Não surpreende que o PSD e os seus avençados mediáticos tenham escolhido a via da vitimização para tratar o caso do inimputável Dr. Relvas. Os piores crápulas gostam sempre de fingir indignação quando são despidos em público. O que surpreende é a reacção de algumas pessoas de esquerda e uma ou outra luminária do regime que já veio botar faladura sobre o assunto.
Vamos lá ver as coisas como elas são: esta gente saberá o que é censura? O que é liberdade de expressão? Não saberão que a censura é sempre um acto de poder exercido pelo mais forte sobre o mais fraco? Uma limitação de expressão que visa calar opiniões contrárias, prévia ou posteriormente? Ontem, quando o Dr. Relvas entrou no ISCTE, rodeado de seguranças, e subiu para um palanque posto à disposição pela estação com mais audiências do país, quem detinha o poder? O ministro dos Assuntos Parlamentares, que tutela a comunicação social e decide os destinos do país, que tem o controle directo sobre os instrumentos que podem exercer a violência de Estado (a polícia e as forças armadas), ou um grupo de estudantes que diariamente sofre as consequências das políticas implementadas pelo Governo a que o Dr. Relvas pertence?
É de facto inacreditável que haja quem esteja, por ignorância ou pura má fé, a confundir censura com o que aconteceu ontem. Durante três minutos, os assobios, os insultos e os apupos ao Dr. Miguel Relvas sobrepuseram-se à propaganda ministerial. Os outros quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos do ano são usados pelo Dr. Relvas para sobrepujar, humilhar e empobrecer os estudantes que ontem não o deixaram falar e deram voz à raiva e à humilhação sentida por milhões de portugueses. Confundir um direito em democracia - o direito à manifestação - com um instrumento das ditaduras - a censura - não é, não pode ser, sério.
O que muita gente parece não perceber é que a democracia não são aqueles breves dois segundos quando depositamos o nosso voto na urna. Os quatro anos (dois milhões, cento e dois mil e quatrocentos minutos) a que cada Governo tem direito não são um cheque em branco. Cada minuto passado no poder por cada um dos governantes tem de ser um minuto a prestar contas, não só ao seu eleitorado mas a todos os cidadãos. Um mandato de quatro anos não é uma ditadura provisória, durante a qual tudo pode ser legítimo, mesmo (e sobretudo) quando todas as promessas eleitorais ou o que está no programa do Governo não é cumprido.
O que o Dr. Relvas sentiu ontem foi a consequência imediata de um ano e meio de desvario, prepotência e desrespeito pelo povo que ele era suposto servir. Três minutos em que a democracia se sobrepôs à ditadura de quatro anos, que parece ser o modo como este Governo olha para o seu mandato. Não se perceber isto é não se perceber nada de nada. Um regime que ataca um grupo de estudantes contestatários (e não-violentos) para defender uma figura sinistra como o Dr. Relvas precisa urgentemente de repensar a sua natureza e existência.
Em Espanha como em Portugal, a direita tem alergia à liberdade de expressão e de imprensa e gosta de afastar quem tem opinião contrária às políticas do Governo. Novidades? Nenhuma - estamos em pleno período de suspensão da democracia.
Definitivamente: a direita não sabe (nem quer) conviver com a liberdade de expressão, a crítica e, em última análise, a democracia.
Dom Januário Torgal Ferreira voltou a dizer o que lhe vai na alma sobre a situação no país. Claro que num regime dominado por agências de comunicação e um exército de assessores do Governo contratados a peso de ouro (e a receberem os dois subsídios que o resto da Função Pública nem vai cheirar), isso é crime de lesa pátria. Se da primeira vez a lama foi apenas lançada por amigos de assessores na blogosfera, idiotas úteis de serviço e o Correio da Manhã, o antro pútrido do anti-jornalismo onde a direita se espoja e se alimenta, agora o ódio chegou aos partidos do pote (PSD e CDS) e ao próprio executivo. Desde o ex-presidente do Belenenses ao ministro da Defesa, toda a gente parece estar indignada com as palavras do bispo. Os assessores do Relvas que ainda escrevem em blogues descobrem-se tomados por um (muitas vezes execrado) anti-clericalismo (há quem clame pela assumpção de um Estado laico, uma lata apenas ao alcance de gente que terá esquecido o que é ter uma coluna vertebral, tendo em conta a recente negociação do Governo com o Vaticano a propósito do fim dos feriados religiosos) e vociferam, quais vestais violadas, confundido Estado com Governo. O dito ministro Aguiar-Branco convida o bispo a resignar, numa ousadia que visa calar as vozes críticas de um Governo que começa a cheirar tão mal como uma latrina.
Eles mexem-se, mostram os dentes, enraivecem-se. É sinal de que Januário Torgal Ferreira tocou num ponto sensível: os interesses que rodeiam o Estado e que dele se alimentam. Os interesses que este Governo não só não tem a mínima intenção de eliminar como vai alimentando, das empresas privadas que laboram na área da Saúde às que beneficiam com os contratos das PPP's, passando pelas antigas empresas públicas vendidas ao Estado chinês que estão a receber de braços abertos várias pessoas ligadas ao PSD e ao CDS.
Passou um ano desde a tomada de posse deste Governo, e o ar já se tornou irrespirável. Esta direita, para além de estar a destruir o país com as suas políticas económicas, não gosta de contestação, de críticas, de denúncias. É anti-democrática. Ser corrupta é, como se costuma dizer, um pormenor. Apenas.
Poderia socorrer-me da ironia para comentar o desfecho do caso Relvas: "Que surpresa, a ERC ter deliberado em favor do ministro que a tutela..."
Ou da indignação pura e dura: "Se o ministro tivesse um pingo de vergonha naquela cara de maçon murcho, já se teria demitido; se o primeiro-ministro tivesse uma réstia de decência no corpo e um estertor de vivacidade na espinha, teria ele mesmo feito o serviço."
Ou então da raiva contida: "Uma vez mais, prova-se que em Portugal, quando se fala de políticos, a culpa morre sempre solteira."
Ou ainda do queixume miserabilista nacional, tão "tradicional" como os cães de loiça da Joana Vasconcelos: "Um país a ir pelo cano, em que cada caso grave redunda em vazio; o fundo do poço irá sempre ser mais fundo."
Ou, em caso de desespero, aceitar a resignação passiva: "Que fazer? Mas alguém estaria à espera de outro resultado?"
Mas enfim, tudo corre sem sobressalto. Cívico, humano ou de vida. Vou deitar-me, ler um pouco e tentar adormecer. Amanhã o país vai estar um pouco pior, mas que se lixe; se ninguém se preocupa, deixa andar.
As palavras contundentes de Januário Torgal Ferreira incomodoram muita gente. É natural - a voz de alguém do clero continua a ter bastante peso em Portugal. Ele repetiu com mais veemência o que já dissera antes, sobre este Governo mas também sobre os anteriores. Mas, num país de gente amestrada e paciente, qualquer voz que se insurja com o estado de coisas arrisca-se a ser calada de imediato. O trabalho de Miguel Relvas no Governo é também esse - controlar os media através dos seus conhecimentos no meio. Não admira que o Correio da Manhã, no dia seguinte a D. Januário ter vindo a público criticar as miseráveis declarações de Passos Coelho, tenha decidido chamar à primeira página factos laterais sobre a vida de D. Januário, ainda por cima mentirosos. O Correio da Manhã sabe quem manda e obedece de acordo. Não é um jornal, é um esgoto a céu aberto onde chafurda a pior espécie de jornalista: o canalha. Com telefonema do Relvas ou sem ele, o Correio da Manhã iria fazer o seu trabalho.
Também há almas que não se têm cansado a pedir o afastamento das funções que o bispo ocupa. Helena Matos, a sabuja de serviço, é uma delas. Esta gente, que não sabe conviver com a liberdade dos outros, indigna-se com o facto das palavras de D. Januário não respeitarem o resultado das eleições legislativas. Para Helena Matos - e outros da mesma cepa - as eleições são aquele acontecimento em que os cidadãos elegem o seu ditador durante um período de tempo definido. Durante esse período, todos devem calar, comer e aceitar "com paciência" as decisões e os desmandos do Governo eleito. Na cabeça desta gente, a democracia enquanto sistema dinâmico que não se esgota - antes pelo contrário - nas eleições, não é um conceito possível. No fim de contas, nas ditaduras comunistas que em tempos admiravam também há simulacros de eleições de vez em quando. Tudo o que sai fora da caixa - mesmo uma coisa tão simples como criticar as afirmações do primeiro-ministro - é combatido com fervor e animosidade. Nada que surpreenda. Os velhos hábitos são difíceis de matar.
Os desenvolvimentos do caso Relvas* trouxeram ao de cima duas tenebrosas figuras dos meandros do aparelho do PSD (via Paulo Pinto). O presidente da distrital do Porto, Virgílio Macedo, veio dizer que os jornalistas têm um "código ético que não lhes permite sofrer pressões" o que, de acordo com o iluminado pensamento deste senhor, prova que as pressões não existiram. Fantástico. Por outro lado, um antes obscuro deputado da bancada PSD, por sinal advogado, Matos Correia, veio afiançar que Relvas não fez as ameaças à jornalista porque conhece bem o ministro. Comovente, esta demonstração de amizade e de confiança, que de resto reforça a intervenção do mesmo deputado na audição do ministro no parlamento, descodificando as atabalhoadas desculpas do governante em relação aos SMS's e aos mails de Silva Carvalho.
Entretanto, a linha de defesa dos assessores oficiosos da blogosfera e do comentário televisivo passa pela vitimização do ministro e por alusões a uma guerra interna no Público entre direcção e redacção. A ponto de voltar a ser mencionado o famosos conflito latente entre grupos mediáticos, um dos argumentos subterrâneos do caso Ongoing/secretas. Os rapazes do ministro terão de se esforçar mais, no entanto, porque mesmo que essa guerra exista, ficarão sempre por explicar por que razão as pressões inicialmente foram negadas e depois veladamente admitidas - uma conversa de 30 minutos terá acontecido entre Relvas e a directora do jornal; e por que razão é que, não tendo havido pressões, o ministro terá pedido desculpa à directora. E, mais importante, se o argumento usado é baseado no comunicado da direcção do Público, então teremos de ver as coisas como elas são: o comunicado afirma, para além de qualquer dúvida, que existiram pressões, ameaças e chantagens do ministro. Se a não publicação da peça foi consequência destas pressões, é algo que deverá ser discutido internamente no jornal e comentado cá fora, mas não é o essencial da questão. Tenham ou não resultado as pressões, o que é inadmissível no caso é o facto de um ministro ter telefonado para um jornal com o objectivo de condicionar o funcionamento deste. Se isto não é caso para demissão, o que poderá ser? Tem a palavra o sr. primeiro-ministro.
*É importante lembrar que não é o primeiro "caso Relvas": o fim do programa de Pedro Rosa Mendes na Antena 1 já tinha tido mão do nosso querido ministro da propaganda. E antes, houve aquela alegada conversa com o director de programas da RTP no sentido de reservar um bilhete apenas de ida para Mário Crespo, para a delegação de Nova Iorque. Não há acasos.
P.S. À direita, e demonstrando-se que há quem tenha coluna vertebral do outro lado das trincheiras, leia-se os textos do Gabriel Silva, do Ricardo Lima e do André Azevedo Alves. E reforce-se a ideia de que há silêncios bastante ruidosos**...
**O Delito de Opinião - incluindo a Ana Margarida Craveiro - afinal tem qualquer coisa a dizer sobre o assunto. Ainda bem.
Adenda: começo a achar muita piada ao realmente extraordinário trabalho do Jornal de Notícias sobre este tema. O caso começou a ser notícia na passada sexta-feira de manhã. Domingo à tarde, e nem uma notícia, uma que seja - pelo menos, na página on-line. Até o Correio da Manhã já noticiou a coisa. O rapaz - ou rapazes - do Relvas infiltrado na direcção do JN está de parabéns, excelente trabalho. O campeonato de pesca da assessoria continua ao rubro.
Hoje ocorreu um ataque concertado ao site da Moody's depois de várias iniciativas para esse efeito terem sido convocadas através do Facebook. O site deixou de estar acessível em Portugal, e na Grã-Bretanha teve falhas. Nos EUA, ficou muito mais lento. Em consequência deste ataque a cotação em bolsa da agência caiu 3.81%. Um êxito, portanto. Será esta sucessão de acontecimentos notícia? Ficamos com dúvidas, quando reparamos que apenas o Diário de Notícias on-line destaca na primeira página o que está a suceder. Que tipo de interesse nacional pode estar em causa para os outros jornais não noticiarem isto?
*Para quem quiser colaborar, pode aceder a esta página do Facebook.
E assim vamos andando. E este estatuto editorial, terá sido redigido antes ou depois da chegada da troika? Antes ou depois das legislativas? "Interesse nacional", não é? Pois.
A partir de agora, fico à espera de ver Pacheco Pereira, José Manuel Fernandes e o resto da trupe de paladinos da tese da "liberdade protegida" a defender com fervor patriótico as viagens de Carlos Santos Ferreira ao Irão e o resto das wiki-tropelias do Governo e sus muchachos. Agora e para sempre, sem tugir nem mugir. No mínimo.
E ainda:
“Portugal tem uma imprensa muito suave”, disse Cavaco. É caso para deixar os nossos jornais e televisões a dar pulinhos de alegria.
Eu gostaria de deixar neste post um link para o primeiro jornal português a defender a actividade da WikiLeaks de maneira activa, mas em vez disso vejo-me obrigado a publicitar um jornal francês, o Libération, o primeiro do mundo a alojar um espelho do site de Julian Assange. É pena. Por muito que nos desiludam, teremos sempre algo a aprender com os franceses.
Não são muitas as ocasiões em que estou completamente de acordo com um texto publicado no Blasfémias. Para dizer a verdade, completamente, é bem capaz de ser a primeira vez. Parabéns ao Gabriel Silva por ter explicado como deve funcionar a liberdade de informação a quem deveria estar farto de o saber.
A prisão de Julian Assange será apenas o princípio. A cruzada anti-WikiLeaks prossegue com grande entusiasmo, e podemos agora ter a certeza de que os princípios sagrados da liberdade de informação vão ser esquecidos pelos EUA. Dois pesos e duas medidas, intenções criminosas energicamente aplaudidas por gente do calibre de José Manuel Fernandes (na crónica no Público do último fim-de-semana, indisponível para não assinantes), que há uns anos vimos fervorosamente a defender a liberdade de expressão (e bem) no caso do cartunista dinamarquês ameaçado por fundamentalistas islâmicos, e que, de resto, também não se tem cansado de defender a publicação de material de escutas em casos envolvendo o primeiro-ministro. Este severo caso de double standards seria comovente se não mostrasse a fibra de que alguma direita é feita. O problema é que a sanha anti-Assange é lei neste país, a julgar pelo empenhado serviço que os media estão a prestar à causa. Tanto no Público, como, no DN, como em todas as televisões nacionais, se repete a informação errada, a mentira: Julian Assange é acusado de violação. Já foi esclarecido, tanto pelos advogados do australiano como pela justiça sueca, que num dos casos a acusação é apenas de "sex by surprise", um crime menor que, caso se prove, tem como pena apenas o pagamento de uma multa, e ofensas sexuais não especificadas no outro. Os jornais internacionais dizem a verdade. Mas que esta verdade não impeça os nossos órgãos de informação de repetir a acusação, convenientemente reforçada por comentadores do regime e parasitas do establishment. A distorção por parte dos media portugueses é gravíssima. Para além do mais, a oportuna acusação, que poderá permitir o repatriamento para a Suécia e daí para o aliado americano, tem como origem alguém com ligações à CIA e a grupos de cubanos anti-castristas, como se poderá ler aqui (via 5 Dias). Quase que não conseguimos acreditar, pelo amadorismo da encenação, em tal coisa. Certamente que poderiam ter arranjado agentes mais credíveis.
As dúvidas que poderíamos ter acerca da pertinência da informação revelada dissipam-se; e a importância da WikiLeaks reforça-se. E não podemos esquecer que toda a informação libertada está a ser filtrada por jornais de referência (outro facto, aliás, que parece ter sido convenientemente ocultado pelos detractores de Assange). Os documentos disponíveis no site estão a surgir ao ritmo da publicação nestes jornais. Ontem no Guardian, um artigo do provedor do leitor reforçava a ideia de que tudo o que está ser divulgado é jornalisticamente relevante e seria publicado de qualquer maneira caso a investigação tivesse sido feita pelos jornalistas da casa. E não tenhamos dúvidas de que foi isto que mudou: depois de décadas de adormecimento dos media, a WikiLeaks parece ter ressuscitado o jornalismo de investigação ou mesmo criado uma nova forma de servir o interesse público. Nada será como antes. Aconteça o que acontecer, a maior vitória de Assange.
(Entretanto, o Esquerda.Net começou a alojar um espelho do WikiLeaks.)
"Even in authoritarian countries, information networks are helping people discover new facts and making governments more accountable."
O previsível terramoto provocado pelas últimas revelações do WikiLeaks está a começar a ter proporções imprevisíveis, que seguramente irão agravar-se com as próximas informações sobre um "grande banco" americano. As reacções têm sido surpreendentes, e é curioso verificar como os E. U. A., suposto bastião da liberdade de expressão, e a China se aproximam: a Casa Branca proibiu o acesso dos seus funcionários ao site e a China bloqueou-o, pura e simplesmente (via Ana Cristina Leonardo). Também Joe Lieberman, o Democrata com coração de Republicano, exortou à perseguição de Julian Assange, num gesto certamente apreciado pelas gentes do Irão, a fazer lembrar outras fatwas. Se é verdade que podemos questionar a relevância do que agora foi revelado, sempre achei que os valores ocidentais se regiam pela garantia das liberdades, em qualquer situação. O trabalho de Assange, ainda que politicamente motivado, é essencial para se perceber até que ponto os valores de que tanto nos orgulhamos são mesmo para levar a sério. Pelo que se tem visto, há bastantes razões para desconfiar desta premissa. A exortação de Lieberman já levou a que a empresa onde o site estava alojado tenha terminado o contrato com Assange, e o mesmo parece vir a acontecer em França. Noutra frente, os detractores do australiano insistem na acusação pendente na Suécia e no suposto mandato (que não é) da Interpol, apelidando-o de violador para cima, quando a acusação se limita a ser "sex by surprise", um crime original, exclusivo daquele país, e que se prende com o facto de duas mulheres afirmarem que Assange teve sexo consensual com elas sabendo que o preservativo estava rasgado. Transformar isto em violação seria ridículo, se não fosse vergonhoso (veja-se este post histérico no Blasfémias, para se perceber do que falo).
Tempos difíceis, estes, para conceitos tão sagrados como liberdade de expressão e de imprensa (não nos esqueçamos de que o conteúdo dos telegramas foi publicado em vários jornais de referência). Só por isto, por se provar como é frágil a ideia de democracia, já valeu a pena o esforço de Assange.
"Menos mal que nos queda Portugal"
O governo turco prepara-se para alterar o artigo 301 (via Boina Frígia), que restringia a liberdade de expressão impedindo o insulto à Turquia e às suas instituições. A lei tem sido usada pelos nacionalistas para impedir referências ao genocídio arménio e levou à acusação judicial dos escritores Orhan Pamuk e Hrant Dink. O último foi assassinado. (A foto é minha)
Sim, existe o direito de criticar este cartaz.
Como existe o direito de criticar este livro:
Como existe o direito de criticar os críticos deste cartaz e deste livro.
Parece que apologistas do Novo Politicamente Correcto (NPC), que é uma recuperação do Politicamente Correcto do passado, acham que a crítica é livre, mas só se for num sentido. Se vier de volta é um ataque inominável à liberdade de expressão. À deles, claro, que é a que conta.
Reconhecendo que os pais autorizaram o uso da imagem do seu filho, Helena Matos não acha adequado «que se use o rosto duma criança para promover um festival de cinema gay, lésbico ou heterossexual». Só não explicou porquê e preferiu atirar-se para o chão e queixar-se da resposta. Eu percebo a estratégia: chorar contra a censura sem ter de abrir a boca, dando a entender que são os críticos e não os autores do cartaz que estão a ser moralmente condenados.
E gostava mesmo de perceber as suas razões. Tendo em conta que, suponho, nada tem contra a utilização de actores-criança em filmes de terror ou filmes de guerra, em publicidade variada e campanhas políticas. Se tem, então entramos noutro debate mais interessante sobre a utilização da imagem de crianças em coisas que não são para a sua idade. E eu retiro já a referência ao "Lolita" (que por sinal é um dos meus livros de sempre). Mas se assim for, o cartaz deste festival é apenas mais um episódio e até com muito menos impacto do que tantos outros. Mas se não for o caso, fica a pergunta: o que é que este festival tem que é diferente dos outros?
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