Terça-feira, 21 de Maio de 2013
por Sérgio Lavos

 

Alguém disse em tempos que Portugal tem a direita mais estúpida do mundo. Será verdade, ou não, mas Portugal também consegue ter alguma da esquerda mais alienada deste lado do oceano.

 

Ontem, no enésimo Prós & Contras sobre a crise, um miúdo de 16 anos, Martim Neves, expôs o seu caso de sucesso: criou uma marca de roupa, vendida a preços baixos, desenhada por ele, com um marketing sustentado nas redes sociais e nas redes informais de amigos e de conhecidos. O que tem isto de mal? Nada. É, aliás, absolutamente louvável que ele tenha vontade de fazer a diferença num país a precisar disso mesmo, e de uma forma criativa. Teve a ideia, desenha a roupa, esforça-se. É excelente. Mais: o exemplo de Martim está nos antípodas da maior parte dos gurus do empreendedorismo que costumam ir a programas de televisão. Aqui há uns meses, um fulano no P&C gabava-se de ter criado meia dúzia de empresas em meia dúzia de anos, como se isso fosse uma coisa boa, como se não significasse, na prática, meia dúzia de empresas falidas em meia dúzia de anos (ele não as criou em simultâneo). Miguel Gonçalves, o empreendedor que Miguel Relvas desencantou num buraco escuro, também nada tem a ver com Martim Neves; não passa de um vendedor da banha da cobra que ganha a vida vendendo ilusões a pessoas que muitas vezes entraram no ciclo vicioso e desesperante do desemprego. Martim Neves tem todo o mérito que lhe queiram atribuir. 

 

No programa de ontem, Raquel Varela, apresentada como doutorada naquele modo bajulador irritante de Fátima Campos Ferreira, devia ter ficado calada quando Martim falou. Porque o que ele disse é, pense-se o que se pensar, verdade: é melhor ganhar o salário mínimo do que estar desempregado. Esta é uma realidade que toda a gente compreende, é puro bom senso. Coisa que Raquel Varela não tem. Se tivesse, teria percebido que explicar, naquele momento, que uma política de baixos salários é prejudicial ao país, é inúti. Faltou a humildade de perceber que o dia a dia de cada pessoa dispensa perfeitamente teorias sobre o trabalho ou a exploração. O dia a dia faz-se de necessidades e da sua satisfação imediata. Às elites, a que Raquel Varela pertence, cabe pensar a sociedade e tentar melhorá-la. Como deverá ser evidente, as políticas que estão a ser levadas a cabo por este Governo visam a compressão da massa salarial e dependem de um desemprego alto para que sejam bem sucedidas. Mas, a sério? Explicar isto a um adolescente de 16 anos contente por estar na televisão, por ter tido uma ideia bem sucedida, por estar a ser mostrado como exemplo para o país? O Martim tem todo o tempo de perceber que a melhor forma de ter um negócio bem sucedido é empregando trabalhadores motivados. E que motivar um trabalhador passa sempre pelo pagamento de um salário justo. Um programa de televisão não é o melhor lugar para tentar convencê-lo disto.

 

O salário mínimo em Portugal não chega para atingir os mínimos de dignidade humana. Mas é verdade que, neste momento, precisamos de mais empregos, mais trabalho, essa deve ser a primeira prioridade. Raquel Varela prestou um péssimo serviço a uma causa correcta, a luta pela dignidade do trabalhador permitida pelo pagamento de um salário justo. Ao não ter tido a humildade de perceber que aquele não era o momento, aquele não era o lugar. A direita que pretende continuar as políticas de aniquilamento do país faz hoje a festa. Não surpreende: a frase de Martim Neves justifica, em cinco segundos, a destruição de mais de 400 000 empregos e a consequente quebra que se está a verificar no salário médio nacional. Muitas vezes, a sensatez não anda de mãos dadas com a inteligência.


por Sérgio Lavos
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Quarta-feira, 6 de Março de 2013
por Sérgio Lavos
Data from World Bank

 

Um artigo de Owen Jones no insuspeito The Independent:

 

"Hugo Chávez tirou milhões da pobreza - e mesmo os seus adversários disseram que ganhou eleições forma justa e limpa

 

Se queremos aprender alguma coisa sobre direitos humanos na Venezuela antes de Hugo Chávez, basta googlar "Caracazo". É preciso ter um estômago forte. Em 1989, o então presidente Carlos Andrés Pérez ganhou as eleições apoiado por uma feroz base opositora das ideias de mercado livre: o FMI era uma "bomba de neutrões que matava pessoas, mas deixava os edifícios intactos", dizia ele. Mas após ter chegado ao palácio presidencial, deu uma dramática volta de noventa graus, implementando um programa de privatizações e aplicando uma terapia do choque neoliberal. Com a liberalização do preço dos combustíveis, estes aumentaram brutalmente, levando os venezuelanos empobrecidos para as ruas. Soldados abateram manifestantes a tiro. Morreram até 3000 pessoas, uma contagem de mortos horrível se comparada com a do massacre da Praça de Tiananmen - num país com 43 vezes menos pessoas. 

 

Foi o seu golpe falhado contra o assassino e cada vez mais corrupto governo de Pérez, em 1992, que lançou Chávez para a fama. Apesar de preso, Chávez tornou-se um símbolo para os pobres da Venezuela, há longo tempo a sofrer. Quando ganhou de forma esmagadora as eleições de 1998 com a promessa de usar o dinheiro do petróleo para ajudar os pobres, Venezuela era um desastre. O rendimento per capita tinha regredido até valores de 1960. Um em cada três venezuelanos viviam com menos de 2 dólares por dia. Os proveitos do petróleo estavam reduzidos ao mínimo.

 

Ao longo dos próximos dias, vai ser repetido de forma sistemática que Hugo Chávez era um ditador. Um estranho ditador: desde 1998, houve 17 eleições e referendos no país. Podemos pensar que foram fraudulentos. Quando venceu por larga margem em 2006, o antigo presidente dos EUA, Jimmy Carter, esteve entre aqueles que disseram que ele tinha ganho de forma justa e limpa. Nas últimas eleições, em Outubro de 2012, Carter declarou que "posso dizer, a partir das 92 eleições que monitorizei, que o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo". Eu estive lá: podem pensar que eu sou como aqueles ingénuos esquerdistas ocidentais que visitavam as aldeias Potenkin na Rússia estalinista. Pertenci a uma comissão eleitoral verdadeiramente independente, composta por apoiantes e adversários de Chávez, que tinha sido anteriormente convidada pela oposição para supervisionar as suas eleições internas. Encontrámo-nos com importantes figuras da oposição que se manifestavam na rua contra Chávez, mas admitiram que viviam em democracia. Quando perderam as eleições, aceitaram a derrota.

 

Justiça Social


Na verdade, o próprio Chávez também teve de aceitar a derrota: em 2007, perdeu um referendo, e não protestou os resultados. Antes de ele chegar ao poder, milhões de venezuelanos nem sequer estavam registados para votar: mas campanhas massivas de recenseamento praticamente duplicaram o eleitorado. Há mais 6000 mesas de voto agora do que havia antes de Chávez. 

 

Por outro lado, as credenciais democráticas de muitos dos seus adversários certamente são questionáveis. Em 2002, um golpe ao estilo de Pinochet foi tentado contra Chávez, e apenas foi evitado por causa de um levantamento popular. Os media privados em geral apoiaram e incitaram abertamente ao golpe: imaginem que Cameron era afastado do n.º 10 de Downing Street por generais britânicos apoiados e incitados por estações televisivas de notícias. Mas os media na Venezuela são dominados por privados, alguns dos quais fazem parecer a Fox News esquerdistas ternurentos. A televisão pode ser justamente acusada de favorecer o governo, e talvez por isso apenas tenha uma audiência de 5,4%. Dos sete maiores jornais nacionais, cinco apoiam a oposição, e apenas um é apoiante do governo.

 

A verdade é que Chávez ganhou uma eleição após outra, apesar da muitas vezes viciosa hostilidade dos media, porque as suas políticas mudaram as vidas de milhões de venezuelanos que eram antes ignorados. A pobreza caiu de quase metade da população para 27,8%, enquanto a pobreza extrema baixou para quase metade. Seis milhões de crianças recebem diariamente refeições gratuitamente; o acesso aos cuidados de saúde gratuitos é quase universal; e os gastos com a Educação quase duplicaram em percentagem do PIB. O programa de alojamento lançado em 2011 conseguiu construir quase 350 000 casas, ajudando centenas de milhar de famílias que viviam em bairros da lata e casas degradadas. Alguns dos presumidos críticos estrangeiros deram a entender que Chávez efectivamente comprou os votos dos pobres - como se ganhar eleições em consequência de se ter criado maior justiça social fosse uma forma de suborno.

 

Alianças


Isto não significa que Chávez não possa ser criticado. A Venezuela já tinha uma alta taxa de criminalidade quando ele foi eleito, mas a situação piorou desde aí. Cerca de 20 000 venezuelanos morreram em crimes violentos em 2011: uma taxa de mortalidade inaceitável. Tanto como as drogas, a liberalização da posse de armas e a desestabilização provocada pela vizinhança da Colômbia, devemos culpar uma polícia fraca (e muitas vezes corrupta). Apesar de o governo estar a começar a constituir uma força policial nacional, o crime endémico é uma verdadeira crise. Quando falei com venezuelanos em Caracas, a assustadora falta de segurança foi um problema referido tanto por aliados como por adversários de Chávez. 

 

E depois há a questão de algumas associações de Chávez a nível internacional. Apesar dos seus aliados mais próximos serem governos de esquerda da América Latina - quase todos defendendo Chávez de forma apaixonada das críticas oriundas do estrangeiro - ele também apoiou ditadores brutais no Irão, na Líbia e na Síria. Certamente prejudicou a sua reputação. É claro que no Ocidente não podemos acusar Chávez de consciência limpa. Apoiamos e armamos ditaduras como a da Arábia Saudita; o antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair recebe 13 milhões de dólares da ditadura do Kazaquistão pelo seu trabalho. Mas a nossa própria hipocrisia não absolve Chávez da crítica.

 

A chamada Revolução Bolivariana era demasiado dependente da reputação de Chávez, e inevitavelmente a sua morte levanta questões sobre o que irá acontecer no futuro. Mas não duvidemos: Chávez era o democraticamente eleito campeão dos pobres. As suas políticas tiraram milhões da pobreza e da mais abjecta miséria. Ele representou um corte com anos de regimes corruptos e com um sinistro desempenho na área dos direitos humanos. Os seus êxitos foram atingidos sob a ameaça do um golpe militar, a agressividade hostil da imprensa e fortes críticas internacionais. Ele provou que é possível resisitir ao dogma neoliberal que exclui grande parte da humanidade. Ele será chorado por milhões de venezuelanos - e é difícil não entender porquê. "

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por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 5 de Março de 2013
por Sérgio Lavos

 

Ao longo dos anos como presidente da Venezuela ganhou eleições, evitou dois golpes de estado comandados à distância pelos EUA, e sobretudo conseguiu reduzir bastante as desigualdades sociais e a pobreza, aplicando um modelo de esquerda que sempre defendeu contra os ataques do capitalismo e das grandes famílias que detinham grande parte da riqueza do país antes da sua ascensão ao poder, governando para o bem estar do povo e não em função de interesses financeiros obscuros. Descanse em paz. E esperemos que os venezuelanos não percam de um dia para o outro tudo o que ganharam com os seus esforços.

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por Sérgio Lavos
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Quinta-feira, 14 de Junho de 2012
por Sérgio Lavos

O futuro da União Europeia joga-se nas eleições gregas, a terem lugar no próximo domingo. Jorge Costa, no Esquerda.net, vai dando conta das suas impressões durante o período eleitoral:

"(...)Numa conferência de imprensa na terça-feira, ao longo de três horas, Alexis Tsipras frisou por várias vezes que um governo de esquerda só pode sobreviver e realizar o seu programa apoiado numa permanente mobilização da maioria da sociedade. E que, além disso, conta com o efeito europeu de uma vitória da esquerda na Grécia - uma urgente primavera continental, capaz de mudar a relação de forças a partir da periferia e quebrar as políticas da austeridade. Tsipras não promete facilidades para amanhã, nem para depois de amanhã. Quem acompanha o noticiário deste portal sobre a situação grega, conhece o essencial da proposta política do Syriza e isso basta para compreender que nem Angela Merkel, nem a elite económica grega, nem as clientelas suas protegidas, ninguém fará fácil a vida de um governo de esquerda na Grécia. Mas estaria o Syriza preparado para uma vitória agora? Vinda de vários dirigentes com quem falei, a resposta é essencialmente a mesma: perante a situação extrema do país, poderia haver quem pensasse que o melhor seria perder por pouco e acumular forças para mais adiante. Esses estariam errados: um governo de esquerda deve existir agora porque depois pode ser tarde demais. Hoje, é certo, muita gente passa frio no inverno porque já não pode pagar a energia do aquecimento. Mas a maioria da população ainda não passou fome. Isto pode alterar-se rapidamente - diz-nos um dirigente do Syriza - porque a continuação da austeridade, mesmo suavizada, é uma garantia de bancarrota e fome, de declínio social com risco de violência generalizada. Nessa altura tudo será mais difícil para a esquerda e mais fácil para as milícias da extrema-direita.(...)"


por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 6 de Setembro de 2011
por Miguel Cardina

 

António Barreto defendeu há dias uma «profunda renovação» da Constituição, tão profunda que exigiria ser inconstitucionalmente referendada. Este fim-de-semana foi a vez de Passos Coelho tentar criar com pouca habilidade uma nuvem de fumo sobre as redes sociais e a perspectiva do país a arder. Hoje calhou a Paulo Portas vir falar das greves como causadoras de pobreza. A direita no poder mostra assim o seu programa real: a austeridade como oportunidade de refundar o regime; o recurso à ideologia da inevitabilidade para denunciar as movimentações sociais contra o plano de saque em curso; a conversão da solidariedade em caridade, de preferência voluntária e confessional; a demonização dos serviços públicos e a abertura de espaços para a iniciativa privada em enlace por vezes obsceno com interesses instalados na área do Estado. No fundo, quando Manuela Ferreira Leite falou da necessidade em «suspender a democracia por seis meses» não estava só a expressar um desejo. Desenhava sem saber o futuro do qual nos aproximamos. Precisamos, definitivamente, de mais esquerda.


por Miguel Cardina
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Segunda-feira, 27 de Junho de 2011
por Sérgio Lavos

É por esta, e por outras (muitas outras mais) que não faz sentido nenhum, neste momento, deixar de pensar numa alternativa de esquerda que exclua o PS, este PS tutelado por Mário Soares. O problema não está no ziguezague do fundador do partido - ainda nem há dois meses apoiava medidas para Portugal tão gravosas como as que Grécia tem sofrido; está na atitude, que no fundo é a essência do PS: quando governa, embarca num capitalismo corporativista vergonhoso, e apenas quando está na oposição se lembra do Marx a ganhar bicho na gaveta lá de casa. Com um PS assim, não! Obrigado.

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Quarta-feira, 18 de Maio de 2011
por Miguel Cardina

 

Tenho um amigo que gosta de lembrar um erro frequente da esquerda: o de considerar que a incapacidade em fazer valer os seus pontos de vista resulta da falta de profundidade dos debates que lhe são constitutivos. A verdade é que frequentemente os problemas da esquerda são de outra natureza: não tanto intelectuais quanto políticos. Nesses casos, mais do que um esforço decidido de repensamento e reconfiguração, o que lhe falta é força política para tornar as suas ideias hegemónicas. Claro que ambas as coisas não estão desligadas, mas a pulsão autocrítica, sendo fundamental, leva por vezes a processos de autoflagelação nem sempre construtivos. E mais: esquece que frequentemente já temos as boas soluções vislumbradas. Falta apenas a tal força política para aplicá-las.

 

Um exemplo claro nos tempos que correm é a proposta de renegociação da dívida. No debate com Francisco Louçã, José Sócrates chamou-lhe a promoção do “calote”. Sócrates é um homem que “honra os seus compromissos”, está bem de ver, e que deste modo faz de advogado dos credores contra um país que entrará numa espiral recessiva e que, mais tarde ou mais cedo, terá mesmo de renegociar, como se prepara para fazer a Grécia. Foi curioso por isso ver Ricardo Costa nos seus comentários ao debate dizer que a renegociação, “a médio prazo”, até faz muito sentido. Ou descobrir agora, via Joana Lopes, que a proposta vai conquistando almas honradas e insuspeitas, como Medeiros Ferreira.

 

E chegamos assim ao drama actual do país: quem tem as propostas certas não parece vir a ter força política para as implementar; quem aparece melhor colocado nas sondagens não tem a visão política necessária aos próximos tempos. Um drama, valha-nos isso, que pode ter alguma resolução nas urnas. Assim a população seja mais corajosa do que os políticos do "grande centro" ideológico que nos tem desgovernado.


por Miguel Cardina
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Quinta-feira, 7 de Abril de 2011
por Miguel Cardina

 

Um calor infernal invade o país. Há quem fale de uma normal e passageira antecipação do Verão. A mim parece-me já o FMI a fritar-nos em lume brando. O FMI não, que isso lembra ditaduras militares na América Latina, canções a preto e branco e expressões como «carestia de vida». Não, o que virá é o FEEF, que sendo um fundo e europeu remete-nos mais para auto-estradas, estufas no Alentejo e oportunidades de negócio para escritórios de advogados e empresas de consultoria. Ou então tanto faz o nome desde que se accionem os eufemismos: resgate, ajuda, auxílio, estabilização, assistência financeira.

 

Espera-nos um plano de austeridade que será caucionado pelos partidos que nos governam há décadas e que terá tão poucos matizes essenciais quanto maior for o apelo à inevitabilidade. E vai ser grande. É preciso rasurar as possibilidades de um outro caminho e omitir a injustiça dos cortes que se preparam: ao mesmo tempo que a banca paga menos IRC que o Sr. Reis da mercearia, perspectivam-se reduções nos salários, subsídios e pensões; ao mesmo tempo que as Parcerias Público-Privadas continuarão a alimentar clientelas económicas teme-se que um machado venha a pairar sobre a saúde e a educação públicas; ao mesmo tempo que o discurso político-económico entrará numa modorra monolítica, o país entrará em recessão. Mas também podemos ser um nadinha optimistas: ao mesmo tempo que a política austeritária e o discurso das inevitabilidades formarão um bloco coeso, crescerá a necessidade de uma alternativa.

 

Hoje é dia 7 de Abril e um calor infernal invade o país. Uma inglesa com as costas cor de camarão confessa ao seu parceiro: «what a nice weather». E ainda não viram nada.

 

Publicado também no blogue do Portugal Uncut


por Miguel Cardina
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Domingo, 20 de Fevereiro de 2011
por Miguel Cardina

Merecem reflexão algumas considerações surgidas após o anúncio da apresentação da moção de censura do Bloco de Esquerda. De facto, podemos levantar dúvidas sobre a oportunidade táctica e a forma como decorreu o processo interno e externo de apresentação da iniciativa. Podemos até achar – como há dias o Público afirmava em editorial e como argumentou ontem Elísio Estanque na mesma publicação – que o BE navega num limbo indeciso entre a vontade de ser um partido de poder e a tentação de ser um partido de protesto (se bem que neste caso me pareça de definir, antes de mais, o que entendemos por «poder» e por «protesto»). O que já se mostra incompreensível é a desilusão de alguns socialistas com a iniciativa bloquista, por um lado, e a catalogação da moção como «ridícula» por ter como destino provável a rejeição e a consequente manutenção de Sócrates no governo, por outro. Vamos então por partes.

 

A desilusão dos socialistas resulta, a meu ver, de uma caracterização equivocada daquilo que é o PS actualmente. Não penso que se possa caracterizá-lo tout court como social-democrata, logo, como o parceiro certo e inteiro numa coligação com uma esquerda que frequentemente se cataloga como «radical». Muitos sectores socialistas são-no, certamente, mas basta olhar para a geometria das preferências de diálogo parlamentar para se perceber que o PS há muito se afastou da matriz histórica da social-democracia. Compreendo a frustração: para algumas pessoas, o BE poderia ser uma hipótese de pôr o PS nos eixos da social-democracia. Mas esse é um combate que compete travar aos militantes socialistas nele interessados. Aqueles que esperavam do Bloco de Esquerda uma postura que facilitasse um «entendimento útil» com o PS deviam, antes de mais, começar por perguntar o que fez de concreto este partido para que pudesse haver convergências à esquerda. E já que se quer falar de entendimentos seria fundamental pensá-los com base em linhas políticas de fundo: sobre o estado social, sobre as políticas de emprego, sobre o combate à pobreza e às desigualdades, sobre a Europa, sobre uma ética na gestão dos bens públicos. O poder será resultado da capacidade de fazer compromissos em torno de debates como estes ou então não valerá a pena.

 

Em segundo lugar, as declarações do PSD já vieram mostrar que esta moção de censura será chumbada no hemiciclo. Tal não me parece justificar, porém, alguma adjectivação que sobre ela caiu de imediato. A política é mais do que a contabilidade das cabeças parlamentares e uma moção de censura pode perfeitamente ser a oportunidade de recusa de um caminho – recusa essa que ganha acrescida legitimidade se fizermos o exercício de comparar as práticas deste governo com o programa eleitoral com que se fez eleger – e a afirmação de um outro rumo que se considere mais sintonizado com as reais preocupações do país. Aliás, se uma moção apenas fosse válida caso tivesse condições para ser aprovada seríamos obrigados a considerar ridículas todas as moções apresentadas a executivos maioritários. E muitas das mais de vinte moções de censura já apresentadas desde 1979 foram-no nessa condição. O próprio José Sócrates foi alvo de quatro moções de censura na altura em que tinha maioria absoluta.

 

A política faz-se da afirmação de escolhas e o BE decidiu fazê-las agora. Podemos questionar o timing, mas quem se considera de esquerda facilmente concordará que são muitas as razões que dão sentido ao gesto. Ontem o PCP reforçou isso mesmo, anunciando o voto favorável à moção. A direita preferirá manter Sócrates no poder esperando que ele caia de podre. Incapaz de se desembaraçar do seu líder-eucalipto, o PS permanecerá agarrado aos destroços, fortemente inclinado ao centro e corroído por anos de poder. E o problema aqui não é o “poder”, claro está. É a urgência de entendê-lo como capaz de forjar políticas mais justas, mais decentes e, já agora, desobrigadas das promiscuidades que entrelaçam o campo político e o campo económico. Não é disso que falamos quando falamos de esquerda?

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por Miguel Cardina
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Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010
por Miguel Cardina

Afina-se o ouvido nesta estação do ano e descobrimos que existem muitos Vascos Pulidos Valentes em potência. Com menos talento literário mas com o mesmo discurso entre o "estou farto da piolheira" e "a culpa é dos políticos". Isto faz-nos lembrar que a função da esquerda nestes tempos também tem de ser pedagógica. Ou "sensata" e "defensiva", como escreveu Tony Judt no seu último livro. Porque, não obstante alguns pressupostos distintos, entre a social-democracia e o socialismo existe sobretudo uma diferença de intensidade. Na demissão dos social-democratas (que em Portugal estariam num partido dito "socialista") compete à restante esquerda defender as conquistas materiais trazidas pela social-democracia histórica. Pode não parecer, mas elas são um pozinho de socialismo numa sociedade cada vez menos solidária. O resto - fazer com que o socialismo não seja apenas um remake da social-democracia histórica - é importante e é preciso ir reinventando a cada momento, a cada proposta. A par da defesa dos serviços públicos é preciso coragem para elaborar desenhos fiscais que não deixem de fora sectores que acumulam lucros avultados (como os bancos, que pagam em média 5% de IRC). A par da defesa das políticas de solidariedade (subsídio de desemprego, rendimento social de inserção, pensões) é preciso clamar por uma mais justa repartição da riqueza. A par da defesa da legitimidade da democracia representativa é necessário pugnar pelo alargamento das esferas de participação. A questão dos tempos é que o retrocesso a que assistimos (e que tem condições para crescer) faz com que tenhamos de fazer as coisas exactamente assim: "a par". É que perder a batalha ideológica sobre a sensatez do "mínimo" trará tudo menos vitórias.

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por Miguel Cardina
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Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010
por Miguel Cardina

 

Tony Judt não é Nicolas Sarkozy. Por isso a leitura dos anos 60 que aparece em vários momentos do recomendável Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos não se confunde com o ódio que um dia Sarkozy destilou sobre 68 e os seus efeitos. Mas deixa aqui e ali um travo semelhante. Adepto da recuperação da ideia social-democrata, Judt fala dos anos 60 como um conservador. O capítulo dedicado à década no seu volumoso (e também muito recomendável) Pós-Guerra optava já pelo mesmo enfoque. E Judt não é caso único: Eric Hobsbawm também não nutre muita simpatia por esses tempos turbulentos. Na sua autobiografia, o reputado historiador marxista considera que os jovens de então procuravam sobretudo «emblemas para as suas lapelas privadas», que só por acaso coincidiram com os da esquerda mais radical.

 

Em traços grossos, Tony Judt olha para esses anos como uma antecâmara directa do triunfo do neo-liberalismo, da primazia do privado sobre o público, do fatalismo do fim da história. Para o historiador britânico, a época teria sido marcada pelo «subjectivismo do interesse e desejos privados», pela «rejeição do colectivismo» e pelo desprezo perante as questões relativas à justiça social. Daí a referência ao «legado irónico» da «esquerda egoísta» que usava o marxismo apenas como «tecto retórico». Convém desde já esclarecer que a panorâmica histórica que atravessa esta derradeira obra de Judt serve no essencial para sustentar as propostas contidas nas páginas finais – as melhores e mais incisivas – nas quais, simultaneamente, se elabora uma crítica do presente e se aponta um caminho político alternativo que passaria pela recuperação do legado social-democrata. Tony Judt defende a necessidade de uma social-democracia defensiva que resultaria de um projecto mínimo caracterizado como «a melhor solução possível nas actuais circunstâncias». Trata-se assim de resgatar a social-democracia histórica das suas reconfigurações do tipo «terceira via» e voltar a sintonizá-la com um padrão ético composto de justiça social e igualdade. Padrão ético, esse, que alimentara o New Deal e a construção do Estado-Providência, e que os anos 60 haviam interrompido. 


por Miguel Cardina
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Terça-feira, 3 de Junho de 2008
por Daniel Oliveira

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Quinta-feira, 29 de Maio de 2008
por Daniel Oliveira



O 25 de Abril e o 1º de Maio de 1974 ficaram para sempre associados ao imaginário da liberdade e da democracia. Continuam a ser uma referência e uma inspiração. Trinta e quatro anos volvidos, apesar do muito que Portugal mudou, o ambiente não é propriamente de festa. Novas e gritantes desigualdades, cerca de dois milhões de portugueses em risco de pobreza, aumento do desemprego e da precariedade, deficiências em serviços públicos essenciais, como na saúde e na educação. Os rendimentos dos 20 por cento que têm mais são sete vezes superiores aos dos 20 por cento que têm menos.

A corrupção e a promiscuidade entre diferentes poderes criaram no país um clima de suspeição que mina a confiança no Estado democrático.

Numa democracia moderna, os direitos políticos são inseparáveis dos direitos sociais. Se estes recuam, a democracia fica diminuída. O grande défice português é o défice social, um défice de confiança e de esperança.

O compromisso do 25 de Abril exige que se restaurem as metas sociais consagradas na Constituição da República. E exige também uma crescente cidadania contra a insegurança, contra as desigualdades, por mais e melhor democracia.

Não podemos, por outro lado, ignorar a persistência de uma política de agressão, bem como as repetidas violações do direito internacional e dos direitos humanos. Bagdad, Abu-Ghraib e Guantánamo são os novos símbolos da vergonha. Não se constrói a paz com a guerra. Nem se defende a democracia pondo em causa os seus princípios. E por isso, hoje como ontem, é preciso lutar pelos valores da Paz e pelos Direitos Humanos.

Não nos resignamos perante as dificuldades. Como escreveu Miguel Torga – “Temos nas nossas mãos / o terrível poder de recusar.” Mas também o poder de afirmar e de dar vida à democracia.
Os que nos juntamos neste apelo, vindos de sensibilidades e experiências diferentes, partilhamos os valores essenciais da esquerda em nome dessa exigência. É tempo de buscar os diálogos abertos e o sentido de responsabilidade democrática que têm de se impor contra o pensamento único, a injustiça e a desigualdade.

Manuel Alegre - deputado e escritor/Isabel Allegro Magalhães - professora universitária/José Soeiro deputado/Abílio Hernandez - professor universitário/Acácio Alferes - engenheiro/Albano Silva - professor/Albino Bárbara - funcionário público/Alexandre Azevedo Pinto - economista, docente universitário/Alfredo Assunção - general, militar de Abril/Alípio Melo - médico/Ana Aleixo - médica/Ana Luísa Amaral - escritora/António Manuel Ribeiro – músico/António Marçal - sindicalista/António Neto Brandão - advogado/António Nóvoa - professor universitário/António Travanca – professor universitário/Augusto Valente - major general, militar de Abril/Camilo Mortágua/Carlos Alegria – médico/Carlos Brito - ex-deputado/Carlos Cunha - engenheiro/Carlos Sá Furtado - professor universitário/Carolina Tito de Morais - médica/Carreira Marques - ex-autarca/Cipriano Justo - médico/Cláudio Torres - arqueólogo/David Ferreira - editor/Dinis Cortes - médico/Edmundo Pedro - ex-deputado/Eduardo Milheiro - empresário/Elísio Estanque - professor universitário/Ernesto Rodrigues - escritor/Eunice Castro - sindicalista/Fátima Grácio - dirigente associativa/Francisco Fanhais - músico e professor/Francisco Louçã - deputado/Francisco Simões - escultor/Helena Roseta - arquitecta, autarca/Henrique de Melo - empresário/João Correia - advogado/João Cutileiro - escultor/João Semedo - deputado e médico/João Teixeira Lopes - professor universitário/Joaquim Sarmento - advogado, ex-deputado/Jorge Bateira - professor universitário/Jorge Leite - professor universitário/Jorge Silva - médico/José Aranda da Silva - ex-Bastonário Farmacêuticos/José Emílio Viana - dirigente associativo/José Faria e Costa - professor universitário/José Leitão - advogado, ex-deputado/José Luís Cardoso - advogado, militar de Abril/José Manuel Mendes - escritor/José Manuel Pureza - professor universitário/José Neves - fundador do PS/José Reis - professor universitário/Luís Fazenda - deputado/Luís Moita - professor universitário/Luisa Feijó - tradutora/Mafalda Durão Ferreira - reformada da função pública/Manuel Correia Fernandes - arquitecto, professor universitário/Manuel Grilo - sindicalista/Manuel Sá Couto - professor/Manuela Júdice - bibliotecária/Manuela Neto - professora universitária/Margarida Lagarto - pintora/Maria do Rosário Gama - professora/Maria José Gama - dirigente associativa/Mariana Aiveca - sindicalista/Natércia Maia - professora/Nélson de Matos - editor/Nuno Cruz David - professor universitário/Pacman - músico/Paula Marques - produtora/Paulo Fidalgo - médico/Paulo Sucena - professor/Pio Abreu - psiquiatra/Richard Zimmler - escritor/Rui Mendes - actor/Teresa Mendes - reformada da função pública/Teresa Portugal - deputada/Ulisses Garrido - sindicalista/Valter Diogo - funcionário público aposentado/Vasco Pereira da Costa – escritor, director regional da cultura
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Quarta-feira, 28 de Maio de 2008
por Daniel Oliveira
No dia 3 de Junho, dirigentes do Bloco de Esquerda e "alegristas" participam num comício comum contra "o défice social". Não vale a pena fazer especulações delirantes a partir daqui. Mas vale a pena perceber o aviso. A esquerda à esquerda do PS está a crescer. E é por esse flanco que Sócrates vai perder a maioria absoluta.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira



A propósito da derrota eleitoral da Refundação Comunista italiana a revista de reflexão do Bloco, a Vírus, lançou um debate que começa com um texto meu (um desenvolvimento, que chega a Portugal, do post publicado aqui no Arrastão), continua com um texto do Jorge Costa, outro de Luís Fazenda, Carlos Santos e Victor Franco e termina com um de Ricardo Paes Mamede. A esquerda que quer aprender com os erros e os acertos, faz os debates que tem de fazer e não deixa a divergência política à porta das sedes partidárias. É por isso que me sinto bem onde estou.

A ler aqui (versão PDF) ou aqui (versão HTML).

por Daniel Oliveira
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Domingo, 25 de Maio de 2008
por Daniel Oliveira


A Zion Edições, editora online disponibiliza mensalmente a edição online da Monthly Review - edição portuguesa, com a tradução dos principais artigos da conceituada revista marxista norte-americana. Para além da Monthly Review, inicia-se também a publicação online da Shift, revista de pensamento crítico radical, que será oferecida a todos os assinantes e compradores da Monthly Review. Na campanha de lançamento o n.º 1 de cada uma das publicações está disponível para download gratuito.

Nesta primeira edição da Monthly Review pode ler "Estados Unidos da insegurança", uma entrevista com Noam Chomsky, "A crise alimentar mundial", de Fred Magdoff, "O colapso do subprime", de Karl Beitel e "Sweezy em perspectiva", de John Bellamy Foster.
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Terça-feira, 22 de Abril de 2008
por Daniel Oliveira


Morreu um homem de quem me habituei a discordar e que me habituei a respeitar. A sua longa e extraordinária vida, sempre em combate, vale mais do que qualquer homenagem. As muitas diferenças nas convicções não retiram um milímetro da admiração que lhe tinha. A esquerda perdeu um homem de coragem.

O funeral realiza-se quarta-feira às 13:30 no Cemitério do Alto São João.

por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 16 de Abril de 2008
por Daniel Oliveira
No âmbito dos encontros regulares realizados em parceria com o Instituto Franco-Português destinados a promover o debate sobre artigos do Le Monde diplomatique comuns à edição original francesa e à edição portuguesa, este mês propomos a discussão em torno do artigo de Rudi Ghedini «Difícil prova eleitoral para a Esquerda Arco-íris italiana» da edição de Abril. Poderá ler aqui um excerto deste artigo.

Sílvio Berlusconi acede pela terceira vez à presidência do Conselho em Itália. A necessária discussão sobre as alternativas na Europa reveste-se de enorme importância.

O debate contará com a presença de Goffredo Adinolfi, João de Almeida Santos e Miguel Portas e terá lugar na zona do bar do Instituto Franco-Português no dia 17 de Abril, quinta-feira, a partir das 21h30.

por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 15 de Abril de 2008
por Daniel Oliveira


É evidente que a hecatombe da Sinistra L'Arcobaleno nas últimas eleições em Itália tem muitas explicações. Mas não há volta a dar. Em 2006 a Refundação Comunista teve 5,8%. Agora, coligada aos Verdes, à Esquerda Democrática (uma cisão da DS) e ao Partido dos Comunistas Italianos (uma cisão da Refundação), consegue 3,1% (estes partidos separados conseguiram no total 10,2%). Perderam quase três milhões de votos.

O desaste é acentuado pela lei eleitoral italiana. A barreira nacional de 4% para a Câmara e a barreira regional de 8% para o Senado, assim como o favorecimento dos pequenos partidos que concorram em coligações maiores, leva a absurdos políticos. O Movimento para a Autonomia do Sul, com um terço dos votos da Sinistra L'Arcobaleno (apenas 1,1%), elege oito deputados e dois senadores. A coligação liderada pela Refundação não elege nenhum.

Não há ainda uma análise da transferência de votos. Parece evidente que a Sinistra L'Arcobaleno (Esquerda Arco-Íris,) perdeu muitos votos para a coligação entre o novo Partido Democrático (que juntou todo o centro-esquerda italiano), com a Itália dos Valores, do juiz Di Pietro.

Podem ser feita duas análises: a nova formação promovida pela Refundação foi vítima do voto útil de uma Itália polarizada em duas forças mais coesas do que o habitual ou foi punida pela sua participação num governo que pouco tinha a ver com ela. Suponho que, com uma descida tão acentuada, as duas serão verdadeiras. E temos de acrescentar uma terceira, talvez menos importante: concorreu com um símbolo novo e um novo nome, sem qualquer referência às suas componentes e ao seu líder histórico, ao contrário do que aconteceu com os restantes partidos e do que é hábito em Itália. Ainda assim, o efeito disto será marginal.

Com esta descida, é evidente que esta esquerda perdeu votos para todos: seguramente para a abstenção (que aumentou um pouco), muitos para o Partido Democrático e parece que também para o PdL, de Berlusconi, e até para a Liga Norte, do xenófobo Bossi.

A confirmação da primeira tese salta à vista: todos os partidos que concorreram fora das duas coligações foram punidos. A UdC (centristas democrata-cristãos), de Casini, apesar dos seus 5,6% para a Câmara, ficou muito longe do renascimento da outrora pujante democracia-cristão italiana. A lista do famoso Giuliano Ferrara, "Aborto, não Obrigado", ficou-se por uns miseráveis 0,4%. Pelo contrário, os maiores vencedores foram os partidos de segunda linha que se aliaram aos dois gigantes: Liga Norte (mais de 8%) e Itália dos Valores (4,3%). Ou seja, os italianos quiseram dar força a blocos de governo mas dentro deles premiaram as franjas.

Mas tem mais interesse analisar a segunda razão do desastre. Até porque o voto útil não chega para explicar tamanha humilhação. Mais: para o Senado, onde o voto útil teria ainda mais sentido (a barreira em cada região é de 8%, enquanto para a Câmara, a nível nacional, é de 4%), a Sinistra L'Arcobaleno tem praticamente a mesma votação. Até tem mais um pouco: 3,2%.

Mas a verdade é que a Refundação Comunista esteve num governo incaracterístico onde a sua agenda quase não pesou. Defendi aqui que, não sendo politicamente defensável a sua participação, ela era inevitável. Infelizmente na política as circunstâncias pesam. Seria melhor se a Refundação tivesse saído e feito cair o governo? Não sabemos. Mas pensemos nisto: o partido que fez cair o governo Prodi eclipsou-se nestas eleições.

O problema não é também o posicionamento ideológico da Refundação. A cisão mais à esquerda da Refundação, a Sinistra Critica (que curiosamente inclui no seu símbolo o símbolo do Bloco de Esquerda português), composta pelos ex-senador Luigi Malabarba, senador Franco Turigliatto, e deputados Salvatore Cannavò, Lidia Cirillo e Flavia D'Angeli, para onde podiam ter ido os votos de protesto, ficou-se pelos 0,46%. O protesto contra a escolha de Bertinoti tinha para onde ir. Não foi. Foi para lugares bem mais distantes.

A minha tese é outra e um pouco mais dramática. Alguns partidos cumprem hoje a função de tubo de escape do sistema. É para isso que parte dos seus eleitores os querem. E quando se aproximam do poder ficam apenas com o voto convicto, que é bem menor. O resto foge para outros pontos de protesto (aqui foi para a direita, que estava na oposição, e para a abstenção) ou para quem está convictamente no poder e beneficia da chantagem do voto útil. A ideia é que estes partidos cumprem um papel de fiscais, de forma de pressão. E não servem para mais.

Na realidade, os que, dentro dos respectivos partidos, reivindicam este papel e apenas têm como programa cumprir este papel até às ultimas consequências, julgando-se mais radicais que os restantes, não o são. Pelo contrário. Porque este é um papel perverso e sem futuro. Em vez de tentar mudar seja o que for serve de almofada para que tudo fique na mesma. Aliás, é por isso que estes partidos são muitas vezes punidos perante a pressão do voto útil. Quando alguma coisa está realmente em risco os eleitores debandam.

O caminho a seguir não é fácil. É construir programa, tentar ter efeitos práticos no destino da governação (seja no poder ou na oposição) e sofrer, quando assim tem que ser, as consequências dessa escolha. Até porque não há alternativa.

Claro que Itália não é o melhor exemplo para este debate. Itália tem Berlusconi e um sistema eleitoral surrealista. A Refundação não fez uma escolha. Não tinha escolha. Se suportasse este governo sem programa nem alma seria punida. Se não o apoiasse e entregasse o poder a Berlusconi também o seria. E o drama é exactamente este: ter partidos políticos a torcer para que nada dependa deles. Convenhamos que é pouco entusiasmante.

A pior notícia desta catástrofe é que ela apanhou a chamada "esquerda radical" num processo de transformação. A Sinistra L'Arcobaleno era uma experiência de alargamento, que incluia de comunistas mais "duros" até ecologistas mais moderados. Experimentada agora (talvez o momento tenha sido tacticamente errado), morre à nascença. Já morreu. E na Refundação começará a luta fratricida.

Os "duros" acham que este resultado prova a sua razão e acredito que até o celebrem. Reconheço que eleitoralmente é provável que tenham razão - apesar de valer a pena fazer uma análise mais fina - só não tiro daí as mesmas conclusões políticas. Porque do ponto de vista estratégico só podem levar a esquerda europeia para um beco. Porque não têm alternativa a não ser esperar sempre que tudo corra mal na vida das pessoas para crescer momentaneamente. E que o voto útil se encarregue de levar tudo quando estiver em causa quem governa. E que no meio nada dependa realmente deles para não terem de pagar esse preço. E isso não é vida para quem quer melhorar a sua vida e a dos outros. E com isso não se constrói nada nem se cresce para o futuro.

por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 31 de Março de 2008
por Daniel Oliveira
No Land alemão de Hesse, produziu-se uma aliança de governo entre o SPD (social-democrata) e o partido Die Linke («A Esquerda»; pós-comunistas e trotsquistas), enquanto há um governo SPD-CDU no país. (via Esquerda Republicana).

por Daniel Oliveira
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Sábado, 1 de Março de 2008
por Daniel Oliveira



«41,3% dos eleitores não querem ver reeditado o cenário de poder absoluto de um só partido. Maioria absoluta só em coligação. Os defensores da maioria absoluta pura e dura resumem-se a 13%. Um terço dos inquiridos (33%) não se importava mesmo que o próximo Governo fosse de maioria relativa.
Sondagem Expresso/SIC/Rádio Renascença/EurosondagemNa sondagem feita pelo "Expresso" a esmagadora maioria dos eleitores diz que preferia que o governo não tivesse maioria absoluta. E destes, a maioria preferia um governo de coligação. Entre outras leituras possíveis, tentemos ler isto como um recado para a esquerda vindo dos seus eleitores. Sem tirar daqui conclusões sobre o que o PCP, BE e PS deveriam fazer (uma coligação com Sócrates seria um absurdo político, quando os grandes argumentos contra este governo vêm justamente da sua esquerda), vale a pena reflectir, para lá das circunstâncias actuais, sobre um sentimento dominante numa grande parte do eleitorado de esquerda que nunca teve qualquer correspondência com as estratégias das direcções do PS do PCP e do Bloco. Muitos eleitores de esquerda gostavam que os partidos à esquerda do PS viessem um dia a assumir um papel de parceiro governativo ou pelo menos de força de pressão sobre os socialistas. Este sentimento existe em algum eleitorado do PCP e em muito eleitorado do PS e do BE. Mas a verdade é que, com o sectarismo do PCP, a cultura de contra-poder do Bloco e o centrismo patológico do PS é improvável que tal venha alguma vez a ser possível.

Não deixa de ser preocupante este divórcio entre a esquerda partidária e uma parte não negligenciável dos seus eleitores. A mesma que leva a que, para o Bloco, seja tão difícil ocupar um lugar que lhe seria natural: destino de grande parte do eleitorado descontente do PS, que dificilmente votaria PC e não vota à direita. O Bloco cresce em eleições e sondagens. Mas não passa a fasquia que assuste os socialistas e os obrigue a repensar a sua estratégia política. E era o único partido em condições para o fazer. Só que, para isso, o eleitorado socialista mais à esquerda precisava de acreditar que o BE quer mesmo um dia transformar os seus votos em poder. Nunca seria com Sócrates, todos sabemos e respiramos de alívio por isso. Mas o problema é que ainda é difícil acreditar que viesse a ser com alguém. E é isto que deixa a esquerda bloqueada enquanto projecto de poder e transformação política do país. E um dos principais objectivos do Bloco deveria ser desbloquea-la. Porque os eleitores de esquerda só se livrarão de líderes como Sócrates se acreditarem que pode aparecer, à esquerda de Sócrates, alguma alternativa.

por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008
por Daniel Oliveira
Escreve-se no "Mudar de Vida", um interessante projecto informativo de esquerda: «Em Portugal, desde Daniel Oliveira a Marcelo Rebelo de Sousa, o namoro com Obama é público e assumido. As suas palavras de “mudança” e “esperança” são agradáveis aos ouvidos. Mas quando nos dispomos a procurar as políticas mais substantivas e concretas, o discurso revela-se oco e a intenção preocupante.»

O exercício que vem depois é trivial: escolhem-se todas as posições em que se discorda de Obama para mostrar que entre Obama e o que temos a diferença não existe. Escolhe-se o Afeganistão para se esquecer o Iraque. Escolhe-se o voto de Obama quanto ao financiamento da guerra para esquecer a sua permanente oposição à guerra, quando entre democratas e republicanos se ouviam os urros de combate. Descobre-se que o Obama é contra um serviço de saúde universal esquecendo-se o ponto em que está o debate nos EUA e o salto político que esta campanha já significou nessa matéria. A conclusão quase inevitável do pequeno artigo está no título: «Barack Obama: Continuidade política debaixo de uma retórica de “mudança”». Ou seja, entre Obama e Bush a diferença é quase nula. No fundamental, vai tudo dar ao mesmo.

De facto, se não contar com as circunstâncias encontro sempre uma razão para não estar em lado algum. Nos EUA, em Portugal ou em qualquer ponto do planeta. Não defendo o voto útil. Mas sei que é inútil ficar de fora quando não há mais lado nenhum para ir. E nos EUA não há. Quando houve, quando Ralph Nader conseguiu a força política que depois desbaratou, foi por ele que estive. Até dei dinheiro ao gajo! Só que o desespero e frustração são hoje muito maiores e Nader não chega para tanto. Esse voto está a ir para Obama mesmo que Obama queira outra coisa. Claro que se alguém espera que os americanos votem num candidato que queira reduzir o poder dos EUA no Mundo está olhar para o povo e para o país errado. Isso caberá a outros povos, a outros eleitores de outros países.

As escolhas, por serem escolhas, são sempre um mal menor nas circunstâncias em que se fazem. Não se apoia o mal menor quando ele significa um recuo ou uma desistência. Quando isso significa baixar a fasquia quando ela pode ficar onde está ou até subir um pouco. É por isso que não acho que Sócrates seja uma alternativa ao que tivemos com Durão Barroso. De facto, por mais que nos esforcemos, será difícil encontrar alguma diferença programática. Mas pode dizer-se o mesmo em relação a Obama quando comparado com Bush? Querer que Obama vença é baixar a fasquia da exigência? É baixar a fasquia em relação a Bush filho? Em relação a Bill Clinton? Em relação a Bush pai? Em relação a Carter? Em relação a Reagan? Dizer que Obama é a continuidade do que temos é fazer uma grave confissão: tudo o que se disse sobre George W. Bush não era mais do que propaganda. Ele afinal não era pior do que os outros.

O jovem blogger Matthew Yglesias faz este exercício irónico, comparando a candidatura de Obama à de McCain (paralelos com Bush só mesmo o "Mudar de Vida" se atreve): «Afinal de contas não há um milésimo de diferença entre um candidato que promete cortes de impostos, passar os riscos de saúde para os indivíduos, uma revigoração da campanha bushista para dominar o Mundo através da força militar, uma abordagem pró-indústria aos temas ambientais e, do outro lado, um rival que promete uma socialização substancial dos riscos de saúde, uma diminuição em 80% nas emissões de dióxido de carbono e o fim da Guerra do Iraque (e do quadro de pensamento que levou a essa guerra!), ensino pré-escolar universal, etc. Claro, há também aquelas nomeações judiais - aborto, direitos gay, etc - e algumas miudezas sobre se a Agência Nacional de Segurança pode ou não ter poderes de espionagem irrestritos. Mas basicamente não passam dos mesmos dois clones das grandes empresas concorrendo com programas virtualmente idênticos.»

Ver o copo meio vazio ou meio cheio são duas opções possíveis e nenhuma delas condenável. No "Mudar de Vida" dão algumas boas razões para ser cuidadoso em relação a Obama. Não ignoro nenhuma delas. Mas ao não reconhecer nenhuma mudança no debate, nenhuma evolução no confronto político nos EUA e nenhuma diferença substancial nos programas (com omissões escandalosas), não se está apenas a ver o copo meio vazio: está-se a jurar, como se tornou hábito em alguma esquerda, que o copo nunca vai encher. Nem uma gota. Até um dia longínquo que ninguém consegue imaginar, está sempre tudo na mesma e na mesma tudo ficará.

E o que mais me perturba é o tratamento que é dado à "esperança": nada mais do que uma palavra agradável aos ouvidos. Nesta campanha "esperança" não é apenas uma palavra. Ela pode ser fundada ou infundada, mas é absolutamente real. Palpável, mesmo. Entre muitos americanos esta esperança é a maior que sentiram nas suas vidas políticas. E é de uma enorme cegueira passar sobre este facto com tanta ligeireza. É verdade que as coisas não mudam só porque as pessoas acreditam que vão mudar. Mas se as pessoas nunca acreditarem elas nunca mudarão. O primeiro passo para que exijam mudanças é terem esperança. Mesmo que os protagonistas lhes prometam mais do que vão dar. Neste ponto, há pouca diferença entre os deprimidos crónicos da esquerda e um Vasco Pulido Valente: ambos acham que está sempre tudo na mesma e nada de novo está realmente a acontecer.

Se de cada vez que uma coisa muda a única coisa que tivermos para dizer às pessoas é que tudo acabará inevitavelmente na mesma e que só quando tudo for como queremos é que alguma coisa de relevante está a acontecer não estaremos a dar razões de luta às pessoas. Estaremos a dar-lhes razões de desistência. E este é o pecado da esquerda: esqueceu-se do enorme poder político da esperança. Porquê? Porque ela própria a perdeu. O outro pecado é mais grave e incomoda-me mais: há alguma esquerda que não acredita no poder transformador do voto. Mas esse é outro debate. Limito-me, quanto a isto, a ser cauteloso: nunca lhes dou o meu. Temo que não mo devolvam ou que o tratem como se não fosse importante.
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por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007
por Daniel Oliveira



Ex-candidato a chanceler (em 1990), ex-lider do SPD (entre 1996 e 1999) e ministro das finanças do primeiro governo de Schröder, Oskar Lafontaine poderia ser descrito como uma espécie de Manuel Alegre alemão. Mas com duas grandes diferenças: tem ideias políticas claras e é consequente. Em 2005 abandonou o SPD e, com um grupo de sindicalistas, formou o WASG que por sua vez se coligou aos pós-comunistas do PDS criando o Die Linke. O Partido de Esquerda é, segundo as sondagens, a terceira força política da Alemanha. Uma experiência que devia fazer pensar a moribunda ala esquerda do PS. Porque seria isto impossível em Portugal? Talvez uma explicação: o PS não tem uma verdadeira base sindical. Essa é a sua originalidade: ao contrário dos seus congéneres europeus, não tem nenhuma tradição operária. E isso ajuda a perceber como pode existir um Sócrates quase sem oposição interna. Mas também vale a pena olhar para o sectarismo reinante no resto da esquerda (feridas do PREC?) para compreender o bloqueio em que nos encontramos. Voltando à Alemanha, vale a pena ler esta entrevista a Lafontaine (via 5 Dias). No "Público". O de Espanha, claro. Onde há pluralismo nos diários de referência.


por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007
por Daniel Oliveira
«Quem não tem respeito pela nobre autoridade da honradez militarista não diz que sicrano se “rendeu”. Quem não se dá bem com a autoridade política do dogmatismo doutrinário não diz que as posições de beltrano se “desviam”. Quem não gosta da autoridade biologicizante dos purismos genéticos não diz que as leituras daquele estão “contaminadas”. Quem não aceita a autoridade científica que faz da história uma cadeia de mecanismos não diz que o partido tomado por aqueloutro conduz “objectivamente” a isto ou aquilo. Quem não quer usufruir da autoridade do paternalista não diz que há ideias "ingénuas" e que alguém pensa assim ou assado porque tem menos de 30 anos de idade. Quem não precisa de autoridade psiquiátrica não diz que o outro está “desligado da realidade”.»
Zé Neves
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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007
por Daniel Oliveira


Tal como ameacei, entro no debate de que aqui falei. Começa a ficar cansativo, mas mais uma vez ficarei no meio. E o meio é lugar onde me sinto pouco confortável. Mas adiante.

A defesa dos serviços públicos não dispensa a crítica às políticas de Estado e à falta de democracia e de qualidade na gestão dos serviços públicos. Faz sentido defender o SNS, como faz sentido defender a Escola Pública ou a Segurança Social. Mas, pegando nos dois últimos exemplos, isso implica ser critico em relação ao autismo da escola e encontrar alternativas para o financiamento da segurança social. A “defesa das conquistas” não chega, porque ficar por aí é o primeiro passo para as perder.

É programa da esquerda garantir a apropriação democrática dos serviços públicos do Estado. E nesta matéria quase só vejo resistências. Quando defendo a autonomia curricular e administrativa das escolas recebo sempre comentários irados de professores e sindicalistas porque supostamente estou a fazer o jogo da direita. Ora, eu acho que estou a fazer exactamente o contrário: a devolver ao público o que é do público.

A dicotomia esquerda/direita não é entre mais e menos Estado. O debate é outro: é Estado para quê e para quem. Para regular e conter os conflitos sociais ou para democratizar a distribuição de recursos?

Neste sentido, o Zé Neves tem razão. Se nos limitarmos a defender mais Estado ficamos reféns da resistência e limitamos o que podemos conquistar. «A luta não só exige que encaremos as causas de desconfiança no público provocáveis pela concorrência feita pelo privado e pelas ideias neoliberais, como também exige que debatamos em que medida a própria ideia de propriedade estatal constrange a experiência do público.» Subscrevo.

Descendo à terra. Há uma diferença entre serviços do Estado e serviços públicos. Nem todos os serviços do Estado são na realidade serviços públicos e nem todos os serviços públicos são do Estado. A esquerda tem de regressar à construção de experiências de serviços comuns, públicos, para lá do Estado. Até porque quase tudo o que é hoje serviço do Estado já tinha passado por experiências comunitárias antes de chegar ao Estado. Ao contrário do João Rodrigues lembro-me de vários exemplos em que o Estado não foi apenas dispensado, foi mesmo à sua revelia que foram construídos. Um exemplo talvez demasiado simples: as mutualistas foram a ante-câmara da segurança social. Eram serviços públicos, não eram serviços do Estado. Há imensas experiências comunitárias feitas sem o Estado. Fazer depender do Estado tudo o que se possa fazer é ficar refém das condições políticas de cada momento.

Outra coisa bem diferente é querer jogar à bola na bancada quando o jogo que conta está no relvado. A defesa das funções sociais do Estado é do pouco que nos resta e está em risco. Desisitr delas a bem de qualquer coisa que não existe ou que é absolutamente marginal é puro suicídio.

Ao contrário Rick Dangerous, do Spectum, acho muitíssimo importante «o terreno da soberania do Estado moderno, legitimada pelo sufrágio e reforçada por uma mais ampla “participação”». Por uma razão que está na frase: é a única legitimada democraticamente. Ao Estado Democrático só conheço duas alternativas (e eu tenho este vício de discutir política com base no que existe): o poder económico desregulado ou as ditaduras “esclarecidas”. A posição da cultura da extrema-esquerda é, na prática, igual à posição da esquerda rendida. A segunda limita-se a dizer que quer conter os danos (sem nunca o fazer), atirando a justiça social para um passado longínquo e futuro improvável. Assim aliena tudo em beneficio do poder. A primeira limita-se a dizer que como está não é possível melhor atirando a justiça social para um futuro longínquo e mais do que improvável. Aliena tudo em beneficio da pureza.

Diz o Rick Dangerous: «Ao passo que pessoas de “esquerda” podem perfeitamente debater com um liberal o grau de intervenção do Estado na economia, ou o carácter democrático ou não do Estado Venezuelano, os interlocutores tendem a rarear quando se assume como objectivo fundamental eliminar o Estado e se escolhem estratégias e posicionamentos com base nesse objectivo.» Porque será? Talvez por uma razão simples: só fazemos as perguntas a que podemos responder e só temos os debates que valem a pena ser feitos. Quando a destruição das funções sociais do Estado é a principal agenda da direita seria no mínimo estranho que a esquerda desse uma ajudinha para que o trabalho sujo fosse feito mais depressa. Nem vale a pena dizer que o se quer é diferente. Lamentavelmente, entre o que queremos e o que acontece entrepõe-se uma trágica realidade: uma determinada correlação de forças. Mas mesmo que fosse possível, fica a pergunta: em troca de quê? Para ir para onde? Para fazer o quê? Se não houver resposta clara a estas perguntas (porque tudo é imponderável) o provável é que se andem a dedicar às discussões erradas. Em momentos de derrota procuram-se vitórias, não becos sem saída.

Só que o João Rodrigues não se limita a perceber a centralidade do papel do Estado no debate político. O João fica entrincheirado no Estado. Ora, como o Estado que conhecemos é uma entidade nacional, o João acaba por se entrincheirar na própria ideia de Nação. Seria ideologicamente errado, mas isso é o menos. É inútil. Neste momento, quase todo o poder (mesmo que as pessoas não tenham ainda essa percepção clara) e os conflitos não têm fronteiras e em relação a eles o Estado pouco pode. Um interessante combate da esquerda, hoje, se fosse possível (estamos só a escrever em blogues) deveria ser, por exemplo, ajudar à construção de um movimento sindical forte na China. Faria mais por nós do que milhares de manifestações no Terreiro do Paço.

Ao se entrincheirar no Estado e por isso na Nação o João só pode chegar a uma solução contra a perda de direitos sociais por competição com as economias emergentes: o proteccionismo económico. Além de tal ser inviável seria criminoso. Basicamente, estaríamos a condenar a maior parte do Mundo à miséria, como aliás o estamos a fazer com África. Porque tal solução não está ao alcance dos países mais pobres e o proteccionismo seria sempre assimétrico.

A defesa do papel do Estado é fundamental por uma razão prática (é o que temos) e de princípio (é a única instância legitimada democracticamente). Mas quem julga que ele chega estará a contar com uma fisga para abater a bomba atómica.

Resumindo, de uma forma talvez mais arrogante do que queria: alguma esquerda está demasiado atrás, achando que não se afoga se se agarrar a uma bolinha de esferovite. Outra está demasiado à frente, julgando que por querer tudo, tudo passa a ser possível e assim somando derrotas e acabando a depositar deprimentes esperanças revolucionárias em putos de cara tapada a mandar pedras à bófia.

As minhas respostas? Gostava de as ter. Sou apenas um "melhorista". Resistir activamente em defesa do papel social e económico do Estado (uma resistência que não seja apenas retórica mas que passe pela reinvenção dos serviços públicos do Estado); construção de experiências comunitárias que provem no terreno que o que defendemos é exequível; e uma esquerda globalizada e não anti-globalização. Sou pessimista. Mas gostava de não estar derrotado à partida.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Vale a pena acompanhar o debate entre Zé Neves, Rick Dangerous, João Rodrigues e Renato Carmo. Talvez ainda me atire para o moche. Ou talvez não, que a coisa já vai adiantada. O debate tem ramificações de links em que um gajo se perde. Alguém que se dê ao trabalho de fazer a cronologia, que eu não consigo. A discussão é mais ou menos sobre o Estado e a democracia. Coisa pouca, como vêem. Daquelas em que é difícil entrar em andamento. Mas vale a pena.

Já agora, parabéns ao Miguel Madeira pelos dois anos do Vento Sueste, que aqui destaquei há umas semanas como blogue da semana.

O Miguel teve a simpatia de fazer uma cronologia do debate. Dos dois debates, para ser mais preciso. Usei-a andando ainda um pouco mais para trás. Aliás, foi assim que descobri que um deles começou a partir da minha discussão com o Zé Neves e com o Pedro Magalhães sobre a Venezuela. Isto de facto é como as cerejas. A outra começou com um texto de Isabel do Carmo sobre o Serviço Nacional de Saúde no Le Monde Diplomatique.



Cá vai:
Uma Esquerda sem Heróis (Zero de Conduta)
Democracia e fractura (Arrastão)
Matámos os heróis, tudo bem. Mas e os líderes, deixamo-los andar por aí? (Zero de Conduta)
Chávez não é a minha via (Peão)
A Democracia, Tipologia de uma História? (Zero de Conduta)
Idealizar a democracia? Vamos a isso! (Peão)
Os Assessores do Ministério (Zero de Conduta)

O outro:
A quem serve o «bota-abaixo» do Serviço Nacional de Saúde (Isabel do Carmo)
Um bom debate (Ladrões de Bicicletas)
O Privado, o Público e o Comum (Zero de Conduta)
Bens Comuns (Ladrões de Bicicletas)
O outro movimento operário (Spectrum)
O outro debate político (Zero de Conduta)
Debate? (Peão)
Será o debate exequível? (Peão)
O post mais longo da história do ZdC, na esperança de notícias sobre uma greve geral que vai de Pequim até ao Vale do Ave (Zero de Conduta)

Agora vou tentar ler isto e se no fim ainda tiver tempo e alguma coisa para dizer talvez me junte à confusão

por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007
por Daniel Oliveira
O Tiago Mendes saiu do blogue Atlântico (leiam os oito posts de despedida do Tiago). André Azevedo Alves fará parte do Conselho Executivo da revista Atlântico. Para as pessoas de esquerda quem lêem os dois, que não têm grande vontade de debater com o "lado de lá" e que preferem divertir-se à conta da patusca, salazarenta e beata direita nacional, não pode deixar de ser uma excelente notícia. Não é o meu caso. Não se trata de escolher a "boa" e a "má" direita. Trata-se de não me apetecer ficar os próximos cinquenta anos a discutir o que já discutimos nos últimos cinquenta.

Dizem-me algumas pessoas que a minha manifestação de simpatia pelo Tiago só o desajuda. Acredito que sim. Mas estou-me nas tintas e suponho que ele também estará. Encontrei-me com o Tiago (e com o Pedro Marques Lopes, o Vasco Rato, o CAA ou a Helena Matos) no combate pela despenalização do aborto. Fiz até alguns amigos. Em muitas coisas (as que realmente contam para os próximos anos) não podíamos estar mais distantes. Noutras, menos, estamos próximos. E quem acha isto estranho ainda não percebeu que a política não é um jogo de futebol. Se a direita nunca mudar a esquerda poderá ficar, para sua desgraça, sempre na mesma. E vice-versa. Os teus ditadores, os meus ditadores, as tuas incoerências, as minhas incoerências, os teus fanáticos, os meus fanáticos, a tua violência, a minha violência, os teus esqueletos, os meus esqueletos...

por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007
por Daniel Oliveira
Vitalino Canas: o PS está tão à esquerda quanto possível.

por Daniel Oliveira
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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2007
por Daniel Oliveira
Em conversa telefónica com o André Belo sobre a situação da luta estudantil em França fiquei a saber que a coisa estão mal. Não conheço em pormenor a situação e por isso pedi-lhe um texto. O André é professor em Rennes, uma das universidades mais agitadas nestes dias. Aqui vai o seu relato, que também publicou no seu blogue, o Peão.


Imagem escolhida por mim e roubada sem vergonha ao Ainda Não Está Escuro, de Samuel Úria. É de sua autoria.


A actual contestação estudantil em França tem, como em anos anteriores, uma causa próxima e depois, por trás, um sentimento difuso de angústia e de apreensão em relação ao futuro. O descontentamento vem, assim, em vagas cíclicas, e por razões mais do que justificadas: as universidades francesas são a face massificada e degradada de um sistema de ensino superior que, como noutros planos da gestão da coisa pública neste país, é suposto produzir igualdade e acaba por produzir desigualdade. Os estudantes são os primeiros a senti-lo e, de tempos a tempos, explodem de indignação.

A causa próxima da contestação actual é uma nova lei sobre a gestão das universidades, à qual se tem chamado, talvez impropriamente, lei da autonomia universitária. Em boa medida, a autonomia agora aprovada consiste, em termos de gestão, num reforço dos poderes do presidente da universidade; em termos de financiamento, a universidade dependerá de contratos-programa assinados com o Estado e necessitará cada vez mais de recorrer a receitas próprias. Uma lei tão importante foi aprovada — à boa maneira Sarkozysta — em plenas férias de Verão. Houve umas negociações a correr com os reitores e com os sindicatos estudantis, umas cedências aqui e ali — e ala com a lei.

Dito isto, a primeira coisa que me chateia no movimento universitário actual é os estudantes serem contra a nova lei sem dizerem que o que é preciso é mais autonomia universitária ou um outro tipo de autonomia diferente desta. E que o que é preciso são garantias claras de que o Estado não vai deixar afundar, ao abrir o leque dos financiamentos universitários, os cursos de letras e de ciências sociais, como está a acontecer, e não só em França, mas em todo o espaço europeu.

(Dito isto, devo acrescentar que os professores universitários — nos quais me incluo — deviam estar na primeira linha deste combate que aqui reivindico. E não estão. Embora, neste momento, essa luta se tenha tornado impossível)

A segunda coisa que me chateia é que a luta se faz essencialmente, tal como já tinha acontecido na grande contestação anti-CPE de 2006, através de bloqueios da universidade. Os alunos, que já têm enormes carências de base e semestres incrivelmente curtos, ficam várias semanas sem aulas. A actividade académica — colóquios, seminários — fica muito perturbada ou totalmente paralisada. E um lugar que é, ou deve ser, um lugar de vida e de inteligência fica fechado, bloqueado, abandonado. Há poucas coisas mais tristes do que, num outono triste, ver uma universidade fechada. Os que fazem e defendem o bloqueio dizem-me que esta é a única maneira eficaz de luta, como se viu pela de 2006. Eu tenho as minhas dúvidas. Mas, de qualquer modo, não concordo com o método e nunca aderiria a uma luta que se mede só pela eficácia.

A terceira, e principal coisa — e fundamental, e trágica — é a seguinte: os métodos da contestação actual são, demasiadas vezes, anti-democráticos e violentos. Para me referir ao caso da universidade onde ensino — a universidade de Ciências Humanas de Rennes —, a maioria dos estudantes declarou de forma clara, por via de um referendo legítimo, a sua oposição ao bloqueio. Durante dois dias ele foi levantado, para recomeçar, pela força, na segunda-feira seguinte. Os elementos mais activos do movimento de bloqueio da universidade de Rennes — uma parte dos quais não são estudantes — deram, além desta, várias provas despudoradas de desrespeito pela vontade da maioria. No seu discurso, aliás, aflora de forma explícita e muito inquietante o repúdio pela democracia — a mesma que, numa amálgama terrível, acusam de ter eleito Sarkozy.

(suspeito que uma das consequências da eleição de Maio passado tenha sido fazer passar uma franja da extrema esquerda para o horizonte da acção directa. Dizem lutar contra o sistema, mas a única coisa que estão a conquistar, neste momento, são umas instalações destinadas ao ensino de matérias tão relevantes para o Capitalismo mundial como História, Literatura e Línguas Estrangeiras)

Em Rennes, os bloqueadores ocuparam um dos edifícios da universidade e usam de intimidação sistemática em relação aos funcionários que lá trabalham. A presidência está a tentar, com dificuldade extrema e sem garantias de sucesso, levantar o bloqueio sem intervenção policial (que já ocorreu uma vez, na semana passada). Assim, a universidade, que já tinha sido alvo do mais longo bloqueio da contestação anti-CPE, vive talvez a maior crise da sua história. Por efeito da escassez de recursos e da concorrência real que existe entre as universidades de Letras pelo financiamento estatal, esta paralisação da actividade da instituição reflecte-se, nos anos seguintes, em perda de alunos, de lugares para professores e de receitas. Rennes é talvez um caso extremo, mas não é caso único.

É de uma ironia trágica que um movimento que se diz contra a precarização a prazo do ensino e das relações laborais contribua, pela sua própria acção, para a precarização imediata do ensino e das condições de trabalho.

P.S. No meio disto, a maioria dos alunos da universidade mantém uma assinalável lucidez. São pragmáticos e, apesar de desorganizados, não gostam de ser manipulados nem tomados por parvos. Mas sentem-se, compreensivelmente, abandonados. Hoje, os estudantes votam mais uma vez por via electrónica. Na segunda-feira, vamos tentar voltar a levantar o bloqueio, e há alguma esperança de recomeço de normalização.
André Belo

por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 12 de Novembro de 2007
por Daniel Oliveira


Dito o que tinha para dizer sobre a atitude do Rei Juan Carlos, falta falar da atitude de Chavez: é, para além de outras coisas talvez mais relevantes, a sua tendência para se centrar no acessório, para substituir o programa político pelo insulto vazio e para transformar todos os palcos em que pisa numa arena de circo que fazem dele uma personagem burlesca e inútil para quem queira encontrar novos caminhos para a esquerda. Se não acho admissível que seja um rei a manda-lo calar (espero que um dia o façam os venezuelanos, os únicos que têm autoridade para tanto), não podemos deixar de dizer que Chavez está a transformar a esquerda internacional numa palhaçada. Depois da tragédia revolucionária, a história repete-se em farsa. É por isso que ele é o centro do debate internacional. É mais fácil viver com caricaturas. Nós sabemos. Eles têm o seu pateta perigoso. Chama-se George Bush. E o jeito que nos tem dado que a direita o defenda com tanto empenho. Não façamos a mesma figura.

*Uma palavra que adoro e que nunca foi muito popular.

por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007
por Daniel Oliveira
A cedência ao eleitoralismo e a desistência do centro-esquerda italiano bateu no fundo. A propósito da lei de extradição proposta pelo governo de esquerda italiano a pensar nos romenos, cuja aplicação a Comissão Europeia já avisou que vai verificar atentamente, que está a causar revolta na Refundação Comunista e mesmo nos deputados da antiga DS e que conta com o apoio entusiasmado da direita e da extrema-direita, o director do jornal "il Manifesto" escreveu: «é preferível o retorno de Berlusconi à berlusconização de nós próprios». Defendi aqui a permanência da Refundação no governo. Mas é evidente que, como em tudo na vida, há fronteiras que a ética não pode passar.

por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 6 de Novembro de 2007
por Daniel Oliveira
Perante um caso de violação e assassinato por um cigano romeno, em Roma, o governo italiano reuniu-se de emergência, o líder do recém criado Partido Democrático, Walter Veltroni, contactou o presidente da república romena e, com Romano Prodi, apresentou um decreto lei para o repatriamento expedito de cidadãos comunitários que cometam crimes. Ou seja, para reagir politicamente a um crime de um particular (o que já é uma asneira) avançam-se com medidas a pensar em todo um grupo e manda-se a cidadania europeia para as urtigas.

por Daniel Oliveira
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