Terça-feira, 5 de Março de 2013
por Sérgio Lavos

 

O Rui Bebiano decidiu escrever sobre um livro que se pretende politicamente incorrecto escrito por um Raposinho esganiçado. E fez muito bem:

 

"Na História Politicamente Incorreta do Portugal Contemporâneo (De Salazar a Soares), editada há pouco pela Guerra & Paz, Henrique Raposo, o cronista do Expresso também «licenciado em História e mestre em Ciência Política», considera existir um padrão dominante no interior da historiografia nacional que é preciso meter na ordem. Este funcionaria como uma espécie de vírus, desvirtuando e falsificando o conhecimento que temos do século passado a partir da perspetiva vitoriosa da esquerda. Considerando-a intrinsecamente nefasta e objetivamente falsa, propõe-se então contribuir para atenuar essa influência. Resume-a neste livro através de um complexo de «mitos» que pretende questionar. Identifica essencialmente cinco: o de Salazar como mera criatura da Igreja católica, o de um Mário Soares sem o qual Portugal de facto não teria entrado na Europa, o do Estado Novo vergando os portugueses à irrevogável pobreza, o de uma esquerda que vez alguma fora «colonialista», e, por fim, o da hegemonia cultural da mesma esquerda como tendo começado antes do 25 de Abril e fechado as portas logo no final de 1975. A narrativa de Raposo procura negar radicalmente estes juízos, anunciados como fábulas.

 

Para ele, afinal, tudo teria acontecido ao contrário: o ex-seminarista de Santa Comba consumindo boa parte do seu escasso tempo em confrontos com a hierarquia católica, um Portugal estado-novista assumidamente cosmopolita e aberto à Europa, o regime de Salazar e Marcello como materialmente próspero e, a bem-dizer, socialmente justo, uma Oposição furtivamente empenhada em conservar o Império, e, por fim mas onde bate o ponto, uma esquerda que continuou a dominar culturalmente o país mesmo após a derrota política sofrida no aziago dia 25 de Novembro. Uma supremacia que, para Raposo, no fundo se manteve desgraçadamente intocável até hoje. Só que esta argumentação tem um defeito de origem: procurando apoiar-se em dados e factos que neguem aqueles supostos mitos, fá-lo contra toda a historiografia credível produzida, ignorando deliberadamente a imensa informação sobre estes temas já publicada em estudos exaustivos, criteriosos e academicamente aferidos. Para não falar das fontes que ignora. As escolhas e as gritantes omissões da bibliografia e a recorrente manipulação do ónus da prova são aliás ilustrativas das suas intenções, dos seus limites e, claro, da falta de honestidade historiográfica e intelectual da qual aqui faz prova.

 

Fá-lo, no essencial, para elaborar os seus próprios mitos, já antes propostos aliás, nos anos que se seguiram ao 25 de Abril, por uma direita empenhada em negar o seu próprio passado e em inventar uma genealogia comportável com a sua aceitação pelo regime democrático e pelas suas regras. Mas isso, com toda a certeza, o autor desconhece ou não o interessou, uma vez que tal contrariaria a «novidade» que imagina ter produzido. A partir de indícios, de fragmentos, de pequenos sinais, de factos dispersos, de episódios tocados de raspão, Raposo tenta reconstruir um edifício, o da nossa história recente, que erguido desta forma só pode ruir ao menor abalo ou golpe de vento. Como acontece nas construções nas quais se poupou, ou se aldrabou, no desenho do projeto e na escolha dos materiais. É bom que, a quem por distração ou curiosidade vá atrás do teor aparentemente provocatório do título deste livrinho, tal embuste seja mostrado. E depois, como felizmente entre nós não existe censura – nem mesmo a «benévola» do tempo de Salazar – que essas pessoas desperdicem o seu rico dinheiro naquilo que muito bem entendam. Mas pelo amor da santa, não tomem isto por História. É que não é mesmo."


por Sérgio Lavos
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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2012
por Sérgio Lavos

 

Depois dos ataques da coluna infame patrocinada pela Fundação Pingo Doce - José Manuel Fernandes, António Barreto e a "esquerdista" Maria Filomena Mónica, esta e o primeiro sugerindo implicitamente que os textos de Manuel Loff deveria ser censurados pelo Público - Fernando Rosas entra na polémica sobre a História vista pelos olhos de Rui Ramos: 

 

"Não era minha intenção intervir na polémica que neste jornal tem oposto os historiadores Rui Ramos (RR) e Manuel Loff (ML), a propósito dos conteúdos sobre a História do século XX da de que o primeiro é, respectivamente, autor e co-autor. E não o faria, se o inacreditável artigo de Filomena Mónica (FM) publicado nestas colunas (1/8) a tal me não tivesse obrigado
Permitam-me que comece por situar a questão, tal como a vejo: é ou não científica e civicamente relevante discutir criticamente os pontos de vista que enformam a versão da História política do século XX subscrita por RR? Eu acho que sim. Porque é um texto bem escrito, porque teve ampla divulgação e, sobretudo, porque é matéria que se prende umbilicalmente com a forma como pretendemos legitimar o presente e fazer o futuro. No meu entender, foi precisamente isso que, à sua maneira e no seu estilo assertivo, mas onde não vislumbro nada de insultuoso ou pessoalmente difamatório para o criticado, julgo que Manuel Loff pretendeu fazer. Na realidade, essa parte da História de Portugal de RR, no seu modo corrente e aparentemente desproblematizador, no seu jeito de discurso do senso comum superficial e para o “grande público”, é um texto empapado de ideologia. Uma ideologia que faz passar a visão da I República como um regime ditatorial, “revolucionário” e de “terror”, por contraponto a um Estado Novo ordeiro e desdramatizado, quase banalizado na sua natureza política e social, transfigurado em ditadura catedrática, em regime conservador moderado e aceitável, apesar de um ou outro abuso. Essa visão — em vários aspectos semelhante ao próprio discurso propagandístico do Estado Novo sobre a I República e sobre si próprio — carece, a meu ver, de qualquer sustentação histórica. E, talvez por isso mesmo, convém salientá-lo, não é subscrita, ao que me parece, por uma significativa parte de historiadores e investigadores que, com diferentes perspectivas, trabalham sobre este período. 

O que julgo intelectualmente inaceitável é que alguns dos candidatos do costume a sacerdotes do “pensamento único” venham ameaçar com a excomunhão do seu mundo civilizado quem não aceitar o que eles parece quererem transformar numa espécie de cartilha ”normalizadora” do salazarismo e da sua representação histórica. Peço licença para dizer que, como historiador e como cidadão, não me intimidam. E por isso vamos ao que interessa. 
É bem certo que a I República, e já várias vezes o escrevi, não foi, obviamente, uma democracia nem política, nem socialmente, sobretudo no sentido moderno do termo. Com o seu liberalismo oligárquico, com as suas perseguições políticas (sobretudo na sua primeira fase contra as conspirações restauracionistas) e principalmente sociais (contra o movimento operário e sindical), foi um regime de liberdade frequentemente condicionada, à semelhança da maioria dos regimes liberais da Europa do primeiro quartel do século XX. Mas com o ser isso tudo, foi um sistema imensamente mais liberal e aberto do que o Estado Novo da censura prévia, da proibição e perseguição dos partidos, dos sindicatos livres, do direito à greve e da oposição em geral, da omnipresença da polícia política e da violência arbitrária, da opressão quotidiana dos aparelhos de repressão preventiva e de enquadramento totalizante. E tenho para mim que isso não é banalizável ou “normalizável”. Nem histórica, nem civicamente. É por isso que os valores matriciais da I República puderam ser os da resistência à ditadura salazarista e enformaram, como referência, os constituintes democráticos de 1976. 

Infelizmente, RR não compareceu a este debate. Refugiou-se sob o manto de uma pretensa intangibilidade moral, ou seja, de uma vitimização construída a partir, na realidade, da deturpação dramatizante das criticas do seu interlocutor. FM fez bem pior. Sem aparentar perceber nada de nada, veio à liça reclamar contra o facto de ML romper o consenso que ela acha que existia em torno do “terror republicano”, apodá-lo de “marxista leninista” e de “historiador medíocre” — quem falou de insultar? — sem discutir um único dos seus pontos de vista e confessando desconhecer e não querer conhecer a obra de ML! E embalou: a “deturpação de um texto”, diz FM, está na natureza dos comunistas e apela sem rebuço à censura do “seu” jornal contra tal gente. Isto tudo, claro está, porque, como se terá percebido, FM “gosta de controvérsia”... 
Para mim, ao contrário, acho absolutamente necessário que RR e FM continuem a ter pleno direito à palavra. Pelo menos, isso mantém-nos atentos e despertos relativamente aos “demónios capazes de despertar o pior da cultura portuguesa” (António Barreto dixit)" 
Sublinhados meus. Os textos anteriores de Manuel Loff, assim como o texto de Rui Ramos, podem ser encontrados no blogue da Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória. O texto de Maria Filomena Mónica que suscitou a resposta de Rosas foi publicado no Insurgente.

por Sérgio Lavos
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Sábado, 18 de Agosto de 2012
por Sérgio Lavos

Se o José Manuel "as armas de destruição maciça existem mesmo" Fernandes e a Helena "o BE complica-me com os nervos" Matos estão a ponto de rebentar com a denúncia ensaiada pelo historiador Manuel Loff do revisionismo do colunista Rui Ramos, só pode querer dizer que Loff está a fazer um excelente trabalho. Uma questão de credibilidade; e ainda bem que a Helena evoca aquela bela historieta do Eça - muito educativa. Aguardemos então as cenas dos próximos capítulos - esperando que entretanto o Público não se lembre de "dispensar" tão valioso colaborador. 


por Sérgio Lavos
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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2012
por Sérgio Lavos

O segundo dos artigos que o historiador Manuel Loff dedica ao capítulo da História de Portugal escrito pelo historiador revisionista Rui Ramos saiu hoje no Público e a Joana Lopes publicou-o no seu blogue. Ficam aqui alguns excertos:

 

"Para RR, o salazarismo era “uma espécie de uma monarquia constitucional, em que o lugar do rei era ocupado por um Presidente da República eleito por sufrágio direto e individual” (pp. 632-33), que “reconhec[ia] uma pluralidade de corpos sociais (...) com esferas de ação próprias e hierarquias e procedimentos específico”, mas que só “não admitiu o pluralismo partidário” (p. 650). Nada se diz sobre o papel das eleições como simulacro de legitimação popular ou a fraude generalizada, realizada mesmo quando nenhuma candidatura alternativa se atrevia perante a do partido único, para inflacionar artificialmente a votação e simular um consenso que não existia. 

 

É inacreditável ver produtos típicos da fascização da sociedade, importados diretamente do fascismo mussoliniano, como foram os sindicatos nacionais, as casas do povo (verdadeiras “associações de socorro e previdência” que “desenvolviam atividades desportivas e culturais”) e os grémios corporativos, descritos como meras “associações” de “representação da população ativa” (p. 644), sem se escrever uma linha sobre a guerra total aberta aos sindicatos livres do período liberal, feita de prisões, deportações e mortes. (...)

 

Espantados? Para RR, o salazarismo, afinal, “não destoava num mundo em que a democracia, o Estado de Direito e a rotação regular de partidos no poder estavam longe de ser a norma na vida política”. A democracia não existia nem na “Europa ocupada [sic] pela União Soviética”, nos “novos Estados da África e da Ásia” ou “mesmo na Europa democrática”, que “produziu monopólios de um partido (...), sistemas de poder pessoal (...), restrições e perversões” como “a proibi[ção] de partidos comunistas” ou “tortura e execuções sumárias” (p. 669). Em 1968, substituído Salazar por Marcelo, “a democratização não estava na ordem do dia” no mundo. Os “constrangimentos policiais”, justificados “no resto do Ocidente” pela “‘luta armada’ da extrema-esquerda” (pp. 697-98) que se inicia no final dos anos 60, eram semelhantes aos do Estado Novo. Eis aquilo que me parece puro cinismo: a democracia, afinal, não existia em lugar nenhum, o que esbate qualquer diferença entre ditaduras e sistemas liberal-democráticos, onde a violência do Estado e de classe coexiste com um mínimo de liberdade de ação para partidos e movimentos que contestem o Estado e os ricos. (...)

 

Dedução lógica: o que nos habituámos a chamar uma ditadura não era mais do que um regime semelhante aos que por lá fora havia, melhor até, no campo da repressão, do que muitos, a começar pela I República e o 25 de Abril! Em tempos de transição do Estado Social para o Estado Penal, como designa o sociólogo Loïc Wacquant à criminalização dos dominados que se opera nos nossos dias, o salazarismo voltaria a ser um regime para o nosso tempo!"

O primeiro artigo da série já tinha sido aqui publicado pelo Miguel Cardina.  


por Sérgio Lavos
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