Depois dos ataques da coluna infame patrocinada pela Fundação Pingo Doce - José Manuel Fernandes, António Barreto e a "esquerdista" Maria Filomena Mónica, esta e o primeiro sugerindo implicitamente que os textos de Manuel Loff deveria ser censurados pelo Público - Fernando Rosas entra na polémica sobre a História vista pelos olhos de Rui Ramos:
"Não era minha intenção intervir na polémica que neste jornal tem oposto os historiadores Rui Ramos (RR) e Manuel Loff (ML), a propósito dos conteúdos sobre a História do século XX da de que o primeiro é, respectivamente, autor e co-autor. E não o faria, se o inacreditável artigo de Filomena Mónica (FM) publicado nestas colunas (1/8) a tal me não tivesse obrigado.Permitam-me que comece por situar a questão, tal como a vejo: é ou não científica e civicamente relevante discutir criticamente os pontos de vista que enformam a versão da História política do século XX subscrita por RR? Eu acho que sim. Porque é um texto bem escrito, porque teve ampla divulgação e, sobretudo, porque é matéria que se prende umbilicalmente com a forma como pretendemos legitimar o presente e fazer o futuro. No meu entender, foi precisamente isso que, à sua maneira e no seu estilo assertivo, mas onde não vislumbro nada de insultuoso ou pessoalmente difamatório para o criticado, julgo que Manuel Loff pretendeu fazer. Na realidade, essa parte da História de Portugal de RR, no seu modo corrente e aparentemente desproblematizador, no seu jeito de discurso do senso comum superficial e para o “grande público”, é um texto empapado de ideologia. Uma ideologia que faz passar a visão da I República como um regime ditatorial, “revolucionário” e de “terror”, por contraponto a um Estado Novo ordeiro e desdramatizado, quase banalizado na sua natureza política e social, transfigurado em ditadura catedrática, em regime conservador moderado e aceitável, apesar de um ou outro abuso. Essa visão — em vários aspectos semelhante ao próprio discurso propagandístico do Estado Novo sobre a I República e sobre si próprio — carece, a meu ver, de qualquer sustentação histórica. E, talvez por isso mesmo, convém salientá-lo, não é subscrita, ao que me parece, por uma significativa parte de historiadores e investigadores que, com diferentes perspectivas, trabalham sobre este período.O que julgo intelectualmente inaceitável é que alguns dos candidatos do costume a sacerdotes do “pensamento único” venham ameaçar com a excomunhão do seu mundo civilizado quem não aceitar o que eles parece quererem transformar numa espécie de cartilha ”normalizadora” do salazarismo e da sua representação histórica. Peço licença para dizer que, como historiador e como cidadão, não me intimidam. E por isso vamos ao que interessa.É bem certo que a I República, e já várias vezes o escrevi, não foi, obviamente, uma democracia nem política, nem socialmente, sobretudo no sentido moderno do termo. Com o seu liberalismo oligárquico, com as suas perseguições políticas (sobretudo na sua primeira fase contra as conspirações restauracionistas) e principalmente sociais (contra o movimento operário e sindical), foi um regime de liberdade frequentemente condicionada, à semelhança da maioria dos regimes liberais da Europa do primeiro quartel do século XX. Mas com o ser isso tudo, foi um sistema imensamente mais liberal e aberto do que o Estado Novo da censura prévia, da proibição e perseguição dos partidos, dos sindicatos livres, do direito à greve e da oposição em geral, da omnipresença da polícia política e da violência arbitrária, da opressão quotidiana dos aparelhos de repressão preventiva e de enquadramento totalizante. E tenho para mim que isso não é banalizável ou “normalizável”. Nem histórica, nem civicamente. É por isso que os valores matriciais da I República puderam ser os da resistência à ditadura salazarista e enformaram, como referência, os constituintes democráticos de 1976.Infelizmente, RR não compareceu a este debate. Refugiou-se sob o manto de uma pretensa intangibilidade moral, ou seja, de uma vitimização construída a partir, na realidade, da deturpação dramatizante das criticas do seu interlocutor. FM fez bem pior. Sem aparentar perceber nada de nada, veio à liça reclamar contra o facto de ML romper o consenso que ela acha que existia em torno do “terror republicano”, apodá-lo de “marxista leninista” e de “historiador medíocre” — quem falou de insultar? — sem discutir um único dos seus pontos de vista e confessando desconhecer e não querer conhecer a obra de ML! E embalou: a “deturpação de um texto”, diz FM, está na natureza dos comunistas e apela sem rebuço à censura do “seu” jornal contra tal gente. Isto tudo, claro está, porque, como se terá percebido, FM “gosta de controvérsia”...Para mim, ao contrário, acho absolutamente necessário que RR e FM continuem a ter pleno direito à palavra. Pelo menos, isso mantém-nos atentos e despertos relativamente aos “demónios capazes de despertar o pior da cultura portuguesa” (António Barreto dixit)"
Se o José Manuel "as armas de destruição maciça existem mesmo" Fernandes e a Helena "o BE complica-me com os nervos" Matos estão a ponto de rebentar com a denúncia ensaiada pelo historiador Manuel Loff do revisionismo do colunista Rui Ramos, só pode querer dizer que Loff está a fazer um excelente trabalho. Uma questão de credibilidade; e ainda bem que a Helena evoca aquela bela historieta do Eça - muito educativa. Aguardemos então as cenas dos próximos capítulos - esperando que entretanto o Público não se lembre de "dispensar" tão valioso colaborador.
O segundo dos artigos que o historiador Manuel Loff dedica ao capítulo da História de Portugal escrito pelo historiador revisionista Rui Ramos saiu hoje no Público e a Joana Lopes publicou-o no seu blogue. Ficam aqui alguns excertos:
"Para RR, o salazarismo era “uma espécie de uma monarquia constitucional, em que o lugar do rei era ocupado por um Presidente da República eleito por sufrágio direto e individual” (pp. 632-33), que “reconhec[ia] uma pluralidade de corpos sociais (...) com esferas de ação próprias e hierarquias e procedimentos específico”, mas que só “não admitiu o pluralismo partidário” (p. 650). Nada se diz sobre o papel das eleições como simulacro de legitimação popular ou a fraude generalizada, realizada mesmo quando nenhuma candidatura alternativa se atrevia perante a do partido único, para inflacionar artificialmente a votação e simular um consenso que não existia.
É inacreditável ver produtos típicos da fascização da sociedade, importados diretamente do fascismo mussoliniano, como foram os sindicatos nacionais, as casas do povo (verdadeiras “associações de socorro e previdência” que “desenvolviam atividades desportivas e culturais”) e os grémios corporativos, descritos como meras “associações” de “representação da população ativa” (p. 644), sem se escrever uma linha sobre a guerra total aberta aos sindicatos livres do período liberal, feita de prisões, deportações e mortes. (...)
Espantados? Para RR, o salazarismo, afinal, “não destoava num mundo em que a democracia, o Estado de Direito e a rotação regular de partidos no poder estavam longe de ser a norma na vida política”. A democracia não existia nem na “Europa ocupada [sic] pela União Soviética”, nos “novos Estados da África e da Ásia” ou “mesmo na Europa democrática”, que “produziu monopólios de um partido (...), sistemas de poder pessoal (...), restrições e perversões” como “a proibi[ção] de partidos comunistas” ou “tortura e execuções sumárias” (p. 669). Em 1968, substituído Salazar por Marcelo, “a democratização não estava na ordem do dia” no mundo. Os “constrangimentos policiais”, justificados “no resto do Ocidente” pela “‘luta armada’ da extrema-esquerda” (pp. 697-98) que se inicia no final dos anos 60, eram semelhantes aos do Estado Novo. Eis aquilo que me parece puro cinismo: a democracia, afinal, não existia em lugar nenhum, o que esbate qualquer diferença entre ditaduras e sistemas liberal-democráticos, onde a violência do Estado e de classe coexiste com um mínimo de liberdade de ação para partidos e movimentos que contestem o Estado e os ricos. (...)
Dedução lógica: o que nos habituámos a chamar uma ditadura não era mais do que um regime semelhante aos que por lá fora havia, melhor até, no campo da repressão, do que muitos, a começar pela I República e o 25 de Abril! Em tempos de transição do Estado Social para o Estado Penal, como designa o sociólogo Loïc Wacquant à criminalização dos dominados que se opera nos nossos dias, o salazarismo voltaria a ser um regime para o nosso tempo!"
O primeiro artigo da série já tinha sido aqui publicado pelo Miguel Cardina.
O historiador Manuel Loff inicia hoje, no Público, uma série de artigos em que analisa criticamente a interpretação do Estado Novo feita por Rui Ramos, na História de Portugal que o Expresso está a oferecer aos seus leitores. A Joana Lopes já tinha disponibilizado o texto de Manuel Loff e eu copio o gesto. Vale a pena ler - e esperar pelos próximos capítulos:
Bem lembrado aqui pela Shiznogud, o assunto das indemnizações que a Alemanha nunca pagou à Grécia e que agora volta a ser trazido à baila por deputados gregos.
E este texto de Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias:
"A agência de rating Moody's baixa a nota da Grécia; as taxas de juro explodem; o país declara falência; a população revolta-se; o exército toma o poder, declara-se o estado de urgência e um general é entronizado ditador; a Moody's, arrependida pelas consequências, pede desculpa... "Alto!", grita-me um leitor, que prossegue: "Então, você começa por dizer que vai recapitular e, depois de duas patacoadas que todos conhecemos, lança-se para um futuro de ficção científica?!" Perdão, volto a escrever: então, recapitulemos. Só estou a falar de passado e vou repetir-me, agora com pormenores. A Moody's, fundada em 1909, não viu chegar a crise bolsista de 1929. Admoestada pelo Tesouro americano por essa falta de atenção, decidiu mostrar serviço e deu nota negativa à Grécia, em 1931. A moeda nacional (dracma) desfez-se, os capitais fugiram, as taxas de juros subiram em flecha, o povo, com a corda na garganta, saiu à rua, o Governo de Elefthérios Venizelos (nada a ver com o Venizelos, atual ministro das Finanças) caiu, a República, também, o país tornou-se ingovernável e, em 1936, o general Metaxas fechou o Parlamento e declarou um Estado fascista. Perante a sua linda obra, a Moody's declarou, nesse ano, que ia deixar de dar nota às dívidas públicas. Mais tarde voltou a dar, mas eu hoje só vim aqui para dizer que nem sempre as tragédias se repetem em farsa, como dizia o outro. Às vezes, repetem-se simplesmente."
1945. A Europa estava em ruínas. Depois de uma guerra devastadora que apenas foi ganha pelos Aliados depois da intervenção dos EUA, os países europeus tinham regressado aos níveis económicos dos tempos da Grande Depressão. Os EUA, o país que mais sofrera com essa crise, acabaram por recuperar, com ajuda do New Deal de Roosevelt, inspirado pelas ideias de Keynes, que basicamente passavam pelo reforço do investimento público e da redução de impostos. Na Alemanha de Weimar, o caminho para combater a crise de 1929 foi exactamente o oposto: contrair a economia, cortando nos gastos e no investimento público, na esperança de que o equilíbrio das contas públicas levasse ao crescimento da economia. Estas políticas levaram a um descontentamento crescente da população, e, em 4 anos, 1933, Hitler ascendia ao poder, aproveitando o descrédito da República de Weimar, impulsionado por um populismo nacionalista e anti-semita. Sabemos no que isto deu.
Depois da derrota de Hitler, os países ocupantes da Alemanha começaram por desmantelar a indústria e os meios de produção do país. Mas depressa os EUA inverteram o rumo desta política. Em 1948, começava a ser aplicado o Plano Marshall nos países europeus destruídos pela guerra iniciada pela Alemanha. O plano consistia, muito resumidamente, na concessão de empréstimos a longo prazo e a juros baixos e também na atribuição de doacções. Do total acumulado por todos os países, apenas cerca de 15% eram empréstimos. O resto foi dinheiro transferido directamente dos cofres do Tesouro americano para a reconstrução da Europa, para o estímulo das suas economias, para a recuperação do berço da civilização. Sem o plano, a CEE provavelmente nunca teria nascido.
A Alemanha, durante o período em que esteve em vigor o Plano Marshall (até 1951), recebeu 1448 milhões de dólares (câmbio da época). O último pagamento dos empréstimos concedidos pelos EUA foi feito em 1971.
Mas falamos dos tempos de Harry Truman, de Konrad Adenauer, de Churchill, de de Gaulle. Com todos os defeitos que alguns deles pudessem ter, com todas as divergências políticas que pudessem eclodir entre eles, eram sobretudos políticos com estatura, que souberam estar à altura dos acontecimentos e conseguiram em poucos anos reerguer um continente, perdoando o principal culpado da destruição, a Alemanha - havia o perigoso precedente do castigo aplicado à mesma Alemanha após a 1.ª Guerra Mundial, e o bom senso imperou.
Agora temos Merkel, Sarkozy, Berlusconi, Barroso. Não é preciso dizer mais nada.
Leio Angola 61. Guerra Colonial: Causas e Consequências. O 4 de Fevereiro e o 15 de Março, da autoria de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus. É um impressionante documento centrado nos momentos que dão corpo ao início da guerra naquele território: o 4 de Fevereiro e o 15 de Março, mas também a revolta camponesa na Baixa de Cassange. Assumindo o colonialismo como forma genérica de inferiorização - o que lhes permite um olhar bastante agudo sobre algumas dimensões do fenómeno - os autores também efectuam uma análise de como a experiência da guerra se entrelaçou com o estertor do regime. O uso cuidado das fontes, recorrendo a vários arquivos e a depoimentos escritos e orais sobre os episódios, não os inibe de guardar as últimas linhas para uma curiosa interpelação de outra índole. Pergunta-se então: como teria sido a descolonização se em vez da guerra se tivesse optado pela negociação? Como seria hoje o país se não tivéssemos embarcado numa via que delapidou tantas vidas (só do lado português, mais de 8.000 mortos, 30.000 feridos e um número não contabilizado de gente afectada psicologicamente) e recursos materiais (com os gastos de guerra a assumirem 40% das despesas do Estado)? Perguntas que ficam sem resposta porque a função do livro é outra. Mas que de repente nos lembram a importância destes exercícios de imaginação histórica e de como estamos tão pouco habituados a fazê-los. Infelizmente.
Tony Judt não é Nicolas Sarkozy. Por isso a leitura dos anos 60 que aparece em vários momentos do recomendável Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos não se confunde com o ódio que um dia Sarkozy destilou sobre 68 e os seus efeitos. Mas deixa aqui e ali um travo semelhante. Adepto da recuperação da ideia social-democrata, Judt fala dos anos 60 como um conservador. O capítulo dedicado à década no seu volumoso (e também muito recomendável) Pós-Guerra optava já pelo mesmo enfoque. E Judt não é caso único: Eric Hobsbawm também não nutre muita simpatia por esses tempos turbulentos. Na sua autobiografia, o reputado historiador marxista considera que os jovens de então procuravam sobretudo «emblemas para as suas lapelas privadas», que só por acaso coincidiram com os da esquerda mais radical.
Em traços grossos, Tony Judt olha para esses anos como uma antecâmara directa do triunfo do neo-liberalismo, da primazia do privado sobre o público, do fatalismo do fim da história. Para o historiador britânico, a época teria sido marcada pelo «subjectivismo do interesse e desejos privados», pela «rejeição do colectivismo» e pelo desprezo perante as questões relativas à justiça social. Daí a referência ao «legado irónico» da «esquerda egoísta» que usava o marxismo apenas como «tecto retórico». Convém desde já esclarecer que a panorâmica histórica que atravessa esta derradeira obra de Judt serve no essencial para sustentar as propostas contidas nas páginas finais – as melhores e mais incisivas – nas quais, simultaneamente, se elabora uma crítica do presente e se aponta um caminho político alternativo que passaria pela recuperação do legado social-democrata. Tony Judt defende a necessidade de uma social-democracia defensiva que resultaria de um projecto mínimo caracterizado como «a melhor solução possível nas actuais circunstâncias». Trata-se assim de resgatar a social-democracia histórica das suas reconfigurações do tipo «terceira via» e voltar a sintonizá-la com um padrão ético composto de justiça social e igualdade. Padrão ético, esse, que alimentara o New Deal e a construção do Estado-Providência, e que os anos 60 haviam interrompido.
1964 - Oração - António Calvário
Via Denúncia Coimbrã

Via BiToque
Via Bicho Carpinteiro</a>
Podia dizer-se que foi um azar. Um azar a primeira revolução socialista vitoriosa ter acontecido num país imperial e pobre, feudal e habituado a viver às ordens soberanos. Tudo teria sido diferente se não tivesse sido na Rússia. Não seria apenas a primeira experiência socialista que teria sido diferente. Teria sido todo o movimento comunista internacional que teria sido uma outra coisa. Sem Estaline o comunismo teria tomado seguramente outro rumo. Teria muito provavelmente mantido a sua matriz internacionalista. Seria menos monolítico. Não teria empobrecido até ao primarismo o pensamento marxista, uma das mais complexas e entusiasmantes correntes filosóficas e políticas dos últimos séculos. Para quem se revê e não se revê nele.
Mas fica a pergunta: teria o socialismo russo resistido 70 anos sem a mão de ferro do homem de ferro? Teria vencido os inimigos externos e internos? Teria o poder dos bolcheviques sobrevivido tanto tempo sem as purgas e os assassinatos? Sem a barbárie estalinista teria a URSS ido tão longe no seu poder militar e político? Teria sequer ganho a segunda guerra? Teria a Alemanha sido derrotada? Não podemos saber. Por isso devemos trabalhar com o que sabemos.
Sabemos que, passados 90 anos da primeira revolução socialista vitoriosa, o balanço é, na perspectiva mais directa, assustador. Estaline deixou atrás de si um rasto de sangue, de morte, de violência e de barbaridade pornográficos. Dirão: um desvio. Uma subversão. Só que o que hoje sabemos sobre os primeiros anos da revolução e sobre a guerra interna não corrobora esta tese. Os crimes começaram muito cedo. Ainda com algum pluralismo interno dentro do movimento bolchevique, ainda com espaço para debate ideológico, ainda sem o moralismo reaccionário de Estaline, mas o assassinato, a morte e a perseguição pessoal já faziam parte dos métodos de Lenine. Foi com Lenine que o Partido se transformou num exército. E quando um partido se faz exército as balas acabam por se tornar, quando as coisas apertam, no principal argumento político. Foi com o leninismo e não com o estalinismo que o movimento comunista se tornou violento na sua essência e não apenas nas suas circunstâncias. No que a violência política tem de mais profundo, mais corrupto e mais auto-destrutivo. Podia ter sido diferente? Provavelmente não. Mas foi assim e é essa uma das tristes heranças que deixa.
Podemos sempre dizer, e com toda a razão, que a revolução russa (e o movimento comunista que a partir deste episódio viria a ganhar uma dimensão mundial avassaladora) é filha do seu tempo. Das suas circunstâncias - nascida num Império feudal no fim da mais mortífera guerra de que há memória. E que não podemos falar da violência da revolução sem falar da violência que justificava aquela revolta. Da violência da opressão, quase inimiganinável para nós, nos dias de hoje e na Europa. Um tempo em que a brutalidade era a normalidade, como ainda o é em alguns pontos do planeta em pleno século XXI.
Mas olhando para o marxismo percebemos que há mais do que as circunstância. Que a semente está lá. E ainda que não estivesse. Não há um comunismo puro que depois foi conspurcado pela acção dos homens. O comunismo não é uma religião. Por isso, o comunismo é aquilo em que se foi transformado. Não se pode ser comunista e ao mesmo tempo enjeitar a história do comunismo.
Mas a revolução russa teve um outro significado muito mais profundo do que tudo aquilo de que falei até agora. Discordando em muitas coisas do texto do Manuel Gusmão, que aqui já linkei, não posso deixar de subscrever o sentido destas palavras: «A grande Revolução triunfa onde outras tentativas de libertação dos explorados e oprimidos fracassaram, desde as revoltas dos escravos de Roma, às revoltas camponesas, às insurreições operárias do séc. XIX, até à Comuna de Paris. A própria participação popular na Revolução francesa tinha sido defraudada pela burguesia. A primeira revolução vitoriosa é assim portadora da memória activa de lutas, sonhos e esperanças, utopias milenares e sempre vencidas. O que não pode deixar de nos levar a considerar as razões e o significado da vitória.»
E é aqui que chego à segunda parte. Mesmo moralmente, mesmo politicamente (já para não dizer do ponto de vista histórico), talvez tenhamos sempre de analisar um acontecimento da magnitude da Revolução de Outubro (o mais importante acontecimento histórico do século XX, a par com as duas guerras mundiais) pelas suas consequências mais profundas e não apenas pelas mais directas. Para lá da violência e da ditadura soviética, a revolução russa teve um significado muito mais profundo. Foi, de facto, a primeira vez na história que os trabalhadores, ou, para simplificar, os mais explorados entre os mais explorados, foram os protagonistas vitoriosos. O que veio depois sabemos. Mas o que aquela revolução provocou em todo o Planeta foi qualquer coisa de absolutamente inédito na história da humanidade. A esperança e optimismo que ofereceu a milhões de trabalhadores miseráveis permitiu uma capacidade de organização e de luta completamente novas. E isso, conjugado com a mutação que o Capitalismo viria a sofrer no pós-guerra e o simultâneo aumento de influência da URSS graças à sua vitória militar, acabaria por mudar toda a relação de forças nos confrontos sociais.
Se durante tanto tempo os trabalhadores conseguiram ir conquistando direitos, isso não se deveu a qualquer súbita generosidade do capital. Claro que a abundância do pós-guerra facilitou. Mas a organização dos trabalhadores e o temor pelo comunismo (que chegou a ser em quase todo o Ocidente uma corrente política fortíssima) foram decisivos. E basta olhar para a situação actual, em que vivemos em permanente crescimento económico e em sociedades de abundância mas os trabalhadores perdem direitos todos os dias e retrocedem décadas, para perceber o que significou aquela revolução em todo o Mundo. Não há como domesticar o mercado se o poder do mercado nada tiver a temer.
O que celebro aqui hoje não é, na realidade, a chegada do comunismo a terras russas. O que se passou nos 70 anos seguintes à revolução na URSS foi suficientemente trágico para tal não merecer grandes festejos. O que celebro aqui hoje é esse momento em que tudo pareceu possível e o que essa simples esperança fez pela dignidade de milhões de homens e mulheres em todo o planeta.
Dito isto, e com a leve sensação que com este texto acabo por conseguir involuntariamente não agradar a ninguém, podem ver abaixo vários posts dedicados à revolução russa. O primeiro é um conjunto de textos recolhidos pelo portal Esquerda.net. O seguinte é uma cronologia dos acontecimentos que vai de 1894 a 1928. Depois vêm uns excertos de um filme fraquinho (“Reds”), mas um dos poucos que no Ocidente se realizaram sobre um momento histórico tão decisivo (o que não deixa de ser significativo). O quarto é uma galeria de magníficos posters soviéticos que permite percorrer os 70 anos da história do socialismo na URSS. E o post anterior é o filme “Outubro”, de Sergei Eisenstein, na sua versão integral. Assim assinala o Arrastão esta data.
O Miguel Portas responde ao meu texto.
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1894-1917: Nicolau II, o último czar da Rússia
- Programa de industrialização intensiva (especialmente entre 1894-1901).
- Em 1895, criação da "União de Luta pela Emancipação da Classe Operária" (São Petersburgo).
- Em 1898, primeiro congresso do Partido Trabalhista Russo Social-Democrata.
- Em 1900, primeira edição do "Iskra", jornal dos social-democratas.
- Em 1903, segundo congresso do Partido Trabalhista Russo Social-Democrata (divisão entre mencheviques e bolcheviques). Esta divisão veio a aprofundar-se mais tarde, com os Bolcheviques a advogarem a ditadura do proletariado e a revolução socialista e os mencheviques a defenderem a chegada ao socialismo através do amadurecimento do capitalismo.
- Entre 1904-1905 Guerra contra o Japão visando ocupar a Manchúria Chinesa e a Coreia. Rússia é derrotada e entrega Ilha Sacalina aos japoneses. (Após a 2ªGuerra Mundial, Japão derrotado entrega Sacalina e Curilas à URSS).
1905
"Domingo Sangrento" - insatisfação popular leva a uma manifestação pacífica, violentamente reprimida pela polícia do Czar.
Greves, protestos e tumultos seguem-se ao "Domingo Sangrento", (massacre, em janeiro, de milhares de pessoas que marcharam até o Palácio de Inverno, lideradas pelo padre Gapon); promessa de uma constituição, feita pelo czar, em agosto; em outubro, greve geral e formação do Soviete Supremo de São Petersburgo; também em outubro, manifesto imperial autorizando eleições para a Duma (parlamento) Estatal; em dezembro, onda de repressão (atingindo camponeses, estudantes, operários...), com prisão e exílio dos membros do Soviete Supremo de São Petersburgo.
1906
O Czar permite a criação de uma Monarquia Constitucional Parlamentar. Instala-se a DUMA (Parlamento) com deputados originários das elites. Agitação revolucionária popular cresce e impulsiona a formação dos SOVIETES (Conselhos de Trabalhadores).
Conflitos aumentam. Duma é dissolvida. Retorna a autocracia czarista como solução radical.
- Em 1910, surgem as primeiras exposições dos grupos modernistas "Valete de Ouros", em Moscovo (que inclui Larionovo, Goncharova, Kandinsky e Malevich) e "União da Juventude", em São Petersburgo. No mesmo ano, é publicada a primeira coletânea de poesia futurista russa, com textos de Elena Guro, Khlebnikov, Kamensky, David e Nikolai Burliuk.
- 1912-1916: período de forte influência, sobre o casal imperial, de G.Rasputin (assassinado em 1916).
- 1913: realização do Primeiro Congresso Russo de Futurismo.
- 1914: entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial. Maiakóvsky e malevich realizam cartazes de propaganda política (os "lubik").
- 1916 -1917 - Império Russo está militarmente arrasado e economicamente desorganizado, com 1,5 milhão de mortos.
2. O período 1917-1928: da Revolução de Fevereiro ao fim da Nova Política económica
1917
Fevereiro
- Revolução de Fevereiro, que derruba a monarquia imperial russa.
- Insurreição de Petrogrado (motins/ levantes por comida/ greves/ protestos contra a guerra e a autocracia mobilizando milhares de pessoas).
- Formação do Soviete de Petrogrado (devido aos esforços dos "mencheviques", dos socialistas-revolucionários, dos socialistas populistas e dos "trudovki"). Nos dias seguintes, será formado um governo provisório, após um acordo entre o Soviete e a Duma (que havia constituído um comitê provisório, em seguida transformado em governo provisório).
Março
É criada a República da Duma (Parlamento). Nicolau II abdica a favor do seu filho, Mikhail Aleksandrovich (que renunciou à coroa)
Abril
Retorno de Lenine à Rússia ("bolcheviques" defenderão a tomada imediata da terra pelo campesinato, o controle da indústria pelos trabalhadores, o fim da guerra, "todo o poder aos sovietes" e "paz, terra, pão"). Greves.
Formação de um governo de coligação com o partido da burguesia, com a participação de mencheviques e socialistas revolucionários. Comprometido com as potências aliadas, que constituíam os principais investidores capitalistas estrangeiros no país, o novo governo parlamentar manteve a Rússia na 1ª Guerra Mundial, não produzindo alterações na crise.
Maio
Chegada de Trotsky, retornando do exílio na América.
Crise no governo provisório, que é reorganizado. Kerensky torna-se ministro da Guerra (ordenará uma ofensiva que será um absoluto fracasso, com deserções em massa que ajudam a apoiar a propaganda bolchevista).
Maio/Junho
-Eleições municipais: vitória da ala mais moderada dos socialistas.
- Em junho é realizado o Primeiro Congresso dos Sovietes da Rússia.
Julho
- Levantamentos e protestos contra o governo provisório; penetração da propaganda bolchevique mostra-se visível.
- Novo governo, com Kerensky à frente (primeiro-ministro), restabelecerá a pena de morte (abolida nos primeiros dias da revolução) e postergará a convocação de uma assembleia constituinte, além de promover a perseguição aos bolcheviques (Lenine esconde-se na Finlândia e Trotsky, além de outros líderes, é preso).
Agosto
Tentativa de golpe da direita e extrema-direita, sob a liderança do general Kornilov; a tentativa fracassa.
Setembro
- Trotsky é eleito presidente do Soviete de Petrogrado. Em outubro, o Soviete cria o Comitê Militar Revolucionário, para defender a capital da contra-revolução (os bolcheviques tinham maioria no Comitê).
- Criação do "Proletkult" (Cultura Proletária), organização que defendia que a arte proletária só poderia ser realizada pelos proletários, rejeitando as manifestações artísticas do passado.
Outubro
- "Revolução de Outubro" ou "Bolchevique". Insurreição armada organizada pelos bolcheviques contra o governo; Trotsky à frente do Comitê Militar Revolucionário (trabalhadores, soldados e marinheiros armados tomam o Palácio de Inverno, onde estava instalado o Governo Provisório).
- Trotsky anuncia o fim do Governo Provisório; Kerensky escapa e vai para o exílio. Simultaneamente, é aberto o Segundo Congresso dos Sovietes (de 650 delegados, 390 eram bolcheviques). O próprio Congresso de Sovietes tornou-se a suprema instância do novo governo; as suas decisões deveriam ser executadas pelo Soviete dos Comissários do Povo, subordinado apenas ao Comitê Executivo Central do Congresso (cujos comissários exerciam papéis de ministros) e ao próprio Congresso. Lenine foi eleito presidente do Soviete dos Comissários do Povo; Trotsky e Stalin também se tornaram comissários desse Soviete.
- Em novembro, foram promulgados decretos sobre a paz, a terra (direito de propriedade privada da terra anulado para sempre; direito de todos os cidadãos cultivarem a terra), as nacionalidades (direito de auto-determinação, podendo-se separar da Rússia...) e o controle operário da produção. Os bolcheviques permitiram a eleição de uma assembleia constituinte, na qual não obtiveram maioria, e que acabaram por dissolver, em janeiro de 1918.
1918
- Março: Paz de Brest-Litovski. A Rússia cedeu os estados bálticos, a Finlândia, a Polônia e a Ucrânia.
- Maio/Junho: início da intervenção estrangeira e da guerra civil na Rússia. A guerra civil durou até 1920. De um lado estava o Exército vermelhocomposto por bolcheviques, defensores da revolução) e do outro o Exército Branco (todas as forças opostas à revolução). O Exército Vermelho vence a guerra. Durante a guerra civil, o Partido Bolchevique proibe a existência de facções e tendências internas.
- Julho: aprovação da primeira constituição da República Socialista, Federada e Soviética Russa. A família imperial do Czar é assassinada pelos bolcheviques
- No mesmo ano, é fundado o Departamento de Artes do Comissariado Popular para a Educação (que, de início, incorporou vários artistas de vanguarda).
1919
- Ruas e janelas são ocupadas pela arte gráfica política (ROSTAS), entre 1919 e 1921. Artistas como Malevich e Maiakóvsky estiveram directamente envolvidos.
- Dziga Vertov lança o manifesto "Nós", discutindo as relações entre palavra e imagem.
1920
- Agosto-outubro: encerramento da guerra com os "brancos" e da intervenção estrangeira.
1921
- Fevereiro: Insurreição de Kronstadt. O Soviete anarquista desta cidade faz uma série de exigências ao Governo bolchevique e recusa-se a participar no Exército Vermelho. Este esmaga a revolta. Mais tarde, Trotsky, comandante do Exército Vermelho na altura do esmagamento, considerou ter sido um erro.
- Março: adoção da Nova Política Económica (NEP), que procurava estimular a iniciativa privada e reactivar a economia.
- Em 1921, iniciam-se as purgas no partido bolchevique (preocupação com o perfil "moral" dos membros: expulsão dos arrivistas, alcoólatras, corruptos, etc.)
- Entre 1921 e 1922, o governo revolucionário toma medidas visando aumentar a produção no campo: substituição da política de requisições, no campo, por um imposto pago pelos camponeses in natura, ficando os mesmos camponeses livres para administrar o excedente da produção (estímulo ao comércio) - busca-se uma "aliança entre operários e camponeses"; estímulo aos investimentos estrangeiros. No período, estima-se que 5 milhões de pessoas tenham morrido de fome no interior das fronteiras do antigo Império Russo.
1922
- Formação da URSS (sua primeira constituição foi ratificada apenas em 1924, pouco depois da morte de Lenine).
- Stalin torna-se secretário-geral do Partido Comunista.
- É criada a Associação dos Artistas Revolucionários da Rússia, que defende o retorno ao figurativismo e a afirmação de uma espécie de realismo heróico que antecipa o "realismo socialista" oficialmente adotado nos anos 1930.
1923
- Maiakóvsky organiza o "Front de Esquerda das Artes", articulando Rodchenko, Stepanova, Lavinsky, Lyubov e Popova, entre outros. No mesmo ano, Maiakóvsky e Rodchenko abrem escritório de criação de produtos publicitários (embalagens, cartazes e demais impressos).
1924
- Morte de Lenine.
1925
- Trotsky é destituído do Comissariado de Guerra.
- Eisenstein filma "O Couraçado Potemkin".
1927
- Novembro: Trotsky é expulso do Partido Comunista (foi exilado no Casaquistão em 1928 e banido no ano seguinte. Assassinado no México em 1940, a mando de Stalin).
1928
- Queda da produção de grão e problemas na produção de matérias-primas industriais: setores do governo defendem medidas de emergência c(retornam temporariamente as "requisições", no campo, apoiadas nos destacamentos policiais).
- A NEP é abandonada: o Comitê Central decide implementar o primeiro "Plano Quinquenal" (que dará início à economia planeada). Stalin tentará transformar a URSS rapidamente de um país eminentemente agrário num país industrial e numa potência militar. Fim da idéia de "aliança" com os camponeses.
- "Processos das minas de Chakhty": um grupo de engenheiros é acusado de sabotagem (alguns são condenados e seis são fuzilados).
Fontes:
http://www.geocities.com/oficinadehisto
http://www.rainhadapaz.g12.br/proje
O Esquerda.net fez, no último fim de semana, um bom dossier com recolha de textos sobre a Revolução Russa. Vale a pena passear por lá.
Um texto sobre a A Rússia Czarista e o ensaio geral de 1905, de Adriana Lopera.
Outro que descreve o processo revolucionário, de Fevereiro a Outubro de 1917,de João Aguiar, do blogue as Vinhas da Ira.
Um texto de John Reed, escrito entre 1918 e 1919, e traduzido em português, sobre o funcionamento dos Sovietes.
Um texto de Alexandra Kollontai, dirigente feminina da Revolução Russa de 1917, sobre a participação das mulheres na revolução, escrito em Novembro de 1927 e outro de Lenine sobre “A contribuição da Mulher na construção do Socialismo”.
Um estudo de Paulo Guinote (publicado no blogue Estudos Sobre o Comunismo) sobre o impacto da Revolução Russa na opinião publicada em Portugal em 1917 e 1918.
Um artigo de Daniel Bensaid e outro de Manuel Gusmão (escritor e dirigente do PCP), publicado na “voz do operário” e linkado pelo Esquerda.net.
Mais um, de Charles-André Udry, sobre o período entre 1914 e 1922.
E uma cronologia que reproduzo no post seguinte.
Não me importava de ter lido alguns textos mais críticos, mas ainda assim o dossier é um bom ponto de partida.
Discurso de Che Guevara sobre o Imperialismo e a morte de Patrice Lumumba, que parcialmente aparece no documentário
A revista "História", única no género em Portugal, deixou de contar com alguns apoios oficiais (porte pago, apoio do IPLB, etc), e deu por terminada a publicação no nº 100 da nova série. Este encerramento deve-se a um corte orçamental que apesar de minimo para quem apoiava é extramente importante para assegurar a sua existência.
Assina a petição para que o fim do pouco que se gastava não faça morrer a única publicação de divulgação de história do nosso país.
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