o Governo central que descurou na atenção dada a quem está à margem? Apenas há uma certeza: apesar da esmagadora maioria da população daqueles bairros repudiar os actos criminosos que têm acontecido, todos questionam os procedimentos policiais neste caso. Vamos ver onde poderá a revolta chegar.
(Podemos acompanhar os acontecimentos em directo no blogue do Guardian).
Havia quatro potenciais compradores do BPN. O governo PSD/CDS, através de uma Caixa Geral de Depósitos recheada de novos boys dos dois partidos, quer negociá-lo em regime de exclusividade com o BIC, cujo presidente é Mira Amaral, antigo ministro de um dos clientes mais famosos do BPN, Cavaco Silva. Para além dos 40 milhões que o BIC afirma ir pagar, metade dos funcionários irão ser despedidos. Entretanto, um dos compradores que foram preteridos, o NEI, vem dizer que nunca fez uma oferta que fosse inferior a 100 milhões de euros (sim, 60 milhões mais do que é proposto pelo BIC), e que a proposta seria sempre vantajosa para os trabalhadores. Excluído à partida, este grupo de investidores vem falar agora de uma luta de David contra Golias. Julgo que ninguém poderá ter dúvidas sobre a natureza deste negócio. A história do BPN é uma mafiosa pescadinha de rabo na boca, um vaivém criminoso entre PS e PSD que rapinou ao Estado (que somos nós, não esquecer isto) incontáveis milhões. Fundado por figuras do PSD, ligadas aos governos de Cavaco Silva, fez crescer a fortuna de muitos durante os anos de bonança financeira, recorrendo a empresas fictícias offshore e a ilegalidades várias. Quando estava prestes a afundar-se, o governo PS decide esbanjar erário público na sua recuperação, dando razão ao ditado: o crime compensa. E o círculo completa-se, já com o PSD no poder, com a venda, aparentemente ruinosa para o Estado, a uma instituição financeira ligada a outra figura do PSD cavaquista, Mira Amaral. Portugal há muito que se tornou uma metástase da Sicília, e ninguém parece interessado em acabar com a doença. Só não vê quem prefere não ver. E em terra de cegos...
Tem graça: depois de ter sido eleito um governo que não só promete cumprir o programa da "troika" mas "ir mais longe", depois de nos terem dito que o melhor era não apontar as críticas aos mercados e às agências de rating porque isso escalava o nervosismo, depois disso tudo e de mais umas quantas frases de antologia, Portugal chega ao patamar do "lixo". Ainda esta semana pude ver o Inside Job e dá bem para perceber como os critérios de cotação das agências de ratings são, no mínimo, duvidosos - e no máximo, criminosos. E é assim que cada vez mais temos pela frente um caminho que se bifurca: ou aceitamos a austeridade do modo como está ser imposta na Grécia ou dizemos, como se escreveu num manifesto há uns meses atrás, que "o inevitável é inviável".
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