Que nos Estados Unidos o privado toma conta de tudo é uma verdade quase indesmentível. Quase. Porque todas as verdades são contraditórias. E a verdade é que em Nova Iorque o espaço público é muito mais público do que nas cidades portuguesas. Ele é apropriado por todos e muito mais usado do que por cá. Já nem falo de do central Parque, que nos faz pensar porque raio temos Monsanto tão divorciado da cidade. Falo apenas das pequenas praças e jardins e do que nele acontece. Sem esperar nem procurar, tropecei em permanentes acontecimentos culturais gratuitos no meio da rua. Num jardim no extremo sul de Manhatan, a poucos metros de Wall Street, vejo Macbeth representado por uma companhia de teatro sem fins lucrativos. Corremos atrás dos actores (excelentes) no meio do jardim e estamos no meio da cena. No fim damos quanto quisermos dar e é-nos dado um papel para sermos pequenos mecenas e enviar mais pelo correio. Há imensas organizações como estas: culturais, de informação, políticas, de solidariedade social. Claro que a dimensão da cidade e do país ajudam. Mas a fraca participação política nos EUA é largamente compensada por uma enorme participação cívica.

Mesmo ao lado da 5ª Avenida, nas traseiras da pricipal Biblioteca Pública, numa noite quente o jardim está a abarrotar com centenas e centenas de pessoas sentadas no relvado a ver um velho clássico com Paul Newman. Uma iniciativa da HBO. Pode ser só publicidade. Mas pelo menos, em vez de se fechar um jardins, ele é usado para os cidadãos.


6 respostas ao post “Voz da América IX: O jardim é nosso”  

  1. 1 1  toulixado

    São praças e jardins como a praça da Flores que também é nossa.

  2. 2 2  Zorze

    É a cidade que nunca dorme.
    Há uns anos tive em Nova Iorque e depois de um jantar num restaurante brasileiro com um cardápio de vinhos de fazer inveja, quando, às 3 da manhã voltava para o hotel (já agora, estava no hotel metro) viro uma esquina e está um pequeno montinho de pessoas e uma limo estacionada. Era uma espécie de monhé com uma brutal jibóia, a qual, punha à volta do pescoço das pessoas e tirava fotos a troco de dinheiro. Não, não fumei nada de extraordinário, nem bubi demais. It’s just New York.

  3. 3 3  Sebastião Dias

    Viva, Daniel,

    De certeza que foram umas férias bem passadas, interessantes e, certamente, diferentes das que seriam feitas pelo turista médio, que só experimenta as especialidades, que só vai aos sítios obrigatórios, que observa os indígenas da mesma maneira que olha para um aquário de peixes tropicais, ao invés de contactar com as pessoas, ficar em casa de amigos da nacionalidade do país que se visita, gozar as conversas intermináveis que naturalmente surgem quando se constatam as diferenças, se confrontam os preconceitos que tínhamos com a realidade e nos envolvemos em compreender a idiossincrasia de cada cultura. Por outras palavras, quando se gosta verdadeiramente de viajar e, já agora, de política, é óptimo ficar em casa de pessoas (neste caso americanos) com quem se pode conversar a sério, esperando que tenha sido o seu caso.

    Disse, no seu post, que «a fraca fraca participação política nos EUA é largamente compensada por uma enorme participação cívica». Uma coisa curiosa, que muita gente ignora ou desmente, é que nos Estados Unidos as despesas sociais por habitante são mais ou menos iguais à maior parte dos países europeus, como por exemplo a França, embora este valor seja obtido através da soma das contribuições do estado e das filantropias. Curiosamente, o país em que o capitalismo é mais pujante é também o país em que a filantropia assume um peso tão grande e em que os mais ricos sentem mais a responsabilidade social pelo dinheiro que possuem.

    Com mais tempo, espero mais posts seus sobre as suas férias na América e nas contradições do modelo americano, capitalista, etc.

  4. 4 4  RFF

    Quando visitei a cidade, não tropecei com muita pena minha nesses permanentes acontecimentos culturais gratuitos no meio da rua….É a tal participação cívica que nos falta ainda, como jovem democracia que ainda somos…
    Mas atenção que os EUA não são, de todo, o que a libertina Nova Iorque deixa antever, infelizmente digo eu….

  5. 5 5  luis m. jorge

    É de facto interessante, mas típico dos países anglo-saxónicos (o que deve surpreender muito boa gente). Há uns anos fiz uma espécie de “top” informal em que alinhava os países pela sua valorização dos espaços públicos (principalmente jardins). Como gosto muito do assunto (em que encontro muitas outras reflexões paralelas), aqui to deixo:

    1. Espaços Públicos (EP) tendencialmente abertos, gratuitos e bem tratados: Estados Unidos, Grâ-Bretanha, Austrália, países nórdicos.

    2. EP tanto abertos como fechados (com gradeamentos p. ex.), gratuitos ou quase gratuitos e bem tratados: França, Alemanha, Europa “rica” em geral.

    2. EP abertos e gratuitos quando usados localmente ou fechados e caros quando têm uso predominantemente turístico: Itália.

    3. EP tendencialmente abertos, gratuitos ou quase gratuitos e sofrivelmente cuidados: Portugal, Espanha, turquia, etc. (O clima quente também não ajuda nestes casos)

    4. EP tendencialmente fechados, caros e bem tratados: Japão (e suponho que nos outros países mais ricos do Oriente deve ser igual, mas não conheço). Aqui a liberdade é relativa, por motivos culturais: pensa-se antes de pisar a relva e ninguém come na rua, pois é considerado má-educação.

    A natureza “gratuita” dos EP no norte da Europa também é relativa, pois os grandes museus, ao contrário do que é frequente nos países anglo-saxónicos, podem pagar-se muito bem.

    Isto é uma leitura muito impressionista, evidentemente. Mas é extraordinário o que descobrimos sobre os países com esta “tabela”.

  6. 6 6  Directus

    Acho piada a estes comunas que em vez de irem a Cuba de férias para ajudar a miséria, não, vão para a capital do capitalismo neo-liberal que tanto odeiam. Ah, já me esquecia, deve ser para acções de espionagem…..

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