Clint Eastwood perde todo o meu respeito. Restam os filmes e a admiração pelo homem que os fez. Este que aparece na convenção republicana é um outro.
"I am a very foolish fond old man, Fourscore and upward, not an hour more nor less; And, to deal plainly, I fear I am not in my perfect mind." - King Lear
Uma semana depois de Nicolas Sarkozy ter endurecido o discurso anti-imigração, adoptando algumas das bandeiras da Frente Nacional, acontece o crime de Toulouse. E recorde-se, o presumível autor destes crimes contra judeus será o mesmo que matou três militares magrebinos durante a semana passada. As palavras de Sarkozy - uma "tragédia terrível", um "drama abominável" - estão prenhes de uma extraordinária hipocrisia. Quando é o próprio presidente a veicular um discurso de ódio e de desconfiança em relação aos estrangeiros, surpreendente seria que não aparecessem extremistas - e por favor não chamem lunáticos a esta gente, que eles sabem muito bem o que estão a fazer - a pôr em prática o que as palavras dos políticos deixam subentendido. Fracos líderes fazem fraco povo. Sarkozy é o exemplo claro disto.
Até agora, apenas uma reacção nos principais blogues de direita ao duplo atentado na Noruega. Francisco Mendes da Silva sente-se satisfeito pela justiça não ir ser atrapalhada pelo "arrependimento antropológico ocidental". Não percebo muito bem o alcance da expressão, e provavelmente é melhor que não perceba, tão perto ela está de algumas ideias expressas em fórums neonazis e no testamento espiritual do terrorista norueguês. Mas percebo que ele se sinta satisfeito por a justiça poder actuar liberta de tais constrangimentos. Curiosamente, o tal "arrependimento antropológico ocidental" não tem impedido, desde o 9/11, que cada célula islâmica suspeita tenha sido vigiada e quase sempre desmantelada pelos eficazes serviços secretos dos países ocidentais. Bom trabalho, no que diz respeito ao terrorismo praticado pelos suspeitos do costume, os muçulmanos. Mas pelos vistos, têm-se esquecido de cultivar o mesmo zelo preventivo em relação aos grupos de extrema-direita que têm crescido exponencialmente nos últimos 10 anos. Eu, para além de ficar contente pela justiça poder agora funcionar liberta do "arrependimento antropológico ocidental" (como se até agora não tivesse conseguido julgar os suspeitos de conspiração terrorista por causa desses constragimentos - mas imagino que o escriba do 31 da Armada nunca tenha ouvido falar em Guantanamo), não fico nada contente por, até agora, estes grupos de enlouquecidos delinquentes, racistas e xenófobos, não terem sido devidamente controlados. Como não fico nada satisfeito por se aceitar tão alegremente que líderes europeus como Sarkozy, Merkel ou Berlusconi partilhem demasiadas vezes o discurso xenófobo com os grupos de extrema-direita. Talvez seja mesmo a hora de mudar de atitude, acabar com a benevolência com que temos olhado para o crescimento destas ideias políticas na Europa. O maior perigo pode não vir de fora, mas estar a germinar cá dentro. E não há qualquer "arrependimento antropológico ocidental" que nos impeça de actuar. O mais rapidamente possível.
Quando os nazis levaram os comunistas, não protestei, porque, afinal, eu não era comunista. Quando levaram os social-democratas, não protestei, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando levaram os sindicalistas, não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando me levaram a mim, já não havia ninguém que protestasse.
A julgar pelos comentários que encharcam este post, as palavras de Martin Niemöller, pastor protestante alemão que se opôs ao regime nazi (palavras que costumam ser atribuídas a Bertolt Brecht) ainda terão razão de ser. A preocupação neste caso sobrepõe-se à precaução que me diz que aqueles que insultam o fazem apenas por ignorância ou medo do que não conhecem. Precaução também porque sei que estas minorias são sempre ruidosas, gostam de exibir o preconceito e a intolerância como quem exibe uma bela farpela domingueira, esburacada e rançosa. E mais uma história edificante, para quem ainda queira aprender alguma coisa (e estão à vontade para me chamar paternalista), deixada pelo comentador dedo político:
“Conotações pejorativas (que matam!)
O ‘dedopolitico’ conheceu, em determinada altura da sua vida, um ‘cidadão de nacionalidade portuguesa’ que, emigrado em França disposto a trabalhar em tudo o que lhe aparecesse para melhorar as suas condições de vida (e a da sua família), lhe disse, que o que mais lhe custou no inicio desse tempo, não foi, a falta de dinheiro, a fome, ou as más condições em que vivia, mas sim, quando ia à escola buscar os seus filhos, ter de ouvir os autóctones a dizer-lhes: “Portugais? Sale race”!*
* Portugueses? Raça suja! (tradução livre) “
Agora, venham de lá essas pedras.
(A citação de Niemöller, devo-a ao Miguel Serras Pereira).
Segundo o Sol, por terem sido marcadas audiências no tribunal para depois da data limite para a prisão preventiva de Mário Machado, este saiu hoje da prisão. A libertação acontece assim antes do prazo limite. Mário Machado fica proibido de se ausentar da freguesia da residência. Se é a lei que se está a cumprir, que se cumpra. Nenhum comentário a fazer.
O fascista recauchutado Gianni Alemanno, da Aliança Nacional, venceu as eleições para a Câmara Municipal de Roma. Alemanno foi secretário-geral da juventude do partido neo-fascista Movimento Social Italiano (MSI) de 1988 a 1991 e baseou a sua campanha na exploração de episódios de insegurança.
Para quem me acusa de ter dois pesos e duas medidas, aqui fica um vídeo prenhe de compreensão e sensibilidade social. Sejamos solidários com as enormes dificuldades de integração dos nossos jovens nazis.
O Arrastão fecha este fim-de-semana. Estarei nessa vasta e estimulante Nação que dá pelo nome de Luxemburgo. Só volto no domingo.
Começou hoje o julgamento de 35 pessoas que, escondidas por de trás de organizações políticas, se dedicam à criminalidade comum, às ameaças, às perseguições e aos espancamentos. Que usando uma capa ideológica amedrontam, através da violência física, os que se lhe oponham. E mesmo os que, nem sabendo quem eles são, nasceram com a cor que eles consideram errada. O facto de usarem uma ideologia de ódio para justificarem a ilegalidade e alimentarem um clima de medo não é uma atenuante. É uma agravante. Porque torna a criminalidade conscientes e organizada. E por isso mais perigosa. Nos últimos 20 anos, a extrema-direita violenta já matou duas vezes em Portugal, numa delas com o envolvimento do principal réu neste processo. Vamos esperar por uma terceira?
Só por ignorância absoluta em relação ao processo de Mário Machado pode Marinho Pinto dizer que este senhor está preso exclusivamente por defender as posições que defende. Como assistente no processo, e não podendo falar muito dele, considero inaceitáveis as declarações do bastonário da Ordem dos Advogados, que, nas vésperas do início do julgamento, se transforma em advogado de defesa, fazendo declarações que são objectivamente falsas. Falsas, pelo menos em relação à parte do processo em que estou envolvido. A queixa que apresentei contra este cidadão e que está incluída no processo nada teve a ver com as suas posições políticas. Rigorosamente nada. A não ser que o bastonário considere que ameaçar de morte quem discorde de nós é o exercício legítimo do direito fundamental da liberdade de expressão. Seria uma visão original do Estado de Direito e das liberdades e garantias, em que quem quer calar pela força os demais se transforma em vítima.
A uns dias de um processo começar pede-se a um bastonário que pelo menos se dê ao trabalho de recolher alguma informação sobre os processos sobre os quais, vá-se lá saber porquê, resolve falar. As suas responsabilidades assim o exigiriam. Confesso que, conhecendo o processo (e não apenas a parte que me diz respeito), ainda estou atónito com o que ouvi. Ver o bastonário da Ordem dos Advogados transformar em mártir político o homem que, na rua, em pleno dia, me ameaçou de morte se eu exercesse a liberdade de expressão que todos conquistámos há 34 anos. Ver o Bastonário da Ordem dos Advogados transformado em advogado de facto de um processo que desconhece. Ver um Bastonário a vender à comunicação social toda a argumentação da defesa, sem lhe mudar uma vírgula, e a fazer de sua relações públicas, a uma semana de um julgamento. É inacreditável. Confesso que quando me contaram julguei que fosse uma partida de 1 de Abril. Tive de ver com os meus olhos e ouvir com os meus ouvidos...
Confesso que hesitei se postava ou não este vídeo. Em princípio, não publico aqui propaganda de extrema-direita. Defendo a liberdade de expressão que o senhor Geert Wilders, um deputado da extrema-direita holandesa (sobre o qual já tinha escrito no Expresso), não aceita para os outros (propondo que o Corão seja proibido na Holanda). Defendo que o homem tem direito à palavra. Não obrigatoriamente no meu blogue, claro. Mas ver este vídeo pode ser muito elucidativo do que é e a quem serve a islamofobia. Posto aqui este inenarrável vídeo de propaganda racista, onde se misturam imagens chocantes, frases soltas e declarações incendiárias não identificadas. No vídeo quase amador, mas que foi divulgado hoje e já corre o mundo, o deputado não hesita em mostrar a imagem de um decapitado, que as televisões, por respeito à sua família, não exibiram.
Quem daria crédito a frases assim retiradas da Bíblia ou da Tora? E não faltaria por onde pegar em textos que lidos literalmente e sem contexto histórico só podem dar disparate. Ninguém decente. Mas a ignorância é sempre amiga do racismo. E a táctica do racismo é sempre a mesma: colar a todo um povo e a toda uma cultura os crimes de alguns para pôr o medo a render poder.
Geert Wilders não quer saber nada sobre o Islão ou sobre o Mundo muçulmano. Wilders nem sequer nos quer dar uma imagem do fundamentalismo islâmico. Geert Wilders quer nos dizer que o Islão é, ele mesmo, criminoso. Quer chafurdar no medo e assim ganhar poder. Exactamente como os nazis queriam explicar ao povo que os judeus eram culpados de tudo o que de mal lhes acontecia.
Nada distingue o senhor Wilders dos pais da criança que, no vídeo, repete que os judeus são uns porcos. São feitos da mesma massa estúpida e ignorante que nos levou, ao longo da história, para todas as tragédias. Uma diferença: Wilders é deputado e sabe muito bem porque faz o que faz e porque diz o que diz.
O que aqui vemos não é assim tão diferente da propaganda que o anti-semitismo espalhou e espalha sobre os judeus e a sua história. Nem da propaganda que radicais muçulmanos (mesmo os que não optam pelo terrosimo) espalham sobre os judeus e os ocidentais. Geert Wilders faz parte dessa velha família de incendiários, que na sede de poder espalha o medo do outro e ódio pela diferença. Este "documentário" é apenas um retrato do senhor Wilders, um dos mais populares políticos holandeses.
Mas aqui fica. Porque vivemos em sociedades livres e não daremos a este senhor o gosto da vitimização. Não será silenciado. Ao oriente diremos: sabemos que a maior parte dos muçulmanos não são isto. Saibam que a maior parte dos europeus não são Geert Wilders.
Como ateu e laico (os únicos que foram sempre perseguidos por todos os fanáticos de todas religiões), não respeito nenhuma religião mais do que outra. Apenas sei de uma coisa: aquele que me disser que há um povo, uma religião e uma cultura criminosa por natureza será seguramente o que não hesitará em matar em nome da sua autoproclamada superioridade cultural. Sempre foi assim, sempre assim será. O que assusta? É que também por cá esta gente começa a ser levada a sério. Olhem para a história e vejam onde isto acaba.
Que ninguém se engane: estes homens que usam a defesa dos direitos de umas minorias para expulsar da Europa outras minorias serão os primeiros a esmagar qualquer minoria se acharem que isso lhes dará popularidade e poder. O princípio é sempre o mesmo. Só mudam as personagens.
PS: o facto de ter postado este vídeo não abre a porta da caixa de comentários a insultos racistas, sejam contra quem forem.
Este vídeo é do congressista republicano Tom Tancredo, um dos autores da mais recente proposta legislativa sobre imigração nos EUA. (via Zero de Conduta)
Na semana em que a lei da Memória Histórica é votada em Espanha, o Vaticano beatificou 498 "mártires" católicos da guerra civil. Isto, enquanto mantém todos os sinais da sua cumplicidade e simpatia pela ditadura franquista. Para o Vaticano nem todas as vidas têm o mesmo valor. Nas cerimónias não houve uma palavra sobre as vitimas da ditadura que a Igreja apoiou activamente nem de arrependimento pelos crimes de que foram cúmplices. Não lhes chega o esquecimento? Precisam mesmo de exibir a sua falta de vergonha?
Na mesma edição que José Manuel Fernandes desculpa o silêncio de Pacheco Pereira a propósito da vandalização do cemitério judeu (inevitável, depois do que escreveu sobre Mário Machado), o "Público", não duvido que pela mão do próprio JMF, critica Mário Soares por ter estado ausente na cerimónia organizada pela comunidade judaica em Portugal. A crítica é um pouco descabida , sendo dirigida a quem é. Mas o que mais choca é ver esta gente, que há anos está calada a propósito das acções destes delinquentes, que não se move para defender as suas principais vítimas (os imigrantes) e que sempre desvaloriza as suas acções colocando-as ao nível de um qualquer ataque a um campo de milho, transformar-se subitamente em vigilante inquisidora daqueles que sempre, de forma coerente e não escolhendo entre racismo indigno e racismo irrelevante, se bateram contra a xenofobia. É óptimo que tenham abraçado esta nova causa da qual estiveram alheados tanto tempo, mas seria melhor que não ficassem mais papistas que o Papa.
O problema é que o mais provavel é que estivessem lá para ceifar os imigrantes e não a colheita. Espero que para Pacheco Pereira não seja a mesma coisa. Dedicado às suas obsessões, JPP tem o hábito de branquear a extrema-direita e os seus grupos mais violentos, onde estão incluidos homicidas condenados. Por isso, talvez nem tenha reparado que da última vez que esta rapaziada organizou uma "acção directa" matou um cidadão português de origem cabo-verdiana. Para Pacheco Pereira parece não fazer qualquer diferença: um negro, uma maçaroca de milho...