Sexta-feira, 26 de Março de 2010
por Daniel Oliveira
A série "Guerra Fria" aproxima-se do fim. No 22º episódio, Reagen, a Guerra das Estrelas e o início da era Gorbachev.



Episódios anteriores:
1: Camaradas 1917-1945 ; 2: o Cortina de Ferro 1945-1947; 3: Plano Marshall 1947-1952; 4: Berlim 1948-1949; 5: Coreia 1949-1953; 6: Reds 1947-1953; 7: Depois de Estaline 1953-1956; 8: Sputnik 1949-1961; 9: O Muro 1958-1963: 10: Cuba 1959-1962; 11: Vietname 1954-1968, 12: M.A.D. 1960-1972: 13: Make Love Not War 60's; 14: Red Spring 60's; 15: China 1949-1972; 16: Détente 1969-1975, 17: Good Guys, Bad Guys 1967-1978, 18: Backyard 1954-1990, 19: Freeze 1977-1981, 20: Soldados de Deus 1975-1988, 21: Espiões 1945-1990.

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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007
por Daniel Oliveira



Premiados

GRANDE PRÉMIO CIDADE DE LISBOA para melhor longa-metragem
These Girls, de Tahani Rached, 66´ Egipto, 2006

PRÉMIO ADOBE para melhor primeira obra
A Father´s Music, de Igor Heitzmann, 105´ Alemanha, 2007

PRÉMIO JOHNNIE WALKER para melhor curta-metragem
The First Day, de Marcin Sauter, 20` Polónia, 2007

MENÇÃO ESPECIAL para melhor curta-metragem
The Mall, de Yonatan Ben Efrat, 12´Israel, 2006

Podem ler tudo o que escrevi sobre o que fui vendo aqui

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por Daniel Oliveira




“These Girls”, de Tahani Tached (trailer aqui), ganhou o prémio da Competição Internacional e ainda estou a tentar perceber porquê. É sobre um grupo de raparigas que vive na rua no Cairo. Sendo as raparigas muçulmanas numa sociedade profundamente machista o documentário tinha tudo para ser interessante. Mas a realizadora não consegue criar nenhuma empatia ou proximidade com as raparigas. A filmagem é banal, não se segue nenhuma narrativa e todos os momentos interessantes perdem-se sem qualquer seguimento. Vi mais de 30 filmes no doclisboa e definitivamente não consigo perceber este prémio. “The Father’s Music”, “Santiago”, “Ironeaters” ou mesmo “Jesus Camp”, os quatros em estilos muito diferentes, estão a léguas deste filme. Já o prémio para Investigação ("Three Comrades”) parece-me inteiramente merecido.

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por Daniel Oliveira





Nos dias a seguir ao furacão Katrina a inter-ajuda foi fundamental quando todas as obrigações de um Estado que se quis mínimo falharam. Um casal de ex-toxicodependentes acolhe no seu quintal um grupo de desalojados. Um grupo difícil, onde os problemas de alcoolismo e droga desafiam a possibilidade uma vida em grupo. A generosidade confrontada com o pior (e o melhor) da natureza humana. “Kamp Katrina”, de David Redmon e Ashley Sabin, acompanha o nascimento e a morte do projecto. A esperança, o optimismo e a decepção.

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Conhecemos as imagens dos trabalhadores do Bangladesh que desfazem petroleiros para lhes aproveitar o ferro através das fotografias de Sebastião Salgado. Mas “Ironeaters” mostra-nos muitíssimo mais. A organização social daquele trabalho, a hierarquia, os moradores locais que ficam com os trabalhos melhores e exploram os migrantes até ao limite. Os donos das empresas e como se vêem como pais de uma grande família enquanto os migrantes regressam a casa sem sequer receberem a miséria que lhes foi prometida.

“Ironeaters”, de Shaheen Dill-Riaz’s, é uma viagem impressionante a uma espécie de capitalismo puro. Os códigos, os papeis e os discursos são semelhantes aos que conhecemos, mas sem a patine de civilização que acrescentámos à exploração. Não me leiam mal: a patine faz alguma diferença. Pelo menos faz diferença na prática e na vida das pessoas. Mas a diferença é pouca. “Quando tens fome, comes qualquer coisa. Até ferro.” Diz um trabalhador. “Ironeaters” é provavelmente o melhor documentário que vi no Doc.

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“Hot House”, de Shimon Dotan, não é um retrato das dezenas de milhar de presos palestinianos nas prisões israelitas. Todas as famílias da Palestina tiveram, têm ou irão ter um preso entre os seus. Nem é o melhor retrato de prisões onde se tortura e se mantêm presas pessoas, sem qualquer acusações, durante anos. Não é, porque se passa em duas prisões de alta segurança israelitas, onde estão apenas pessoas que participaram em atentados suicidas (cúmplices ou terroristas que o tentaram sem sucesso) e dirigentes políticos. Por ali estar ou gente perigosa a cúpula da sociedade palestiniana, as prisões são as melhores. Ou seja, o filme não é nem podia ser sobre as condições prisionais em Israel. Não podia ser porque o documentário, feito por um israelita, conta com a colaboração das autoridades.

Desde que não seja visto como um retrato do preso comum palestiniano e o tratamento comum que lhe é dado (ouvi muitos relatos na Palestina), “Hot House” é um interessante filme sobre como militantes da Fatha e do Hamas fazem toda a sua formação política e académica entre grades e tornam-se ali verdadeiros quadros. Como se organizam numa autêntica estrutura partidária na prisão. São, nos seus respectivos partidos, um elemento fundamental nas decisões políticas. No começo de guerra civil entre Fatha e Hamas tiveram, aliás, um papel central na tentativa de tréguas. As filmagens acontecem nas vésperas de eleições que dão a vitória ao Hamas.

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O Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL) é muitas vezes motivo de gozo por causa da suposta ingenuidade dos anos quentes pós-revolução. “As operações SAAL”, de João Dias, é um inteligente e raro trabalho de investigação sobre a generosidade e o esforço que muitos depositaram naqueles anos. Por decisão do secretário de Estado Nuno Portas avançou-se com um projecto: construir casas para as centenas de milhares de pessoas que viviam em barracas quando a ditadura chegou ao fim. Os arquitectos faziam os projectos com as a participação das populações, os moradores construíam e o Estado pagava os materiais.

Uma coisa aparentemente clara leva o debate para quase todo o lado. No Porto, em Lisboa, em Setúbal e no Algarve as coisas vão seguir caminhos um pouco diferentes, dependendo do meio, das populações, dos arquitectos e das suas convicções ideológicas. Os equívocos entre o que queriam os arquitectos e o que esperavam as populações, os limites da participação, o papel de intelectuais e técnicos num processo deste género.

“As operações SAAL” tem muitos momentos de humor (como um morador que nos mostra uma casa completamente alterada e diz: as janelas não eram de alumínio, o chão não era assim, isto não estava com alcatifa, mas o resto é como o original, tudo do arquitecto Siza Vieira»), momentos desconcertantes e de enorme clarividência (“já chega de participação, agora queríamos as casas”). O melhor é mesmo quando um morador se vira para um arquitecto que queria saber das aspirações populares e explica: «o senhor arquitecto faça como se fosse para si que de certeza que eu vou gostar». Mas as coisas não são tão simples e a prova é como os moradores transformaram o espaço que passou a ser seu. E as reacções à necessidade de auto-construção: foi o senhor arquitecto que construiu a sua casa? E o oposto: um enorme orgulho com que no Algarve mostram o que fizeram com as suas próprias mãos.

Por mal que se diga do SAAL, na maior parte dos casos os resultados foram bem melhores dos que os inenarráveis projectos de realojamento dos anos 80 e 90. E foi dos poucos momentos em que os arquitectos se confrontaram de forma mais directa com o seu trabalho. E dali poderia ter nascido muita coisa interessante se os ajustes de contas não tivessem pesado mais.

“As operações SAAL” permite discutir arquitectura, democracia participativa e cidade (no Porto o SAAL acabou por ir mais longe na discussão do próprio urbanismo). Mas para isso é preciso ver um mesmo o filme que tem a coragem de não ficar nem na propaganda nem no burlesco. Excelente.

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por Daniel Oliveira



Aqui vão os filmes do doclisnoa sobre os quais não cheguei a falar.


Não há trailer do filme no YouTube. Aqui fica uma recordação. Podemos ver um excerto disto no “El Caso Pinochet”. passa no filme.

Já vimos alguns testemunhos de tortura. E a da ditadura chilena, tantas vezes olhada com brandura (ou até simpatia) pela direita europeia, era especialmente bárbara. O que vemos no filme “El Caso Pinochet”, de Patricio Guzmán, é uma revisitação aos dias pedido de deportação feito pelo juiz Baltazar Garzón quando o ditador visitava Londres e fazia compras.

O filme começa por acompanhar o trabalho de advogados no Chile e das vitimas e o muro de indiferença que encontraram, num regime que julgava ser possível construir a democracia escondendo o rasto de sangue e deixando impune a besta. Depois a oportunidade. E é enquanto Pinochet espera, perante a indignação dos seus amigos ingleses, por uma decisão que as vitimas contam as atrocidades. É um murro no estômago. E entre estes relatos vemos a senhora Thatcher visitar o seu amigo de sempre e mostrar-se indignada por ele estar confinado a uma casa (uma mansão de luxo nos arredores de Londres). As duas coisas em sequência provocam náusea. Vemos como Pinochet engana todo o Mundo e como começam as tímidas tentativas de fazer justiça no Chile. Pinochet acabará por morrer impune.

“El Caso de Pinochet” é um excelente documento sobre a memória, a transição para a democracia e a injustiça. Uma vitima resume o que lhe sobra no meio de tanta revolta, dirigindo-se aos que a torturaram ou mandaram torturar: os nossos filhos poderão dizer quem fomos e sentirão orgulho, os vossos não.

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Terça-feira, 23 de Outubro de 2007
por Daniel Oliveira


Prometi novidades sobre o impressionante documentário a propósito de uma colónia de férias de fundamentalistas cristãos, "Jesus Camp". Agora que já não volta a passar no Doclisboa, aqui fica, na íntegra. Mesmo que dê algum trabalho. não deixem de ver.








por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira



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"La Liste de Carla" é o pior filme que vi no Doclisboa. Um documentário burocrático. Marcel Schupbach conseguiu ter acesso à vida quotidiana no tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia e da sua procuradora, Carla Del Ponte. Uma oportunidade excelente ou para se embrenhar no difícil mundo da justiça internacional ou para revisitar os crimes da Bósnia. Era suposto mostrar-nos os mecanismos políticos, a pressão diplomática e o jogo do gato e do rato com os governos da Croácia e da Sérvia. No fim, o documentário é pueril, desinteressante e até um pouco básico. Nunca vai para lá do evidente. Nenhuma reflexão sobre a possibilidade ou impossibilidade de julgar a guerra e sobre a justiça dos vencedores e dos vencidos. Muitíssimo cansativo e repetitivo. Não traz nada de novo.

<em>Aconselho vivamente “It’s Always Late for Freedom”, de Mehrdad Oskouei, sobre um reformatório no Irão e as relações de amizade que se estabelecem entre crianças presas; “In the North”, de Chen Lei, sobre um chinês toxicodependente que sai de Changai para o campo e aí começa a tentativa de, com a sua mulher e filha, reconstruir a vida (os momentos de intimidade entre os três são deliciosos) e, acima de todos os outos, “A Father’s Music”, de Igor Heitzmann, filho do famoso maestro Otmar Suitner, da Orquestra Filarmónica de Berlim. Um homem com duas mulheres (uma no Ocidente e outra a Leste) e um realizador que tenta reencontrar o seu pai através da música. Dos que vi até agora, é seguramente um dos que merece o prémio para Competição Internacional. Não vi “Le Papier ne Peut pas Envelopper la Braise”, de Rithy Panh, sobre uma casa de prostituição em Phnom Penh, mas a julgar por o que ouvi depois da sessão deveria te ido ver.</em>

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Discurso de Che Guevara sobre o Imperialismo e a morte de Patrice Lumumba, que parcialmente aparece no documentário


Através do envolvimento cubano nos conflitos africanos temos um excelente retrato da guerra fria e do preço que África pagou por ela. “Cuba, Une Odysée Africaine”, de Jihan El Tahri, começa no Congo, com a morte de Patrice Lumumba. É interessante, antes de mais, perceber como começaram soviéticos e americanos a pôr e depor governos, a alimentar guerras civis, a fazer o seu combate por procuração em terra alheia. Como a escolha dos seus aliados poucas vezes foi ideológica. O assassinato de Lumumba é talvez o primeiro sinal para África: a sua independência seria apenas aparente.

Apesar de não ser esse o tema, fica também evidente o génio político e a astúcia diplomática e militar de Fidel Castro em comparação com a infantilidade e inexperiência de Che Guevara.

O documentário começa então com o Congo e a ida de Che Guevara para a sua aventura africana, que foi uma desgraça. O envolvimento mais directo de Fidel Castro vem depois. Começando por escolher entre os dirigentes de libertação nacional africanos os que lhe pareciam mais capazes para, a partir deles, definir qual seria o papel cubano no continente. E não poderia ter sido mais clarividente, ao optar pelo mais inteligente (politica e militarmente) dos líderes nacionalistas africanos: Amílcar Cabral.

O documentário acompanha a estratégia de desgaste militar imposta por Cabral aos portugueses e o papel dos cubanos na guerra colonial. Passa depois para Angola, sobretudo para a guerra civil. Como os cubanos trocaram as voltas aos soviéticos e os obrigaram a escolher um lado (ao contrário do que os próprios americanos pensavam então). A tese do documentário parece ser a de que foi Cuba a desequilibrar a balança na luta pelo poder em África.

Um documentário excelentes, com excelentes depoimentos, que quase deita tudo a perder no fim, quando a frieza da análise é substituída pela ingenuidade poética um pouco deslocada para o tema.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira



O mais importante não é propriamente a história do Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), fundado nos anos sessenta por jovens estudantes de extrema-esquerda e com uma razoável implantação popular. O mais relevante não é a história do assassinato de Miguel Enriquez, seu líder, durante o sangrento golpe de Pinochet. O mais relevante não chega sequer a ser a história chilena. É importante revisita-la, apenas para que não se faça a reescrita da história. O mais importante é a clandestinidade, o exílio, o regresso e as memórias.

Em “Calle Santa Fe”, Carmen Castillo, viúva de Miguel Enriquez, exilada durante quase três décadas, traumatizada pela perda e amargurada pela ausência, regressa aos lugares dos seus antigos combates e da desgraça. Discute com antigos camaradas a militarização do movimento durante ditadura, com as mulheres o egoísmo do abandono dos filhos, com os que continuam a ter vida política a “normalização” do país, e com a família a sua história pessoal. É obsessiva. A pergunta é sempre a mesma: valeu a pena? A dúvida é mais pessoal do que política. Ou pelo menos as inquietações pessoais são, neste filme, mais interessantes do que as políticas. Mas a angústia tem reflexos políticos. Quando fala com um jovem revolucionário e propõe que se recupere a casa onde Miguel morreu, ele é implacável: ao transformar a actividade política num museu os mais velhos estão a impor o seu poder. Eles, os mais novos, estão fartos das lembranças. Querem mesmo fazer política. Brutal para Carmen. Mas eficaz para que encerre esse capítulo, apesar disso ser impossível.

Calle Santa Fe é um documento muitíssimo interessante sobre a desumanização da clandestinidade. Vale a pena perder tantas vidas? A resposta só a poderia dar quem as perdeu e quem, estando vivo, não as pode recuperar. A resposta de todos parece ser que sim, mas no fundo parecem todos sentir que não. Talvez porque quando se chega ao fim nada parece ser o que se queria. É talvez por isso que muitas vezes os sobreviventes das ditaduras não são os que estão mais preparados para construir a liberdade.

Um filme demasiado longo (quase três horas) que ganharia em ritmo se tivesse evitado alguma redundância.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


Sobre Sicko, de Michael Moore, replublico aqui o texto que escrevi no “Expresso” há uns meses e o excerto de 15 minutos que aqui postei.


Para abrir o apetite

Eram escusadas as lágrimas e a pequena manipulação emocional no último filme de Michael Moore, ‘Sicko’, sobre o sistema de saúde americano. Os factos chegavam. Por cada cidadão, gastam-se nos EUA mais de sete mil dólares por ano em saúde. O dobro dos europeus. O triplo dos portugueses. Para acudir a todos? Pelo contrário. 43 milhões de americanos não têm acesso a qualquer cuidado de saúde e por isso mesmo morrem 18 mil por ano. Para ter melhor? Pelo contrário. A qualidade do sistema de saúde americano, quase exclusivamente garantido por seguradoras, põe os Estados Unidos no humilhante 37º lugar do “ranking” da Organização Mundial de Saúde. Os dez primeiros são quase todos europeus. Segure-se: Portugal está em 12º. E cerca de metade da mortalidade infantil por mil nascimentos da que é registada nos EUA. Um número a reter.

O documentário conta histórias na primeira pessoa. Um amputado que teve de escolher o dedo que poderia ver de volta olhando para o seu saldo bancário. Uma mulher que não foi aceite por uma seguradora por ser demasiado gorda. Um médico que assina de cruz todas as recusas e ganha um bónus por cada tostão que poupa à empresa.

Da próxima vez que alguém, para defender a privatização do serviço público de saúde, lhe falar de liberdade de escolha e de qualidade dos serviços veja este filme. O europeu gasta menos e pode escolher entre o privado e o público. O americano gasta mais para poder escolher entre as seguradoras e coisa nenhuma. E mesmo assim terá de negociar a sua vida.

por Daniel Oliveira
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Domingo, 21 de Outubro de 2007
por Daniel Oliveira





Riyadh é médico, é sunita e é profundamente religioso. Estas suas três condições marcam o seu papel num Iraque que se desmorona. Como médico, fala com todos e todos parecem confiar nele, como sunita é o “seu” país que acaba e no novo não tem lugar, como religioso é militante e activista de um partido islamista. A CIA diz que é dos maus, explica um soldado à realizadora. Só que é o contrário. Riyadh não faz outra coisa se não tentar o que lhe parece certo. Tenta convencer o seu partido a não boicotar as eleições, tenta ajudar todos os que se cruazam no seu caminho com as suas vidas desfeitas pelo caos, tenta convencer os soldados americanos que não é aceitável ter crianças presas e que têm de parar de massacrar Falujah. É ingénuo, uma qualidade que nos pode salvar a alma numa guerra.

Em “My Country, My Country” (nome de uma canção de uma estrela-herói iraquiana, Kathem Al-Saher), a americana Laura Poitras segue também um grupo de contracters que trabalham para os EUA. Filma mesmo um negócio de armas.

Não há qualquer maniqueísmo no filme. Apenas o quotidiano de um homem bom que tenta colar os cacos de um país sem nunca saber se pode realmente fazer alguma coisa e, no entanto, nunca deixando de parar, e das vésperas das eleições iraquianas. É candidato ao Parlamento mas nem chega a ser eleito.

A mulher atira-lhe: «O nosso país está perdido e tu és um dos que o perderam. Saddam destruiu-o e tu ficaste aí sentado.» Pois agora Ryad não fica sentado. Até perder as forças. Depois do filme acabou mesmo por sair do país. O desespero perante um país em ruínas. Na primeira pessoa. Têm de ver. Por causa do filme a realizadora Laura Poitras foi considerada uma ameaça à segurança nacional nos EUA.

Ler artigo sobre o filme no “Público” de ontem.

Decidi aqui só escrever sobre os filmes mais políticos do Doclisboa. Como disse, não sou um crítico. Mas vi ontem um filme que, se puderem ver não devem perder: "Santiago", de João Moreira Sales. Um documentário sobre um documentário falhado de um realizador que quer fazer um filme sobre o mordomo da família. Descobre, quando revisita, anos mais tarde, o material em bruto que nunca montou, que nunca deixou de ser o filho do patrão a falar com o seu mordomo. Que é preciso muito mais do que uma câmara, boas ideias e uma boa personagem para falar de alguém.

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por Daniel Oliveira





O que perturba em Ruslan, Ramzan e Islam é mesmo a normalidade das suas vidas em Grozny, capital da Chechénia. Amigos de adolescência, passeiam pela cidade de carro sem destino, conhecem raparigas em concertos, cada um gosta da sua música quando gostar de músicas ocidentais é já uma manifestação de pouco apego ao comunismo soviético. Desfeito o império Ruslan e Ramzan tornam-se cameraman de televisão. Islam é médico. Quando a guerra começa qualquer um dos três torna-se testemunha do Inferno. E o documentário “Three Comrades”, de Masha Novikova, tem o privilégio de contar com o testemunho póstumo das suas filmagens e o testemunho vivo de quem tratou de salvar vidas.

Ruslan, Ramzan e Islam têm em comum a adolescência, a amizade que mantêm, as respectivas famílias que tentam salvar, a dedicação à suas profissões e o sentido de obrigação de as cumprir durante a guerra. A sua frieza bondosa permite um olhar desesperante sobre a guerra. Vi poucos filmes na vida onde a espera, o desespero, o alívio e a decepção fossem tão evidentes. A entrada dos tanques russos na cidade e os bombardeamentos indiscriminados, num dos mais aviltantes crimes do fim do século passado, é dos momentos mais estranhos do filme. Mais do que as imagens é o som que nos faz sentir o medo que eles parecem ignorar. Sobretudo o da noite da passagem de ano de 1994 para 1995, quando a cidade é desfeita.

Em “Three comrades” os homens que tomaram o poder na Chechénia não são poupados pela sua violência, intolerância e fanatismo.

Ruslan e Ramzan acabam por morrer na guerra. Islam é preso em Moscovo e acusado de terrorismo, numa daquelas caças às bruxas em que Putin é especialista. Apenas por ser checheno. Acaba por fugir da Rússia. Um dos melhores documentos que pude ver sobre a bestialidade da guerra. E, no entanto, quase tudo é banal (na banalidade possível da guerra) no que vamos vendo. Talvez por isso mesmo tenha tanta força.

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Sábado, 20 de Outubro de 2007
por Daniel Oliveira





Vê-se entre a estupefacção, a gargalhada e a mais profunda depressão. "Jesus Camp", de Heidi Ewing e Rachel Grady, acompanha uma colónia de férias infantil de fundamentalistas cristãos nos Estados Unidos. Uma pastora infantil faz uma autêntica lavagem cerebral (já começada pelos pais) às crianças, com muitas lágrimas, muito teatro e muita pressão psicológica. Não se fica por uma visão muito particular do cristianismo. Não se fica por explicar que não devem ver o Harry Potter porque é um feiticeiro. Não se fica mesmo pelo fanatismo contra as restantes religiões, criando um exército de gente intolerante.

A doutrinação vai até à política mais pura: da nomeação de um juiz do Supremo à santificação de George Bush. Resultado: crianças histéricas, fechadas para o Mundo, arrogantes nas suas crenças, intolerantes com tudo o que lhes seja estranho, mecanizadas e com um enorme sentimento de culpa por tudo o que fazem.

É o excesso que é novidade e ele faz toda a diferença. É fácil formatar crianças. As religiões e as ideologias totalitárias fazem isso. Todos os pais o fazem um pouco e, dentro dos limites do respeito pela autonomia dos seus filhos, é natural que o façam. Depois, ou elas seguem o que lhes ensinamos ou questionam ou revoltam-se. Mas há uma fronteira. O que vemos em "Jesus Camp" é outra coisa de outra natureza. É uma experiência assustadora que tenta matar todo o espírito critico e curiosidade da infância. E que expõe aqueles miúdos a absurdas doses de pressão psicológica e emocional.

Os evangelistas são hoje 25% da população dos EUA e representam um bloco político e eleitoral fundamental para o Partido Republicano. E é nessa força que se concentram. E é nas crianças que apostam. A pastora não tem qualquer receio de comparar as suas estratégias com as do islamismo mais fanático. E diz, com indisfarçável orgulho, no fim do documentário: «quando os liberais radicais virem isto vão pensar: meu Deus, não sabia que isto era possível? Imaginem como serão estas crianças quando crescerem.» Acerta em cheio. Só que não serão os liberais a pensa-lo. É qualquer pessoa normal.

Nada disto se passa nos territórios ocupados da Palestina, nas cidades israelitas com medo de bombas, no Afeganistão analfabeto e varrido por guerras sucessivas, nas atrasadas ilhas Filipinas. Passa-se no Ocidente, no Primeiro Mundo. No país que escolhe o presidente que decide da vida de quase todos nós. Assusta. Assusta muito.

Trago novidades deste filme depois de passar pela segunda vez no Doc.

No Doclisboa vale muito a pena ver os documentários escandinavos inseridos no ciclo “Vendo Norte”. Ontem vi dois: “O Mosteiro” e “Cool and Crazy”. Não sou critico cinematográfico e decidi deixar aqui sobretudo o registo sobre os filmes mais políticos (no sentido mais amplo do termo). Não quer dizer que sejam os melhores. “Cool and Crazy” foi, até agora, o meu preferido.

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Sexta-feira, 19 de Outubro de 2007
por Daniel Oliveira





«Enemies of Happiness» segue o quotidiano de Malalai Joya , uma candidata defensora dos direitos das mulheres às primeiras eleições no Afeganistão. Deixou os senhores da guerra irados quando, em plena Loya Jirga (grande assembleia afegã), disse que eles não deviam ali estar. Deviam ser julgados pelos seus crimes. Foi expulsa mas a sua fama espalhou-se pelo país. O que acompanhamos são os últimos dez dias de campanha. Pouco podia sair de casa, sobrevivente que era de quatro tentativas de assassinato, mas não desistiu. E em sua casa recebia mulheres, tratava de separações, era tratada como sábia apesar de ter menos de 30 anos. Com tudo contra ela, foi a segunda mais votada no seu distrito. E, no Parlamento, já deu que falar.

Ela lá está. É islâmica, tem tomates e corre todos os riscos. Uma homenagem a todas as feministas. Sobretudo as que lutam no lugar onde estão, no seu tempo e sabendo usar a força que podem ter. As que não desistem do seu povo.

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por Daniel Oliveira



Como prometido, aqui vai o “relatório” do primeiro filme do Doclisboa 2007.



Abu Ghraib não foi, como tentou fazer crer a Administração Americana, resultado da acção de umas “maçãs estragadas”. Métodos semelhantes eram usados na prisão de Bagram, no Afeganistão. E, de uma forma mais “limpa” e profissional, foram usados em Guantanamo. A Administração garantiu que todos as regras tradicionais para interrogatórios desaparecessem, tornou tudo vago e depois libertou as feras. As feras, grande parte delas, eram arraia miúda. Sem treino na matéria. À solta. A cúpula militar aumentou a pressão para ter resultados.

Abu Ghraib não foi um excesso. Foi resultado de uma estratégia premeditada de conseguir resultados sem olhar a meios. Abu Ghraib nem é o mais grave, garante quem se viu envolvido nos casos. Foi apenas o que se soube. A humilhação de prisioneiros, os espancamentos e a morte aconteceram noutros pontos.

Num documentário documentário e factualmente inatacável, Alex Gibney, filho de interrogador da marina americana na II Grande Guerra e na Guerra da Coreia, parte da morte por maus tratos de um taxista afegão reconhecidamente inocente para o mundo da tortura imposto pela Administração de George Bush. Sem facilidades, com depoimentos de soldados envolvidos nas torturas e responsáveis legais e políticos desta Administração “Taxi to the Dark Side” é o melhor documento sobre o assunto que vi até hoje. Junta quase tudo o que se foi investigando sobre o assunto. Só no Iraque há centenas de mortos nas prisões americanas que descritas pelos médicos militares como homicídios.

A descrição do descontrolo instigando, da barbaridade e do sadismo da violência repetida contra gente sobre as quais nada se sabia (90% foram entregues pelos aliados no Paquistão e no Afeganistão a troco de recompensa) nas prisões militares americanas são o retrato de um poder que ultrapassou todas as fronteiras. E tudo começou quando se decidiu não aplicar a estes presos a Convenção de Genebra: o sinal de liberdade estava dado. Uma opção criminosa mas premeditada. E premeditada mas estúpida. Perante a tortura, poucas informações relevante foram recolhidas e muitas falsas pistas levaram a caminhos errados.

Diz um soldado que participou nas torturas (cito de cor): «é verdade que me podia podia ter guiado pelos meus padrões morais e não por o que ali era normal». E o que era normal era a bestialidade. E é a sua normalização que cria o Inferno. Mais do que um homem sozinho ou louco.

Recentemente a revista Atlântico pôs um bigodinho de Hitler em Che Guevara. Justificaram assim: «é claro que, a haver encarnação do mal absoluto na história (falemos assim para simplificar), Hitler é um dos melhores candidatos ao lugar, e o “Che” ocupa uma posição, no mínimo, secundaríssima, tão secundária que só nos lembramos dele pelo entusiasmo com que boa parte da esquerda adolescente e ritualmente o festeja. Mas a questão da capa (e do artigo de Rui Ramos) não era essa. Era, como o artigo de Rui Ramos explica bem, o desprezo pelos seres humanos que as ideologias totalitárias, de que o nazismo é paradigmático, permitem e legitimam. E aí, o “Che” é um exemplo tão bom como qualquer outro.»

Pois vejam o documentário. Não são os campos de concentração nazis, mas ali está tudo a que se referem: a bestialidade, a desumanização do outro, o absoluto desrespeito pela vida humana, o fim de todas as fronteiras em nome de uma causa. Por dizer defender a democracia é diferente? Até quando e até onde? Até não reconhecermos democracia nenhuma? Nada disto foi há quarenta anos. Foi agora. Têm, por isso, muitos bigodinhos para distribuir pelos homens que apoiaram até hoje. Eu não os punha, porque apesar de toda esta selvajaria, levo muito a sério aquele bigode pequeno. Mas se são tão generosos na distribuição, não podem deixar de ser coerentes. O crime está a ser no vosso tempo, com o vosso aplauso, em pleno século XXI.

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