Segunda-feira, 25 de Julho de 2011
por Sérgio Lavos

 

Não acho que esteja a polir o revólver, caro Francisco, mas julgo que a expressão que usa facilmente pode servir para encostar alguém às cordas do preconceito. Atenção: esse tal "preconceito antropológico ocidental" pode até ser real em alguns casos. Contudo, a sua existência não impediu que esteja a ser feito o necessário para manter a ameaça do terrorismo islâmico sob controlo. É uma questão perfeitamente secundária, neste caso, e, devolvendo o brinde, a frase, no seu texto, é apenas usada em tom provocatório. 

 

A questão parece-me muito simples: o terrorismo deve ser tratado como aquilo que é, um acto criminoso. E as democracias devem evitar que aconteça, sempre (mas não recorrendo a qualquer meio, seja a tortura ou, mais grave, uma guerra preventiva). Seja de extrema-direita neonazi, de extrema direita islâmica ou de extrema-esquerda. Agora, tentar perceber as razões da existência de extremismos islâmicos violentos não me parece que seja consequência de um "preconceito antropológico ocidental". E certamente o Francisco concordará comigo se eu disser que a agressividade do mundo islâmico em relação ao Ocidente é, em parte, resultado directo da violência exercida sobre os países árabes. Violência em forma de ocupação territorial - como é o caso da presença de Israel na Palestina -; violência de guerras preventivas que pouco ou nada ajudam à pacificação do Médio Oriente - como é o caso do Iraque; e violência exercida indirectamente, por via do apoio que as democracias ocidentais dão às petroditaduras do Golfo. Pretendo com esta enumeração desculpar actos terroristas? De modo algum, porque um crime é sempre um crime, seja qual for a razão por detrás dele, e matar inocentes a milhares de quilómetros de distância é, definitivamente, um crime. Como também é crime a morte de civis em resultado de ocupações de países soberanos. E atenção, que não falo de guerras entre nações; falo de ocupações criminosas, nas quais a discrepância de poder entre as forças militares em combate não permite que se possa falar em guerra. 

 

Do mesmo modo, reduzir o duplo atentado de sexta-feira a um acto de um alucinado é esvaziar a importância das motivações políticas de Anders Breivik. Mas é isso que estamos a ouvir diariamente: Anders é um louco solitário, e o facto de ter ligações à extrema-direita é apenas um pormenor. É um caso previsível de double standards: a loucura nunca é a causa primária para atentados perpetrados por terroristas islâmicos. Porquê? Porque um acto de loucura é um acto solitário; e sendo um acto solitário, é uma excepção, não nos vincula, enquanto sociedade, ao indivíduo que o pratica. Enquanto que um atentado terrorista, despojado da insanidade solitária do atirador que mata dezenas, vincula toda uma cultura. Excluímos os nossos loucos, diferenciamo-los do resto da sociedade, afirmando: "nós não somos assim, isto é uma excepção". Mas vinculamos milhões de muçulmanos à violência praticada por uma minoria (de loucos de Deus). De que lado está o "preconceito antropológico ocidental"?


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Domingo, 27 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

Que fofura: João Miranda compara o Hamas, o partido mais votado nas eleições em território palestiniano (que, lembre-se, ainda não é um país independente) e cujo líder nem sabemos bem quem é (não vale ir à Wikipedia) com ditadores de créditos firmados - como soi dizer-se - déspotas que não hesitam em dizimar a população para se manter no poder. Ah, bendito liberalismo; se eu fosse mais crescido, aderia de imediato a tanta pureza de intenções. Este é o caminho. 


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

alguns que gostam de se esquecer que morreu mais gente ao longo da intervenção americana no Iraque (e, já agora, no Afeganistão) do que em qualquer revolução que  possa surgir no mundo árabe, mesmo tratando-se, neste caso, de um psicopata assassino como Khadafi e ressalvando que uma vida perdida já é muito, demasiado. Os que estão a morrer em nome da liberdade na Líbia não precisam de amigos destes, certamente. E é tão fácil ser marine sentado à frente de um ecrã de computador. Os cowboys de sofá voltaram. Já cá faltavam.


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (13) | partilhar

Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

 

No meio do delírio alucinado que parece ter sido o discurso de Khadafi, há razões para acreditarmos no poder do non sense como arma de desconstrução de um discurso. Khadafi acha que não poderá empurrado da cadeira do poder simplesmente porque não é presidente; se não é presidente, não será deposto. Mais, arriscando um salto lógico digno de Wittgenstein, Khadafi assume o papel de líder da revolução que se prepara para o apear do lugar onde está. Resumindo: ele é simultaneamente vítima e carrasco, é o revolucionário bombardeado nas ruas por aviões e é o facínora demente que dá ordem para disparar sobre a multidão. O "guia da revolução" que não tem posto oficial para se demitir lá acaba por admitir que uns jovens, sob o efeito de drogas, provocaram algum sobressalto, mas reafirma-se como lança contra o poder do Ocidente. Psicopatia? Esquizofrenia? Ou um calculismo patético e perigoso? Khadafi pode viver num mundo muito seu, mas sabe que a contestação está sobretudo - e para já - a acontecer nos países cujos líderes foram beneficiando da complacência ou do apoio claro do Ocidente, a teoria que todos conhecemos de que mais vale um ditador amigo de que um democrata inimigo. A massa revoltosa na Tunísia e no Egipto clamava contra regimes opressivos, é certo, mas também contra a presença sombria dos interesses americanos e europeus nestes países. E assim também sucede no Bahrein, no Iémen e em Marrocos. O grande erro de Khadafi terá sido a reentrada, ensaiada na última década, na normalidade cínica da diplomacia internacional, as recepções de luxo em países ocidentais, a abertura do país ao investimento estrangeiro. O recuo tentado, apesar de parecer enfermo de um ridículo desarmante, será o mais lúcido passo que Khadafi poderá dar. E sabemos o que isto pode significar: se a resistência não desistir, a carnificina. Sob a capa do mais (aparentemente) legítimo dos terrores: o revolucionário.


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (10) | partilhar

Domingo, 20 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

 

Mais de 200 mortos depois, os protestos chegam a Trípoli. A frieza dos números esconde algo que deveria servir de exemplo a quem vê de longe as revoltas que eclodiram nos países islâmicos, o heroísmo de quem luta sem armas contra um regime totalitário. O mais difícil ainda está para vir, e não falo do período pós revolucionário nos países libertos, mas sim das ditaduras mais sanguinárias, as que ainda faltam cair. Khadafi, o antigo revolucionário transvestido de líder tribal, terrorista perdoado pelo Ocidente e apaparicado por economias mais interessadas no petróleo líbio do que em algo tão vago como direitos humanos ou democracia, não hesitará em reprimir a vaga que agora começa. Poderá acabar como em Tianamen, e nessa altura o nosso homem em Trípoli, o embaixador Rui Lopes Aleixo, já deverá ter visto qualquer coisa. Será este o momento certo para os nossos empresários, oportunamente amparados pelo Governo em funções, poderem fechar negócios e usufruir de mais algum tempo de bonança. Khadafi, o amigo e mentor (na especialidade do bunga-bunga) de Berlusconi (o novo santinho no altar de helenafmatos - les beaux esprits se rencontrent?), o aliado de Sócrates, garantirá a segurança do dinheiro de sangue que chegar a Portugal. Os amigos são para as ocasiões. Mas até onde poderá ir o heroísmo dos homens e mulheres que, nas ruas dos países islâmicos, se dispõem a sacrificar em nome da liberdade?


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (17) | partilhar

Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

 

Outra má notícia para quem se apressou a temer que acontecesse na Tunísia e no Egipto o mesmo que aconteceu no Irão em 1979: o povo saiu à rua a pedir mais democracia. No Irão. Depois do comunicado dos líderes políticos a saudar as revoluções naqueles dois países.

 

(Claro que os opinadores se têm esquecido convenientemente das gigantescas manifestações contra o regime, a quando das últimas presidenciais iranianas. Não convinha nada que a realidade desmentisse uma opinião feita, mas acontece. E está a acontecer, e vai acontecer, apesar de estarmos a falar de gente "que não está habituada à democracia e que gosta de viver na barbárie", parafraseando o tom geral destes arautos da cinycalpolitik.)

 

*Imagem da Reuters


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (9) | partilhar

Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

 

"Há festa em Sidi Bouzid, na casa da família de Mohamed Bouazizi, o vendedor de legumes cujo suicídio acendeu o rastilho da revolução tunisina e também da egípcia." Aqui.

 

Os cínicos não estão a ter um bom 2011. Um resto de ano igual ao que tem sido até aqui, é o que esperamos e desejamos.

tags: ,

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (12) | partilhar

Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011
por Sérgio Lavos

 

Quase sete anos da invasão do Iraque que, segundo a doutrina neocon, iria iniciar um dominó democrático no Médio Oriente, o Ocidente tem a oportunidade de assistir a uma verdadeira revolução num país islâmico, a Tunísia. A emergência de uma vontade de revolta nasceu espontaneamente e, mais importante, disseminou-se pelas classes mais desfavorecidas da população com uma intervenção mínima das elites da oposição ou do poder religioso. A imolação de um vendedor de rua terá sido o rastilho que iniciou um processo que culminou na fuga do antigo presidente Ben Ali. E somente na fase final da revolta houve participação do exército, mas será sempre inevitável que isso aconteça: nenhum poder é passível de ser tomado apenas com o apoio da população, como bem sabemos.

 

Curiosamente - ou nem por isso - a única influência externa no processo, mesmo que marginal, terá vindo da WikiLeaks. A revelação de um milionário e ruinoso negócio feito pela família da mulher do presidente deposto, surgida nos telegramas expostos em Novembro passado, e a disseminação desta informação terá tido também um papel importante na revolta. A questão do desejo de transparência total a que a WikiLeaks aspira, ainda que esteja aberta a discussão, tem neste exemplo um importante argumento a favor. Um dos pilares de qualquer regime totalitário ou autoritário, o controlo da circulação da informação, é posto em causa com existência de uma entidade apátrida (e portanto difícil de controlar) cujo objectivo é exactamente libertar a informação que o regime controla. Desenganemo-nos: nada há de ingénuo na opinião de muitos dos críticos da WikiLeaks; eles sabem muito bem o que está em causa na demanda de Julian Assange. Distinguir, como fizeram, entre liberdade de expressão, um valor que deveria ser absoluto, e a necessidade de segredo de estado, é legitimar a existência dessa zona cinzenta em que um Estado - qualquer que seja a sua natureza, opressiva ou democrática - exerce o seu poder autoritário. Na Internet, a circulação de informação é rápida e livre, e por isso perigosa para os regimes e os poderes que a tentam controlar. Slavoj Zizek, no seu livro Violência, dá um exemplo de como esta rapidez de circulação pode levar a reacções a milhares de quilómetros de distância, ao falar dos protestos da "rua islâmica" (uso a expressão com a distância que ela merece) contra os cartoons publicados num obscuro jornal dinamarquês. Este exemplo fala de uma consequência negativa desta circulação de informação, mas não nos podemos esquecer de que a esmagadora maioria dos protestantes nas ruas dos países islâmicos teve acesso a uma informação em diferido, mediada pelos líderes religiosos. Portanto, a essência libertária do sucedido - o conhecimento de algo acontecido longe - é subvertida pela natureza totalitária de quem soube primeiro, neste caso os líderes religiosos islâmicos. A reacção da "rua islâmica" não foi de facto aos cartoons publicados no jornal dinamarquês, mas aos discursos inflamados do poder que controlava a informação.

 

No caso da Tunísia, a revelação da WikiLeaks conferiu um ar de legitimidade ao que já seria pressentido (e sentido) pela maioria da população: a natureza corrupta e repressiva do regime de Ben Ali. Se a este facto somarmos a pureza do movimento de revolta que nasce do desespero de quem não consegue viver em condições mínimas de dignidade - a que o acto concreto, mas também simbólico, do suicídio acrescenta um dramatismo que o resto da sociedade não poderá ignorar - poderemos compreender o que está - ainda - a acontecer no Magreb. Seguir-se-à a Argélia, Marrocos, o Egipto? Será este o verdadeiro "dominó democrático" - e não falo da expressão que cinicamente foi inventada pelos políticos e comentadores neocons para justificar uma invasão ilegítima e a morte de centenas de milhar de iraquianos - de que o mundo islâmico está à espera?


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (10) | partilhar

Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010
por Sérgio Lavos
O pastor de uma minúscula congregação evangélica da Florida decidiu marcar para o dia 11 de Setembro uma queima do Corão, evocando saudosos tempos idos e emulando o hábito salutar de queimar bandeiras mantido por muitos manifestantes anti-americanos por esse mundo fora. Felizmente, toda a gente, de Hillary Clinton aos representantes das mais importantes religiões dos E. U. A., já disse o que tem de ser dito sobre a questão. O pastor, contudo, na sua teimosia de saloio fundamentalista (de bigode ridículo, como o de muitos outros saloios fundamentalistas), persiste na demanda insana, atirando mais uma acha para a fogueira das relações entre a América e o mundo islâmico. Valha-nos (Alá?) que existe alguém como Jon Stewart para colocar a questão da única maneira passível de ser colocada. Brilhante, como sempre:
The Daily Show With Jon Stewart Mon - Thurs 11p / 10c
Weekend at Burnies
www.thedailyshow.com

Daily Show Full Episodes Political Humor Tea Party


Entretanto, o pastor viu a luz, na forma de alguns agentes do FBI e de uma chamada de Robert Gates, o Secretário de Defesa norte-americano. Nada como a velha e boa persuasão federal americana. Aleluia!

Adenda: e não é que ele ameaça voltar atrás com a decisão? Quando a loucura se torna realmente perigosa...
tags:

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (35) | partilhar

Sexta-feira, 16 de Julho de 2010
por Sérgio Lavos
Cada vez que passo na rua e vejo uma janela com cortinas, estremeço de medo, não esteja um árabe assassino por trás dela.

Deixei de ir ao teatro, porque entro em pânico enquanto a cortina está fechada. Há muçulmanos no palco dos teatros (sabiam?), por detrás das cortinas, só com o intuito de matar judeus. Eu não sou judeu, mas posso apanhar por tabela. Essa é que é essa.

Eu um dia até pensei ir ver um show de dança do ventre mas, quando me disseram que a senhora tinha a cara tapada, vi logo que só podia ser uma bombista suicida e que o cinto dela era explosivo de plástico com acabamentos de dourado. A mim não me apanham, malandros!

Eu nem deixei que me tirassem o apêndice porque os malditos médicos, decerto muçulmanos raivosos, estão com a cara tapada na sala de operações e podem matar-me. Mesmo não sendo eu judeu nem norte americano (não tanto a norte, porque os canadianos não sofrem do mesmo mal), o risco é sempre elevado.

E outro dia dei uma tareia numa senhora que ia na rua com uma máscara a tapar a boca. Depois disseram-me que ela tinha um cancro e que se notava logo pela debilidade e, sobretudo, pela falta de cabelo. Mas não importa. Essa senhora era um risco para a minha segurança. Muçulmana, por certo... acho eu.

Ele há coisas que já são exagero ou paranóia. Tem medo, Jorge Costa? Compre um cão! E se já tiver, treine-o a cheirar bombinhas de carnaval.



Este é um comentário deixado por Guilherme Cunha a um post d'O Cachimbo de Magritte que fala por si:

Esta mulher (?) [imagem de mulher usando uma burka] não é livre, que eu sei. Nenhum sofisma relativista argumentando o contrário é convincente. Porém, a minha objecção à burka não resulta de eu querer libertá-la à força. Não. Resulta de que ela interfere na minha liberdade. Ao estabelecer no espaço público um direito de presença que se furta à responsabilidade da identificação espontânea. Não sei com quem me cruzo. Não posso, nem devo sentir-me seguro. E, se não posso sentir-me razoavelmente seguro, tenho a minha liberdade diminuída. Eu sei que, tratando-se de um símbolo religioso, impedi-la de se esconder assim é particularmente delicado. Mas estes são os casos-limite em que o direito ao exercício de uma prática religiosa, por mais aberrante que seja - e é -, conflitua com outras liberdades e outros direitos: nomeadamente o meu - a sentir-me protegido, por poder identificar quem partilha comigo o mesmo espaço público.



Ou não há problema que as pessoas andem assim na rua?

(via Sem Governo).



por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (18) | partilhar

Domingo, 1 de Junho de 2008
por Daniel Oliveira


A decisão do tribunal francês de anular um casamento entre muçulmanos porque a mulher não era virgem, ao contrário do que dissera ao marido, é um absurdo e nada tem a ver com "multiculturalismo", uma palavra que parece querer dizer tudo e coisa nenhuma. A exigência da virgindade feminina até ao casamento era normal nas sociedades cristãs até há muito poucas décadas (e ainda o é em alguns meios muito conservadores). Não se trata assim de um idiossincrasia de uma determinada cultura. A libertação sexual das mulheres foi uma conquista das sociedades modernas. E foi uma conquista cultural e política contra muitos dos que hoje fazem dos direitos das mulheres um cavalo de batalha para um choque de civilizações. E que conseguem manter um discurso completamente esquizofrénico conforme falam dos "outros" ou de "nós".

Se a decisão tivesse partido, como já aconteceu num caso diferente na Alemanha, de algum tipo de respeito por diferenças culturais seria, apesar de tudo, mais grave. Porque significaria o abastardamento da ideia de tolerância, usando as mulheres muçulmanas para, na realidade, recuar nas liberdades que as mulheres aqui foram (sem consensos) conquistando. Retardar a liberdade das muçulmanas para recuar na liberdade das europeias. Mas não foi assim: a decisão deveu-se apenas a um fundamentalismo jurídico muito comum em magistrados e advogados. Como se a lei e a vida não tivessem de ter qualquer relação.

Esta decisão parte de um princípio: que sendo o casamento um contrato, mentir na celebração desse contrato é razão para a sua nulidade. Argumenta o marido: agiu "movido por um erro objectivo" que para ele "era determinante para seu consentimento".

Na realidade, e com as devidas diferenças, ter a infidelidade como razão de culpa num divórcio não está longe deste princípio. É a ideia de que a lei pode e deve ser guardiã das condições pré-estabelecidas no casamento mesmo que estas sejam do domínio do que mais privado possa haver na vida das pessoas. Que a lei pode regular os afectos como se regula qualquer contrato. Como se vê por esta decisão, não bate certo com qualquer ideia de justiça, na relação que ela tem de ter com o senso comum.

Diz o promotor de Lille que o problema da virgindade centrou um pouco o debate mas que a questão central é o facto da jovem ter mentido. Na sua cegueira jurídica o magistrado não vê a evidência: que a mulher e o homem não estavam em pé de igualdade naquele contrato. Que ela não podia pedir o mesmo ao seu noivo. E a razão porque não o podia fazer nem é religiosa. O islão exige virgindade antes do casamento à mulher e ao homem. A razão é sempre a mesma: desigualdade objectiva entre as duas partes. Se a mentira, nos afectos, é um assunto que só às duas pessoas envolvidas pode dizer respeito, quando há um tamanho desequilíbrio de poder ela pode mesmo ser a única forma reequilibrar as forças.

A lei deve sempre proteger, antes de tudo, quem está mais desprotegido. E não deve ser um instrumento de institucionalização de desigualdades, mesmo que elas, em determinado momento e em determinados contextos, sejam aceites como naturais. Este é um bom caso para o recordar e fazer tocar alguns sinos em algumas cabeças.

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (71) | partilhar

Domingo, 30 de Março de 2008
por Daniel Oliveira
Tenho aqui mais algumas citações do livro religioso que Geert Wilders podia ter acrescentado no seu filme, porque retiradas dos contextos histórico e literário e juntando-se à leitura o preconceito teriam um forte efeito:


«Quando no meio de ti, em alguma das tuas portas que te dá o senhor teu Deus, se achar algum homem ou mulher que fizer mal aos olhos do senhor teu Deus, transgredindo a sua aliança (...) Então tirarás o homem ou a mulher que fez este malefício, às tuas portas, e apedrejarás o tal homem ou mulher, até que morra.»
«E aquele que blasfemar o nome do senhor, certamente morrerá; toda a congregação certamente o apedrejará; assim o estrangeiro como o natural, blasfemando o nome do senhor, será morto.»
«Todo o que for achado será transpassado; e todo o que se unir a ele cairá à espada. E suas crianças serão despedaçadas perante os seus olhos; as suas casas serão saqueadas, e as suas mulheres violadas.»
«…matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois às ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos»
«Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada»
«Os homossexuais devem ser executados»
«As mulheres não devem usar roupa masculina - é uma abominação aos olhos do Senhor.»
«As mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. E se querem ser instruídas sobre algum ponto, interroguem em casa os seus maridos, porque é vergonhoso para uma mulher o falar na igreja»
«A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio.»

Um pormenor que os crentes terão reparado: as frases não são retiradas de textos sagrados islâmicos. Se alguém resolvesse usar estas citações para descrever o Cristianismo o que lhe diriam? Que era um débil mental. No entanto não é o que se diz quando alguém escolhe este método idiota para retratar o Islão. Pode discutir-se as sociedades muçulmanas, que são muito diferentes entre si. Mas deixar que o debate desça a este ponto de indigência intelectual não é apenas um insulto aos muçulmanos. É um insulto à inteligência.


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (50) | partilhar

Sexta-feira, 28 de Março de 2008
por Daniel Oliveira
A Nebulosa Reaccionária, de Miguel Vale de Almeida.

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quinta-feira, 27 de Março de 2008
por Daniel Oliveira



Confesso que hesitei se postava ou não este vídeo. Em princípio, não publico aqui propaganda de extrema-direita. Defendo a liberdade de expressão que o senhor Geert Wilders, um deputado da extrema-direita holandesa (sobre o qual já tinha escrito no Expresso), não aceita para os outros (propondo que o Corão seja proibido na Holanda). Defendo que o homem tem direito à palavra. Não obrigatoriamente no meu blogue, claro. Mas ver este vídeo pode ser muito elucidativo do que é e a quem serve a islamofobia. Posto aqui este inenarrável vídeo de propaganda racista, onde se misturam imagens chocantes, frases soltas e declarações incendiárias não identificadas. No vídeo quase amador, mas que foi divulgado hoje e já corre o mundo, o deputado não hesita em mostrar a imagem de um decapitado, que as televisões, por respeito à sua família, não exibiram.

Quem daria crédito a frases assim retiradas da Bíblia ou da Tora? E não faltaria por onde pegar em textos que lidos literalmente e sem contexto histórico só podem dar disparate. Ninguém decente. Mas a ignorância é sempre amiga do racismo. E a táctica do racismo é sempre a mesma: colar a todo um povo e a toda uma cultura os crimes de alguns para pôr o medo a render poder.

Geert Wilders não quer saber nada sobre o Islão ou sobre o Mundo muçulmano. Wilders nem sequer nos quer dar uma imagem do fundamentalismo islâmico. Geert Wilders quer nos dizer que o Islão é, ele mesmo, criminoso. Quer chafurdar no medo e assim ganhar poder. Exactamente como os nazis queriam explicar ao povo que os judeus eram culpados de tudo o que de mal lhes acontecia.

Nada distingue o senhor Wilders dos pais da criança que, no vídeo, repete que os judeus são uns porcos. São feitos da mesma massa estúpida e ignorante que nos levou, ao longo da história, para todas as tragédias. Uma diferença: Wilders é deputado e sabe muito bem porque faz o que faz e porque diz o que diz.

O que aqui vemos não é assim tão diferente da propaganda que o anti-semitismo espalhou e espalha sobre os judeus e a sua história. Nem da propaganda que radicais muçulmanos (mesmo os que não optam pelo terrosimo) espalham sobre os judeus e os ocidentais. Geert Wilders faz parte dessa velha família de incendiários, que na sede de poder espalha o medo do outro e ódio pela diferença. Este "documentário" é apenas um retrato do senhor Wilders, um dos mais populares políticos holandeses.

Mas aqui fica. Porque vivemos em sociedades livres e não daremos a este senhor o gosto da vitimização. Não será silenciado. Ao oriente diremos: sabemos que a maior parte dos muçulmanos não são isto. Saibam que a maior parte dos europeus não são Geert Wilders.

Como ateu e laico (os únicos que foram sempre perseguidos por todos os fanáticos de todas religiões), não respeito nenhuma religião mais do que outra. Apenas sei de uma coisa: aquele que me disser que há um povo, uma religião e uma cultura criminosa por natureza será seguramente o que não hesitará em matar em nome da sua autoproclamada superioridade cultural. Sempre foi assim, sempre assim será. O que assusta? É que também por cá esta gente começa a ser levada a sério. Olhem para a história e vejam onde isto acaba.

Que ninguém se engane: estes homens que usam a defesa dos direitos de umas minorias para expulsar da Europa outras minorias serão os primeiros a esmagar qualquer minoria se acharem que isso lhes dará popularidade e poder. O princípio é sempre o mesmo. Só mudam as personagens.

PS: o facto de ter postado este vídeo não abre a porta da caixa de comentários a insultos racistas, sejam contra quem forem.

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (145) | partilhar

Terça-feira, 11 de Março de 2008
por Daniel Oliveira


O senhor Geert Wilders, deputado holandês da extrema-direita anti-imigração, quer exibir um filme anti-Islão. Vindo da figura que vem espera-se uma coisa linda. É livre de o fazer e a Holanda tem de defender a sua liberdade. Sobre isto escreverei noutra oportunidade. Apenas um pormenor interessante - o mesmo homem que é apresentado como um defensor da liberdade de expressão afirmou: «Eu quero o Corão Fascista seja proibido. Temos de parar a islamização da Holanda. Isto quer dizer nem mais uma mesquita, nem mais uma escola islâmica, nem mais um Iman...». Liberdade de expressão? Claro, mas só a dele.

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (69) | partilhar

Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008
por Daniel Oliveira


Num tempo em que todos são especialistas no Islão e têm tantas e repentinas certezas, o Guardian teve a excelente ideia de criar um blogue sobre a matéria. Ziauddin Sardar, espicaçado pela colunista Madeleine Bunting, faz uma leitura comentada do Corão. Blogging the Qur'an é uma excelente instrumento para começar a saber do que falamos quando falamos do Islão. Para religiosos, ateus e agnósticos.

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008
por Daniel Oliveira
«A Mesquita Central de Oxford, muito conspícua, com minarete e cúpula, reclamou agora o direito de fazer apelo à oração, com o ruído que a ortodoxia recomenda. (...) Já em Roma, um grupo de professores não permitiu que o Papa Ratzinger - um académico, um filósofo e um teólogo - fosse à Universidade de Roma, "La Sapienza", em nome da laicidade da investigação e do que ele pensa (se pensa) sobre a condenação de Galileu. (...) A liberdade invocada para autorizar um muezzin em Oxford é a mesma liberdade invocada para não permitir que o Papa fale na Universidade em Roma.»
Vasco Pulido Valente

Para Vasco Pulido Valente a rua e a Universidade são a mesma coisa. Assim, para haver equilíbrio, ou as universidades deveriam deixar de ter a liberdade para convidar ou não convidar quem entendessem (na verdade, ao contrário do que diz Pulido Valente, Ratzinger foi convidado e perante protestos decidiu, em liberdade, não aceitar o convite) ou o Estado pode decidir que religiões podem e não podem fazer ruido na rua, onde ninguém está presente a convite e onde ninguém pode proibir (felizmente) os sinos (suponho que estes não sejam ortodoxos) de tocar a rebate. Só com comparações absurdas (e alteração dos factos) se pode sugerir o absurdo: que graças ao multiculturalismo a Igreja católica vive quase na clandestinidade em Itália e que o Islão já está a tomar conta do Reino Unido. Não querem ver que até têm mesquitas? E até fazem barulho. Fanáticos!

Os dois exemplos são óptimos exemplos de liberdade: os muçulmanos são livres de, como os cristãos, manifestar a sua religiosidade. Os não-muçulmanos são livres de não gostar, mas não o podem proibir. Perante os protestos, os muçulmanos seriam livres de desistir desta sua vontade. Ou de não desistir. Os católicos (ou não-católicos) são livres de convidar o Papa para falar numa Universidade. Os não-católicos são livres de não gostar, mas não o podem proibir. Perante os protestos, o Papa é livre de recusar o convite. Ou de não o recusar.

Em Alepo, em Damasco e em Istambul ouvi os sinos de igrejas cristãs. Os sirios e os turcos normais não pareciam ficar incomodados nem considerar que aquilo era «ruído que a ortodoxia recomenda».

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (62) | partilhar

Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007
por Daniel Oliveira
«Hassan Askari, o novo herói de Nova Iorque, nasceu há 20 anos em Manhattan, mas passou a juventude no Bangladesh, a terra dos pais. Muçulmano cumpridor, regressou há um ano aos Estados Unidos para estudar Economia e a sua vida dividia-se entre o Berkeley College e o restaurante de East Village onde trabalha algumas horas. Até que, irritado com a indiferença dos outros passageiros do metro, saiu em defesa de três jovens judeus atacados numa carruagem por um grupo de anti-semitas. Askari foi esmurrado, mas a sua intervenção permitiu a um dos agredidos puxar o travão de emergência. Chegou então a polícia, que deteve dez pessoas, incluindo um homem que exibia uma tatuagem de Cristo, e que tinha sido o primeiro a agredir Walter Adler, Angelica Krischanovich e Maria Parsheva. O seu erro? Terem respondido com "Feliz Hanuka" ao "Feliz Natal" desejado por outros passageiros. Celebrada em Dezembro, a festa judaica das luzes assinala a reconquista do Templo de Jerusalém no século II a. C., mas para o homem com a tatuagem só podia ser uma provocação: "Não foi nessa altura que os judeus mataram Jesus?" De seguida as agressões, verbais ("Judeus de merda") e físicas.

Nova Iorque conta com dois milhões de judeus, mais que Jerusalém ou Telavive. Mas em Manhattan, onde desde os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 contra as Torres Gémeas os seguidores do Islão são olhados com desconfiança, teve de ser um muçulmano a acudir aos judeus, perante a indiferença dos outros passageiros que seguiam para Brooklyn. "Fiz apenas aquilo que tinha de fazer", explicou Askari. Não se lembrou de grandes referências históricas, a esses tempos em que perseguidos na Europa os judeus encontravam refúgio no mundo islâmico, desde Marrocos ao Império Otomano»

Por Leonídio Paulo Ferreira, no DN

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (25) | partilhar

Sábado, 17 de Novembro de 2007
por Daniel Oliveira
O Pedro Correia acha um disparate comparar a censura de dois cartoons. Se a proibição de cartoons por motivo de gosto não se pode comparar não sei o que se pode comparar nesta vida.

Diz o Pedro que num caso «houve a pressão ilegítima da "rua árabe"» e que no outro, pelo contrário, «é o Estado de Direito a funcionar.» A mim, parece-me que mais grave do que a pressão da rua, à qual o Estado de Direito não cedeu, é quando é o próprio Estado de Direito a usar os mecanismos de censura. Quando há pressões para que haja censura podemos recorrer à justiça e à lei. Quando é a justiça a censurar recorremos a quem?

A prova que assim é está nos factos: as caricaturas de Maomé foram publicadas por toda a Europa e os jornais onde foram publicadas chegaram aos leitores. O jornal com as caricaturas dos príncipes não chegou a sair do armazém. No primeiro caso houve pressão para se censurar e no segundo censurou-se. O que é mais grave? Para quem acredita na superioridade do Estado de Direito, uma lei imoral é mais preocupante do que uma ilegalidade. Porque a ilegalidade pune-se, a lei imoral acata-se.

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (9) | partilhar

por Daniel Oliveira
Miguel Sousa Tavares, no "Expresso", em Março, sobre os cartoons de Maomé, que foram publicados em jornais que por sua vez foram vendidos na rua e a propósito do qual não houve qualquer decisão judicial:

«Mas no meu código de valores - que é o da liberdade - não proíbo que outros o façam, porque a falta de gosto ou de sensibilidade também têm a liberdade de existir


Miguel Sousa Tavares, no "Expresso", hoje, sobre os cartoons dos príncipes das Astúrias, que foram publicados num jornal que por sua vez foi apreendido e a propósito do qual houve uma decisão judicial:

«Mesmo que por absurdo se quisesse reduzir tal matéria ao exercício da liberdade de expressão, ela deverá sempre terminar onde começa o mau gosto

Por mim, recordo, defendi a publicação de uns e do outro. Os primeiros tinham objectivos políticos que não me agradavam e disse-o. O segundo tinha objectivos políticos que me agradavam e demonstrei-o. Os primeiros chegaram à rua e ainda bem. Os segundos não chegaram à rua e isso é grave. Por mim, publiquem todos os cartoons, de bom e de mau gosto, que eu goste ou que eu deteste. Terei sempre a liberdade de me indignar, mas nunca defendendo que a liberdade de expressão dos outros termina onde começa o que me parece de mau gosto.

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (11) | partilhar

por Daniel Oliveira


«Depois de apresentar um recurso à pena aplicada aos seus violadores, uma mulher saudita viu ontem a sua sentença agravada: inicialmente condenada a 90 chicotadas ao abrigo das leis de segregação que proibem homens e mulheres sem relações familiares de estarem juntos em público, a xiita de 19 anos, violada 14 vezes por um grupo há um ano e meio, viu o número de chicotadas crescer para 200 e foi ainda condenada a seis meses de prisão.» (Público)

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Sábado, 10 de Novembro de 2007
por Daniel Oliveira




Anúncio do empresário português, rei do frango assado no Mundo, dirigido ao mercado muçulmano.


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007
por Daniel Oliveira




O meu amigo Miguel Portas fez-me a seguinte critica (no meio de um longo e muitíssimo interessante texto sobre a Rússia) a propósito do que tenho escrito sobre Putin:

«O Daniel tem sido das pessoas que mais tem feito para denunciar “a islamofobia como o anti-semitismo do século XXI”. Por causa disso, tem abordado a questão turca com particular cuidado e equilíbrio. Pergunto-me se ele teria colocado o título “Lisboa mal frequentada” a uma visita de Gull ou Erdogan. Tenho a certeza de que não. Apesar de dirigirem um Estado prestes a invadir um outro país e reprimirem a resistência curda como os russos tratam da chechena. E que do ponto de vista dos Direitos Humanos é bem pior do que o russo. Não ocorreria ao Daniel tal título pela simples razão que ele sabe que a Turquia “é um processo em curso”. Sem abandonar as suas opiniões sobre Direitos Humanos, ele contextualizá-las-ia num sistema de prioridades que não fariam deste dossier o “dossier dos dossiers”.»

Vamos então por partes: Islamofobia, Turquia e Rússia.

Não tenho nenhum problema, quando falo de um país muçulmano, de fazer da questão dos direitos humanos a agenda a das agendas. Quando estive no Iemen, que o Miguel também conhece, escrevi variadíssimas vezes sobre o assunto. A minha questão é não aceitar para os países muçulmanos um tratamento de excepção. Quer isto dizer: quando há violação dos direitos humanos na Birmânia ou na China ou na Rússia, trata-se de uma questão política ou histórica. Quando chegamos aos países muçulmanos a razão passa logo a ser religiosa ou cultural. É isso, e não as merecedíssimas criticas à violação dos direitos humanos em tantos países árabes e muçulmanos, que transforma uma crítica política em islamofobia. Aliás, essa postura é transportada rapidamente para as comunidades muçulmanas no Ocidente. Não é, por isso, uma critica a regimes concretos, mas a todo um povo.

Ora, não sinto que ande por aí nenhum tipo de russofobia. As criticas que ouço e leio ao que se passa na Rússia são criticas ao regime e a Putin. Mais: dão sempre atenção aos que a ele se opõem internamente.

Quando não centro a minha atenção na questão dos direitos humanos quando escrevo sobre a Turquia, é exactamente porque, apesar dos evidentes atropelos aos direitos humanos (sobretudo dos curdos, mas não só), acontecem quando há um processo real de democratização. Erdogan, de quem, como o Miguel, estou ideologicamente distante (trata-se de um conservador de direita nos costumes num país aparentemente - e só aparentemente - laico, e de um liberal numa economia semi-socializada), está de facto a iniciar um processo de desmilitarização do Estado, de democratização da sociedade e de imposição de regras de respeito pela liberdade individual e religiosa. Mais: mesmo em relação aos curdos, e apesar da situação agora existente, houve uma enorme evolução. Erdogan iniciou uma nova fase na relação com os curdos. Menos violenta, culturalmente mais tolerante e com enormes investimentos em regiões esquecidas. Não era por acaso que a esquerda curda estava disposta a ajudar o AKP na eleição do Presidente, se tal tivesse sido necessário. Erdogan tem um espaço limitado e não sei se será capaz de manter esta postura com a questão curda. Até suspeito que não. Mas, não posso deixar de assinalar a evolução.

Pelo contrário, com Putin a violência sobre a Chéchénia não diminuiu e a perseguição indiscriminada a chechenos apenas pela sua nacionalidade não cessou. O discurso nacionalista, exactamente ao contrário do que acontece com a Turquia, é uma das principais fontes de legitimação do poder de Putin. Há maiores ataques, ao contrário da situação turca, às liberdades cívicas do que havia quando Putin chegou ao poder. Há uma centralização do poder num só homem, uma destruição de todos os elementos que podem constituir uma democracia e um crescendo de ataques às liberdades cívicas. Ou seja: entre o respeito pelos direitos humanos na Turquia e na Rússia a diferença pode não ser muito grande. Acontece que estão a caminhar (mesmo tendo em conta o disparate que se prepara no Curdistão iraquiano) para sentidos opostos. Sim, há "um processo em curso" na Turquia e outro na Rússia. Vão é para lados opostos. E essa é a diferença que faz da agenda dos direitos humanos central ou não. Na Turquia, devemos defende-la para acelerar as reformas. Na Rússia a coisa é mais dramática e urgente. Temos de a defender para travar algumas reformas.

Até percebo que o Miguel queira acentuar o papel de Putin na tentativa de travar as máfias e os oligarcas que tinham tomado conta da Rússia. Não é um pormenor. Os direitos humanos no meio do caos seriam sempre uma absoluta impossibilidade. E compreendo que não se esqueça que perante o capitalismo selvagem reinante foi fundamental devolver algumas funções ao Estado. A questão é sempre a que preço e levando a Rússia para onde. E é aqui que divirjo do Miguel. Num país qe praticamente nunca conheceu a democracia, num país Imperial e militarizado, Putin dá todos os sinais de querer mais do mesmo e não, como acontece na Turquia, partir do mesmo para chegar a um pouco melhor.


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007
por Daniel Oliveira


«A comunidade muçulmana vai ter de sofrer até pôr a casa em ordem. Que tipo de sofrimento? Não os deixar viajar. Deportação — lá mais para o fim da estrada. Supressão de liberdades. Revistar pessoas que pareçam ser do Médio Oriente ou do Paquistão. Coisas discriminatórias, até magoar a comunidade inteira e eles começarem a ser duros com os filhos deles.»

Confesso que não conhecia esta pérola de Martin Amis (que descubro agora ter sido já bastante citada), transcrita num artigo do Rui Tavares, dita numa entrevista há já algum tempo. Há quem, recordando o terror nazi, esteja atento (e bem) aos sentimentos anti-semitas contra os judeus. Mas muitas vezes se esquecem que as vitimas podem mudar repetindo-se o sentimento e se colocam na primeira linha do caminho para o horror. A islamafobia não choca porque já parece natural. Pelo menos tolerável. Também parecia, nos anos 30, o ódio aos judeus. Como muito bem ilustram estas palavras do senhor Amis, a islamofobia é o anti-semitismo do século XXI. Está lá tudo: o ódio e a bestialização do outro. E exultação do "politicamente incorrecto", tão na moda, não é mais do que a quebra de todas as fronteiras morais. Estas palavras do senhor Amis, como as alarvidades do senhor Watson, estão para lá do tolerável. E só a demonstração sem contemplações da nossa repugnância pode impedir que das palavras se passem aos actos.

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (33) | partilhar

Terça-feira, 23 de Outubro de 2007
por Daniel Oliveira
A origem animista é mais relevante do que a a religião muçulmana para o número de excisões, dizem Armelle Andro e Marie Lesclingand, do Instituto de Estudos Demográficos francês, que avançam com estes números: três quartos das etíopes são excisadas e só um terço da população é muçulmana, enquanto no Niger, em que quase toda a população é islâmica, há apenas 2% de mulheres excisadas. Há, no Mundo, mais de cem milhões de mulheres são vítimas de mutilações sexuais

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007
por Daniel Oliveira
Vale a pena ler este post do Devaneios Desintéricos sobre a criação de uma plataforma europeia anti-islâmica composta por partidos de extrema-direita europeus para perceber duas coisas: que os seus argumentos contra os muçulmanos são muito semelhantes aos que vamos ouvindo de alguma direita que se diz democrática e que o ódio aos muçulmanos não é diferente do ódio aos judeus e tem os mesmos protagonistas. Começa é a estar mais na moda. Por isso, alguns dos que vão alertando até à náusea contra a o perigo islâmico na Europa e bramindo pela defesa dos valores ocidentais, quase nos mesmos termos que faz esta rapaziada que se juntará em Bruxelas no dia 11 de Setembro, deviam pensar em que lado querem estar da história.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (16) | partilhar


pesquisa
 
TV Arrastão
Inquérito
Outras leituras
Outras leituras
Subscrever


RSSPosts via RSS Sapo

RSSPosts via feedburner (temp/ indisponível)

RSSComentários

arquivos
2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


Contador