Quarta-feira, 5 de Setembro de 2012
por Sérgio Lavos

 

Depois dos ataques da coluna infame patrocinada pela Fundação Pingo Doce - José Manuel Fernandes, António Barreto e a "esquerdista" Maria Filomena Mónica, esta e o primeiro sugerindo implicitamente que os textos de Manuel Loff deveria ser censurados pelo Público - Fernando Rosas entra na polémica sobre a História vista pelos olhos de Rui Ramos: 

 

"Não era minha intenção intervir na polémica que neste jornal tem oposto os historiadores Rui Ramos (RR) e Manuel Loff (ML), a propósito dos conteúdos sobre a História do século XX da de que o primeiro é, respectivamente, autor e co-autor. E não o faria, se o inacreditável artigo de Filomena Mónica (FM) publicado nestas colunas (1/8) a tal me não tivesse obrigado
Permitam-me que comece por situar a questão, tal como a vejo: é ou não científica e civicamente relevante discutir criticamente os pontos de vista que enformam a versão da História política do século XX subscrita por RR? Eu acho que sim. Porque é um texto bem escrito, porque teve ampla divulgação e, sobretudo, porque é matéria que se prende umbilicalmente com a forma como pretendemos legitimar o presente e fazer o futuro. No meu entender, foi precisamente isso que, à sua maneira e no seu estilo assertivo, mas onde não vislumbro nada de insultuoso ou pessoalmente difamatório para o criticado, julgo que Manuel Loff pretendeu fazer. Na realidade, essa parte da História de Portugal de RR, no seu modo corrente e aparentemente desproblematizador, no seu jeito de discurso do senso comum superficial e para o “grande público”, é um texto empapado de ideologia. Uma ideologia que faz passar a visão da I República como um regime ditatorial, “revolucionário” e de “terror”, por contraponto a um Estado Novo ordeiro e desdramatizado, quase banalizado na sua natureza política e social, transfigurado em ditadura catedrática, em regime conservador moderado e aceitável, apesar de um ou outro abuso. Essa visão — em vários aspectos semelhante ao próprio discurso propagandístico do Estado Novo sobre a I República e sobre si próprio — carece, a meu ver, de qualquer sustentação histórica. E, talvez por isso mesmo, convém salientá-lo, não é subscrita, ao que me parece, por uma significativa parte de historiadores e investigadores que, com diferentes perspectivas, trabalham sobre este período. 

O que julgo intelectualmente inaceitável é que alguns dos candidatos do costume a sacerdotes do “pensamento único” venham ameaçar com a excomunhão do seu mundo civilizado quem não aceitar o que eles parece quererem transformar numa espécie de cartilha ”normalizadora” do salazarismo e da sua representação histórica. Peço licença para dizer que, como historiador e como cidadão, não me intimidam. E por isso vamos ao que interessa. 
É bem certo que a I República, e já várias vezes o escrevi, não foi, obviamente, uma democracia nem política, nem socialmente, sobretudo no sentido moderno do termo. Com o seu liberalismo oligárquico, com as suas perseguições políticas (sobretudo na sua primeira fase contra as conspirações restauracionistas) e principalmente sociais (contra o movimento operário e sindical), foi um regime de liberdade frequentemente condicionada, à semelhança da maioria dos regimes liberais da Europa do primeiro quartel do século XX. Mas com o ser isso tudo, foi um sistema imensamente mais liberal e aberto do que o Estado Novo da censura prévia, da proibição e perseguição dos partidos, dos sindicatos livres, do direito à greve e da oposição em geral, da omnipresença da polícia política e da violência arbitrária, da opressão quotidiana dos aparelhos de repressão preventiva e de enquadramento totalizante. E tenho para mim que isso não é banalizável ou “normalizável”. Nem histórica, nem civicamente. É por isso que os valores matriciais da I República puderam ser os da resistência à ditadura salazarista e enformaram, como referência, os constituintes democráticos de 1976. 

Infelizmente, RR não compareceu a este debate. Refugiou-se sob o manto de uma pretensa intangibilidade moral, ou seja, de uma vitimização construída a partir, na realidade, da deturpação dramatizante das criticas do seu interlocutor. FM fez bem pior. Sem aparentar perceber nada de nada, veio à liça reclamar contra o facto de ML romper o consenso que ela acha que existia em torno do “terror republicano”, apodá-lo de “marxista leninista” e de “historiador medíocre” — quem falou de insultar? — sem discutir um único dos seus pontos de vista e confessando desconhecer e não querer conhecer a obra de ML! E embalou: a “deturpação de um texto”, diz FM, está na natureza dos comunistas e apela sem rebuço à censura do “seu” jornal contra tal gente. Isto tudo, claro está, porque, como se terá percebido, FM “gosta de controvérsia”... 
Para mim, ao contrário, acho absolutamente necessário que RR e FM continuem a ter pleno direito à palavra. Pelo menos, isso mantém-nos atentos e despertos relativamente aos “demónios capazes de despertar o pior da cultura portuguesa” (António Barreto dixit)" 
Sublinhados meus. Os textos anteriores de Manuel Loff, assim como o texto de Rui Ramos, podem ser encontrados no blogue da Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória. O texto de Maria Filomena Mónica que suscitou a resposta de Rosas foi publicado no Insurgente.

por Sérgio Lavos
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Sábado, 18 de Agosto de 2012
por Sérgio Lavos

Se o José Manuel "as armas de destruição maciça existem mesmo" Fernandes e a Helena "o BE complica-me com os nervos" Matos estão a ponto de rebentar com a denúncia ensaiada pelo historiador Manuel Loff do revisionismo do colunista Rui Ramos, só pode querer dizer que Loff está a fazer um excelente trabalho. Uma questão de credibilidade; e ainda bem que a Helena evoca aquela bela historieta do Eça - muito educativa. Aguardemos então as cenas dos próximos capítulos - esperando que entretanto o Público não se lembre de "dispensar" tão valioso colaborador. 


por Sérgio Lavos
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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2012
por Sérgio Lavos

O segundo dos artigos que o historiador Manuel Loff dedica ao capítulo da História de Portugal escrito pelo historiador revisionista Rui Ramos saiu hoje no Público e a Joana Lopes publicou-o no seu blogue. Ficam aqui alguns excertos:

 

"Para RR, o salazarismo era “uma espécie de uma monarquia constitucional, em que o lugar do rei era ocupado por um Presidente da República eleito por sufrágio direto e individual” (pp. 632-33), que “reconhec[ia] uma pluralidade de corpos sociais (...) com esferas de ação próprias e hierarquias e procedimentos específico”, mas que só “não admitiu o pluralismo partidário” (p. 650). Nada se diz sobre o papel das eleições como simulacro de legitimação popular ou a fraude generalizada, realizada mesmo quando nenhuma candidatura alternativa se atrevia perante a do partido único, para inflacionar artificialmente a votação e simular um consenso que não existia. 

 

É inacreditável ver produtos típicos da fascização da sociedade, importados diretamente do fascismo mussoliniano, como foram os sindicatos nacionais, as casas do povo (verdadeiras “associações de socorro e previdência” que “desenvolviam atividades desportivas e culturais”) e os grémios corporativos, descritos como meras “associações” de “representação da população ativa” (p. 644), sem se escrever uma linha sobre a guerra total aberta aos sindicatos livres do período liberal, feita de prisões, deportações e mortes. (...)

 

Espantados? Para RR, o salazarismo, afinal, “não destoava num mundo em que a democracia, o Estado de Direito e a rotação regular de partidos no poder estavam longe de ser a norma na vida política”. A democracia não existia nem na “Europa ocupada [sic] pela União Soviética”, nos “novos Estados da África e da Ásia” ou “mesmo na Europa democrática”, que “produziu monopólios de um partido (...), sistemas de poder pessoal (...), restrições e perversões” como “a proibi[ção] de partidos comunistas” ou “tortura e execuções sumárias” (p. 669). Em 1968, substituído Salazar por Marcelo, “a democratização não estava na ordem do dia” no mundo. Os “constrangimentos policiais”, justificados “no resto do Ocidente” pela “‘luta armada’ da extrema-esquerda” (pp. 697-98) que se inicia no final dos anos 60, eram semelhantes aos do Estado Novo. Eis aquilo que me parece puro cinismo: a democracia, afinal, não existia em lugar nenhum, o que esbate qualquer diferença entre ditaduras e sistemas liberal-democráticos, onde a violência do Estado e de classe coexiste com um mínimo de liberdade de ação para partidos e movimentos que contestem o Estado e os ricos. (...)

 

Dedução lógica: o que nos habituámos a chamar uma ditadura não era mais do que um regime semelhante aos que por lá fora havia, melhor até, no campo da repressão, do que muitos, a começar pela I República e o 25 de Abril! Em tempos de transição do Estado Social para o Estado Penal, como designa o sociólogo Loïc Wacquant à criminalização dos dominados que se opera nos nossos dias, o salazarismo voltaria a ser um regime para o nosso tempo!"

O primeiro artigo da série já tinha sido aqui publicado pelo Miguel Cardina.  


por Sérgio Lavos
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Quinta-feira, 2 de Agosto de 2012
por Miguel Cardina

O historiador Manuel Loff inicia hoje, no Público, uma série de artigos em que analisa criticamente a interpretação do Estado Novo feita por Rui Ramos, na História de Portugal que o Expresso está a oferecer aos seus leitores. A Joana Lopes já tinha disponibilizado o texto de Manuel Loff e eu copio o gesto. Vale a pena ler - e esperar pelos próximos capítulos:

 


por Miguel Cardina
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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012
por Sérgio Lavos

Bem lembrado aqui pela Shiznogud, o assunto das indemnizações que a Alemanha nunca pagou à Grécia e que agora volta a ser trazido à baila por deputados gregos.

 

E este texto de Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias:

 

"A agência de rating Moody's baixa a nota da Grécia; as taxas de juro explodem; o país declara falência; a população revolta-se; o exército toma o poder, declara-se o estado de urgência e um general é entronizado ditador; a Moody's, arrependida pelas consequências, pede desculpa... "Alto!", grita-me um leitor, que prossegue: "Então, você começa por dizer que vai recapitular e, depois de duas patacoadas que todos conhecemos, lança-se para um futuro de ficção científica?!" Perdão, volto a escrever: então, recapitulemos. Só estou a falar de passado e vou repetir-me, agora com pormenores. A Moody's, fundada em 1909, não viu chegar a crise bolsista de 1929. Admoestada pelo Tesouro americano por essa falta de atenção, decidiu mostrar serviço e deu nota negativa à Grécia, em 1931. A moeda nacional (dracma) desfez-se, os capitais fugiram, as taxas de juros subiram em flecha, o povo, com a corda na garganta, saiu à rua, o Governo de Elefthérios Venizelos (nada a ver com o Venizelos, atual ministro das Finanças) caiu, a República, também, o país tornou-se ingovernável e, em 1936, o general Metaxas fechou o Parlamento e declarou um Estado fascista. Perante a sua linda obra, a Moody's declarou, nesse ano, que ia deixar de dar nota às dívidas públicas. Mais tarde voltou a dar, mas eu hoje só vim aqui para dizer que nem sempre as tragédias se repetem em farsa, como dizia o outro. Às vezes, repetem-se simplesmente."


por Sérgio Lavos
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Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011
por Sérgio Lavos

 

1945. A Europa estava em ruínas. Depois de uma guerra devastadora que apenas foi ganha pelos Aliados depois da intervenção dos EUA, os países europeus tinham regressado aos níveis económicos dos tempos da Grande Depressão. Os EUA, o país que mais sofrera com essa crise, acabaram por recuperar, com ajuda do New Deal de Roosevelt, inspirado pelas ideias de Keynes, que basicamente passavam pelo reforço do investimento público e da redução de impostos. Na Alemanha de Weimar, o caminho para combater a crise de 1929 foi exactamente o oposto: contrair a economia, cortando nos gastos e no investimento público, na esperança de que o equilíbrio das contas públicas levasse ao crescimento da economia. Estas políticas levaram a um descontentamento crescente da população, e, em 4 anos, 1933, Hitler ascendia ao poder, aproveitando o descrédito da República de Weimar, impulsionado por um populismo nacionalista e anti-semita. Sabemos no que isto deu.

 

Depois da derrota de Hitler, os países ocupantes da Alemanha começaram por desmantelar a indústria e os meios de produção do país. Mas depressa os EUA inverteram o rumo desta política. Em 1948, começava a ser aplicado o Plano Marshall nos países europeus destruídos pela guerra iniciada pela Alemanha. O plano consistia, muito resumidamente, na concessão de empréstimos a longo prazo e a juros baixos e também na atribuição de doacções. Do total acumulado por todos os países, apenas cerca de 15% eram empréstimos. O resto foi dinheiro transferido directamente dos cofres do Tesouro americano para a reconstrução da Europa, para o estímulo das suas economias, para a recuperação do berço da civilização. Sem o plano, a CEE provavelmente nunca teria nascido.

 

A Alemanha, durante o período em que esteve em vigor o Plano Marshall (até 1951), recebeu 1448 milhões de dólares (câmbio da época). O último pagamento dos empréstimos concedidos pelos EUA foi feito em 1971.

 

Mas falamos dos tempos de Harry Truman, de Konrad Adenauer, de Churchill, de de Gaulle. Com todos os defeitos que alguns deles pudessem ter, com todas as divergências políticas que pudessem eclodir entre eles, eram sobretudos políticos com estatura, que souberam estar à altura dos acontecimentos e conseguiram em poucos anos reerguer um continente, perdoando o principal culpado da destruição, a Alemanha - havia o perigoso precedente do castigo aplicado à mesma Alemanha após a 1.ª Guerra Mundial, e o bom senso imperou.

 

Agora temos Merkel, Sarkozy, Berlusconi, Barroso. Não é preciso dizer mais nada.


por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 30 de Agosto de 2011
por Miguel Cardina

 

Leio Angola 61. Guerra Colonial: Causas e Consequências. O 4 de Fevereiro e o 15 de Março, da autoria de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus. É um impressionante documento centrado nos momentos que dão corpo ao início da guerra naquele território: o 4 de Fevereiro e o 15 de Março, mas também a revolta camponesa na Baixa de Cassange. Assumindo o colonialismo como forma genérica de inferiorização - o que lhes permite um olhar bastante agudo sobre algumas dimensões do fenómeno - os autores também efectuam uma análise de como a experiência da guerra se entrelaçou com o estertor do regime. O uso cuidado das fontes, recorrendo a vários arquivos e a depoimentos escritos e orais sobre os episódios, não os inibe de guardar as últimas linhas para uma curiosa interpelação de outra índole. Pergunta-se então: como teria sido a descolonização se em vez da guerra se tivesse optado pela negociação? Como seria hoje o país se não tivéssemos embarcado numa via que delapidou tantas vidas (só do lado português, mais de 8.000 mortos, 30.000 feridos e um número não contabilizado de gente afectada psicologicamente) e recursos materiais (com os gastos de guerra a assumirem 40% das despesas do Estado)? Perguntas que ficam sem resposta porque a função do livro é outra. Mas que de repente nos lembram a importância destes exercícios de imaginação histórica e de como estamos tão pouco habituados a fazê-los. Infelizmente.


por Miguel Cardina
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Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010
por Miguel Cardina

 

Tony Judt não é Nicolas Sarkozy. Por isso a leitura dos anos 60 que aparece em vários momentos do recomendável Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos não se confunde com o ódio que um dia Sarkozy destilou sobre 68 e os seus efeitos. Mas deixa aqui e ali um travo semelhante. Adepto da recuperação da ideia social-democrata, Judt fala dos anos 60 como um conservador. O capítulo dedicado à década no seu volumoso (e também muito recomendável) Pós-Guerra optava já pelo mesmo enfoque. E Judt não é caso único: Eric Hobsbawm também não nutre muita simpatia por esses tempos turbulentos. Na sua autobiografia, o reputado historiador marxista considera que os jovens de então procuravam sobretudo «emblemas para as suas lapelas privadas», que só por acaso coincidiram com os da esquerda mais radical.

 

Em traços grossos, Tony Judt olha para esses anos como uma antecâmara directa do triunfo do neo-liberalismo, da primazia do privado sobre o público, do fatalismo do fim da história. Para o historiador britânico, a época teria sido marcada pelo «subjectivismo do interesse e desejos privados», pela «rejeição do colectivismo» e pelo desprezo perante as questões relativas à justiça social. Daí a referência ao «legado irónico» da «esquerda egoísta» que usava o marxismo apenas como «tecto retórico». Convém desde já esclarecer que a panorâmica histórica que atravessa esta derradeira obra de Judt serve no essencial para sustentar as propostas contidas nas páginas finais – as melhores e mais incisivas – nas quais, simultaneamente, se elabora uma crítica do presente e se aponta um caminho político alternativo que passaria pela recuperação do legado social-democrata. Tony Judt defende a necessidade de uma social-democracia defensiva que resultaria de um projecto mínimo caracterizado como «a melhor solução possível nas actuais circunstâncias». Trata-se assim de resgatar a social-democracia histórica das suas reconfigurações do tipo «terceira via» e voltar a sintonizá-la com um padrão ético composto de justiça social e igualdade. Padrão ético, esse, que alimentara o New Deal e a construção do Estado-Providência, e que os anos 60 haviam interrompido. 


por Miguel Cardina
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Quinta-feira, 15 de Maio de 2008
por Daniel Oliveira




Fez ontem 50 anos o general Humberto Delgado foi recebido por uma multidão no Porto. Faz amanhã 50 anos que chegou a Lisboa e o povo da cidade foi brutalmente reprimido. O General Sem Medo foi eleito presidente pelos portugueses. A fraude roubou-lhe a vitória. A ditadura acabou por o assassinar. Segundo uma nova biografia, foi morto por espancamento. Tivesse sido diferente e teríamos ganho muitos anos. Pagamos ainda hoje o atraso.
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por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 5 de Maio de 2008
por Daniel Oliveira
"Permitam lembrar Brecht: de cedência em cedência (antes, era só um operário; depois, apenas um padre; depois, era ainda só um comunista...) acabam por nos cortar a cabeça...a nós próprios, que não éramos nada disso!

Tenho o dever cívico de vos manifestar profunda indignação pela atitude do PS na 6ª feira na Assembleia da República a propósito do voto de pesar ao cónego Melo. Mesmo que ela tenha ocorrido após a vergonha da homenagem do seu Presidente ao Dr. A. J. Jardim: temos o direito - e o dever - de não nos habituarmos !

É que Melo agiu, em 1974/75, activamente e por meios terroristas contra a democracia que dava os primeiros passos: os comunistas eram as primeiras vítimas, mas o objectivo era a própria Democracia. Por isso que é intolerável que na hora da provocação, o PS encontre um qualquer alibi para não se pôr do outro lado da barreira. A vossa abstenção é uma traição à Democracia !

Digo-vo-lo com a responsabilidade de vos ter precedido na representação popular no Parlamento. E de ser filho de um Homem que também vos precedeu, Victor de Sá, como outros perseguido durante a luta contra o fascismo, que se viu obrigado a fugir de casa, em Braga, nesse "verão quente" para não ser abatido pela camarilha do cónego que deixásteis que o Parlamento homenageasse como um democrata.

É pelo respeito que os nossos mortos nos devem merecer, aqueles que lutaram para que Portugal vivesse em liberdade, que vos manifesto a repulsa democrática por essa indignidade que alguns de vós personificásteis. Não vos queixeis do divórcio do Povo!

Esta vossa atitude teve ainda a ironia de ocorrer quando se invocam os 40 anos do Maio 68: alguns de vós estavam, como eu, do lado dos que se revoltaram contra o stato quo do poder estabelecido. E agora, que sois Poder?"


Carta de Victor Louro, antigo deputado à Assembleia da República, enviada ao Grupo Parlamentar do PS.
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por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 29 de Abril de 2008
por Daniel Oliveira


1964 - Oração - António Calvário


por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 28 de Abril de 2008
por Daniel Oliveira
Entre 20 e 24 de Maio, Belgrado recebe a 53ª edição do Festival Eurovisão da Canção. O Festival da Canção já conheceu melhores dias na Europa e em Portugal. Durante a minha infância e adolescência o País parava para ver os seus ilustres representantes serem humilhados. E gostava. Continuamos a ser humilhados mas já nem damos por ela. O que é uma pena. Este ano a nossa representante é Vânia Fernandes. Quem é esta serigaita ao pé de um António Calvário, Carlos Mendes, Simone de Oliveira, as Doce, José Cid, Armando Gama ou Maria Guinot? Que falta de respeito pela memória de Shegundo Galarza e Thilo Krassman.

Aqui, diariamente, recordarei o que de melhor na cultura portuguesa se produziu. Excertos da melhor poesia. Sempre a mesma história de amor. Ele só pensa nela a toda a hora, sonha com ela p'la noite fora, chora por ela se ela não vem. E assim continua de ano para ano. O vento muda e ela não volta, ele sabe que ela mentiu, para sempre fugiu. Anda fugida nas asas do sonho. Acha ela que é bom andar sem Norte, não precisar visto, nem usar passaporte. E ele perdido como o fumo subindo no aaaaaaa-aaaaaa-aaaaaaar, como balão que sobe sobe, como o papagaio que voa, dai li, dai li, dai li, dai li dou, anda pelas ruas indiferente, caminhando sem mais notar a gente que por ele vê passaaaaaaa-aaaaaa-aaaaaaar. Anda assim ele no meio de tanta gente recordando esse amor sem grade, fronteira, barreira, muro em Berlim. Um sonho, um livro, uma aventura sem igual. Recorda aquelas noites que duravam até às seis e meia de loucura, em que ela vinha em flor e ele a desfolhava. E a desfolhada era com amor amor amor amor amor presente. No meio da loucura ela implorava «Não sejas mau p'ra mim, oh oh...». E ele dizia: «Bem bom!». Ái, que foram vidas tão cheias, foram oceanos de amor!

Desde António Calvário simulando uma reza às escandalosas Doce, passando por Pedro Osório de cravo ao peito, o Festival da Canção era um excelente retrato do país. Mas chegou uma altura em que a coisa descarrilou. Tornou-se, por assim dizer, demasiado estrangeirado - apesar de, no início dos 80, o «Addio, adieu, aufwiedersehen, goodbye, amore, amour, meine liebe, love of my life» de José Cid e o "Play Back" de Paião ter começado esse processo. Por isso irei apenas até 1989. E mesmo este é um ano de excepção, com os Da Vici a devolverem alguma dignidade coreográfica, poética e musical ao acontecimento. Antes disso, páro em em 1986, com o memorável "Não Sejas Mau para Mim", da inesquecível Dora. De 1964 ao final dos anos 80, aqui ficam, diariamente, até dia 20, os ilustres representantes do nacional-cançonetismo. Ái que saudades!

Excepcionalmente, começo esta autêntica cronologia da história musical portuguesa por um derrotado entre os derrotados. Um vulto da nossa cultura que em 1967 foi injustamente excluído em favor de Eduardo Nascimento. Já então o politicamente correcto fazia as suas vítimas. Senhoras e senhores telespectadores, a canção número 3: "Sou tão Feliz»:


por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 14 de Abril de 2008
por Daniel Oliveira
Memória Subversiva - anarquismo e sindicalismo em Portugal 1886-1975. Um filme de José Tavares e Stefanie Zoch, de 1989, agora disponível online.


Via Denúncia Coimbrã


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Quinta-feira, 10 de Abril de 2008
por Daniel Oliveira
Começa hoje, dia 11 de Abril, no Instituto Franco-Português, o colóquio internacional sobre o Maio de 68.


11 de Abril
9h30 | Sessão de Abertura
10h | Maio no Mundo
Fernando Rosas: Teses sobre a geração dos anos 60 em Portugal e a questão da hegemonia
Gerd-Rainer Horn: Um conto das duas europas
Manuel Villaverde Cabral: Maio de '68 como revolução cultural
14h30 | Ideias de Maio
Anselm Jappe: Maio de 68, do «assalto aos céus» ao capitalismo em rede. O papel dos situacionistas
Daniel Bensaid: Como será possível pensar que se possa quebrar o ciclo vicioso (da dominação)
Judith Revel: 1968, o fim do intelectual sartriano

12 de Abril
10h | Maio em Movimento
Maud Bracker: Participação, encontro, memória - os imigrantes e o Maio de 68
João Bernardo: Estudantes ou trabalhadores?
Franco Berardi (Bifo): 68 e a génese do cognitariado
14h30 | O Outro Movimento Operário
Xavier Vigna: As greves operárias em França em 1968
Yann Moulier Boutang: Maio de 68, herança por reclamar na divisão de perdidos e achados da História
John Holloway: 1968 e a crise do trabalho abstracto
18h | 1968 - 2008
Bruno Bosteels: A revolução da vergonha
François Cusset: Os embalsamadores e os coveiros
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Segunda-feira, 31 de Março de 2008
por Daniel Oliveira
Comemora-se nos próximos dias o aniversário da Comuna de Paris. A eleição e declaração da Comuna fez 137 anos no fim da semana passada. Fiquem com o documentário:






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Terça-feira, 11 de Março de 2008
por Daniel Oliveira


Para quem não viu "A Guerra", de Joaquim Furtado, aqui fica, via Avatares do Desejo, a primeira série completa: aqui, para descarregar, e aqui, para fazer busca no Google e ver cada um deles no Youtube.

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por Daniel Oliveira


Via BiToque


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Segunda-feira, 10 de Março de 2008
por Daniel Oliveira


Uma campanha do Correio da Manhã e da Sábado que, como se diz no Zero de Conduta, não é nem boa, nem má. É lamentável.
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Sexta-feira, 7 de Março de 2008
por Daniel Oliveira


O arquivo do jornal "Avante!", do tempo da clandestinidade, já está disponível on-line. Uma excelente iniciativa do PCP que facilita a vida a historiadores e interessados. Apesar de ser livre de manter reservados os arquivos do Partido, seria mais uma ajuda abri-los a estudiosos do Estado Novo. Pelo menos até uma data suficientemente distante (e que não envolva comunistas ainda vivos), garantindo assim o direito do PCP à legitima reserva de informação. A decisão cabe ao PCP e ninguém o pode criticar por não o fazer. Mas fica aqui o apelo. Seria uma excelente ferramenta para os historiadores do Estado Novo e da luta anti-fascista. Estou convencido que este é um primeiro passo nesse sentido.
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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008
por Daniel Oliveira


Via Bicho Carpinteiro</a>


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Domingo, 3 de Fevereiro de 2008
por Daniel Oliveira



Neste concurso, um espectador disse ao telefone que estava com pressa porque tinha de ir trabalhar. A apresentadora respondeu: «Arbeit Macht Frei» (O trabalho liberta), frase inscrita nas portas de vários campos de concentração nazis. E lançou uma gargalhada, perante o silêncio da sua colega. Quando voltou para o ar, pediu desculpas. Tarde demais. Foi despedida.

Isto é num país que leva a memória a sério. Cá, qualquer esboço de indignação com qualquer alarvidade que se diga conta imediatamente com a ira da brigada politicamente incorrecta. Cá somos todos porreiros e nada é para levar muito a sério. Nem memória, nem o que se diz.

Sou dos que defende que a liberdade de expressão é o mais importante de todos os valores democráticos. A lei não deve proibir que se diga nada. Somos nós, cidadãos, que devemos reagir com indignação aos que insultam a nossa memória. Porque a indignação também é um direito fundamental. E quando deixamos de nos indignar as maiores enormidades passam a ser ouvidas como se de coisas naturais se tratassem.

por Daniel Oliveira
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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008
por Daniel Oliveira


Tão inconsequente como tentar fazer passar votos de pesar no Parlamento por coisas que aconteceram há 100 anos, é organizar manifestações contra as comemorações monárquicas. A História pode ser (e é sempre) um campo de batalha político. Mas se se limita a isso, fica mais pobre e mais incompreensível. Buiça e D. Carlos não são personagens do século XXI e o país onde viviam era outro. Não se aplicam a eles os mesmos conceitos morais e as mesmas grelhas de análise. E mesmo que se aplicassem, isso é de longe o menos interessante. Menos do que isso, só mesmo história contrafactual, essa habilidade, pouco recomendável para quem preze o rigor, de tentar imaginar o que sucederia se não tivesse acontecido o que aconteceu.
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por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Uma coisa que me irrita é Aquilino Ribeiro ter ido para o Panteão enquanto o Buiça ficou cá fora.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008
por Daniel Oliveira


«Com todos os seus tiques monarquistas, na República, finou-se o direito natural de alguém assumir uma posição pública pelo simples e sempre duvidoso facto do nascimento, pela ideia repugnante, que intrinsecamente despreza o mérito, de que uma família ou um clâ se acharem superiores aos indivíduos fora da sua linhagem por que se dizem filhos de alguém. E essa é, pelo menos (mas outras existem), uma razão que enobrece a República face a todas as Monarquias e que faz com que o sangue vertido pelos bravos do 31 de Janeiro não o tenha sido em vão.»
CAA

por Daniel Oliveira
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Sábado, 15 de Dezembro de 2007
por Daniel Oliveira

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O Prémio Pessoa deste ano foi para Irene Pimentel, historiadora do Estado Novo e autora de trabalhos sobre a PIDE, a Mocidade Portuguesa Feminina e os judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial. Tenho o prazer de conhecer Irene Pimentel e a algumas parte do seu trabalho e fico muito satisfeito pelo merecido prémio.

Irene Pimentel também recebeu há pouco mais de uma semana o Prémio Sedas Nunes (o mais importante na área das ciências sociais), ex-aequo com o antropólogo Paulo Granjo, com quem tenho uma velha amizade e até laços familiares. À Irene Pimentel duplos parabéns. Ao Paulo, aqui, parabéns atrasados.


por Daniel Oliveira
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Sábado, 1 de Dezembro de 2007
por Daniel Oliveira
asae.JPGEstes senhores vão estar de piquete.
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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007
por Daniel Oliveira


O líder da Juventude Centrista apontou hoje o presidente do Grupo Parlamentar do PCP, Bernardino Soares, como um dos principais protagonistas dos "distúrbios revolucionários" do "Verão Quente" de 1975, altura em que tinha apenas quatro anos.

por Daniel Oliveira
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Domingo, 25 de Novembro de 2007
por Daniel Oliveira

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por Daniel Oliveira


"A proposta de edificação de um memorial às vítimas do massacre judaico de Lisboa de 1506, agendada para discussão e aprovação pela Câmara Municipal de Lisboa para o passado dia 31 de Outubro, foi adiada "sine die" e corre o risco de ficar esquecida ou subvertida no seu sentido cívico. Em nome da memória do horrendo crime cometido em Lisboa nos dias 19, 20 e 21 de Abril de 1506, que vitimou milhares de cristãos-novos baptizados à força pelo Rei D- Manuel I em 1497, os cidadãos signatários desta petição reclamam da Câmara Municipal de Lisboa que mantenha e execute a proposta tal como foi concebida e na simbólica data prevista de 19 de Abril de 2008."

Assina a petição.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
O dia 25 de Novembro é como o aniversário de um divórcio. Pode ter sido necessário. Pode até ter sido um alívio. Mas ninguém o festeja.

por Daniel Oliveira
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Domingo, 18 de Novembro de 2007
por Daniel Oliveira


Ao ler a história do Muro de Berlim vista pelo jornal "Avante!" percebemos porque não há futuro para alguma esquerda enquanto não perceber o passado.

por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007
por Daniel Oliveira



Podia dizer-se que foi um azar. Um azar a primeira revolução socialista vitoriosa ter acontecido num país imperial e pobre, feudal e habituado a viver às ordens soberanos. Tudo teria sido diferente se não tivesse sido na Rússia. Não seria apenas a primeira experiência socialista que teria sido diferente. Teria sido todo o movimento comunista internacional que teria sido uma outra coisa. Sem Estaline o comunismo teria tomado seguramente outro rumo. Teria muito provavelmente mantido a sua matriz internacionalista. Seria menos monolítico. Não teria empobrecido até ao primarismo o pensamento marxista, uma das mais complexas e entusiasmantes correntes filosóficas e políticas dos últimos séculos. Para quem se revê e não se revê nele.

Mas fica a pergunta: teria o socialismo russo resistido 70 anos sem a mão de ferro do homem de ferro? Teria vencido os inimigos externos e internos? Teria o poder dos bolcheviques sobrevivido tanto tempo sem as purgas e os assassinatos? Sem a barbárie estalinista teria a URSS ido tão longe no seu poder militar e político? Teria sequer ganho a segunda guerra? Teria a Alemanha sido derrotada? Não podemos saber. Por isso devemos trabalhar com o que sabemos.

Sabemos que, passados 90 anos da primeira revolução socialista vitoriosa, o balanço é, na perspectiva mais directa, assustador. Estaline deixou atrás de si um rasto de sangue, de morte, de violência e de barbaridade pornográficos. Dirão: um desvio. Uma subversão. Só que o que hoje sabemos sobre os primeiros anos da revolução e sobre a guerra interna não corrobora esta tese. Os crimes começaram muito cedo. Ainda com algum pluralismo interno dentro do movimento bolchevique, ainda com espaço para debate ideológico, ainda sem o moralismo reaccionário de Estaline, mas o assassinato, a morte e a perseguição pessoal já faziam parte dos métodos de Lenine. Foi com Lenine que o Partido se transformou num exército. E quando um partido se faz exército as balas acabam por se tornar, quando as coisas apertam, no principal argumento político. Foi com o leninismo e não com o estalinismo que o movimento comunista se tornou violento na sua essência e não apenas nas suas circunstâncias. No que a violência política tem de mais profundo, mais corrupto e mais auto-destrutivo. Podia ter sido diferente? Provavelmente não. Mas foi assim e é essa uma das tristes heranças que deixa.

Podemos sempre dizer, e com toda a razão, que a revolução russa (e o movimento comunista que a partir deste episódio viria a ganhar uma dimensão mundial avassaladora) é filha do seu tempo. Das suas circunstâncias - nascida num Império feudal no fim da mais mortífera guerra de que há memória. E que não podemos falar da violência da revolução sem falar da violência que justificava aquela revolta. Da violência da opressão, quase inimiganinável para nós, nos dias de hoje e na Europa. Um tempo em que a brutalidade era a normalidade, como ainda o é em alguns pontos do planeta em pleno século XXI.

Mas olhando para o marxismo percebemos que há mais do que as circunstância. Que a semente está lá. E ainda que não estivesse. Não há um comunismo puro que depois foi conspurcado pela acção dos homens. O comunismo não é uma religião. Por isso, o comunismo é aquilo em que se foi transformado. Não se pode ser comunista e ao mesmo tempo enjeitar a história do comunismo.

Mas a revolução russa teve um outro significado muito mais profundo do que tudo aquilo de que falei até agora. Discordando em muitas coisas do texto do Manuel Gusmão, que aqui já linkei, não posso deixar de subscrever o sentido destas palavras: «A grande Revolução triunfa onde outras tentativas de libertação dos explorados e oprimidos fracassaram, desde as revoltas dos escravos de Roma, às revoltas camponesas, às insurreições operárias do séc. XIX, até à Comuna de Paris. A própria participação popular na Revolução francesa tinha sido defraudada pela burguesia. A primeira revolução vitoriosa é assim portadora da memória activa de lutas, sonhos e esperanças, utopias milenares e sempre vencidas. O que não pode deixar de nos levar a considerar as razões e o significado da vitória.»

E é aqui que chego à segunda parte. Mesmo moralmente, mesmo politicamente (já para não dizer do ponto de vista histórico), talvez tenhamos sempre de analisar um acontecimento da magnitude da Revolução de Outubro (o mais importante acontecimento histórico do século XX, a par com as duas guerras mundiais) pelas suas consequências mais profundas e não apenas pelas mais directas. Para lá da violência e da ditadura soviética, a revolução russa teve um significado muito mais profundo. Foi, de facto, a primeira vez na história que os trabalhadores, ou, para simplificar, os mais explorados entre os mais explorados, foram os protagonistas vitoriosos. O que veio depois sabemos. Mas o que aquela revolução provocou em todo o Planeta foi qualquer coisa de absolutamente inédito na história da humanidade. A esperança e optimismo que ofereceu a milhões de trabalhadores miseráveis permitiu uma capacidade de organização e de luta completamente novas. E isso, conjugado com a mutação que o Capitalismo viria a sofrer no pós-guerra e o simultâneo aumento de influência da URSS graças à sua vitória militar, acabaria por mudar toda a relação de forças nos confrontos sociais.

Se durante tanto tempo os trabalhadores conseguiram ir conquistando direitos, isso não se deveu a qualquer súbita generosidade do capital. Claro que a abundância do pós-guerra facilitou. Mas a organização dos trabalhadores e o temor pelo comunismo (que chegou a ser em quase todo o Ocidente uma corrente política fortíssima) foram decisivos. E basta olhar para a situação actual, em que vivemos em permanente crescimento económico e em sociedades de abundância mas os trabalhadores perdem direitos todos os dias e retrocedem décadas, para perceber o que significou aquela revolução em todo o Mundo. Não há como domesticar o mercado se o poder do mercado nada tiver a temer.

O que celebro aqui hoje não é, na realidade, a chegada do comunismo a terras russas. O que se passou nos 70 anos seguintes à revolução na URSS foi suficientemente trágico para tal não merecer grandes festejos. O que celebro aqui hoje é esse momento em que tudo pareceu possível e o que essa simples esperança fez pela dignidade de milhões de homens e mulheres em todo o planeta.

Dito isto, e com a leve sensação que com este texto acabo por conseguir involuntariamente não agradar a ninguém, podem ver abaixo vários posts dedicados à revolução russa. O primeiro é um conjunto de textos recolhidos pelo portal Esquerda.net. O seguinte é uma cronologia dos acontecimentos que vai de 1894 a 1928. Depois vêm uns excertos de um filme fraquinho (“Reds”), mas um dos poucos que no Ocidente se realizaram sobre um momento histórico tão decisivo (o que não deixa de ser significativo). O quarto é uma galeria de magníficos posters soviéticos que permite percorrer os 70 anos da história do socialismo na URSS. E o post anterior é o filme “Outubro”, de Sergei Eisenstein, na sua versão integral. Assim assinala o Arrastão esta data.

O Miguel Portas responde ao meu texto.


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Aqui em baixo podem ler a cronologia dos acontecimentos que mudaram o Mundo a partir da Rússia. A cronologia foi publicada no Esquerda.net

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1894-1917: Nicolau II, o último czar da Rússia

- Programa de industrialização intensiva (especialmente entre 1894-1901).

- Em 1895, criação da "União de Luta pela Emancipação da Classe Operária" (São Petersburgo).

- Em 1898, primeiro congresso do Partido Trabalhista Russo Social-Democrata.

- Em 1900, primeira edição do "Iskra", jornal dos social-democratas.

- Em 1903, segundo congresso do Partido Trabalhista Russo Social-Democrata (divisão entre mencheviques e bolcheviques). Esta divisão veio a aprofundar-se mais tarde, com os Bolcheviques a advogarem a ditadura do proletariado e a revolução socialista e os mencheviques a defenderem a chegada ao socialismo através do amadurecimento do capitalismo.

- Entre 1904-1905 Guerra contra o Japão visando ocupar a Manchúria Chinesa e a Coreia. Rússia é derrotada e entrega Ilha Sacalina aos japoneses. (Após a 2ªGuerra Mundial, Japão derrotado entrega Sacalina e Curilas à URSS).

1905

"Domingo Sangrento" - insatisfação popular leva a uma manifestação pacífica, violentamente reprimida pela polícia do Czar.
Greves, protestos e tumultos seguem-se ao "Domingo Sangrento", (massacre, em janeiro, de milhares de pessoas que marcharam até o Palácio de Inverno, lideradas pelo padre Gapon); promessa de uma constituição, feita pelo czar, em agosto; em outubro, greve geral e formação do Soviete Supremo de São Petersburgo; também em outubro, manifesto imperial autorizando eleições para a Duma (parlamento) Estatal; em dezembro, onda de repressão (atingindo camponeses, estudantes, operários...), com prisão e exílio dos membros do Soviete Supremo de São Petersburgo.


1906

O Czar permite a criação de uma Monarquia Constitucional Parlamentar. Instala-se a DUMA (Parlamento) com deputados originários das elites. Agitação revolucionária popular cresce e impulsiona a formação dos SOVIETES (Conselhos de Trabalhadores).

Conflitos aumentam. Duma é dissolvida. Retorna a autocracia czarista como solução radical.

- Em 1910, surgem as primeiras exposições dos grupos modernistas "Valete de Ouros", em Moscovo (que inclui Larionovo, Goncharova, Kandinsky e Malevich) e "União da Juventude", em São Petersburgo. No mesmo ano, é publicada a primeira coletânea de poesia futurista russa, com textos de Elena Guro, Khlebnikov, Kamensky, David e Nikolai Burliuk.

- 1912-1916: período de forte influência, sobre o casal imperial, de G.Rasputin (assassinado em 1916).

- 1913: realização do Primeiro Congresso Russo de Futurismo.

- 1914: entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial. Maiakóvsky e malevich realizam cartazes de propaganda política (os "lubik").

- 1916 -1917 - Império Russo está militarmente arrasado e economicamente desorganizado, com 1,5 milhão de mortos.

2. O período 1917-1928: da Revolução de Fevereiro ao fim da Nova Política económica

1917

Fevereiro

- Revolução de Fevereiro, que derruba a monarquia imperial russa.

- Insurreição de Petrogrado (motins/ levantes por comida/ greves/ protestos contra a guerra e a autocracia mobilizando milhares de pessoas).

- Formação do Soviete de Petrogrado (devido aos esforços dos "mencheviques", dos socialistas-revolucionários, dos socialistas populistas e dos "trudovki"). Nos dias seguintes, será formado um governo provisório, após um acordo entre o Soviete e a Duma (que havia constituído um comitê provisório, em seguida transformado em governo provisório).

Março

É criada a República da Duma (Parlamento). Nicolau II abdica a favor do seu filho, Mikhail Aleksandrovich (que renunciou à coroa)

Abril

Retorno de Lenine à Rússia ("bolcheviques" defenderão a tomada imediata da terra pelo campesinato, o controle da indústria pelos trabalhadores, o fim da guerra, "todo o poder aos sovietes" e "paz, terra, pão"). Greves.

Formação de um governo de coligação com o partido da burguesia, com a participação de mencheviques e socialistas revolucionários. Comprometido com as potências aliadas, que constituíam os principais investidores capitalistas estrangeiros no país, o novo governo parlamentar manteve a Rússia na 1ª Guerra Mundial, não produzindo alterações na crise.

Maio

Chegada de Trotsky, retornando do exílio na América.

Crise no governo provisório, que é reorganizado. Kerensky torna-se ministro da Guerra (ordenará uma ofensiva que será um absoluto fracasso, com deserções em massa que ajudam a apoiar a propaganda bolchevista).

Maio/Junho

-Eleições municipais: vitória da ala mais moderada dos socialistas.

- Em junho é realizado o Primeiro Congresso dos Sovietes da Rússia.

Julho

- Levantamentos e protestos contra o governo provisório; penetração da propaganda bolchevique mostra-se visível.

- Novo governo, com Kerensky à frente (primeiro-ministro), restabelecerá a pena de morte (abolida nos primeiros dias da revolução) e postergará a convocação de uma assembleia constituinte, além de promover a perseguição aos bolcheviques (Lenine esconde-se na Finlândia e Trotsky, além de outros líderes, é preso).

Agosto

Tentativa de golpe da direita e extrema-direita, sob a liderança do general Kornilov; a tentativa fracassa.

Setembro

- Trotsky é eleito presidente do Soviete de Petrogrado. Em outubro, o Soviete cria o Comitê Militar Revolucionário, para defender a capital da contra-revolução (os bolcheviques tinham maioria no Comitê).

- Criação do "Proletkult" (Cultura Proletária), organização que defendia que a arte proletária só poderia ser realizada pelos proletários, rejeitando as manifestações artísticas do passado.

Outubro

- "Revolução de Outubro" ou "Bolchevique". Insurreição armada organizada pelos bolcheviques contra o governo; Trotsky à frente do Comitê Militar Revolucionário (trabalhadores, soldados e marinheiros armados tomam o Palácio de Inverno, onde estava instalado o Governo Provisório).

- Trotsky anuncia o fim do Governo Provisório; Kerensky escapa e vai para o exílio. Simultaneamente, é aberto o Segundo Congresso dos Sovietes (de 650 delegados, 390 eram bolcheviques). O próprio Congresso de Sovietes tornou-se a suprema instância do novo governo; as suas decisões deveriam ser executadas pelo Soviete dos Comissários do Povo, subordinado apenas ao Comitê Executivo Central do Congresso (cujos comissários exerciam papéis de ministros) e ao próprio Congresso. Lenine foi eleito presidente do Soviete dos Comissários do Povo; Trotsky e Stalin também se tornaram comissários desse Soviete.

- Em novembro, foram promulgados decretos sobre a paz, a terra (direito de propriedade privada da terra anulado para sempre; direito de todos os cidadãos cultivarem a terra), as nacionalidades (direito de auto-determinação, podendo-se separar da Rússia...) e o controle operário da produção. Os bolcheviques permitiram a eleição de uma assembleia constituinte, na qual não obtiveram maioria, e que acabaram por dissolver, em janeiro de 1918.

1918

- Março: Paz de Brest-Litovski. A Rússia cedeu os estados bálticos, a Finlândia, a Polônia e a Ucrânia.

- Maio/Junho: início da intervenção estrangeira e da guerra civil na Rússia. A guerra civil durou até 1920. De um lado estava o Exército vermelhocomposto por bolcheviques, defensores da revolução) e do outro o Exército Branco (todas as forças opostas à revolução). O Exército Vermelho vence a guerra. Durante a guerra civil, o Partido Bolchevique proibe a existência de facções e tendências internas.

- Julho: aprovação da primeira constituição da República Socialista, Federada e Soviética Russa. A família imperial do Czar é assassinada pelos bolcheviques

- No mesmo ano, é fundado o Departamento de Artes do Comissariado Popular para a Educação (que, de início, incorporou vários artistas de vanguarda).

1919

- Ruas e janelas são ocupadas pela arte gráfica política (ROSTAS), entre 1919 e 1921. Artistas como Malevich e Maiakóvsky estiveram directamente envolvidos.

- Dziga Vertov lança o manifesto "Nós", discutindo as relações entre palavra e imagem.

1920

- Agosto-outubro: encerramento da guerra com os "brancos" e da intervenção estrangeira.

1921

- Fevereiro: Insurreição de Kronstadt. O Soviete anarquista desta cidade faz uma série de exigências ao Governo bolchevique e recusa-se a participar no Exército Vermelho. Este esmaga a revolta. Mais tarde, Trotsky, comandante do Exército Vermelho na altura do esmagamento, considerou ter sido um erro.

- Março: adoção da Nova Política Económica (NEP), que procurava estimular a iniciativa privada e reactivar a economia.

- Em 1921, iniciam-se as purgas no partido bolchevique (preocupação com o perfil "moral" dos membros: expulsão dos arrivistas, alcoólatras, corruptos, etc.)

- Entre 1921 e 1922, o governo revolucionário toma medidas visando aumentar a produção no campo: substituição da política de requisições, no campo, por um imposto pago pelos camponeses in natura, ficando os mesmos camponeses livres para administrar o excedente da produção (estímulo ao comércio) - busca-se uma "aliança entre operários e camponeses"; estímulo aos investimentos estrangeiros. No período, estima-se que 5 milhões de pessoas tenham morrido de fome no interior das fronteiras do antigo Império Russo.

1922

- Formação da URSS (sua primeira constituição foi ratificada apenas em 1924, pouco depois da morte de Lenine).

- Stalin torna-se secretário-geral do Partido Comunista.

- É criada a Associação dos Artistas Revolucionários da Rússia, que defende o retorno ao figurativismo e a afirmação de uma espécie de realismo heróico que antecipa o "realismo socialista" oficialmente adotado nos anos 1930.

1923

- Maiakóvsky organiza o "Front de Esquerda das Artes", articulando Rodchenko, Stepanova, Lavinsky, Lyubov e Popova, entre outros. No mesmo ano, Maiakóvsky e Rodchenko abrem escritório de criação de produtos publicitários (embalagens, cartazes e demais impressos).

1924

- Morte de Lenine.

1925

- Trotsky é destituído do Comissariado de Guerra.

- Eisenstein filma "O Couraçado Potemkin".

1927

- Novembro: Trotsky é expulso do Partido Comunista (foi exilado no Casaquistão em 1928 e banido no ano seguinte. Assassinado no México em 1940, a mando de Stalin).

1928

- Queda da produção de grão e problemas na produção de matérias-primas industriais: setores do governo defendem medidas de emergência c(retornam temporariamente as "requisições", no campo, apoiadas nos destacamentos policiais).

- A NEP é abandonada: o Comitê Central decide implementar o primeiro "Plano Quinquenal" (que dará início à economia planeada). Stalin tentará transformar a URSS rapidamente de um país eminentemente agrário num país industrial e numa potência militar. Fim da idéia de "aliança" com os camponeses.

- "Processos das minas de Chakhty": um grupo de engenheiros é acusado de sabotagem (alguns são condenados e seis são fuzilados).



Fontes:

http://www.geocities.com/oficinadehistoria/contempcronorevrussa.htm

http://www.rainhadapaz.g12.br/projetos/geografia/geoem/urss/urss_04.htm


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira



O Esquerda.net fez, no último fim de semana, um bom dossier com recolha de textos sobre a Revolução Russa. Vale a pena passear por lá.
Um texto sobre a A Rússia Czarista e o ensaio geral de 1905, de Adriana Lopera.
Outro que descreve o processo revolucionário, de Fevereiro a Outubro de 1917,de João Aguiar, do blogue as Vinhas da Ira.
Um texto de John Reed, escrito entre 1918 e 1919, e traduzido em português, sobre o funcionamento dos Sovietes.
Um texto de Alexandra Kollontai, dirigente feminina da Revolução Russa de 1917, sobre a participação das mulheres na revolução, escrito em Novembro de 1927 e outro de Lenine sobre “A contribuição da Mulher na construção do Socialismo”.
Um estudo de Paulo Guinote (publicado no blogue Estudos Sobre o Comunismo) sobre o impacto da Revolução Russa na opinião publicada em Portugal em 1917 e 1918.
Um artigo de Daniel Bensaid e outro de Manuel Gusmão (escritor e dirigente do PCP), publicado na “voz do operário” e linkado pelo Esquerda.net.
Mais um, de Charles-André Udry, sobre o período entre 1914 e 1922.
E uma cronologia que reproduzo no post seguinte.
Não me importava de ter lido alguns textos mais críticos, mas ainda assim o dossier é um bom ponto de partida.


por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007
por Daniel Oliveira


Na semana em que a lei da Memória Histórica é votada em Espanha, o Vaticano beatificou 498 "mártires" católicos da guerra civil. Isto, enquanto mantém todos os sinais da sua cumplicidade e simpatia pela ditadura franquista. Para o Vaticano nem todas as vidas têm o mesmo valor. Nas cerimónias não houve uma palavra sobre as vitimas da ditadura que a Igreja apoiou activamente nem de arrependimento pelos crimes de que foram cúmplices. Não lhes chega o esquecimento? Precisam mesmo de exibir a sua falta de vergonha?



por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 23 de Outubro de 2007
por Daniel Oliveira



Discurso de Che Guevara sobre o Imperialismo e a morte de Patrice Lumumba, que parcialmente aparece no documentário


Através do envolvimento cubano nos conflitos africanos temos um excelente retrato da guerra fria e do preço que África pagou por ela. “Cuba, Une Odysée Africaine”, de Jihan El Tahri, começa no Congo, com a morte de Patrice Lumumba. É interessante, antes de mais, perceber como começaram soviéticos e americanos a pôr e depor governos, a alimentar guerras civis, a fazer o seu combate por procuração em terra alheia. Como a escolha dos seus aliados poucas vezes foi ideológica. O assassinato de Lumumba é talvez o primeiro sinal para África: a sua independência seria apenas aparente.

Apesar de não ser esse o tema, fica também evidente o génio político e a astúcia diplomática e militar de Fidel Castro em comparação com a infantilidade e inexperiência de Che Guevara.

O documentário começa então com o Congo e a ida de Che Guevara para a sua aventura africana, que foi uma desgraça. O envolvimento mais directo de Fidel Castro vem depois. Começando por escolher entre os dirigentes de libertação nacional africanos os que lhe pareciam mais capazes para, a partir deles, definir qual seria o papel cubano no continente. E não poderia ter sido mais clarividente, ao optar pelo mais inteligente (politica e militarmente) dos líderes nacionalistas africanos: Amílcar Cabral.

O documentário acompanha a estratégia de desgaste militar imposta por Cabral aos portugueses e o papel dos cubanos na guerra colonial. Passa depois para Angola, sobretudo para a guerra civil. Como os cubanos trocaram as voltas aos soviéticos e os obrigaram a escolher um lado (ao contrário do que os próprios americanos pensavam então). A tese do documentário parece ser a de que foi Cuba a desequilibrar a balança na luta pelo poder em África.

Um documentário excelentes, com excelentes depoimentos, que quase deita tudo a perder no fim, quando a frieza da análise é substituída pela ingenuidade poética um pouco deslocada para o tema.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira



O mais importante não é propriamente a história do Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), fundado nos anos sessenta por jovens estudantes de extrema-esquerda e com uma razoável implantação popular. O mais relevante não é a história do assassinato de Miguel Enriquez, seu líder, durante o sangrento golpe de Pinochet. O mais relevante não chega sequer a ser a história chilena. É importante revisita-la, apenas para que não se faça a reescrita da história. O mais importante é a clandestinidade, o exílio, o regresso e as memórias.

Em “Calle Santa Fe”, Carmen Castillo, viúva de Miguel Enriquez, exilada durante quase três décadas, traumatizada pela perda e amargurada pela ausência, regressa aos lugares dos seus antigos combates e da desgraça. Discute com antigos camaradas a militarização do movimento durante ditadura, com as mulheres o egoísmo do abandono dos filhos, com os que continuam a ter vida política a “normalização” do país, e com a família a sua história pessoal. É obsessiva. A pergunta é sempre a mesma: valeu a pena? A dúvida é mais pessoal do que política. Ou pelo menos as inquietações pessoais são, neste filme, mais interessantes do que as políticas. Mas a angústia tem reflexos políticos. Quando fala com um jovem revolucionário e propõe que se recupere a casa onde Miguel morreu, ele é implacável: ao transformar a actividade política num museu os mais velhos estão a impor o seu poder. Eles, os mais novos, estão fartos das lembranças. Querem mesmo fazer política. Brutal para Carmen. Mas eficaz para que encerre esse capítulo, apesar disso ser impossível.

Calle Santa Fe é um documento muitíssimo interessante sobre a desumanização da clandestinidade. Vale a pena perder tantas vidas? A resposta só a poderia dar quem as perdeu e quem, estando vivo, não as pode recuperar. A resposta de todos parece ser que sim, mas no fundo parecem todos sentir que não. Talvez porque quando se chega ao fim nada parece ser o que se queria. É talvez por isso que muitas vezes os sobreviventes das ditaduras não são os que estão mais preparados para construir a liberdade.

Um filme demasiado longo (quase três horas) que ganharia em ritmo se tivesse evitado alguma redundância.

por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2007
por Daniel Oliveira
«Mesmo assim, convém lembrar, a propósito daqueles que acham excessiva a comparação de Che com Hitler, como Che não se compreende isoladamente.» Luciano Amaral

Estes são os mesmos senhores que nos explicam há anos que não houve fascismo em Portugal (sempre exigindo o máximo de rigor nas palavras e nas comparações) e que fazem tudo para isolar o fenómeno português do que aconteceu no resto da Europa na primeira metade do século XX.

Estou completamente à vontade na minha relação com os "nossos filhos da puta". Até com Che Guevara. Mas foi preciso esperar por esta polémica para ver a direita portuguesa tratar mal Pinochet. Eles com o tempo lá vão chegando. E julgando que destroem os tabus da esquerda, esta semana lá foram destruindo os seus.

Em baixo, podem ler o texto que escrevi em Junho de 2006 sobre Che Guevara.


Derrota ou morte, venceremos!

No Museu Vitoria & Albert, em Londres, foi inaugurada uma exposição dedicada às imagens iconográficas de Che Guevara. Um contratempo: Gerry Adams, o líder do Sinn Fein, braço-político do IRA, estava convidado. O museu retirou o seu nome. Compreende-se. Não é conveniente ter radicais de esquerda que se dedicaram à luta armada numa exposição sobre Che Guevara.

Parece estranho mas não é. A imagem de Che é inofensiva. Che corporiza tudo aquilo em que a esquerda perde. Che sonhava com a revolução mas não queria o poder. E a revolução sem poder é apenas violência. Che queria o poder do povo mas, como se viu na Bolívia e ainda mais no Congo, dispensava o povo para lançar mãos às armas. Che via a revolução como um sacrifício, não como uma libertação. Che representava o comunismo naquilo que ele tem de mais cristão. Era um santo e, na sua utopia, transportava, como um santo, a emancipação dos homens. Ler os diários de Che e a sua megalomania redentora é bastante esclarecedor. E Che era um aventureiro com a única coisa em que ninguém tem o direito de ser aventureiro: a vida e o futuro dos outros. Fidel é uma tragédia para os cubanos. Che teria sido uma hecatombe. Por boas e péssimas razões esta sempre foi a posição oficial dos comunistas pró-soviéticos. Hoje o «merchandising» guevarista toma conta da Festa do Avante! Porque Che não passa de um santinho adorado em procissões.

Che é inofensivo porque representa o lado utópico e absoluto da esquerda. E a utopia absoluta, como programa político, está condenada ao fracasso. Quer o fracasso, deseja o fracasso e vive do fracasso. E o fracasso, em revoluções, escreve-se a sangue. Che é um herói porque perdeu. E as nossas almas cristãs adoram crucificados. Gerry Adams, que fez a guerra e negociou a paz, que cometeu crimes e calou as armas do IRA, iria fazer tanto àquela exposição como a Fátima ou a Lourdes. É que talvez Che fosse um bom homem. Seguramente é uma excelente estatueta. Mas para mim, que sou iconoclasta, foi, como político, uma desgraça.
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por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira





A revista "História", única no género em Portugal, deixou de contar com alguns apoios oficiais (porte pago, apoio do IPLB, etc), e deu por terminada a publicação no nº 100 da nova série. Este encerramento deve-se a um corte orçamental que apesar de minimo para quem apoiava é extramente importante para assegurar a sua existência.

Assina a petição para que o fim do pouco que se gastava não faça morrer a única publicação de divulgação de história do nosso país.

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por Daniel Oliveira
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