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Apoiantes do AKP festejam em Izmir, bastião do CHP (foto minha)

Acabei por não escrever aqui nada sobre os resultados das eleições turcas, depois de ter publicado algumas fotografias de campanha. Aqui vai, com 15 dias de atraso.

Depois de mais uma pressão do exército, os pós-islamistas de centro-direita não só venceram as eleições como reforçaram o seu peso eleitoral. Este facto é um passo importante a caminho da normalização democrática da Turquia. Numa república nascida da mão de ferro de Ataturk, com um secularismo com traços totalitários e anti-liberais, uma língua escrita inventada na cabeça de engenheiros da cultura, imposições políticas sobre o vestuário e os hábitos individuais, tudo isto imposto por um exército que foi ditando as regras e pondo e depondo governos, a recondução do AKP é uma boa notícia para a democratização turca.

Se é verdade que os direitos das mulheres na Turquia só têm paralelo islâmico (e mesmo assim distante) com algumas ditaduras laicas muçulmanas, é preciso ter em conta que são direitos aparentes. 70% das mulheres não trabalham e até estas últimas eleições a representação feminina no Parlamento era de 4 por cento. Ou seja, os direitos das mulheres são um luxo da elite porque apenas para a elite o cento-esquerda do CHP (o grande derrotado destas eleições) e os outros partidos nacionalistas foram governando.

A vitória do AKP, por mais que me custe dize-lo (já que em matéria económica têm um programa neo-liberal de privatizações) foi também uma boa notícia para a economia turca. Porque não basta ter um programa económico de esquerda. Se ele for incompetente, de pouco serve. Os números do desemprego, crescimento e redução drástica da inflação para valores minimamente aceitáveis deixam pouco espaço para debate. O AKP representa uma nova elite económica, vinda da Antólia profunda e descomprometida com a velha oligarquia turca. Mais inovadores e menos instalados.

A vitória do AKP é uma boa notícia para a Europa. Não deixa de ser extraordinário que seja o partido pós-islamista o mais europeista de todos os partidos turcos e quem iniciou as negociações para uma adesão sempre adiada pela Europa e na qual, infelizmente, os turcos já nem acreditam. E é pena. A possibilidade de integração na Europa (da qual a Turquia deveria fazer parte por pleno direito) foi um dos grandes motores para as reformas políticas e o grande travão às ingerências anti-democráticas dos militares. Mas o AKP faz o pleno: ao mesmo tempo que se abre à Europa não teme as relações com os seus vizinhos árabes, que tanto assustam o nacionalismo turco.

Por fim, foi uma excelente notícia para o povo curdo. A república turca foi construida tendo como base ideológica o kemalismo (os seguidores de Mustafa Kemal Ataturk - “ataturk” que dizer “pai da Turquia”), um nacionalismo de traços fascizantes, quase supremacista, que esmagou diferenças culturais, misturado com uma ocidentalização forçada. Não deixa de ser perturbante como o fundador seja ainda inquestiobnado na Turquia, um país em que a história foi reescrita como em qualquer ditadura. Onde falar de Curdistão ou referir o genocídio arménio continua a ser um pecado mortal. Ao contrário do CHP (de centro-esquerda) e o MHP (de extrema-direita), o AKP tem como principal identidade a religião e não qualquer traço étnico. Poderão dizer que é pior a emenda que o o soneto. Acontece que nela cabe mais gente e cabem os curdos, que são um quinto da população. Em vez da mão de ferro, o governo de Erdogan tem usado do investimento e da sedução para impedir o separatismo. Enquanto a extrema-direita do MHP (que também teve um excelente resultado nestas eleições) fez da necessidade de esmagar a guerrilha curda e de entrar no Curdistão iraquiano em força o seu mote de campanha, o AKP tem mantido uma política mais moderada e prudente no conflito.

Outro vencedor destas eleições foi o DSP (que inclui curdos e o Partido da Liberdade e Solidariedade, membro do Partido da Esquerda Europeia), que elegeu 23 deputados em listas independentes (para contornar a barreira dos 10%), grande parte deles curdos. Serão um elemento fundamental no novo xadrez político da Turquia.

O AKP deverá finalmente eleger o Presidente da República. O CHP tem boicotado tal possibilidade, abandonando o Parlamento e impedindo a existência de quórum, já que, por uma qualquer razão inexplicável, considera que o lugar não pode ser ocupado por aqueles que venceram as eleições.

Por fim, a vitória do AKP é uma excelente notícia para o Médio Oriente. Prova que o islamismo pode sofrer uma transformação democrática e evoluir para qualquer coisa de semelhante com a democracia-cristã europeia (se retirarmos o programa económico liberal). Longe deles, não deixo de me satisfazer com o facto de respeitarem as regras da democracia e da liberdade. Claro que há preocupações a ter em conta. Num país onde o aborto é legal há décadas, onde a homossexualidade é aceite nos grandes centros urbanos como Istambul, onde pelo menos na lei as mulheres têm direitos adquiridos que são gozados pela elite, o conservadorismo do AKP é assunto sério. A memória do Irão tira o sono a muitos turcos e é compreensível. O exemplo está demasiado próximo. Mas a realidade e as circunstâncias são demasiado diferentes.

Por isso, vale a pena não dramatizar. Existe na Turquia uma classe média pujante que dificilmente deixará que se recue em direitos adquiridos. E, para lá de todos os fantasmas que a oposição tenta vender ao Ocidente, o AKP não tocou em nenhum deles. Nem sequer em matérias que espero que venha a alterar, como o direito das mulheres que chegam à faculdade usarem o lenço que é comum nas classes mais baixas (60% das mulheres usam). Esta interdição, mais do que proteger os direitos das mulheres, é uma demonstração do autismo da elite e do autoristarismo do poder que foi governando a Turquia com a ajuda dos militares.

Se a Europa der os sinais necessários, estou convencido que depois da transformação dos islamistas serão os nacionalistas a aceitarem as regras democráticas. Está nas nossas mãos.

Noutro post falarei da minha viagem à Turquia para lá da política. Sobretudo de um lugar que me deixou esmagado: a Capadócia.


4 respostas ao post “Turquia: a direita ganhou e é uma boa notícia”  

  1. 1 1  Euroliberal

    Bravo, Daniel. Um extraordinário relato, objectivo, desassombrado e revelador acerca de uma região, em relação à qual a visão europeia e ocidental está cheia de clichés gastos e de preconceitos cada vez mais desajustados à compreensão da realidade. Fica-se a perceber por que razão o MKP conquistou 60% dos lugares do parlamento. E também que na Turquia, país pujante e com crescimento na ordem dos 7/8%, não há o desencanto em relação aos partidos e aos políticos como entre nós. Uma lição para a politicagem de esgoto que nos desgoverna…

  2. 2 2  maisum

    Elogios dum neoliberal,é caso para desconfiar…Hummm

  3. 3 3  Textículos

    São sem dúvida boas notícias, não sou tão optimista, como o Daniel, ainda assim é bonito ver o dinamismo daquela sociedade.

    Boas notícias também para o povo curdo, neste que puderá ser um primeiro passo duma longa caminhada na Turquia, Siria, Irão, Iraque, Arménia e Azerbeijão.

    Como ficaram os arménios, para além do pecado mortal?

  4. 4 4  Pedro Esteves

    Trotskistas a apoiar partidos islâmicos … o mundo está completamente doido!

    neo-liberais ainda compreendo, precisam de mão de obra barata, e a Turquia é um mercado em crescimento …. mas comunas ?

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