Terça-feira, 11 de Junho de 2013
por Sérgio Lavos

O Governo grego decidiu encerrar temporariamente a estação pública de televisão e rádio (ERT), com efeitos imediatos a partir da meia-noite de hoje. Vão ser despedidos 2700 funcionários. A estação emite desde 1938. O único período em que interrompeu a sua actividade foi durante a ocupação nazi. Está tudo a correr bem, na Europa de Merkel, Barroso e Schaüble.

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por Sérgio Lavos
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Quarta-feira, 8 de Maio de 2013
por Sérgio Lavos

 

Se este Governo, mais do que qualquer outro, se especializou na mentira, na mistificação e na farsa mediática - o repugnante teatro encenado por Passos Coelho e Paulo Portas durante a última semana é demonstração de que o crime compensa -, não o poderia estar a conseguir fazer com êxito se não tivesse a prestimosa ajuda de uma clique de propagandistas a escrever em jornais e blogues, gente sem coluna, que não se importa de mentir com todos os dentes, manipular números e usar dados para servir a política de destruição que nos está a ser imposta. Dois exemplos, durante a última semana:

 

Helena Matos, na sua última crónica para o Diário Económico, ensaia uma catilinária - a enésima - contra o Ensino Público. Nada de novo, mas lendo com atenção o seu textículo, as marcas do costume saltam à vista. Começa por falar dos exames para o 4.º ano, surpreendendo-se com a "infantilização das crianças" (SIC) levada a cabo pelas associações de pais que protestaram contra o inenarrável exame introduzido por Nuno Crato. A sua opinião sobre a medida (que, de resto, nos equipara apenas a Malta no universo da UE), assim como sobre o termo de responsabilidade que as crianças tiveram de assinar, caracteriza o que Helena Matos é na perfeição, mas não deixa de ser uma opinião, tem direito a ela. Mas quando, para validar o que escreve, fala da qualidade do ensino que existe em Portugal e recorre à mentira, estamos noutro nível. A mesma Helena Matos que, em abnegada missão de denúncia, passa os dias a verificar tendências e subversões na imprensa portuguesa, encontra a raiz dos actuais problemas na reforma do ensino levada a cabo por Marcello Caetano, chegando à conclusão de que o nosso ensino é caro e tem resultados medíocres. Duas mentiras em apenas cinco palavras é obra. Não só a escola pública não é cara - os últimos dados conhecidos, de 2010, antes dos brutais cortes dos últimos dois anos, mostram que a percentagem de verbas para educação estavam abaixo da média da OCDE, tanto no que diz respeito ao gasto médio por aluno como na percentagem do PIB ou na percentagem da despesa pública. E repito, isto antes dos brutais cortes dos últimos três anos, os mais elevados feitos nos países sob resgate. E quanto a resultados? Como é público, Portugal subiu consistentemente, tanto no ranking dos testes PISA, como no recente TIMSS. Portanto, o investimento na educação, apesar de estar abaixo da média da OCDE, consegue resultados que nos colocam bastante acima da média, o que demonstra não só que as políticas prosseguidas têm sido bastante eficazes, como evidencia a competência dos profissionais do ensino, em geral maltratados pela opinião pública, e que conseguem fazer omeletes com poucos ovos. Isto é a realidade. Mas quando é o próprio ministro Crato que a desvaloriza, como poderemos nós esperar que Helena Matos, simples publicista, lhe dê o mínimo de atenção? E tenho a certeza de que não se trata de ignorância - que ainda poderia ter desculpa -, mas de má fé: a Helena Matos interessa passar a mensagem de que o nosso ensino é "caro e medíocre".

 

Na mesma linha, tivemos também esta semana Marques Mendes, de gráficos em punho, defendendo em prime time os cortes do seu Governo e intoxicando a opinião pública com manipulações grosseiras. A determinada altura, são mostrados dois gráficos. Um que indicava que, entre 1980 e 2010, perdemos 51% dos alunos do 1.º ciclo. E outro que mostrava que, durante o mesmo período, o número de professores tinha crescido 53%. A apresentação destes gráficos visava demonstrar como o número de professores é excessivo para os alunos que temos. O problema? Os gráficos referiam-se a realidades diferentes. O que mostrava a quebra do número de alunos referia-se apenas ao 1.º ciclo e o que representava a subida do número de professores referia-se a todos os níveis de ensino, excepto o Superior. O que se chama a isto? Manipulação, mentir em público para defender uma política. Na verdade, entre 1980 e 2010 houve uma quebra do número de professores do 1.º ciclo, passando de 39926 para 31293. 

 

Esta gente perdeu toda a vergonha. Não se importam de fazer afirmações falsas, facilmente desmontáveis, porque sabem que o palanque onde ensaiam as mentiras tem sempre mais importância do que aquele onde essas mentiras são desmontadas. Marques Mendes fala para centenas de milhar de pessoas; a mentira foi denunciada na página do facebook de Santana Castilho. Este mundo de diferença é que vai permitindo que as maiores atrocidades vão sendo cometidas perante a passividade geral da população. Em muitos casos, a passividade geral é alimentada por ódios a determinadas classes, como os funcionários públicos, os professores ou os maquinistas. A máquina de propaganda é terrivelmente eficaz, não tenhamos dúvidas. Vive da mentira e da manipulação dos governantes, dos políticos que apoiam o Governo e dos opinion makers. Não precisam da realidade para nada, porque fabricam a sua própria realidade paralela, construída em folhas de excel com previsões irrealistas e na encenação permanente de factos e números, quase nunca desmontados por uma imprensa incompetente e colaboracionista. São perigosos, pois são. Têm de ser parados.


por Sérgio Lavos
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Sexta-feira, 3 de Maio de 2013
por Sérgio Lavos

 

A política adora eufemismos. Eufemismo é uma palavra que é, ela própria, um eufemismo, quando aplicada à política. Poderemos, sem esforço, considerar os eufemismos políticos como termos da novilíngua. Para quem não sabe, novilíngua é o glossário inventado pelo regime descrito por George Orwell em 1984, um conjunto de palavras que o estado totalitário usa para melhor espalhar a propaganda que faz passar aos cidadãos. O slogan "Guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força", multiplicado até ao infinito pelas máquinas de difusão do regime, é a cola que consegue manter calados todos os opositores.

 

Orwell compreendeu bem os perigos dos regimes totalitários, do nazismo ao comunismo. Mas não são apenas as ditaduras que recorrem à manipulação linguística com forma de controlo das massas. Qualquer regime, mesmo a mais liberal democracia, precisa de inventar um léxico para controlar, de algum modo, o que as pessoas pensam. A linguagem como meio de distorção de uma realidade sempre foi uma das principais preocupações dos políticos. Numa sociedade global, na qual a informação circula a velocidades estonteantes, o Estado já não precisa de controlar a informação e a sua circulação. A manipulação é mais subtil, mais difusa. Os Governos contratam agências de comunicação que gerem a cada minuto o que, quando e como os governantes dizem. Os meios de informação limitam-se a ser - e ainda mais, em tempo de crise gravíssima dos media - mais um canal por onde escorre a propaganda dos regimes. O excesso de ruído, de canais de informação e de informação produzida, produz o mesmo efeito que a censura produz nos regimes totalitários tradicionais: a ocultação da verdade. O que antes as pessoas não sabiam por causa da censura, agora sabe-se, mas a verdadeira informação está tão diluída no meio do lixo comunicacional, que passa quase sempre despercebida. Podemos ter acesso a mais fontes de informação, mas não temos os meios de distinguir o essencial do acessório, a verdade da manipulação, a realidade do mundo virtual onde vivemos. 

 

 

 

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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2012
por Sérgio Lavos

Curioso é também o êxtase pouco comedido da direita sabuja - que andava caladinha que nem ratos prestes a fugir do navio desde que os números da economia entraram em queda livre e sobretudo desde que a incompetência do impressionante Gaspar e o seu manga-de-alpaca Coelho se tornou demasiado evidente para continuar a parecer inteligente defender as medidas do Governo - e agora dá pulinhos de alegria com o número do intrujão Baptista da Silva - sim, sim, são os mesmos que defendem (ou pior, se calam com) a "licenciatura" do Dr. relvas - e rasgam as vestes pedindo a demissão de um jornalista íntegro como Nicolau Santos, que teve o pejo e a honra de admitir um erro - crasso - e pedir desculpa por isso.

 

José Manuel Fernandes, por exemplo, que, para quem não saiba, foi corrente de transmissão da* intentona das escutas de Belém (uma vergonha não só jornalística, mas sobretudo pessoal), tem sido dos mais activos na campanha. O Blasfémias e o Insurgente também ressurgiram das cinzas, jogando a cartada com toda a má fé e sem qualquer vergonha na cara.

 

Compreendamos o desespero: desde a estrondosa derrota da TSU que esta gente andava mansa que nem cordeiro. Aparecer um tipo mitómano que por acaso diz o que neste momento é quase unânime (o problema, claro, não é o que Baptista da Silva disse, mas as suas falsas credenciais e a falta de rigor dos media que lhe deram voz) é uma oportunidade de ouro para tentar descredibilizar a mensagem anti-austeridade. Não interessa que economistas de esquerda e direita sejam praticamente consensuais nas suas opiniões, não interessa que o FMI, a Comissão Europeia e o BCE tenham uma posição neste momento muito mais moderada em relação à austeridade na Europa, não interessa que até Merkel esteja a ceder na Grécia, na Espanha, na Irlanda. O que interessa a estes sabujos é continuarem a ladrar em defesa do Governo e da sua política de destruição do país, uma política cada vez mais isolada no seio da Europa, de um Governo que se recusa a ter uma palavra sequer de defesa do país nos organismos europeus e se preocupa apenas em fazer os seus negócios para o pós-eleições. Um presentinho de Natal para a canalha, um êxtase precoce de gente sem espinha e sem carácter. Bom proveito.

 

*Alterado. José Manuel Fernandes não foi arquitecto da intentona, mas sim Fernando Lima, assessor que acabou por ser afastado por Cavaco Silva. O seu a seu dono. JMF (em conjunto com Luciano Alvarez) limitou-se a ser veículo para um dos episódios mais vergonhosos do jornalismo em democracia.

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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2012
por Sérgio Lavos

 

Toda a gente se recorda da triste figura que Mário Crespo fez no parlamento. Toda a gente se lembra também de Marques Mendes falar da "asfixia democrática" e da direita andar excitada com a claustrofobia democrática no tempo de Sócrates. Toda a gente se recorda do rasgar de vestes e do clamor que se levantou contra o afastamento de Manuela Moura Guedes da TVI. Toda a gente se lembra da manifestação em frente à Assembleia, promovida pela blogosfera de direita e apoiada por alguns blogues de esquerda (o Arrastão demarcou-se do happening) a favor da liberdade de expressão e de imprensa. Bem, eram outros tempos. Agora, cada personagem que se atravesse no caminho do Dr. Relvas acaba afastada do cargo que ocupa. Sobretudo se for jornalista. O rasto que vai sendo deixado é tenebroso: Pedro Rosa Mendes, Raquel Freire, o conselho de redacção do Público, Maria José Oliveira, o director da Lusófona do Porto, etc. etc. Um registo digno de um Dr. Goebbels de quinta categoria. Agora, Nuno Santos. Numa manobra que o próprio não se exime de classificar como "saneamento político". Primeiro a demissão, quando se viu encurralado pelas manobras de Luís Marinho e de Alberto da Ponte, e agora, depois do depoimento na Assembleia da República, o processo disciplinar e o afastamento das instalações da RTP. Um processo célere, na sombra, com poucas ou nenhumas hipóteses de remissão. Nuno Santos era uma pedra na engrenagem de uma RTP que mantinha alguma equidistância em relação ao poder político. Já foi. Entretanto, o presidente da administração negoceia, sem qualquer pudor, como se fosse um caixeiro-viajante, a venda da estação pública com o interessado angolano. Isto quando publicamente apenas se conhece o interesse de uma empresa portuguesa, a Cofina. E a maioria PSD/CDS volta a chumbar o projecto de lei que visa a transparência sobre os titulares do órgãos de comunicação. Alguma coisa mudou, neste ano e meio: o que era feito na sombra (Ongoing, Público) é agora feito às claras. O Dr. Relvas, dobrado o cabo das tormentas que representou a licenciatura por equivalência, está no seu melhor, em campo aberto. Não fala muito mas conseguiu pôr os seus homens de mão no terreno. Passou o limiar da vergonha, aquele que qualquer pessoa decente não ousaria ultrapassar no seu lugar. Se o Dr. Relvas continua na sua cadeira, apesar da Ongoing, do Público, da Antena 1, da Lusófona e de todas as "reformas" que ainda não concluiu, então já nada o fará cair. Sabemos porquê: os crápulas não tem vergonha na cara; e o seu destino está intrinsecamente unido ao de Passos Coelho. Os dois cairão no mesmo passo.

 

Toda a gente se lembra das manobras do tempo de Sócrates? Não. Os que na altura mais protestaram agora sentam-se nos gabinetes ministeriais e trabalham a soldo do Dr. Relvas. Os que não conseguiram lá chegar calam-se. E assistem de um lugar privilegiado ao maior assalto à liberdade de imprensa que este país já assistiu. As peças movimentam-se no terreno, e se nada acontecer entretanto, dentro de um ano teremos uma estação de televisão controlada por uma empresa cujos capitais têm origem num regime cleptocrata e autoritário, sem qualquer respeito pela liberdade de expressão e de imprensa. Estação essa que se juntará aos media que já estão nas mãos do regime angolano, directa (através de Isabel dos Santos) ou indirectamente. Miguel Relvas sorri o sorriso dos imbecis que conseguem levar a água ao seu moinho. E Mário Crespo luta diariamente a luta dos sabujos, na esperança que um dia o Dr. Relvas lhe ofereça um lugar de correspondente em Nova Iorque na nova estação para os novos tempos. Tudo está bem quando acaba bem. Para o país, suspeito, isto não vai acabar nada bem.


por Sérgio Lavos
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Domingo, 25 de Novembro de 2012
por Sérgio Lavos

 

O ministro da propaganda, Miguel Relvas, e o golpe que levou à demissão de Nuno Santos, um director de informação que nunca deixou de mostrar independência face ao poder político. Por Eduardo Cintra Torres, um homem acima de qualquer suspeita, apoiante do Governo que chegou a fazer parte da comissão para avaliar o conceito de serviço público.

 

Todos os canais de poder começam a ser tomados. Relvas é o cancro que alastra na vida pública, controlando, manobrando, dispondo os seus homens de mão no terreno. A sua maior força? A imagem de idiota provinciano, de chico-esperto deslumbrado pelo poder, que leva a que a sua influência seja desvalorizada pela elite que formata a opinião pública e pelos adversários políticos. A cada piada ele fica mais fortalecido, a cada episódio degradante o seu poder se torna mais vincado. Ele apenas cairá quando o Governo cair, porque gente como ele sente-se bem a chafurdar na lama; gente como ele não tem um pingo de decência na cara nem uma réstia de ética no pensamento. Um perigo para a democracia:

 

"O segundo caso é este: Nuno Santos foi vítima de uma cilada para colocar a Direcção de Informação (DI) da RTP ao serviço do governo. O assunto ficara esclarecido com o Conselho de Redacção, a Comissão de Trabalhadores e o "director-geral" Luís Marinho (entre aspas porque o cargo continua ilegal), e, através deste, com a administração.

 

Apesar disso, o caso foi reavivado três dias depois pelo "director-geral" e pela administração. Porquê? A meu ver, o "director-geral", o ministro Relvas, e o seu homem na administração, Alberto da Ponte, aproveitaram o caso para desgastar Santos, que vinha a desenvolver uma informação mais independente do poder político, desagradando a Relvas e relvistas na RTP. Apesar de esclarecido o assunto, os relvistas, pensando melhor, concluíram que podiam explorar o caso. Santos, percebendo a cilada, demitiu-se. Foi uma cabala própria dos mais ruins regimes de propaganda, autoritarismo e desinformação. O resto é fumaça, como o inquérito sumário e pré-decidido, tipo pré-25 de Abril, que Ponte mandou fazer. Ponte, cuja capacidade de gestão ainda não se viu, politicamente provou a sua submissão ao ministro Relvas.

 

Resultado? A administração de Relvas indica Marinho para DI. É escandaloso, em termos institucionais, que um antigo administrador da RTP regresse à DI. Ainda por cima, ele, o principal responsável pela informação, não só ficou de fora das acusações da administração, como é nomeado para DI. Se for aceite pela ERC, será um dos mais graves atentados à ética do jornalismo e da informação em Portugal nos últimos anos. E, jornalisticamente, é ainda mais escandaloso, conhecendo-se o tipo de relacionamento de Marinho com os governos (Sócrates e Relvas).

 

A tomada do poder da informação pelo relvistas inscreve-se na história: o poder político considera a RTP como sua, não como do Estado para servir os portugueses. Não há meio de sair deste ciclo infernal criado por PS e PSD; a independência das DI é uma excepção na habitual submissão.

 

Para se defender os cidadãos, teria de começar-se pelos afastamentos de Relvas do governo, de Ponte da presidência da RTP, de Marinho de um cargo ilegal e do controle da informação. Que fará Passos Coelho com a RTP?"


por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 16 de Outubro de 2012
por Sérgio Lavos

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por Sérgio Lavos

 

Dois burgueses anafados do mesmo lado da barricada, perorando na RTP1 sobre nada enquanto tudo arde. E nos canais noticiosos, bola para o povo. Nem a SIC, nem a TVI, nem a RTP Informação passaram em directo as imagens do cerco ao parlamento. Apenas um canal as mostrou, a TVE. Vergonha.

 

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Quarta-feira, 11 de Julho de 2012
por Sérgio Lavos

 

Mas está a acontecer aqui ao lado, em Madrid.

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Quinta-feira, 21 de Junho de 2012
por Sérgio Lavos

 

Rui Rio, conhecido como "O Entaipador Implacável da Ribeira", decidiu uma vez mais enviar os gorilas da polícia municipal para vandalizarem um projecto cidadão que tinha ocupado um espaço público deixado ao abandono, no caso a biblioteca infantil Ivo Cruz. Não devemos duvidar: Rui Rio prefere o vazio à cultura, a violência institucional à participação cidadã na construção da cidade do Porto. Como vi escrito no Facebook, assim que Rio ouve falar em cultura, saca dos tapumes. Modos de vida. Mas não é isso o mais intrigante neste caso de assoberbamento cro-magnon do presidente da câmara portuense.

 

No dia em que a biblioteca foi assaltada pela polícia, o Diário de Notícias noticiou o caso. O bizarro da situação é que o jornal saiu para as bancas cerca de três horas antes do caso ter acontecido. A notícia - sem assinatura - falava em "injúrias e agressões a agentes", quantifica o número de pessoas identificadas e especula sobre a origem dos ocupantes do espaço. Este extraordinário exercício da adivinhação dado à estampa no Diário de Notícias teve pouca repercussão na realidade; a efectiva vandalização do espaço pela polícia, acontecida três horas depois desta notícia ter começado a ser lida, acabou por decorrer sem "injúrias e agressões" nem outros fenómenos paranormais de monta.

 

Contactado pela associação que ocupara o espaço, o provedor do DN defendeu o jornal dizendo que a notíciaa tinha sido escrita com base num comunicado da polícia enviado na noite anterior. Fantástico país, este, em que membros da polícia se dedicam a escrever notícias que depois enviam aos jornais, e ainda por cima notícias sobre o futuro, sobre o que ainda está para acontecer. Fabulosa nação, também, aquela em que um jornal - por sinal, o mais antigo publicado em Portugal - recebe notícias redigidas pela polícia e as publica como sendo suas e verdadeiras.

 

Contado não se acredita, dirão. Mas eu acrescento: a verdade e a realidade, tudo vão, tudo ilusório. Acreditamos no que queremos acreditar, mesmo que seja má ficção escrita por um péssimo polícia.

 

Adenda: o provedor do jornal, Óscar Mascarenhas, deixou na caixa de comentários um esclarecimento sobre a sua actuação que julgo ser premente deixar aqui. Diga-se que nunca duvidei da competência de Óscar Mascarenhas, que tem mostrado, em outras situações ocorridas no DN - por exemplo, o caso da contra-notícia enviada pelo Governo para a redacção no dia de uma greve de transportes - bastante competência e sobretudo independência nas suas análises, nunca se furtando a criticar e a melhorar os procedimentos do jornal para o qual trabalha.  Aqui fia então, com um pedido de desculpas pelo equívoco cometido:

"Caro Sérgio Lavos:
Não fui contactado pela associação nem defendi coisa nenhuma. Já esclareci no blogue respetivo e repito-o aqui:
Pretendo retificar aqui um equívoco. "O provedor do leitor deste jornal foi contactado, e defendeu que aquela peça foi baseada num comunicado da polícia enviado na noite anterior". Esta afirmação não corresponde à verdade. A Sra. Patrícia Dias da Silva contactou-me (sem me dizer se representa ou não mais alguém, mas isso é indiferente) e respondi-lhe: "Já recebi uma reclamação anterior sobre esta notícia e pedi esclarecimentos urgentes à Direção do DN, sendo certo que a notícia parece sustentar-se em informações fornecidas por forças policiais.
Obrigado pelo alerta." Não "defendi" coisa nenhuma, prometi averiguar e bem dispensava que a minha resposta fosse tão completamente deturpada. A análise do que aconteceu sairá na edição de amanhã, dia 23, do DN. Oscar Mascarenhas (Provedor do Leitor do DN).


por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 8 de Maio de 2012
por Sérgio Lavos

No Expresso. Fazem-se umas contas aos hipotéticos impostos que o Estado poderia ter cobrado quando António Guterres congelou o preço dos combustíveis, sem ter em conta a principal variante neste caso: as quebras de consumo caso não tivesse existido esse congelamento. Nem se chega a perceber bem de onde vem o número. Por outro lado, não se mencionam as vantagens de uma medida desse tipo: a mais evidente é uma poupança nos custos operacionais das empresas, nada despicienda quando estamos a falar de um período de contracção económica. Sem falar no aumento do poder de compra do consumidor individual, também importante no estímulo a uma economia que, já naquele tempo, dependia do sector dos serviços para se manter competitiva. E por fim, fala-se com um representante do cartel, certamente dono e senhor de uma opinião completamente isenta sobre o tema. Mas enfim, interessa a muita gente que as decisões de Hollande que poderiam ser aplicadas em Portugal não sejam vistas com bons olhos pela opinião pública. Daqui em diante, aparecerão muitas notícias como esta.


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

"1) Imediato cancelamento de todas as medidas vigentes de empobrecimento, como cortes nas pensões e salários;

 

2) Cancelamento de todas as medidas vigentes que vão contra os direitos fundamentais dos trabalhadores, como a abolição dos contractos colectivos de trabalho;

 

3) Abolição imediata da lei garantindo imunidade aos deputados e reforma da lei eleitoral (principalmente a questão dos 50 deputados bónus para o partido vencedor);

 

4) Investigação aos bancos gregos e imediata publicação da auditoria feita ao sector bancário pela BlackRock;

 

5) Uma comissão de auditoria internacional para investigaras causas do défice público da Grécia, com uma moratória em todo o serviço de dívida até serem publicados os resultados da auditoria."

 

Os media andam histéricos com o radicalismo do partido que ia ganhando as eleições na Grécia. Esquecem-se de que o partido de direita que ganhou as eleições desistiu de formar Governo ao fim de poucas horas. E claro, defende as medidas de austeridade que levaram à destruição do país. Com propostas destas, quem é verdadeiramente responsável nesta situação? A direita "responsável" que levou a Grécia ao fundo ou a esquerda "radical" que a quer salvar?

 

(Via 5 Dias, traduzido por Nuno Moniz.)


por Sérgio Lavos
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Quinta-feira, 29 de Março de 2012
por Sérgio Lavos

 

Olhando para as edições on-line dos jornais portugueses e vendo os telejornais e serviços noticiosos nos canais por cabo, no pasa nada. O tratamento dado à Greve Geral no país vizinho é um excelente exemplo da relação dos media com os interesses do poder. Ainda existirá liberdade de imprensa em Portugal?

 

(Quem estiver interessado no que se passou, pode ir aqui. Mas não digam nada ao corta-Relvas, shiuuu...)


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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
por Sérgio Lavos

É oficial: a censura foi reimplementada em Portugal. Com uma ajudinha dos nossos amigos angolanos, que percebem muito da poda. A brincadeira do Prós e Contras em Angola não foi um acidente de percurso.


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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012
por Sérgio Lavos

 

 

Mário Crespo, uma das vergonhas do jornalismo (?) nacional, é demolido pelo sindicalista Arménio Carlos. Ou como a inteligência e, sobretudo, a razão derrotam por KO a untuosidade bolorenta destas criaturas que apenas existem para servir quem está no poder.

 

Adenda: o primeiro vídeo publicado não era o correcto. Agora sim, o debate entre o "jornalista" e o sindicalista.

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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011
por Sérgio Lavos

 

Uma espécie de serviço público de propaganda proporcionado pelo seu programa preferido, o Prós e Contras, lixo televisivo pior do que a Casa dos Segredos - porque muito mais perigoso. Um combate entre o privatizador da Saúde contratado pelo PS, Correia de Campos, e o privatizador da Saúde contratado pelo PSD, Paulo Macedo. Ambos com uma impecável folha de serviços por conta de empresas privadas ligadas à área que acabaram por vir a tutelar, o primeiro no Governo Sócrates, o segundo no Governo proconsular do Coelho. Uma democracia de fachada, meus senhores, é isto. 

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Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011
por Sérgio Lavos

 

O ministro da propaganda, o ominoso Relvas, reservou um lugarzinho para si no Telejornal da RTP1, logo a seguir às reportagens sobre a greve. Se isto não é uma espécie de "Conversas em Família", não sei o que possa ser. O pior é que mudamos para a SIC, controlada por uma das principais figuras do PSD, e ainda é pior: a cobertura feita na SIC-N foi vergonhosa, de uma parcialidade imbecil e perigosa. A quantidade de apartes engraçadinhos e despropositados que a principal repórter a acompanhar a manifestação ia fazendo às declarações das pessoas presentes deveria figurar num manual de mau jornalismo. Por outro lado, a histérica repórter da RTP, Rita Marrafa de Carvalho, andou a tarde toda a clamar por "tumultos", e quando finalmente aconteceram (provavelmente instigados por um infiltrado da PSP), fugiu escadarias da Assembleia acima gritando "tumultos! tumultos" e reclamando junto dos polícias por estes estarem a agredir jornalistas (e aconteceu, um fotógrafo está hospitalizado)*. A TVI acabou por fazer a cobertura mais professional e imparcial. 

 

Seja pública ou seja privada, a televisão e os seus funcionários já têm o discurso ensaiado: as medidas de austeridade são necessárias, e quem se opuser é um agitador criminoso. Os repórteres destacados para acompanhar estes acontecimentos levam o disco formatado e não conseguem sair do guião, até porque estão a ser observados pelo patrão. Entre o sensacionalismo, a incompetência e o preconceito, acabam por levar a água ao moinho de quem dirige as estações. A excepção da TVI (que tinha já acontecido em anteriores manifestações) atenua um pouco este estado de coisas. Mas o panorama geral é desolador.

 

*Eu vi em directo a polícia a dar bastonadas em tudo o que se mexia, incluindo quem não tinha nada a ver com a invasão das escadarias e jornalistas que por ali estavam. Na RTP. Curiosamente, essas imagens não passaram na reportagem do Telejornal, nem a agressão a jornalistas foi referida. Mas claro, o ministro da propaganda já estava no estúdio. Não iam querer fazer má figura, certo?

 

Adenda: a Fernanda Câncio, sem ter visto a cobertura da greve nem ter estado nas manifestações (imagino eu) indigna-se com a minha generalização sobre o trabalho dos jornalistas destacados para este tipo de reportagens. Fica-lhe bem a defesa da sua classe, mas prefiro nem sequer responder a tal indignação mal-educada. Eu sei o que vi, e posso imaginar o que está por detrás daquilo; não devemos ser ingénuos: a maioria dos repórteres que acompanhou a manifestação, de cada vez que falava com um dos manifestantes ou directamente para a câmara, espumava de ideias feitas sobre a greve e as intenções de quem ali estava. Um dos exemplos foi a repórter da SIC a insistir com um dos manifestantes, Avenida abaixo, sobre a legitimidade de estar ali e da greve, tendo em conta a situação económica do país. Mas enfim, lá está, só quem viu ontem os canais noticiosos e os telejornais é que pode saber do que eu estou a falar...


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 Bela capa a de hoje, do jornal I, a marcar a sua posição enquanto basura dos jornais portugueses, sub-produto de um sub-capitalista que adquiriu há meses a publicação com a intenção de acabar com o pagamento aos colunistas. Sintomático.


por Sérgio Lavos
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Quinta-feira, 18 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

Sem concurso, violando todas as regras internas da RTP, passando por cima da Direcção de Informação e da administração da empresa, voo directo para Washington. Miguel Relvas e Mário Crespo - o tal jornalista de referência - brincando com a malta, abusando de uma desfaçatez inaudita. Estamos no bom caminho.


por Sérgio Lavos
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Sábado, 23 de Julho de 2011
por Sérgio Lavos

 

Sobre o tratamento que alguns (a maioria, digamos) media deram, desde o início, aos atentados na Noruega, ler este post da Palmira Silva no Jugular. E ficam algumas perguntas: um islâmico que leva a cabo um atentado poderá sempre ser um fundamentalista islâmico? Poderá um cristão devoto ser chamado de fundamentalista cristão? Ou será apenas um louco, como tenho visto escrito? Se um cristão que mata dezenas de pessoas é apenas um louco, um terrorista islâmico também não deverá ser considerado apenas como tal? E não me falem em motivações ideológicas ou políticas; um bombista suicida islâmico é tão motivado politicamente como um neonazi que decide plantar uma bomba em edifícios civis. Estamos mais bem preparados para lidar e, no fundo, aceitar, a ameaça estrangeira, do que a ameaça interna, dos nossos "brancos", dos "noruegueses de gema" (como apareceu na declaração da polícia noruegesa). É nestas alturas, de pasmo perante o horror, que se revelam os preconceitos do mundo ocidental em relação ao "outro". Poderia servir de lição, mas sabemos que isso não vai acontecer. As pessoas não mudam.


por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 12 de Julho de 2011
por Sérgio Lavos

Hoje ocorreu um ataque concertado ao site da Moody's depois de várias iniciativas para esse efeito terem sido convocadas através do Facebook. O site deixou de estar acessível em Portugal, e na Grã-Bretanha teve falhas. Nos EUA, ficou muito mais lento. Em consequência deste ataque a cotação em bolsa da agência caiu 3.81%. Um êxito, portanto. Será esta sucessão de acontecimentos notícia? Ficamos com dúvidas, quando reparamos que apenas o Diário de Notícias on-line destaca na primeira página o que está a suceder. Que tipo de interesse nacional pode estar em causa para os outros jornais não noticiarem isto?

 

*Para quem quiser colaborar, pode aceder a esta página do Facebook.


por Sérgio Lavos
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Quarta-feira, 29 de Junho de 2011
por Sérgio Lavos

Belo exemplo do capitalismo que temos: um empreendedor de loga data (e uma das figuras fundadoras deste regime), Pinto Balsemão, tremendo com a concorrência que poderá ter se a RTP for privatizada. Sabemos porquê: apesar da privatização de muitas empresas públicas que asseguravam a prestação do serviço público em sectores fundamentais da nossa economia - falo da Galp e da Petrogal, da PT e da EDP -, as leis do mercado e da concorrência nunca funcionaram. Continua a haver concertação de preços na área dos combustíveis e das comunicações e somos dos países da UE onde os consumidores mais pagam pela electricidade - e não esqueçamos que a EDP é, na prática, uma empresa privada que existe em regime de monopólio. Mas a televisão, lamentavelmente para Balsemão, é diferente: precisa da publicidade para dar lucro; o mercado, no meio audiovisual, funciona mesmo. São estes os empresários que temos, a nossa elite económica que domina indirectamente o poder político: saudosistas do Portugal corporativista que durante quarenta anos Salazar foi construindo.

 

*A questão em si, da privatização da RTP, é outra história; parece-me que o mais racional será privatizar apenas um dos canais, neste caso a RTP1, que não é carne, nem é peixe, não é serviço público nem dá lucro.


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

O plano de destruição da Grécia que está ser levado a cabo pela UE e pelo FMI está a ter a merecida resposta do povo grego. Como a nossa imprensa continua a tentar manter-nos amestrados, pouco se vai sabendo por cá. O novo pacote de austeridade - segundo o Público, aplaudido e saudado por dois dos tenebrosos asseclas da sra. Merkel e do sr. Sarkozy (os carrascos da União Europeia), o sr. José Manuel Barroso e o sr. Rompuy - está ser fortemente contestado nas ruas de Atenas. Para quem quer saber o que se passa (contornando a vaga cortina de silêncio que cobre o nosso país), pode acompanhar em directo no Guardian, no El País, no Libération, ou até no longínquo New York Times. Esquecendo a vergonha que tem sido (desde a primeira revolta grega, há um ano) a cobertura jornalística do tema, só nos resta esperar que as coisas, quando por cá começarem a apertar ainda mais, mudem. Teremos ainda força e coragem para tanto?


por Sérgio Lavos
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Segunda-feira, 2 de Maio de 2011
por Sérgio Lavos

 

 

 

 

No Vias de Facto, Ricardo Noronha conta o que aconteceu na manifestação do 1.º de Maio em Setúbal. Um excerto:

 

(...) Após algumas centenas de metros na cauda da manifestação da CGTP, da qual estava separada apenas por um cordão de agentes da PSP (cerca de 5), a manifestação anti-autoritária seguiu um rumo diferente, em direcção ao bairro da Fonte Nova, uma das zonas da cidade mais carregadas de memória histórica pelas lutas operárias de vários anos. Mais uma vez, e apesar de não haver qualquer agente da PSP nas imediações, a manifestação prosseguiu o seu rumo pacífico e combativo, gritando palavras de ordem e comunicando com a população e os transeuntes. Após cerca de duas horas, chegou ao Largo da Fonte Nova, onde foi ligada uma aparelhagem sonora na parte de trás de um carro. Tocava Zeca Afonso. 
O pessoal dispersou pelo largo e pelas ruas à volta, a conviver. Não houve qualquer dano a qualquer tipo de propriedade, nenhum conflito com os moradores. Aliás, não chegámos a estar ali mais do que vinte minutos.
Chegou um carro com dois polícias (talvez fossem mais, mas só dois se aproximaram), que solicitaram que o volume fosse reduzido, o que aconteceu. Na conversa que se seguiu, enquanto um dos polícias pediu a uma das pessoas que estava junto do carro que se identificasse, o outro começou a ordenar às outras pessoas que se afastassem. Quando a pessoa que estava junto do carro respondeu que não tinha identificação, o agente em questão imediatamente a agarrou e lhe disse que tinha de ir à esquadra. 
Quem estava à volta teve apenas tempo para se aproximar para perguntar o que se passava, uma vez que no espaço de 30 segundo chegou uma carrinha, de onde saíram meia dúzia de agentes que começaram a disparar tiros de caçadeira. Repito, chegaram a alta velocidade, pararam, saíram e
dispararam. Várias pessoas foram atingidas pelo que se veio a revelar serem tiros de borracha (aqueles mesmos que tiraram um olho a um adepto do Benfica há duas semanas). Foram disparados para o ar tiros de pistola de fogo real.
Começaram a chegar vários carros da PSP, enquanto os agentes no local aproveitaram a surpresa para isolar cerca de 3 ou 4 manifestantes (o primeiro, que não tinha identificação, e mais alguns que se aproximaram ),  que começaram a espancar no chão enquanto lhes atiravam gás pimenta para os olhos. Perante este cenário, os restantes manifestantes avançaram, puxaram os que estavam a ser espancados, defenderam-se da melhor maneira possível e recuaram para o outro lado do Largo. Quando a polícia resolveu continuar a investida, foi recebida por uma chuva de pedras e garrafas. Alguns manifestantes pegaram em chapéus e mesas de uma esplanada vizinha, para se defenderem. Um carro da PSP que chegou a alta velocidade foi embater numa carrinha de um morador/comerciante que ali estava estacionada, danificando-a. Para trás ficou o indivíduo que vem aparecendo em várias fotografias e que quase ninguém conhecia. Várias testemunhas afirmam que ele foi baleado no chão com uma caçadeira, quando já estava detido pela polícia.
O resto da manifestação dispersou em pequenos grupos, que foram literalmente "caçados" pelas ruas de Setúbal, onde continuaram a ser disparados tiros de borracha e efectuadas detenções com grande aparato, para estupefacção da população que passava e assistia a polícias sem identificação que ameaçavam, insultavam e empurravam todos os que tinham um ar suspeito. A senhora da PSP que parecia coordenar as operações deu indicações pela rádio segundo as quais deveriam ser detidas todas as pessoas que usassem "roupa preta" ou tivessem um "aspecto esquisito".  Alguns manifestantes foram detidos dentro de cafés e metodicamente espancados dentro da carrinha antes de serem conduzidos à esquadra.
Testemunhei tudo o que relato em pessoa, com excepção do que aconteceu após a carga inicial, quando toda a gente dispersou em pequenos grupos pela cidade. Pude em todo o caso ver as marcas deixadas pela PSP nos corpos de vários manifestantes (e não só, muitos moradores também apanharam simplesmente por terem vindo à rua tentar acalmar a polícia) e cruzar diversos relatos e versões que se confirmam mutuamente. 
A polícia mente quando afirma que foi recebida à pedrada e mente de forma descarada quando refere comportamentos impróprios por parte dos manifestantes. Tal como no 25 de Abril de 2007 fomos premiados com a notícia de montras estragadas e cocktails molotovs que ninguém chegou a ver, no 1º de Maio de 2011 a PSP procura inverter as responsabilidades pelos acontecimentos, escrevendo um  romance policial de escassa qualidade. (...) 

 

Chegados aqui, várias questões se colocam, desde o excesso da carga policial até à reiterada mentira nos comunicados da polícia de cada vez que um caso destes acontece. Mas o que me parece mais grave é o silêncio dos media perante estes acontecimentos. Os mesmos jornais e televisões que denunciam os excessos dos regimes autoritários árabes, do Egipto à Síria, calam-se quando agentes da polícia portugueses usam balas reais em manifestações pacíficas e atiram aos joelhos balas de borracha. Quando esses agentes percorrem as ruas de uma cidade portuguesa em busca de indivíduos "vestidos de preto" ou de "aspecto esquisito". Dos cordões policiais em manifestações pacifistas ao uso de armas com munições reais contra gente que se limita a estar na rua, um caminho muito perigoso foi percorrido. Num país que não denuncie estes casos graves, que não os evite, que não castigue os abusos claros das autoridades policiais, eu não quero viver. 

 

*Fotografias via Spectrum.


por Sérgio Lavos
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Sábado, 19 de Março de 2011
por Sérgio Lavos

Chega a ser chocante a diferença no tratamento jornalístico que o Público fez (e os outros jornais on-line não andam longe desta bitola) entre a manifestação da geração à rasca e a de hoje, da CGTP, que até pode ter tido mais pessoas em Lisboa - quando a frente chegou à praça dos Restauradores, ainda havia gente na Fontes Pereira de Melo. A única fonte é a Lusa, a agência noticiosa do Governo, e quase que se contam pelos dedos de uma mão as linhas dedicadas ao assunto. Por muitas queixas que tenhamos do sindicalismo português, e descontado o efeito novidade da manifestação de sábado passado, não será este protesto tão ou mais sério do que o outro? E não terá ele muito mais peso no futuro do país, tendo em conta que a CGTP é um dos parceiros sociais com quem o governo tem de dialogar? Ou será que esta, por não ter tido o apoio explícito da JSD e implícito de toda a oposição de direita, não interessa? Questões, questões...


por Sérgio Lavos
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