Era a grande esperança dos EUA. Um símbolo da luta pelos direitos civis. Poderoso na retórica, carismático dentro e fora de portas, o fim do pesadelo que tinham sido os oito anos de Bush. O primeiro ano foi marcante: conseguiu que a Saúde chegasse a quem nunca tinha tido acesso a ela. A sua eleição também conseguiu que acontecesse algum apaziguamento na política americana, que a dureza do confronto ideológico se desvanecesse. Até que começaram a aparecer as primeiras dificuldades. Na ressaca da crise financeira de 2008, não conseguiu que a economia americana arrancasse nem que o desemprego baixasse. Entretanto, a maioria Democrata foi destronada na câmara dos representantes por um partido Republicano tomado de assalto por uma facção de extrema-direita, radical e racista, o Tea Party. O seu poder enfraqueceu. O carisma quase messiânico era uma coisa do passado. E Guantánamo continua a existir.
O que fazer? O mesmo do que quase todos os presidentes americanos antes dele: virar-se para o exterior, reafirmar os EUA como uma potência em perda, começar uma guerra. O primeiro ensaio foi a intervenção na Líbia - mas quem comandou a operação foi a França, e o conflito parecia ter uma natureza diferente. Agora, a escalada recomeça para os lados do Médio Oriente. A táctica, contudo, parece ser a mesma do que na Líbia: deixar que os aliados no terreno façam o trabalho sujo que as tropas americanas não podem fazer. Há um relatório que supostamente vai provar que o Irão prepara-se para produzir armas nucleares; onde é que já ouvimos isto? O aliado promete bombardear o Irão. O belicismo de uma nação que é origem de grande parte da violência do pós-guerra, directa ou indirectamente, a única nação do mundo que pode afirmar, sem censura generalizada, ir construir novos colonatos em território que não lhe pertence, a única nação, Israel, que coloniza um território, mais de trinta anos depois das últimas colónias africanas terem obtido a independência.
O Médio Oriente é um vespeiro, todos sabemos. Israel parece estar com vontade de cutucar os vizinhos, como se não houvesse já ebulição suficiente no mundo. E Obama, a grande esperança, anui, aceita, incentiva. Mais do que uma desilusão, um sonho desfeito, uma desgraça. Esperemos que não consiga ultrapassar em feitos o seu antecessor, W. Bush. Mas nunca se sabe: as eleições americanas estão perto no tempo. Tudo é possível.
Entretanto, convém não esquecer as verdadeiras revoluções em curso e as ditaduras que continuam a ser apoiadas pelo Ocidente. Na Síria, Bashar al-Assad continua a reprimir violentamente os protestos - sim, neste caso são verdadeiros protestos contra o regime autoritário. Calcula-se que até agora tenham morrido 2000 civis, desde que começou a revolta, há cinco meses. Da euforia das primeiras revoluções, na Tunísia e no Egipto, passou-se quase ao silêncio nos media. Mas as prioridades mediáticas são voláteis. O sofrimento dos povos, não.
Para lá da pequena entrevista de Miguel Portas à Antena 1, vale a pena ler a reportagem do Guardian com o testemunho de alguns dos fotógrafos e bloggers que estão nas ruas do Cairo: 'Something has changed in the Egyptian psyche '
Texto publicado há dois dias transportado para aqui no dia em que Israel faz 60 anos.
Israel nasceu há 60 anos. Devia ser um momento de festa. O povo judeu, perseguido durante séculos em quase todos os pontos do planeta, encontrou um espaço para se sentir seguro e aí defender a sua própria identidade. Ao contrário de muita esquerda e de muita direita, defendo a existência de um Estado de Israel e sei que nenhuma Nação nasceu com facilidade ou sem erros. E mesmo se esta não fosse a minha posição de sempre, o Estado de Israel existe e esse é um facto irreversível.
Recuso-me a discutir o direito de um povo a viver num lugar centrando o debate em argumentos de legimitidade histórica. Isso só me poderia levar a ter uma posição diferente daquela que tenho em relação à imigração, por exemplo. Esse é um debate que não me interessa.
Mais: muitos dos que criticam o Estado de Israel não o fazem por causa do comportamento dos seus governos em relação aos palestinianos mas por um ancestral racismo anti-judeu. Desses, quero distância. Não há racismos toleráveis e o racismo contra os judeus tem uma longa e monstruosa história. Do lado oposto (na realidade o lado é o mesmo), não tem faltado quem use a história do sofrimento do povo judeu para dar largas ao seu próprio racismo, desta vez contra os muçulmanos, como se o racismo fosse mais aceitável por procurar a sua legitimidade no sofrimento passado de outros. Desses, quero distância. Não há racismos toleráveis e o racismo contra os muçulmanos é o anti-semitismo do século XXI. Só nos poderá levar à mesma tragédia.
Infelizmente, o Estado de Israel e o sionismo (que teve originalmente correntes generosas, igualitárias e até de cariz socializante) foi tomado por um nacionalismo xenófobo e militarizado. O desrespeito pelo povo palestiniano, pelos seus direitos e pela sua liberdade, os crimes continuados e até a repetição de algumas formas de acção contra os palestinianos (criação de guetos, punições colectivas, roubo de propriedades, bestialização do outro) que no passado foram usadas contra os judeus, mancha de forma insuportável a história de Israel.
60 anos depois, é contraditório o balanço. O povo judeu deixou de ser a vítima e não aceitou mais a perseguição. Conquistou a sua dignidade e a sua liberdade. E isso, para gente decente, só pode ser motivo de alegria. Mas o Estado de Israel, ao transformar-se em carrasco, ao ceder ao anti-semitismo (desta vez contra os outros semitas), desrespeitou a memória do seu povo.
Felizmente, entre judeus e israelitas, há gente que não esquece de onde vem e bate-se por outra narrativa. Conheci vários em Israel. Gente generosa e com raízes fortes na sua própria história de sofrimento. Felizmente, entre palestinianos, há quem não ceda à violência e saiba que a resistência pacifica é o único caminho que pode levar a algum lado. Conheci vários na Palestina.
A uns e outros raramente o Mundo dá ouvidos. Mas é por causa deles que me resta esperança. Esperança de que mais cedo do que tarde os palestinianos celebrem alguns anos da fundação do seu próprio Estado e da sua dignidade, em paz com o seu vizinho e com condições de decência mínima. E que judeus e muçulmanos descubram que as dificuldades das suas histórias são o que os une. Porque são muito mais próximos do que os racistas contra uns e contra outros julgam. Talvez um dia se possa finalmente festejar sem esquecer nenhuma vítima e sem premiar nenhum carrasco.
Um comentador acusou-me de parcialidade por não ter dito que os autores dos atentados de Jerusalém eram do Hamas. Na realidade, podia ser o Hamas, a Fatah ou qualquer outra organização. O Insurgente acusa-me de não dizer que eram civis. Sendo o ataque a uma escola, a coisa era evidente. Na verdade, sabia que era indiferente o que eu escrevesse, mesmo num post dedicado a condenar este atentado e a falar da situação em Gaza. Viria sempre a acusação, curiosamente feita por quem, mais do que qualquer subtileza semântica, nunca refere uma morte palestiniana, apesar da desproporção de vítimas. De quem nunca escreveu uma linha (tímida que fosse, com omissões ou sem elas) de condenação a Israel.
Fica assim, o esclarecimento: eu condeno a violência e o assassinato de civis. Pena que tantas vezes quem me aponte o dedo as justifique. E nem o fazem com um "mas". Justificam e, cinismo do cinismo, culpam os palestinianos por cada morto do seu lado. Por isso, não só não me parece que tenham autoridade para fazer este tipo de críticas como acho que não estamos no mesmo plano.
Aqui vai, editada porque foi escrita à pressa, como se escrevem os comentários:
«Para que fique claro: sim, acho que a situação dos palestinianos e dos israelitas não é igual. Sim, acho que há um ocupante e um ocupado. Sim, acho que qualquer palestiniano de Gaza trocaria o seu quotidiano pelo quotidiano de um israelita e nenhum israelita queria estar na pele de um palestiniano de Gaza. E sim, acho que isto faz toda a diferença.
Dito isto, sou um pacifista, abomino convictamente, politicamente e pessoalmente (no que isto tem de mais profundo) todas as formas de violência (políticas ou outras) e sinto repugnância por este acto. Isto não muda um milímetro das minhas opiniões sobre a situação israelo-palestiniana que é suficientemente informada para não andar ao sabor de cada matança que por lá são diárias. Mas não pense por um segundo que seja que consigo sentir empatia, simpatia ou sequer condescendência por quem usa a morte de inocentes como arma política. E isto inclui bombistas palestinianos e oficiais israelitas. Estará a discutir com a pessoa errada. Só não me peça uma coisa: que chame terroristas aos que cometeram este crime em Jerusalém e militares aos que mataram 200 em Gaza. Isso não. Porque nada, rigorosamente nada, nem os métodos, nem os objectivos, nem o desprezo pela vida humana, os distingue. Uns são mais fortes e outros mais fracos. Apenas isso. Ou são ambos militares, ou são ambos terroristas. Escolha.
Quanto à luta política que pode ter futuro ali, essa, a que me interessa, passa-se noutras cabeças. Nas de palestinianos (que não são são seguramente amigos do corrupto Abbas nem dos radicais do Hamas) extraordinários. Que, contra tudo e contra todos, não desistem da via pacífica e defendem um Estado Palestiniano viável e independente, com fronteiras que respeitem a sua dignidade, e Israel em paz. Nas de israelitas, defensores de negociações, da criação de pontes (sabendo que nos dois lados há gente disposta a conversar sem condições prévias), e na defesa de um Estado de Israel seguro e de um Estado Palestiniano viável.
Dito isto, pode procurar todas as omissões e todas as contradições em cada virgula. É este o meu lado. Defendo o direito do povo palestiniano a um Estado e à sua liberdade. Sou contra a militarização da Intifada e amigo dos palestinianos que se batem pela via pacifica e política, mesmo quando, a cada momento, a cada semana, lhes morre alguém querido. E dos israelitas que se recusam, no exército, a operar nos territórios ocupados. Que, isolados e tratados como traidores, se batem pela paz da melhor maneira: recusando-se a fazer a guerra e procurando conhecer um vizinho que é muito mais parecido com eles do que qualquer outro povo no Mundo. É gente de coragem. Com muito mais coragem do que os guerreiros dos dois lado. E sobretudo com muito coragem do que tantos guerreiros de sofá que por aí andam.»
Há, como diz o Nuno, uma diferença fundamental entre mim e os mais ferozes defensores de Israel: eu defendo um Estado de Israel viável, com um território contínuo e recursos próprios, com forças armadas e fronteiras com o exterior. Eles recusam viável, com um território contínuo e recursos próprios, com forças armadas e fronteiras com o exterior. Eu condeno os atentados contra civis, de um e de outro lado. Eles apoiam os atentados israelitas. Eu chamo terroristas a quem no Hamas, na Fatah e no exército de Israel escolhe civis como alvos. Eles chamam terroristas a uns e militares a outros. Eu acho os atentados do Hamas injustificáveis eles justificam as bombas israelitas com o direito à defesa e culpam os palestinianos por elas. Chamam atentados a uma coisa e reacção a outra. Nunca o fiz.
Tenho uma posição política sobre os caminhos para uma solução para Médio Oriente (não tenho nem podia ter a solução). Estes, que fazem o patrulhamento de cada virgula que escrevo, tirando a defesa de cada bombardeamento israelita, defendem algum caminho? Alguma das suas posições inclui alguma exigência a Israel? Aceitam a partilha de Jerusalém? Aceitam as fronteiras de 1967? Aceitam que, como Israel, a Palestina tenha um exército e fronteiras que ela própria controla? Estão dispostos a aceitar para os palestinianos tudo o que acham que os israelitas têm direito? Eu estou. Tudo.
A resposta é sempre a mesma: Israel tem direito a defender-se. É claro que Israel tem direito a defender-se. E a Palestina, não tem? E tendo em conta que foi a Palestina que perdeu grande parte do seu território, que vive sob ocupação e que tem muito mais vítimas na lista macabra de mortos, não serviria esse argumento estéril ainda mais para os palestinianos do que para os israelitas? E, no entanto, recuso-me a usá-lo porque ele é inútil e só pode vir de quem acha que a solução do conflito depende de uma vitória militar. Porque não serve para nada. Apenas justifica a guerra. Da minha parte, procuro argumentos que justifiquem o fim do conflito: dois estados livres, independentes e viáveis. Que não me venha falar de equilíbrio quem se recusa a usar os mesmos critérios para cada lado. Fica uma pergunta simples: seriam capazes de assinar esta petição, exigindo ao Governo de Israel e ao Hamas um cessar fogo? Pois, bem me parecia. De mim, ficam esclarecidos: não estou no meio, tenho posição. Mas não mudo os meus critérios conforme os mortos e os assassinos.
Um comentador acusou-me de parcialidade por não ter dito que os autores dos atentados de Jerusalém eram do Hamas. Na realidade, podia ser o Hamas, a Fatah ou qualquer outra organização. O Insurgente acusa-me de não dizer que eram civis. Sendo o ataque a uma escola, a coisa era evidente. Na verdade, sabia que era indiferente o que eu escrevesse, mesmo num post dedicado a condenar este atentado e a falar da situação em Gaza. Viria sempre a acusação, curiosamente feita por quem, mais do que qualquer subtileza semântica, nunca refere uma morte palestiniana, apesar da desproporção de vítimas. De quem nunca escreveu uma linha (tímida que fosse, com omissões ou sem elas) de condenação a Israel.
Fica o esclarecimento, para quem tenha dúvidas: eu condeno a violência e o assassinato de civis. Todos. Pena que tantas vezes quem me aponte o dedo os justifique. E nem o fazem com um "mas". Justificam e, cinismo do cinismo, culpam os palestinianos por cada morto do seu lado. Por isso, não só não me parece que tenham autoridade para fazer este tipo de críticas como acho que não estamos no mesmo plano.
Aqui vai, editada porque foi escrita à pressa, como se escrevem os comentários:
«Para que fique claro: sim, acho que a situação dos palestinianos e dos israelitas não é igual. Sim, acho que há um ocupante e um ocupado. Sim, acho que qualquer palestiniano de Gaza trocaria o seu quotidiano pelo quotidiano de um israelita e nenhum israelita queria estar na pele de um palestiniano de Gaza. E sim, acho que isto faz toda a diferença.
Dito isto, sou um pacifista, abomino convictamente, politicamente e pessoalmente (no que isto tem de mais profundo) todas as formas de violência (políticas ou outras) e sinto repugnância por este acto. Isto não muda um milímetro das minhas opiniões sobre a situação israelo-palestiniana que é suficientemente informada para não andar ao sabor de cada matança que por lá são diárias. Mas não pense por um segundo que seja que consigo sentir empatia, simpatia ou sequer condescendência por quem usa a morte de inocentes como arma política. E isto inclui bombistas palestinianos e oficiais israelitas. Estará a discutir com a pessoa errada. Só não me peça uma coisa: que chame terroristas aos que cometeram este crime em Jerusalém e militares aos que mataram 200 em Gaza. Isso não. Porque nada, rigorosamente nada, nem os métodos, nem os objectivos, nem o desprezo pela vida humana, os distingue. Uns são mais fortes e outros mais fracos. Apenas isso. Ou são ambos militares, ou são ambos terroristas. Escolha.
Quanto à luta política que pode ter futuro ali, essa, a que me interessa, passa-se noutras cabeças. Nas de palestinianos (os que não são amigos do corrupto Abbas nem dos radicais do Hamas) extraordinários. Que, contra tudo e contra todos, não desistem da via pacífica e defendem um Estado Palestiniano viável e independente, com fronteiras que respeitem a sua dignidade, e Israel em paz. Nas de israelitas, defensores de negociações, da criação de pontes (sabendo que nos dois lados há gente disposta a conversar sem condições prévias), e na defesa de um Estado de Israel seguro e de um Estado Palestiniano viável.
Dito isto, pode procurar todas as omissões e todas as contradições em cada virgula. É este o meu lado. Defendo o direito do povo palestiniano a um Estado e à sua liberdade. Sou contra a militarização da Intifada e amigo dos palestinianos que se batem pela via pacifica e política, mesmo quando, a cada momento, a cada semana, lhes morre alguém querido. E dos israelitas que se recusam, no exército, a operar nos territórios ocupados. Que, isolados e tratados como traidores, chocados e revoltados com as mortes de israelitas civis, não desistem de se bater pela paz da melhor maneira: recusando-se a fazer a guerra e procurando conhecer um vizinho que é muito mais parecido com eles do que qualquer outro povo no Mundo. É gente de coragem. Com muito mais coragem do que os guerreiros dos dois lado. E sobretudo com muito mais coragem do que tantos guerreiros de sofá que por aí andam.»
Há, como diz o João Galamba, uma diferença fundamental entre mim e os mais ferozes defensores de Israel: eu defendo um Estado de Israel viável, com um território contínuo e recursos próprios, com forças armadas e fronteiras com o exterior. Eles recusam um Estado Palestiniano viável, com um território contínuo e recursos próprios, com forças armadas e fronteiras com o exterior. Eu condeno os atentados contra civis, de um e de outro lado. Eles apoiam os atentados israelitas. Eu chamo terroristas a quem no Hamas, na Fatah e no exército de Israel escolhe civis como alvos. Eles chamam terroristas a uns e militares a outros. Eu acho os atentados do Hamas injustificáveis eles justificam as bombas israelitas com o direito à defesa e culpam os palestinianos por elas. Chamam atentados a uma coisa e reacção a outra. Nunca o fiz.
Tenho uma posição política sobre os caminhos para uma solução para Médio Oriente (não tenho nem podia ter a solução). Estes, que fazem o patrulhamento de cada virgula que escrevo, tirando a defesa de cada bombardeamento israelita, defendem algum caminho? Alguma das suas posições inclui alguma exigência a Israel? Acham aceitável a partilha de Jerusalém? Acham aceitáveis as fronteiras de 1967? Acham aceitável que, como Israel, a Palestina tenha um exército e fronteiras que ela própria controla? Acham aceitável para os palestinianos tudo o que acham que os israelitas têm direito? Eu acho aceitável para os israelitas tudo o que defendo para os palestinianos. Tudo.
A resposta é sempre a mesma: Israel tem direito a defender-se. É claro que Israel tem direito a defender-se. E a Palestina, não tem? E tendo em conta que foi a Palestina que perdeu grande parte do seu território, que vive sob ocupação e que tem muito mais vítimas na lista macabra de mortos, não seria esse argumento estéril ainda mais útil para os palestinianos do que para os israelitas? E, no entanto, recuso-me a usá-lo porque ele é inútil e só pode vir de quem acha que a solução do conflito depende de uma vitória militar. Porque não serve para nada. Apenas justifica a guerra. Da minha parte, procuro argumentos que justifiquem o fim do conflito: dois estados livres, independentes e viáveis.
Por tudo isto, que não me venha falar de equilíbrio quem se recusa a usar os mesmos critérios para cada lado. Fica uma pergunta simples: seriam capazes de assinar esta petição, exigindo ao Governo de Israel e ao Hamas um cessar fogo? Pois, bem me parecia. De mim, ficam esclarecidos: não estou no meio, tenho posição e ela é ditada por o que conheço dos factos. Mas não mudo os meus critérios conforme os mortos e os assassinos nem espero pelo dia em que um lado esmague o outro.
Um atentado em Jerusalém provocou oito mortos e pelo menos 35 feridos num ataque a um instituto de estudos talmúdicos. Entretanto, um relatório de ONG's garante que a situação humanitária em Gaza é a pior desde 1967.
Desde o começo das "conversações de paz" morreram cinco israelitas vítimas de ataques palestinianos. No mesmo período, em reacção (quem reage a quem?), foram mortos por Israel 200 palestinianos. A contabilidade macabra é esclarecedora. Mas uns são terroristas e outros não. Uns são bárbaros, outros civilizados. Não pesará a consciência a Olmert: quatro crianças e um bébé são menos cinco futuros terroristas. Não é?
Viagem a Nahr El Bared, o principal campo de refugiados palestinianos do Norte do Líbano, destruído pela guerra. O guia é Miguel Portas. No blogue dele. Com texto e fotos.
Este discurso foi feito nos Emirados Árabes Unidos, aliados dos EUA. Esse exemplo de democracia, eleições livres, oposição vigorosa e respeito pelos direitos humanos.
Hoje, líderes sem futuro discutem o futuro de Israel e da Palestina. Com o país todo no seu governo, um não pode dar nada. Sem governo no país, outro não tem nada para dar. Mas, como de costume, o drama israelo-palestiniano é uma excelente oportunidade de fotografia para quem passou anos a piorar a situação.
Vive-se em Gaza uma grave crise humanitária, graças a um bloqueio que dura há meses, numa autêntica punição colectiva a um milhão e quatrocentos mil civis palestinianos. Quase nada entra e sai de Gaza, que está isolada do Mundo. E, de mês para mês, menos bens essenciais entram no território. Por falta de medicamentos os hospitais estão com gravíssimas dificuldades, não há livros nas escolas, a inflação, por falta de bens essenciais, atingiu níveis insuportáveis, as poucas empresas que ainda sobreviviam em Gaza estão a fechar as portas (90% da produção industrial parou e 60% dos trabalhadores do sector privado ficaram sem emprego desde Junho). Todas as colheitas agrícolas estão em risco. 67% da população de Gaza vive agora com menos de dois dólares por dia. A situação humanitária é de calamidade.
Um grupo de activistas de Organizações dos Direitos Humanos, intelectuais, académicos e empresários de Gaza e da Cisjordânia, com o apoio de organizações internacionais, sem ligação aos movimentos partidários palestinianos, lançou uma campanha para exigir o fim deste bloqueio criminoso e desta punição colectiva inaceitável para o Mundo Civilizado. Aqui fica o site da campanha. Leiam e divulguem.
«Depois de apresentar um recurso à pena aplicada aos seus violadores, uma mulher saudita viu ontem a sua sentença agravada: inicialmente condenada a 90 chicotadas ao abrigo das leis de segregação que proibem homens e mulheres sem relações familiares de estarem juntos em público, a xiita de 19 anos, violada 14 vezes por um grupo há um ano e meio, viu o número de chicotadas crescer para 200 e foi ainda condenada a seis meses de prisão.» (Público)
O Tiago Barbosa Ribeiroo aproveita Silves, como aproveita qualquer coisa, para vir em defesa de Israel. Parece que uns tipos ocuparam as instalações de uma empresa israelita em Londres, bloquearam as suas entradas e ergueram uma bandeira palestiniana.
Acho alguma graça ao facto do Tiago se chocar com esta violação da propriedade privada. Há décadas que o mesmíssimo Estado que ele apoia incentiva os seus cidadãos a entrar pela propriedade privada alheia (que por acaso até fica noutro país), ocupa-la, expulsar de lá os seus proprietários, espetar a bandeira israelita e ali ficar a viver deste roubo com a protecção de forças de segurança. Há décadas que as casas construidas, compradas ou herdadas por palestinianos são roubadas e destruidas e as suas terras são ocupadas por recém-chegados ao território. Não se trata de nenhuma acto simbólico. Quem viola assim a tão sagrada propriedade privada ali fica para sempre, dando à ocupação e ao roubo o nome de colonato.
Se há tema que o Tiago não devia trazer para a discussão sobre o respeito pela propriedade alheia é o do conflito israelo-palestiniano. Todas estas "acções directas", por mais criticáveis que sejam, são brincadeiras de criança ao pé do comportamento ilegal dos governos que ele aqui defende. Haja algum decoro. Que a indignação não sirva para meter tudo na agenda.
Num longo artigo na Foreign Affairs, Rudolph Giuliani, à frente nas sondagens para as primárias republicanas, diz que está contra a actual política americana de apoio à criação de um estado palestiniano. "Não é do interesse dos Estados Unidos, numa altura em que está sob a ameaça de terroristas islâmicos, ajudar a constituir mais um estado que seja promotor de terrorismo".
Também podem ler os artigos de Barak Obama, do número passado, e de John Edwards, neste número.
Israel, que há anos bombardeia civis em Gaza, que impede a entrada de medicamentos, que não permite que o porto de Gaza funcione, que bloqueia a saída de produtos e a entrada de maquinaria e matérias primas para a indústria e para a agricultura, que isola os palestinianos num autentico gueto, que estrangula a sua economia, que boicota a sobrevivência daquele território, que confisca os impostos e que ainda lhes cobra o consumo de electricidade, está a enviar comida aos palestinianos de Gaza, numa acção "humanitária". A ser verdade, estes alimentos entrarão pelos mesmos postos fronteiriços onde, diariamente, há anos, apodrecem os víveres travados por "razões de segurança", deixando a população de Gaza na mais absoluta indigência.
E a embaixada pede ao Tiago para divulgar este seu nobre gesto aqui na blogosfera. E ele, espero que apenas por ingenuidade, presta-se a isto. Mas duvido que seja ingenuidade. No segundo seguinte ele esfrega a comida para os esfomeados na cara de quem o lê: "Já o Hamas prefere passar explosivos". Ao melhor estilo "Vida Soviética". Talvez não fosse mau o Tiago recordar-se de que país vieram as últimas armas que por ali entraram. E para quê.
Claro que a operação não é coordenada por nenhuma das muitas ONG's israelitas que realmente se preocupam com a sorte daquele povo. São as forças militares israelitas, de que os palestinianos de Gaza tão bem conhecem as bombas, os helicópteros e os bulldozers, que organizam a coisa. A propaganda deve ser acompanhada de humilhação.
No que toca aos palestinianos, o cinismo, a hipocrisia e, agora, a instrumentalização do sofrimento das mesmas pessoas que sempre trataram como lixo não tem limites. De Israel, não era de esmola que os palestinianos precisavam. Era que tivesse deixado, quando ainda era tempo, que a sua economia funcionasse, que os seus trabalhadores produzissem e que os seus empresários investissem. Esta esmola como acto de propaganda, depois de anos de tortura, tem um nome: pornografia.
Volto aqui a dar voz aos empresários e médicos que ouvi em Gaza antes de tudo desmoronar. E aí sim, Israel podia ter feito alguma coisa. O que fazem agora, para que as suas embaixadas divulguem, só torna mais abjecto o seu comportamento.