Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2012
por Sérgio Lavos

Tu serás a muralha de aço.


por Sérgio Lavos
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Quinta-feira, 5 de Julho de 2012
por Sérgio Lavos

 

A decisão do Tribunal Constitucional não só legitima a ilegalidade dos cortes nos subsídios como abre escancaradamente a porta aos cortes dos subsídios no privado. Pedro Passos Coelho não se fez rogado e entrou com tudo, anunciando que o Governo vai estudar a forma de aplicar a equidade exigida pelo Tribunal, isto é, a melhor forma de espoliar o resto dos portugueses dos subsídios de férias e de Natal. Tudo perfeito, o país acabou de ser suspenso, portanto eu também acabei de perder todo o respeito pela democracia formal e burguesa. Ainda é cedo para ir para a rua?


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Sábado, 9 de Junho de 2012
por Sérgio Lavos

 

Os jornais gostam de contar histórias como a de Basel Sheade. Cristão sírio com uma bolsa Fullbright de cinema que regressou ao seu país natal para filmar a chacina dos compatriotas às maõs do exército e das milícias de Bashar al-Assad. Também falam dos seus próprios mártires, como a jornalista americana Marie Colvin e o fotógrafo francês Rémi Ochlik. Os três morreram em Homs, a primeira cidade a sofrer o cerco e a ser notícia pelos massacres cegos contra civis. A Homs seguiram-se Houla e agora Qubair, aldeia próxima de Hama.

 

Sheade regressou ao país para divulgar a história que Assad nega. Para mostrar a realidade que a Rússia e a China tentam proteger. Para revelar ao mundo que não pode haver meias verdades nem desculpas quando poderão ter morrido, para além dos jornalistas e do futuro cineasta, cerca de 13000 civis sírios. Não estamos a falar de mercenários, como insistem em dizer os cada vez mais alucinados comunicados do regime sírio, nem de terroristas - o nome encontrado por potências opressoras quando se referem a combatentes pela liberdade. Há uma rebelião que nasceu com os primeiros sinais da Primavera árabe, e que tem resistido à bota do regime durante o último ano e meio. Assad, admirado por alguma esquerda alienada e durante algum tempo suportado pelo Ocidente que olhava para ele e para a glamorosa mulher com a benevolência da táctica provisória, já não poderá passar por ditador amigo. O seu domínio poderá ter chegado ao fim, à medida que os países que o toleravam vão endurecendo as suas posições.

 

Uma vez mais, o que fazer? Deixar o massacre continuar ou intervir mais activamente? Não é uma decisão fácil, e Assad certamente não irá facilitar o processo. Não parece querer sair e, enquanto os rebeldes vão conquistando mais posições, o exército e as milícias vão intimidando e matando as populações civis que apoiam a revolta.  

 

São as histórias de heróis que os jornais gostam de contar que nos mostram o que se está a passar na Síria. Para além das cortinas de fumo e das desnecessárias manipulações - como o uso de uma fotografia de civis mortos tirada no Iraque em 2003, difundida pela BBC como sendo do ataque a Houla*. As reportagens dos jornalistas que morreram por lá são o que nos permite fazer o nosso julgamento. 13000 civis mortos não é apenas um número; as crianças assassinadas a sangue-frio muito menos. O silêncio não é uma opção. 

 

*Corrigido.


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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012
por Sérgio Lavos

 

 

"Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem." - Bertolt Brecht.


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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011
por Sérgio Lavos

"Onde os economistas burgueses viam relações entre objectos (troca de mercadorias por outras), Marx descobriu relações entre pessoas. A troca de mercadorias exprime o laço estabelecido por meio do mercado entre os diferentes produtores. O dinheiro indica que este laço se torna mais estreito, unindo indissociavelmente num todo a vida económica dos diferentes produtores. O capital significa um maior desenvolvimento deste laço: a força de trabalho do homem transforma-se em mercadoria. O operário assalariado vende a sua força de trabalho ao proprietário da terra, da fábrica ou dos instrumentos de trabalho. Uma parte da jornada é empregue pelo operário para cobrir o custo do seu sustento e da sua família (salário); durante a outra parte da jornada trabalha gratuitamente, criando para o capitalista a mais-valia, fonte dos lucros, fonte de riqueza da chave capitalista."

 

Em Sobre a Revolução Cultural, Lenine. Edição Iniciativas Editoriais, tradução de Rui Cruz.


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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011
por Sérgio Lavos

 

A questão do humanismo, aqui aflorada pela Ana Cristina Leonardo, é essencial em mais uma execução - não neguemos as evidências, Khadafi foi executado - de um ditador árabe. Depois de Saddam, a cuja morte assistimos em directo, e de Bin Laden, de quem não chegámos a ver o cadáver, o déspota líbio, capturado, espancado e assassinado pelos revolucionários. Contudo, se é verdade que não devemos ser ingénuos em relação ao gesto de quem mata Khadafi, também não deveríamos ser no que diz respeito à natureza do acontecimento: ao longo da História, as mudanças de regime raramente acabaram no julgamento dos antigos governantes. A diferença entre passado e presente reside apenas nos meios de registo à disposição. Não há imagens da cabeça de Robespierre nem do corpo de Hitler envenenado, mas de Mussolini resiste no imaginário colectivo a fotografia do seu cadáver dependurado e ensaguentado, acompanhado na morte violenta pela amante e por alguns dos seus próximos. Alguém considera - ou, para todos os efeitos, considerou - que não terá sido feita justiça no caso do fascista italiano? É que, na realidade, a execução de Mussolini não passou de um acto de vingança revolucionária (os julgamentos em tempos de guerra tendem sempre para a farsa encenada). Para um detractor da pena de morte, deverá ser tão deplorável um julgamento seguido de execução pelo Estado como uma execução a frio, sem julgamento. O que muda, então? A imagem em movimento e a actualidade do acontecimento. A imagem de um ditador que durante décadas governou um país perseguindo e matando parte do seu povo é esmagada pela evidência da brutalidade cometida sobre ele. O ditador transforma-se em vítima - ou deveria transformar-se, aos olhos de um verdadeiro humanista. Mas que essa inversão não apague dois factos: que nós, olhando para o ecrã, não estamos lá (apesar de acreditarmos nisso); e que na morte do ditador as vítimas deste não deverão ser esquecidas. É humano, tratar assim um Homem? Não, seguramente. Mas o cérebro primitivo, violento, não condescende em momentos destes. E se falamos de uma turba, de um colectivo, mais facilmente a violência se impõe e domina. E aí não há Razão que salve o ser humano de si próprio.

 

(Recordo dois textos que escrevi a quando da morte de Saddam Hussein. E constato que a minha posição não é exactamente a mesma. Dá que pensar.)


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(Excepto os do costume, claro: os velhos, os novos, os amigos dele e os inimigos dos outros.)


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Terça-feira, 23 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

 

(Via Facebook).


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Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

Há quem ainda tenha certezas, na questão líbia: a deposição de Khadafi é uma coisa má, pois permitirá o avanço do imperialismo americano. Não me merece qualquer tipo de comentário. Vou antes deixar aqui um link para este excelente artigo, que encontrei via Palmira F. Silva. Quem tiver certezas sobre o mal que brotará no mundo em consequência da revolução líbia, escusa de ler. É uma perda de tempo. Continuem a acreditar naquilo em que acreditam.


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por Sérgio Lavos

 

O abjecto regime de Khadafi caiu. O ditador fugiu, revelando na derrota a cobardia que também costuma caracterizar este tipo de facínoras, e mostrando que a sua propalada loucura não chega a beliscar o instinto de sobrevivência. Boas notícias são também as promessas, por parte do porta-voz dos rebeldes, de que nenhuma base da Nato será construída em território líbio. Mais uma peça do dominó que cai. A revolução continua no bom caminho.


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Terça-feira, 9 de Agosto de 2011
por Sérgio Lavos

Entretanto, convém não esquecer as verdadeiras revoluções em curso e as ditaduras que continuam a ser apoiadas pelo Ocidente. Na Síria, Bashar al-Assad continua a reprimir violentamente os protestos - sim, neste caso são verdadeiros protestos contra o regime autoritário. Calcula-se que até agora tenham morrido 2000 civis, desde que começou a revolta, há cinco meses. Da euforia das primeiras revoluções, na Tunísia e no Egipto, passou-se quase ao silêncio nos media. Mas as prioridades mediáticas são voláteis. O sofrimento dos povos, não. 


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Sexta-feira, 18 de Março de 2011
por Sérgio Lavos

 

O Pedro Viana, neste post, pega num ponto interessante da questão líbia, e concedo que o meu anterior texto era contraditório neste aspecto. Qual é o verdadeiro governo? Khadafi ou os rebeldes? Quem representa o povo? Partindo do princípio de que a Líbia é um estado soberano - como pode Pedro Viana duvidar desta asserção, gostaria eu de saber - poderemos ter a certeza de uma coisa: nenhum outro país, ou conjunto de países, ou organização, incluindo a ONU. Se a intervenção da ONU não ultrapassar o âmbito de protecção das forças rebeldes, se acontecer apenas para manutenção da no fly zone, então esta premissa não será violada. Qualquer acção que vá além disto, será sempre uma violação das fronteiras de um país soberano, esteja a legitimidade do lado de Khadadi ou dos revoltosos. Sendo assim, ridículo será sugerir que, estando o poder suspenso entre duas forças conflituantes, a soberania de um país deixa de existir e qualquer intervenção de forças armadas estrangeiras é, não só possível, como legítima. Se considerarmos que a legitimidade poderá vir de uma resolução da ONU votada favoravelmente apenas por alguns países do Conselho de Segurança, então regressamos aos tempos do Iraque, quando um par de países convenceu o mundo da legitimidade de uma ocupação de um país independente - e soberano.

 

Entretanto, parece que a resolução acabou por ter um efeito positivo - o regime de Khadafi declarou o cessar-fogo - e o que tinha escrito acabou por ser ultrapassado pelos acontecimentos. O romantismo de uma verdadeira revolução popular - e sobretudo as consequências para o futuro que uma revolução deste tipo pode trazer - afinal ainda é possível. Se o papel da ONU, neste caso, continuar a ser apenas dissuasor (mesmo que isto signifique na prática o apoio aos rebeldes), talvez a resolução tenha valido a pena. Esperemos que assim aconteça.

 

*A analogia que o Pedro Viana ensaia entre a soberania de um país e a propriedade, também me parece, no mínimo, desajustada. Para além disso, não costumo gostar quando alguém pensa que sabe como eu penso: quem terá dito ao Pedro Viana que eu não considero o direito à propriedade "algo sacrossanto"? Partir de pressupostos errados nunca dá certo. Digo eu, apenas mais um a tentar justificar o "efectivo apoio àmatança com que Khadafi se tem deliciado". Enfim.


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por Sérgio Lavos

O que era verdadeiramente notável nas revoltas árabes - a espontaneidade popular, a ausência de intervenção estrangeira nos movimentos que levaram à deposição de Ben Ali e Hosni Mubarak - acaba por ser posto em causa, sabotado, pela resolução do Conselho de Segurança da ONU que aprovou o uso da força para proteger civis. Aliás, e como sempre, é também extraordinário que a resolução tenha sido aprovada tendo como objectivo a "protecção de civis". Não resultarão os prometidos bombardeamentos - pelo antigo amigo de Khadafi, Nicholas Sarkozy - em baixas civis? O que se ganhará com mais esta intervenção dos países ocidentais num país soberano (por detestável que seja, e é, o regime de Khadafi)? Certamente que haverá gente com razões para ficar contente - assim de repente, os antigos amigos de Khadafi que agora esperam uma mudança de regime e novas oportunidades de negócio, ou então os fabricantes das armas que Khadafi comprou para o seu exército e que agora fornecem as forças armadas dos países que apoiaram a resolução da ONU. As coisas são como são, e há muito - desde sempre? - que a hipocrisia é o sal que tempera as relações entre o Ocidente e as ditaduras do Terceiro Mundo. Nada de novo, portanto. É uma pena que a ideia de uma verdadeira revolução das mentalidades nos países árabes tenha soçobrado à primeira oportunidade do Ocidente voltar ao controlo da situação. A inocência será sempre a primeira a morrer. 


por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 1 de Março de 2011
por Sérgio Lavos

 

Se houve algo que ficou provado com mais uma edição do programa da Fátima, foi a total inutilidade do mesmo. O suposto grande magazine de debate, visando a esclarecer o povaréu sobre as coisas que precisam de ser esclarecidas, não passa de um programa de variedades que não anda muito longe de um Jerry Springer contido - pelo menos, quando a dona Fátima decide calar as opiniões e as reacções do público que não lhe interessam. O programa de hoje, sobre a manifestação, marcada para o dia de 12 de Março, da "juventude em revolta" da geração Facebook, foi um repisar de técnicas e um exponenciar de defeitos, um fartote. Nas mesas, os "tipos sociais" do costume: o professor de economia de direita, o gestor de sucesso, a privilegiada vagamente histérica, o intelectual de esquerda preocupado com as questões da cultura e o sociólogo que apenas vai falar de "factos", "números" e "preocupações da sociedade". Na plateia, um belo leque de convidados que mostra o pior de uma geração - é assim mesmo -, não se percebendo quem seleccionou as pessoas que lá estavam. Os intervenientes da plateia dividiam-se em dois tipos de pessoas; o empreendedor de sucesso que conta a sua história pessoal, como chegou onde chegou, com muito sacrifício e tal, aceitando o que esta geração tem de recusar - trabalho não remunerado e precariedade; e o estudante universitário, trajado a rigor como convém, debitando banalidades sem sentido e provocando os "adultos" que estavam sentados nas mesas. Um espectáculo lamentável. Lamentável porque não estavam na plateia os verdadeiros atingidos pelas políticas de precariedade seguidas pelo país nos últimos vinte anos: os estudantes à procura do primeiro emprego, os trabalhadores a falsos recibos verdes, os estagiários não remunerados (e seria tão fácil encontrá-los nas redacções dos jornais ou até na própria RTP), os licenciados desempregados e os os que trabalham em empregos muito abaixo das qualificações, em supermercados ou call-centers. Não estavam lá, porque não interessava que estivessem. Como certamente não interessaria que estivessem lá jovens politizados, que pudessem responder à altura às provocações indignadas de Isabel Stillwell ou às ideias liberais do professor de economia. É sintomático que os promotores da manifestação tenham recusado a presença no programa, alegando que não se consideram líderes do movimento, apelando inclusive à absoluta desierarquização do movimento (o texto de recusa é admirável), e que as pessoas que foram falando fossem líderes de movimentos juvenis, de associações académicas, de empresas, cumulando na risível presença dos escuteiros (sem desprimor para o movimento escuta, refira-se). Tudo muito bem encenado, fingindo a preocupação necessária, pungente e quase dramática, mas sem uma única ideia nova, nada que não tivesse sido já discutido em blogues, no Twitter ou no Facebook (com a piada final da sra. Stilwell a queixar-se dos ataques à honra por parte dos "anónimos" das redes sociais, ou lá o que foi, depois de ter escrito um artigozeco no jornal gratuito que dirige revelando os três pecados essenciais do "articulista": ignorância, arrogância e falta de sentido de humor). Estas cortinas de fumo são oportunas, são distrações que o sistema arranja para ver se ficamos quietos no nosso canto, sem fazer nada para mudar o que está errado. Conhecemos a técnica e sabemos como o novo mundo das redes sociais pode ajudar a que as coisas de facto acontecam. E nada me pode dar mais gozo do que ver o pânico que transpareceu, por momentos, na cara do professor de economia, enquanto recriminava alguém da plateia por ter falado das manifestações que estão a derrubar ditaduras no Norte de África a propósito da organização do protesto. Quando o sistema começa a espernear, reafirmando a sua legitimidade democrática, é sinal de que alguma coisa está a ser bem feita. Dia 12 veremos.

 

*O cartaz, já devem ter reconhecido, é de Gui Castro Felga, sempre certeira.


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Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

alguns que gostam de se esquecer que morreu mais gente ao longo da intervenção americana no Iraque (e, já agora, no Afeganistão) do que em qualquer revolução que  possa surgir no mundo árabe, mesmo tratando-se, neste caso, de um psicopata assassino como Khadafi e ressalvando que uma vida perdida já é muito, demasiado. Os que estão a morrer em nome da liberdade na Líbia não precisam de amigos destes, certamente. E é tão fácil ser marine sentado à frente de um ecrã de computador. Os cowboys de sofá voltaram. Já cá faltavam.


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Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

 

No meio do delírio alucinado que parece ter sido o discurso de Khadafi, há razões para acreditarmos no poder do non sense como arma de desconstrução de um discurso. Khadafi acha que não poderá empurrado da cadeira do poder simplesmente porque não é presidente; se não é presidente, não será deposto. Mais, arriscando um salto lógico digno de Wittgenstein, Khadafi assume o papel de líder da revolução que se prepara para o apear do lugar onde está. Resumindo: ele é simultaneamente vítima e carrasco, é o revolucionário bombardeado nas ruas por aviões e é o facínora demente que dá ordem para disparar sobre a multidão. O "guia da revolução" que não tem posto oficial para se demitir lá acaba por admitir que uns jovens, sob o efeito de drogas, provocaram algum sobressalto, mas reafirma-se como lança contra o poder do Ocidente. Psicopatia? Esquizofrenia? Ou um calculismo patético e perigoso? Khadafi pode viver num mundo muito seu, mas sabe que a contestação está sobretudo - e para já - a acontecer nos países cujos líderes foram beneficiando da complacência ou do apoio claro do Ocidente, a teoria que todos conhecemos de que mais vale um ditador amigo de que um democrata inimigo. A massa revoltosa na Tunísia e no Egipto clamava contra regimes opressivos, é certo, mas também contra a presença sombria dos interesses americanos e europeus nestes países. E assim também sucede no Bahrein, no Iémen e em Marrocos. O grande erro de Khadafi terá sido a reentrada, ensaiada na última década, na normalidade cínica da diplomacia internacional, as recepções de luxo em países ocidentais, a abertura do país ao investimento estrangeiro. O recuo tentado, apesar de parecer enfermo de um ridículo desarmante, será o mais lúcido passo que Khadafi poderá dar. E sabemos o que isto pode significar: se a resistência não desistir, a carnificina. Sob a capa do mais (aparentemente) legítimo dos terrores: o revolucionário.


por Sérgio Lavos
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Domingo, 20 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

 

Mais de 200 mortos depois, os protestos chegam a Trípoli. A frieza dos números esconde algo que deveria servir de exemplo a quem vê de longe as revoltas que eclodiram nos países islâmicos, o heroísmo de quem luta sem armas contra um regime totalitário. O mais difícil ainda está para vir, e não falo do período pós revolucionário nos países libertos, mas sim das ditaduras mais sanguinárias, as que ainda faltam cair. Khadafi, o antigo revolucionário transvestido de líder tribal, terrorista perdoado pelo Ocidente e apaparicado por economias mais interessadas no petróleo líbio do que em algo tão vago como direitos humanos ou democracia, não hesitará em reprimir a vaga que agora começa. Poderá acabar como em Tianamen, e nessa altura o nosso homem em Trípoli, o embaixador Rui Lopes Aleixo, já deverá ter visto qualquer coisa. Será este o momento certo para os nossos empresários, oportunamente amparados pelo Governo em funções, poderem fechar negócios e usufruir de mais algum tempo de bonança. Khadafi, o amigo e mentor (na especialidade do bunga-bunga) de Berlusconi (o novo santinho no altar de helenafmatos - les beaux esprits se rencontrent?), o aliado de Sócrates, garantirá a segurança do dinheiro de sangue que chegar a Portugal. Os amigos são para as ocasiões. Mas até onde poderá ir o heroísmo dos homens e mulheres que, nas ruas dos países islâmicos, se dispõem a sacrificar em nome da liberdade?


por Sérgio Lavos
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Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

 

Outra má notícia para quem se apressou a temer que acontecesse na Tunísia e no Egipto o mesmo que aconteceu no Irão em 1979: o povo saiu à rua a pedir mais democracia. No Irão. Depois do comunicado dos líderes políticos a saudar as revoluções naqueles dois países.

 

(Claro que os opinadores se têm esquecido convenientemente das gigantescas manifestações contra o regime, a quando das últimas presidenciais iranianas. Não convinha nada que a realidade desmentisse uma opinião feita, mas acontece. E está a acontecer, e vai acontecer, apesar de estarmos a falar de gente "que não está habituada à democracia e que gosta de viver na barbárie", parafraseando o tom geral destes arautos da cinycalpolitik.)

 

*Imagem da Reuters


por Sérgio Lavos
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