Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011
por Sérgio Lavos

O futuro prémio Nobel da literatura disserta sobre as origens da psicopatologia humana e a outras disfunções do foro criminal:

 

O serviço militar obrigatório acabou sem qualquer debate público, como se fosse uma coisa sem importância nenhuma. Ora, para muita gente, era uma directriz. Havia jovens vindos da província que tomavam na tropa o primeiro banho! E às vezes aprendiam ofícios - como cozinhar ou conduzir - que lhes davam uma ferramenta para a vida, além de regras de disciplina que ficavam pelo tempo fora. Este jovem que estava em Nova Iorque com Carlos Castro - que terrível coincidência a proximidade entre as palavras Castro e castrado - noutra época estaria a cumprir o serviço militar e não teria dado cabo da vida.'

 

Só este maravilhoso parágrafo (citado no Jugular) daria pano para mangas, mas lendo o artigo todo ainda se encontram mais pérolas de um calibre tão afinado como este. E fica aqui o apelo: por favor, não deixe de escrever, sr. arquitecto. Sem si (e sem João César das Neves, João Carlos Espada e aquela Bibá que de vez em quando escreve sobre a VIDA no Público) tudo isto teria muito menos piada. Impagável.


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

A cruzada pelos subsídios do Estado à iniciativa privada encetada pelos - em todas as outras áreas da economia que não a educação - liberais blasfemos. Seria comovente, seria, se não fosse patética e movida pelos interesses do costume - a Igreja Católica e os intocáveis lucros dos donos das escolas que beneficiam dos contratos de associação. Mas pronto, a direita liberal também tem direito aos seus sovietes. Quem não os conheça que os compre.


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins

 

Com a libertação do vídeo “Collateral Murder” já tinha ficado patente o poder do modus operandi da Wikileaks para quebrar a inimputabilidade dos governos que, peritos em manigâncias de toda a ordem, sistematicamente recorrem ao secretismo como abrigo do escrutínio democrático. O vídeo em causa, bem vistas as coisas, não acrescentava muito ao que julgaríamos saber sobre uma guerra, que os civis são alvos fáceis, que é tremendo o arbítrio dos militares sobre a vida dos outros, que a crueldade no campo de batalha é frequentemente resignificada como estratégia pragmática. No entanto, o visionamento do vídeo é outra coisa, ao vermos a leviandade com que os tripulantes do Apache atiram sobre um civil que, a caminho da escola para onde transportava crianças, pára para socorrer um homem ferido, somos confrontados como uma prova que traz novas ordens de indignação, dá pasto à insurgência de uma incomodidade.

 

Em 28 de Novembro de 2010, a wikileaks, juntamente com 5 publicações tradicionais (El País, Le Monde, Der Spiegel, The Guardian e o The New York Times), iniciou a publicação de telegramas diplomáticos confidenciais enviados por 247 embaixadas americanas. O impacto foi tremendo, porque vieram a público informações que eram desconhecidas, e porque assistimos à expressão material dos expedientes e ilegalidades pelos quais os poderes procedem. Por polémicos que sejam, a Wikileaks e os seus métodos cumprem um papel crucial como agentes da transparência democrática, tornando os cidadãos mais informados e mais preparados para exercerem uma “hermenêutica da suspeita” sobre as afirmações morais tão frequentes no discurso político, e sobre as omissões e mentiras que servem de justificação aos processos de tomada decisão. Numa época em que o jornalismo de investigação parece manietado pelo desinvestimento e pelos interesses dos grupos económicos que tutelam os media tradicionais, a Wikileaks emerge como a grande acontecimento internacional do ano de 2010. É muito provável que o seu impacto perdure com a publicação de mais documentos, mas também com o efeito de dissuasão que possa vir a ter nos inimputáveis do costume.

 

"Escolhido pelos autores do Arrastão"


por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira

 

Quando se anda pelas ruas do Cairo, de Damasco, de Amã ou de Sanaa não se sente logo a repressão. As pessoas correm na rua como em qualquer cidade árabe: barulhentas e num frenesim de séculos. Os suqes transbordam, o trânsito é caótico, os muezzins chamam para a oração. Em Damasco há adolescentes de calças justas e tops que exibem o que qualquer jovem ocidental deixaria ver, em Sanaa as mulheres são apenas vultos negros sem rosto.

 

O regime sírio socorre-se da retórica socialista, o iemenita do das democracias ocidentais. Sanaa é miserável e parou no tempo, para deleite dos nossos olhos, que se prendem nos edifícios de vários andares feitos de adobe há dois mil anos. O Cairo explode de energia, de juventude, de multinacionais e da miséria das grandes cidades.

 

No Cairo, a fotografia de Mubarak olha-nos em cada canto, sendo certo que, se nada acontecesse, no lugar dela seria posta a do seu filho Gamal. Em Amã, é a fotografia do rei Abdullah que ocupa o espaço público. Já substituiu a do seu pai. Abdullah militar, Abdullah filantropo, Abdullah atleta, Abdullah pai de família, Abdullah estadista. Em Sanaa, em Mukalla ou em Aden o bigode de Saleh foi transformado em símbolo nacional. Em Damasco ou em Alepo, Bashar al-Assad, o presidente, divide a iconografia da ditadura com o pai que governava antes dele e o irmão falecido num acidente de viação e que, por ter ganho um segundo lugar num concurso de hipismo, foi transformado num novo Saladino.

 

Estes são os retratos das patéticas ditaduras árabes. Ninguém, nas ruas destas cidades, lhes dá qualquer valor. Nas ruas os símbolos são outros: no Iémen, quando lá estive, em 2005, eram as caras de Yassin, líder religioso do Hamas abatido pelos israelitas, e de Bin Laden, cuja família partiu dali para fazer fortuna na Arábia Saudita. Na Síria eram, em 2006, quando lá estive, durante os bombardeamentos israelitas ao Líbano, as bandeiras amarelas do Hezbollah que faziam furor. No Egito é a Irmandade Muçulmana e são as organizações religiosas que garantem algum apoio social que conquistam cada vez mais simpatia popular.

 

Não é difícil de perceber. Não se trata de fanatismo religioso. Para além da língua e do Islão, a única coisa que une estes países são as suas ditaduras. Uma anti-americana, mas com simpatia dos franceses, as outras sustentadas pela Casa Branca e pelas chancelarias europeias. Repressivas, todas elas. Incompetentes, cleptómanas e incapazes de dar qualquer dignidade aos seus Estados e aos seus povos. Espantados que os islamistas sejam vistos por muitos como libertadores? A mim espanta-me que ainda não seja a maioria. Eles são, aos olhos de tantos, os que não se venderam. E que se preocupam com o povo. O suficiente para lhe dar pão e conforto espiritual. Desprezados nos bairros finos, respeitados nos bairros pobres. Eles são o que de mais parecido existe com um Estado Social.

 

Salva-nos o facto de, apesar de tudo, os movimentos laicos que tomaram o poder durante as independências terem apostado num sistema educativo público e terem feito nascer um simulacro de classe média. E das redes sociais, que servem para arregimentar militantes para os grupos islamistas, também servirem para conectar os jovens árabes com o resto do Mundo.

 

Não é assim no Iémen, onde a miséria ainda vive noutro século, mas é-o na Síria, na Jordânia, em Marrocos e no Egito - e também na Tunísia, que não conheço. Podemos ter esperança: há uma oposição democrática que acredita numa terceira via - nem as ditaduras laicas suportadas pelo Ocidente e pelos seus negócios, nem o islamismo tresloucado.

 

Uma coisa é certa: a suposta superioridade moral da Europa e dos EUA não vale um pevide por aquelas paragens. Nós sempre fomos os amigos dos seus ditadores. Julgávamos que assim os protegíamos do perigo islamista, quando, na realidade, lhe dávamos força moral e política. Agora não contamos nada. Resta-nos a vergonha da cumplicidade. E resta-nos fazer figas. Para que não sejam os fanáticos a tomar o lugar dos ladrões. Para que não haja um banho de sangue no Egito. Para que os tunisinos consigam encontrar um sucessor para o ditador que tinha assento na Internacional Socialista. Para que os islamistas, a mais organizada das oposições, não cheguem ao poder no Iémen. Para que uma revolta na Síria não tenha efeitos no Líbano e, a partir daí, em todo o Médio Oriente. Para que os confrontos entre jordanos e refugiados palestinianos não tome o lugar dos protestos.

 

Talvez tudo isto ainda esteja a acontecer a tempo. O fundamentalismo religioso como poder de Estado só é um perigo real em Iémen. E aí, se chegassem ao poder, seria mau para os EUA, que ali têm um ditador de confiança, mas a sociedade iemenita, ultraconservadora, dificilmente notaria a diferença. No Egito, um novo governo só assusta realmente Israel, que contou sempre com a cúmplicidade de Mubarak no cerco a Gaza. Não é a Irmandade que dirige os tumultos de jovens desempregados e até apela a um governo de transição pacífico. Na realidade, ela pode vir a ser integrada num processo democrático. O que ali acontecerá depende sobretudo de Baradei, para quem os EUA já parecem olhar como o aliado possível.

 

Com a crise económica internacional e o aumento do desemprego em países sem almofadas sociais, o dominó começou finalmente a cair. Pode ser excelente. Pode ser uma tragédia. Seja como for, a realpolitik das nossas alianças sem princípios, que nos leva sempre para becos sem saída, já não se livra da sua culpa.

 

Publicado no Expresso Online

 

Fotografias tiradas por mim, em Damasco, 2006. Na primeira, retrato de Hafez al-Assad, ex-presidente a quem sucedeu o seu filho Bashar. Na segunda, populares com uma bandeira do Hezbollah, enquanto o Líbano era bombardeado por Israel.


por Daniel Oliveira
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Domingo, 30 de Janeiro de 2011
por Daniel Oliveira

O ministro cessante da Informação Anas el-Fekki ordenou a interdição do canal satélite Al-Jazeera , que largamente cobriu as manifestações anti-governamentais, anunciou a agência oficial Mena. O ministro "decidiu que o serviço de informação do Estado devia encerrar e anular as actividades do canal Al-Jazeera na República árabe do Egito, anular todas as autorizações e retirar todas as carteiras profissionais dos jornalistas a partir de hoje", afirma o despacho da Mena. O canal, por seu turno, noticiou a AFP, afirmou que esta decisão visa "fazer calar o povo egípcio". Segundo a AFP, alguns minutos depois de emitida a notícia, a televisão por satélite dava conta da decisão egípcia, e continuava a transmitir. Entretanto, o satélite egípcio Nilesat, controlado pelo Governo, deixou de transmitir o sinal da cadeia de televisão Al-Jazeera, disse hoje fonte do canal sedeado no Qatar. "A transmissão via satélite foi interrompida em Nilesat", disse um responsável técnico na cadeia à agência France Presse. Porém, a Al-Jazeera também transmite em outros satélites Arabsat, tendo já anunciado uma nova frequência para que os telespectadores consigam ver a emissão.

Aqui


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Que líder político português esteve, em Novembro de 2007, em representação do seu partido, no congresso da União Democrática Constitucional, dirigida com mão de ferro pelo senhor Ben Ali, ditador deposto da Tunísia?

por Daniel Oliveira
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por Miguel Cardina

Chama-se "Parva que sou" e é uma nova canção apresentada pelos Deolinda há dias no Coliseu do Porto. A música é boa, a letra é incisiva mas é a reacção vibrante do público que nos diz o essencial. Temos hino, temos ânimo, falta-nos mais combate.

 


por Miguel Cardina
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Sábado, 29 de Janeiro de 2011
por Bruno Sena Martins

Tunísia, Egipto, Jordânia, Argélia, Iémene. O Médio-Oriente vai encontrando o seu caminho para a democracia apesar de Bush e do voluntarismo bélico do Ocidente fundamentalista.  Bush queria fazer do Iraque um exemplo, e conseguiu: o exemplo de como não se faz. Nestes tempos interessantes, ganham especial pertinência as palavras de David Cooper*: “ninguém pode libertar outrem, porque a liberdade é o acto de a tomar.”

 

 

*Cooper, David (1978), A Linguagem da Loucura. Lisboa: Editorial Presença.


por Bruno Sena Martins
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Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011
por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Pedro Sales

 

Para lá da pequena entrevista de Miguel Portas à Antena 1, vale a pena ler a reportagem do Guardian com o testemunho de alguns dos fotógrafos e bloggers que estão nas ruas do Cairo: 'Something has changed in the Egyptian psyche '


por Pedro Sales
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por Bruno Sena Martins

Publicado na Liga Aleixo

 

O penalty que deu a vitória ao Porto em Aveiro deu escusado brado. Na minha opinião, tamanha salganhada de equívocos, e que outro nome dar a Rui Gomes senão Equívoco Logo Existe, só pode acontecer porque a alma contemporânea se encontra alheada da contemplação dos clássicos. Um autor publica um livro e em vez de se tentar encostar às verdades universais que amanhou numas quantas tiradas de génio, logo se precipita em fazer um contrato com o editor a fim de uma sequela que lhe possa render mais mulherio e, em podendo, dinheiro e gajos.

 

Há jogadores que pensam o futebol jogado com tais requintes de materialismo que não param para apreciar uma finta. Tomemos como exemplo o túnel, epítome do gesto técnico que se basta. Quando fazemos um túnel ao adversário os níveis de altivez estética estão alcançados ainda que fôssemos a jogar em contra-mão na direcção da nossa própria baliza. A ineptidão dos realizadores de futebol para gravar os pequenos momentos de fantasia, e com eles de toda máquina dos resumos com Nuno Luz à cabeça, implica que só fiquem registados para a posterioridade as estéticas do golo. Toda a gente apupa o jogador que se dá ao desfrute de ficar a contemplar a própria finta, uns milissegundos que seja, apenas porque essa contemplação o poderá afastar da compulsão hodierna pelo golo (aquilo que noutro lugar, umas linhas acima, na verdade, gostaria de ter chamado, a hegemonia candente da estética do golo).

 

A passagem de Ronaldo de extremo fantasista a goleador, por exemplo, cavou um fosso para Messi nas cogitações sobre o exercício da arte. Por outro lado, a assombrosa capacidade de Ronaldo para afunilar as suas virtudes em favor da obtenção do golo (desde 2007-2008) tem-lhe garantido um lugar na luta pelo sublime, lugar que não merece enquanto virtuoso, mas que merece enquanto ser capaz de abdicar - abdica de momentos técnicos em favor de comparência semanal no resumo como o golinho da praxe, no fundo, largou a finta para se especializar no remate. Naquele lance ocorrido em Aveiro, Hulk, que anda pouco maçado por aparecer nos resumos só a fazer golos, quis gozar no ar uns instantes antes de retomar o contacto com a bola.

 

Ali estava ele no ar a contemplar a perdição de André Marques, quando é ceifado pelo pé de coice: penalty. Repetida a imagem mil vezes sabemos que é penalty, mas percebemos que algo está errado no momento que Hulk fica suspenso no ar. Nenhuma simulação, mas se me permitem, eu explico a disjunção cognitiva: não estamos habituados a ver um homem gozar uma finta enquanto objecto final do prazer, e ninguém percebe que isso leve um tempo. Foram-se os clássicos, e ninguém está cá para contemplações. Conta comigo, Hulk.


por Bruno Sena Martins
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por Pedro Vieira

 

 

rabiscos vieira

 

 

 


por Pedro Vieira
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por Andrea Peniche

 

 

Sou suspeita de falar nestas coisas: fui criança no período revolucionário e frequentei sempre a escola pública. Talvez por isso não me repugnem nem os piolhos nem os lampiões no nariz e ache até ao interclassismo uma certa graça. Deve ser por essa razão que quando vejo as mãezinhas e os paizinhos empenhados na defesa do privilégio das suas crianças fico aborrecida.

 

Como um grupo de jornalistas se dedicou a fazer jornalismo, hoje podemos afirmar que é falso o argumento de que não há alternativa pública à maioria das escolas privadas: Só 18 escolas privadas, das 94 com contrato de associação com o Estado, ficam a mais de 15 quilómetros de uma pública com o mesmo grau de ensino. (...) Cerca de 20 estabelecimentos privados ficam até a menos de um quilómetro dos seus equivalentes no público.

 

Nada tenho contra as escolhas privadas pelo ensino privado. Cada um come do que gosta, mas há um prato, a sopinha, que tem de fazer parte de todas as refeições equilibradas. E a responsabilidade pelo provimento da sopinha é do Estado. Assim, se os papás e as mamãs não gostam da sopinha pública podem escolher a sopinha privada, não podem é pedir legumes subsidiados quando há sopinha pública à espera da sua prole.

 

O problema da sopinha é que ela não chega para todos os meninos e meninas. Sócrates prometeu uma rede pré-escolar com capacidade para acolher todas as crianças com 5 anos. Acontece que as criancinhas, pasme-se, precisam de sopinha desde que nascem. E creches e infantários públicos é coisa que, na esmagadora maioria das localidades, ou não existe ou não abunda. A pouca resposta pública que há não chega para a cova de um dente. Por isso, era bom acabar com a subsidiodependência das escolas privadas e investir a sério em creches e infantários. Acho que a isso se chama igualdade de oportunidades.


por Andrea Peniche
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por Daniel Oliveira

Em quase todas as eleições os jornalistas chamam à atenção para a abstenção. Pedem comentários aos comentadores e os comentadores comentam: isto demonstra o descrédito da democracia. Pedem frases bonitas aos políticos e os políticos tentam não desagradar: esta abstenção deve servir de aviso para uma profunda reflexão. Pedem ciência aos politólogos e os politólogos debitam frases feitas: há um desinteresse geral por este ato eleitoral.

 

E isto, a mim, enerva-me. Que metade do País que se deu ao trabalho de ir votar gaste tanto tempo a falar da metade do País que se esteve nas tintas. Que fritemos a cabeça a tentar descortinar as motivações da inação de quem preferiu ficar em casa. Que os cidadãos que levam a sério essa sua condição e querem ter autoridade para criticar os eleitos se sintam na obrigação de fazer o papel de ama-seca de quem não quer saber.

 

Posso dicordar do voto de muitas pessoas. De quem vota em candidatos absurdos para protestar. De quem vota em branco ou nulo porque acha que quem se candidata é sempre oportunista ou idiota. De quem vota em autarcas corruptos ou políticos incompetentes. De quem decide o seu voto em frente ao boletim, como se estivesse a jogar no totobola. Mas sairam de casa, foram à mesa de voto, e cumpriram a sua obrigação de cidadão. Merecem-me respeito. Como opinador, reflito sempre sobre a sua decisão. Como democrata, aceito sempre a sua escolha soberana. Para os abstencionistas estou-me nas tintas. Porque eles, ao não participarem no mais básico e simples dos atos desta nossa democracia, se estão nas tintas para mim. E amor com amor se paga.

 

Se se abstêm porque têm mais que fazer eu abstenho-me de lhes dar atenção. Se se abstêm porque não acreditam em nada e em ninguém, eu abstenho-me de acreditar no seu empenho neste País. Se se abstêm porque não acreditam na democracia, eu abstenho-me de incluir o seu gesto (ou a sua ausência de gesto) no debate democrático.

 

Sou contra o voto obrigatório. Exatamente porque não gosto da ideia de que quem não quer decidir seja determinante nas nossas grandes escolhas. Acho que a abstenção, num país livre, é um direito. Mas, por favor, não peçam a quem se preocupa, pensa e escolhe para perder tanto tempo com quem não o faz.

 

Se podem votar têm mais de 18 anos. Se têm mais de 18 anos são maiores e vacinados. Preferem ficar em casa? Problema deles. Nós, os cidadãos que o querem ser, tratamos de escolher.

 

Dar, em cada ato eleitoral, tanto tempo de antena à abstenção é um insulto a quem se levantou do sofá e participou na vida coletiva deste País. Metade dos portugueses foi votar no último domingo. É pena, mas é a metade com a qual podemos contar. Só a escolha deles me interessa. Querem um número que merece reflexão? 277.835 cidadãos saíram de casa, foram à mesa de voto e votaram branco ou nulo. Esses sim, quiseram dizer alguma coisa. Os outros ficaram calados. E quem cala consente.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011
por Miguel Cardina

 

O protesto de pais e directores dos colégios privados, contra o corte no valor do subsídio estatal que usufruem, tem sido capaz de camuflar a questão que verdadeiramente importa discutir: a lógica dos contratos de associação e a sua reavaliação, caso a caso. Podíamos começar por aí, não?


por Miguel Cardina
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por Daniel Oliveira
Sou insuspeito, porque Jorge Salaviza está bem longe da minha área política. Mas, porque conheci bem o seu trabalho no São Luiz, sei, como o consenso à volta dele prova, da sua competência. Demitiu-se agora da Opart, o organismo público que gere os teatros nacionais e a Companhia Nacional de Bailado. Como sempre fez, não revela as razões da sua demissão, mas tudo indica que têm a ver com a situação calamitosa em que se encontram os organismos culturais públicos neste País. Conhecendo Salaviza e a sua dedicação, não dou crédito à acusação de que o seu problema é a impossibilidade de acumular a reforma com o salário, até porque ele garante que ela é anterior a essa justa decisão. Sei uma coisa: a demissão de Salaviza é mais um prego no caixão da cultura portuguesa. A manutenção desta ministra no lugar é outro.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

 

 

E de repente o regime tunisino deixa de ser apresentado como moderado. Uma ditadura sanguinária, descobriu-se. E de repente a União Europeia e os EUA estão solidárias com o povo tunisino. Onde estiveram nos últimos 23 anos, enquanto apoiavam Ben Ali, cujo partido tem assento na Internacional Socialista, e davam cobertura aos seus desmandos e roubos? Viviam naquela irresponsável ilusão de que as ditaduras árabes laicas são o mal menor. Engano: foram e são o melhor argumento para os fundamentalistas convencerem os árabes que o islamismo é libertador. Dizia o secretário de Estado americano Cordell Hull, sobre Trujillo, ditador da República Dominicana: "He may be a son of a bitch, but he is our son of a bitch". Caiu mais um. Sonsos, festejamos. "But he was our son of a bitch".

 

Publicado na edição do Expresso de 21 de janeiro de 2011


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

Carlos Silvino diz que mentiu em tribunal. A reação geral é a óbvia: não tem credibilidade. E eu concordo. Pela sua história, pelo seu comportamento, pelas suas evidentes limitações, pela sua vulnerabilidade que o torna facilmente manipulável e, já agora, pelo seu interesse no processo, todas as suas declarações devem ser ouvidas com enormes reservas. Dizer, como disse o advogado das vítimas, que ele as traiu, é no mínimo bizarro. Bibi é, segundo os próprios, um violador de menores. Essa foi a primeira e mais brutal traição. Ser tratado como um aliado natural das suas próprias vítimas só pode resultar de uma enorme confusão.

O que me deixa perplexo é que o mesmo homem que serviu para tantas certezas, quando apontava o dedo a vários arguidos, seja apenas agora visto pela generalidade das pessoas como pouco credível. E este comportamento coletivo, independentemente deste processo, só confirma os perigos da justiça popular. Falta a todos os que não estão obrigados à frieza dos factos e das provas - e eu incluo-me - o distanciamento e a objetividade a que a justiça está obrigada.

Na televisão e nos tablóides tudo é simples, a preto e branco. Há, como nos filmes, os vilões e os heróis. A indignação coletiva vive mal com a dúvida e quase sempre julga antes de qualquer prova.

Enquanto Carlos Silvino confirmava uma história simples, era credível. Quando a desmente com argumentos estranhos passa a ser o violador que se tenta safar. Não sei se o que dizia antes tem mais credibilidade do que o que diz agora. Sei, e isso não está em debate, que o que disse antes tem valor processual e o que diz agora não o tem. Mas também sei outra coisa: que o mais humano dos impulsos mais é o de querer ver confirmadas as certezas que já se têm. E que essa é a razão porque a justiça tem de ser insensível às paixões da rua.

A justiça deve ser clara nas decisões que toma. Deve ser transparente e rigorosa na forma como chega a elas. Deve ser pedagógica quando as explica. Nunca deve esquecer que cada sentença cumpre um papel social e por isso não pode viver numa torre de marfim. Mas, na hora de decidir, deve ser gelada perante o calor da revolta. Até porque, como se vê pelos vários papeis que Carlos Silvino já desempenhou neste processo aos olhos da opinião pública, o calor da indignação popular é a mais volúvel de todas as paixões.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011
por Sérgio Lavos

Ler com muita atenção este post no Aventar. De notar também este post sobre o tratamento jornalístico que o Público está a fazer dos protestos das escolas privadas e da sua comovente demanda em busca de financiamento público. E claro, é obrigatório ler os dois posts do maradona sobre o tema. Também acaba por ser extraordinária a repercussão mediática desta demanda. Já agora, custará assim tanto alguém investigar em que casos é que as associações privadas de ensino cumprem o papel que deveria caber ao Estado? Sabemos quem são. Há maneiras de conhecer a localização das escolas públicas. Parece-me demasiado fácil, mas estranhamente não vi esse trabalho em qualquer das notícias que li sobre o tema. Mas, tudo bem, deve ser mais fácil escrever coisas como "todos são financiados para oferecer educação gratuita aos alunos de determinada região, onde não existe oferta pública", como fez Bárbara Wong no Público de ontem. Principalmente quando tal frase pura e simplesmente não é verdadeira. Imprensa suave ou imprensa interessada e interesseira?


por Sérgio Lavos
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por Pedro Sales

 

Berlusconi telefona para um dos raros canais de televisão que não lhe pertencem para tentar interromper o programa e "convidar" uma deputada a abandonar esse "bordel televisivo".


por Pedro Sales
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por Pedro Vieira

está tudo no tomo 17 do Ah, a Literatura!, disponível no sítio do costume. aquele onde nós também assumimos o IVA.


por Pedro Vieira
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por Andrea Peniche

 

 

 

Corre uma petição na internet contra um crime denominado violação correctiva que, ao que parece, é práctica corrente em África do Sul. O caso de Millicent Gaika, que foi violada e torturada horas a fio para que a sua sexualidade fosse corrigida, tem trazido esta questão à superfície. Neste mesmo país, Eudy Simelane foi violada e assassinada depois de tornar pública a sua orientação sexual e de ter feito da defesa dos direitos sexuais uma batalha. Esta prática pretende, imagine-se, corrigir a sexualidade das lésbicas. Não há, no entanto, relativismo cultural capaz de justificar a barbárie. Trata-se de crimes e como crimes de ódio devem ser encarados.

 

Estas notícias transportam-me para uma outra que me trouxe e traz algum incómodo: Julian Assange é acusado, por duas mulheres, de violação.

Poderia a caça a Assange significar que o entendimento internacional sobre a gravidade do crime de violação estava a mudar, mas não me parece que seja esse o caso nem que a Suécia e a Inglaterra estejam determinadas em fazer da luta contra a violação um desígnio internacional. Usar a violação como motivo para deter Assange foi um acto sem precedentes. A acusação (e detenção) que pende sobre Assange é, parece-me, a desculpa humanitária perfeita para a violação dos direitos humanos e para a aplicação de uma justiça feita à medida das necessidades dos incomodados com as revelações da wikileaks.

 

Não sei se Assange violou ou não as duas mulheres que o acusam. Tenho a minha opinião e, confesso, que uma acusação desta natureza me incomoda. Assange tem prestado, em meu entender, um enorme serviço à democracia e, por isso, preferia continuar a tê-lo arrumado no lote das pessoas recomendáveis. Os tribunais que o julguem. Mas, o que verdadeiramente me incomoda no meio disto tudo é que, na eventualidade dessas acusações serem falsas, tudo isto signifique mais um recuo na compreensão da violação como um crime intolerável. Acusá-lo falsamente significa desrespeitar todas as pessoas, sobretudo mulheres e crianças, que sobreviveram ao crime de violação e agressão sexual. A violação é o pano de fundo que alimenta o tráfico de seres humanos; é usada como arma e troféu de guerra; como manifestação do entendimento das mulheres como seres humanos subalternos, como recusa do seu direito à autodeterminação sexual. Usá-la como estratégia de silenciamento de Assange é insultar todas as mulheres que sofreram lesões vaginais e que são marginalizadas nas suas culturas em virtude de terem sido violadas. E, por isso, o peso de uma falsa acusação é quase tão grave como o do próprio crime.

 

Apolo, nas palavras de Homero, apaixonou-se por Cassandra e prometeu-lhe o dom da profecia, caso ela cedesse aos seus desejos. Cassandra, após ter sido instruída nos dons da profecia, esquivou-se aos desejos de Apolo que, zangado, lhe retirou o dom da persuasão, transformando as suas profecias em letra morta. Cassandra previu o destino trágico de Tróia, mas a sua palavra não tinha valor. E, por isso, Cassandra é hoje, nas palavras de Janet Mills, o símbolo da recusa patriarcal em confiar na palavra das mulheres.

 

Um não significa mesmo não e não pode sobre isso existir qualquer outra interpretação possível. Que exactamente duas mulheres possam estar a colocar em questão o valor da palavra das mulheres é aquilo que me incomoda verdadeiramente.


por Andrea Peniche
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por Daniel Oliveira

Hoje o trabalhador têm direito a 30 dias de indemnização por cada ano de casa (mais diuturnidades) em caso de despedimento. Mas o governo quer reduzir o cálculo para 20 dias, acrescido de diuturnidades. E quer que o máximo que o trabalhador receba seja 12 vezes a sua retribuição-base acrescida de diuturnidades. Mas as regras também vão mudar nos contratos a termo. Um contrato de cinco meses dá direito a compensação igual a 15 dias de trabalho. Com as novas regras, dará direito apenas a 8,3 dias.

 

O argumento: as regras são assim em Espanha. O esquecimento: o salário real em Espanha é muito superior ao português. Dá mais poder de compra ao trabalhador. Ou seja, as mesmas regras dão para sobreviver mais tempo ou refazer uma vida. Os empregadores têm de se decidir: ou querem as vantagens de Espanha e pagam por isso ou estão a fazer batota.

 

Mas a pergunta mais importante é esta: num momento em que o desemprego dispara, para que servem estas mudanças na lei? Em vez de tentar conter o desemprego a ministra que já foi sindicalista (como consegue viver nesta esquizofrenia?) convida os empregadores a, antes de mais, cortar nos postos de trabalho.

 

Estas regras apenas se aplicarão a novos contratos. Dirão que sendo mais fácil despedir será mais fácil criar emprego. Uma tripla mentira. Primeiro, porque a falta de emprego não resulta da dificuldade em despedir, mas da crise económica. Segundo, porque grande parte do emprego que agora se cria está fora de quase todas as regras. O falso recibo verde é a lei em vigor. E assim continuará a ser enquanto o Estado não cumprir a sua função fiscalizadora. Terceiro, porque nenhum dado concreto aponta neste sentido. Na verdade, a flexibilização das leis laborais a que temos assistido em Portugal e na Europa não se tem traduzido na diminuição do desemprego. Pelo contrário. Seria altura de quem defende esta tese explicar porque raio não bate ela certo com a realidade dos números.

 

Na verdade, o despedimento barato e fácil tem apenas uma função: reduzir a capacidade negocial dos trabalhadores e, com isso, reduzir os salários e os custos do trabalho. E esta não é a resposta que precisamos para a nossa falta de produtividade e dificuldade em exportar. Pelo contrário, ela agrava a desigualdade - a nossa maior doença económica e social -, e reduz o valor do que produzimos. A aposta em salários baixos, que o despedimento simplex promove, afasta-nos dos países mais desenvolvidos sem nos chegar a tornar conpetitivos face a países com trabalho semi-escravo. Deixa-nos em terra de ninguém, demasiado atrasados para competirmos em qualidade com a Europa, demasiado caros para competirmos no preço com a China. É um erro. Um erro que patrões sem visão aplaudem e governos sem estratégia aplicam.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Ana Mafalda Nunes

 

Bom, na verdade não se trata de governo mas de presidir a república, de resto, não deixa de ser aplicável às eleições de 23.

 

A cara infeliz que levou os pais das “Liberdades” deste país, a não votar, a votar nulo, contrariado, alguns coelhos, branco, ou a boicotar, sendo que estes últimos merecem respeito, porque reconheceram a importância do voto a ponto de o transformar numa arma de protesto para reivindicar direitos que consideram violados, espelha a estagnação, a decadência do debate ideológico, da apresentação de propostas que sirvam os cidadãos e da falta de informação acerca dos cargos políticos, das suas importâncias e funções.

 

Os partidos políticos e os candidatos são como as empresas que estimulam o consumo de determinado bem ou serviço, só se lembram dos clientes, que neste caso são mais os patrões, quando estão por perto necessidades ou as eleições, esquecendo-se logo após a tomada de posse dos mandatos de envolver os cidadãos que os elegem, ou deveriam eleger, nas políticas do país.

 No caso especifico destas eleições, a falta de esclarecimento dos poderes presidenciais e até alguma confusão que foi criada pelos próprios candidatos em campanha, também não ajudaram a malta a trocar o conforto do comando e do sofá pela urna, “para quê sair de casa para votar num mero ornamento da república”?

 

O debate ideológico que poderia apaixonar até a mais empedernida das almas deu lugar à lavandaria pública massificada, onde as peúgas laranja, se misturam com as cuecas rosa, as ceroulas azuis e as camisolas de alça vermelhas, que resultou numa cor amorfa pouco atraente indistinguível de diferença na generalidade dos factos apresentados. A tal ponto, que os portugueses se divorciaram e abdicaram da escolha a que têm direito, ainda que seja o fruto do seu trabalho a razão das campanhas, dos governos, das presidências. Entram no modo “ não quero saber, são todos iguais, seja quem for que para lá vá”, ou então “ já ganhou, nem vale a pena votar” ou ainda “ já não acredito em ninguém”.

 

Como solucionar esta descrença colectiva e galopante na vida política deste país?

 

Há politólogos a defender o que já acontece noutros países da Europa, que se deve transformar o voto num acto obrigatório, passaríamos a ter a ditadura do voto, em vez de um direito democrático conquistado/dever cívico voluntário e ideológico. Parece-me um absurdo pensar em castigar os cidadãos com mais um atropelo à liberdade de escolha, de posição intelectual, quando a culpa da apatia, da indiferença e preguiça politica parte em primeiro lugar pela falta de esclarecimento e educação cívica passando depois pela falta de capacidade dos partidos para motivar, mobilizar, inovar e envolver os cidadãos na vida politica do seu próprio país.

 

Muito mais os vencedores do que os vencidos preferem continuar a tapar o sol com a peneira, olham apenas para os números percentuais com que se vencem eleições, fingem não ver que foram eleitos por menos de metade do eleitorado com a alegria de quem ganha jogos de futebol à conta de batota, golos fora de jogo e penáltis não marcados… ou seja, desde que se chegue à vitória matemática, continua a não ter interesse pensar, identificar e avaliar porque é que o “ganho” é, a cada eleição que passa, mais desmembrado, moribundo de democracia (visto que é a minoria votante quem elege) e cada vez menos representativo da vontade dos cidadãos, dos que se abstêm.

 

Quem ganha contenta-se em assumir o papel, pouco honroso, de herói do mal menor, eleito pelo cidadão que se demite da tarefa de eleger.


por Ana Mafalda Nunes
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por Ana Mafalda Nunes

5 anos, 9 meses e 9 dias de dinheiro público gasto no maior processo judicial português, por culpa de  um copo de água?

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por Ana Mafalda Nunes
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Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011
por Pedro Vieira

 

 

rabiscos vieira

 

Alegre vai receber menos 514 mil euros para a campanha do que esperava

 

 

 


por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

 

 

 

 

Quando perguntaram a Winston Churchill se os seus inimigos se sentavam na outra bancada, a resposta foi certeira: do outro lado sentam-se os meus adversários, os meus inimigos sentam-se deste lado. É sempre bom não esquecer esta lição de baixa política para perceber os bastidores do poder.

 

Quem tivesse duvidas sobre a relação do Presidente da República com aquele que, muito provavelmente, será o próximo primeiro-ministro esclareceu-as quando Passos Coelho foi apresentado, num comício em Vila Real, como presidente da Assembleia Municipal. O desconforto de Cavaco Silva com o líder do PSD voltou a ser sentido quando lhe foi pedido para dizer se a presença de Passos lhe agradava. Parecia evidente que Cavaco não tencionava dar, com a sua previsível vitória, um empurrão a Passos Coelho. E muito menos dividir com ele os louros da sua reeleição. Mais relevante: Passos também não queria essa ajuda.

 

Este divórcio sem litígio não seria grave se não fosse a costumeira deselegância do Professor, que fez questão em tratar o "presidente da Assembleia Municipal de Vila Real" com um desprezo indiscreto. A resposta sentiu-se nos últimos dias de campanha, quando a preciosa máquina do PSD desapareceu da campanha e Cavaco ficou com a mobilização reduzida ao mínimo.

 

Quem não tivesse entendido o recado teve a explicação mais clara no discurso de Passos de domingo: a vitória era de Cavaco e ele nada tinha a ver com ela. Ao contrário de Paulo Portas, que logo se pôs em bicos de pés, o líder do PSD explicou que aquilo não eram nem legislativas nem primárias delas.

 

O novo PSD não quer empurrões de Cavaco porque não lhe quer dever nada. E não lhe quer dever nada porque sabe que, se não há almoços grátis, com Cavaco Silva eles costumam ter o preço de um banquete. Cavaco Silva sempre quis e continua a querer governar por interposta pessoa. Sempre quis pôr e dispor do PSD e não perdoa que o Partido tenha tido o descaramento de escolher como líder que receberá o poder no colo um homem que não é de sua confiança. Pior: um homem que ele despreza e que o despreza a ele.

 

O preço de uma boleia de Cavaco seria, para Passos, o de lhe prestar vassalagem, o único tipo de relação que Cavaco conhece com os outros. Passos nunca o fará. E no domingo suspirou de alívio: o Presidente eleito com menos votos e reeleito com menos percentagem não estará em condições de exigir vassalagem a ninguém.

 

A política não é feita epenas de política. As relações humanas contam. Elas são, mais coisa menos coisa, grande parte das motivações de muitos dos confrontos internos nos partidos. E a relação de despeito mútuo entre estes dois homens será muito importante nos próximos anos.

Mesmo sem força para tanto, Cavaco não desistirá da ideia de tutelar o próximo governo ou até de evitar que ele venha a ser liderado pelo jovem desobidiente que lhe calhou na rifa. E, no partido, os cavaquistas conspirarão na sombra, sabendo que se for Passos a chegar ao poder eles perderão para sempre a sua oportunidade.

 

Passos não desistirá de não dever nada a Cavaco. Começando por não lhe dever umas eleições antecipadas. Se o governo tem de cair, Passos vai querer que caia às maõs do seu PSD e não de Belém. E se chegar a São Bento a tempo tratará de fazer a limpeza interna que tanto deseja. Para os cavaquistas ficarão os comentários na televisão e nos jornais e pouco mais.

 

A animosidade entre o fedelho arrivista de Massamá e o empertigado professor de Boliqueime - imagino que seja assim que cada um veja o outro - marcará as lutas de poder no PSD. As diferenças ideológicas que as várias fações irão simular, sempre muito preocupadas com os destinos do País, não serão mais do que uma farsa. Um será mais liberal e extremista, outro mais caritativo e provinciano. Mas o que conta, o que contará, é a luta entre o professor galo e o jovem coelho.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011
por Miguel Cardina

 

Perdemos. A esquerda perdeu. Manuel Alegre, em primeiro lugar, não conseguindo sequer igualar a marca de há cinco anos. Francisco Lopes também teve um resultado negativo, com menos cerca de 140.000 votos do que os que teve Jerónimo de Sousa em 2005. Cavaco foi capaz de federar a direita e o centro com uma campanha feita de silêncios e que não teve pejo em recorrer à pressão dos "mercados financeiros" para chantagear a democracia. A campanha de Alegre teve clareza na defesa do Estado Social, na denúncia dos ataques aos "de baixo" e na recusa da intervenção do FMI, mas sofreu nas urnas com o facto de também ser apoiada pelo partido do governo, que tem vindo a aplicar as medidas de austeridade com o apoio do PSD. Se alguma coisa tem de bom o resultado destas eleições, é que nos lembra a dificuldade do combate que temos pela frente. Perdeu-se uma batalha, a luta continua.


por Miguel Cardina
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Domingo, 23 de Janeiro de 2011
por Daniel Oliveira

Cavaco Silva venceu as eleições. Longe do que algumas sondagens delirantes lhe davam. Aliás, uma das mais baixas votações conseguidas numa reeleição de um Presidente da República. Vence, sem margem para dúvidas e com a legitimidade intacta. Mas sem se afirmar, como alguns julgavam que aconteceria, como o homem consensual na política portuguesa. Nem abrir caminho para uma crise política. E depois desta campanha, terá de se habituar uma coisa absolutamente nova na sua longa carreira política: a de ser escrutinado. Fora isso, o seu mandato continua como antes. Não esmaga e por isso não poderá tutelar Sócrates nem, como tanto desejava, Passos Coelho.

 

Sendo igual a si próprio, Cavaco Silva foi o primeiro Presidente eleito a não saudar os seus adversários derrotados, preferindo insultar quem, já se tendo despedido, não se podia defender.


Manuel Alegre perdeu de forma clara. É, sem qualquer dúvida, o maior derrotado destas eleições, tendo ficado mesmo abaixo do seu resultado nas eleições anteriores. Como escrevi este fim-de-semana no EXPRESSO, o problema de Alegre é que combatia um cenário futuro quando o antigo ainda está em vigor. Pagou o preço da impopularidade de Sócrates, associado ao sectarismo de alguns sectores do PS, que nunca perdoaram a sua independência. Mais um episódio dos desencontros da esquerda que, ao contrário da direita portuguesa, nunca se consegue entender. Quando os seus eleitores querem as direções do partidos não o desejam. Quando as direções dos partidos querem os eleitores não o desejam.

 

Fernando Nobre assumiu-se como vencedor, deixando claro que tem todos os tiques de um político. Ainda há dois dias dizia que tinha a certeza que iria a uma segunda volta e que só um tiro o impediria de chegar a Belém. Ontem festejou um terceiro lugar. As sondagens davam-lhe menos, e por isso pode, se esquecer tudo o que disse, cantar vitória. O mesmo não poderá fazer Mário Soares. Para cumprir uma vingança mesquinha sem qualquer objectivo que não fosse o seu próprio umbigo, Soares achava que o seu candidato seria o Manuel Alegre de Manuel Alegre. Não foi. Não o ultrapassou e ficou-se pelo resultado que o próprio Soares conseguiu há cinco anos. Ainda assim, sem apoios partidários, 14 por cento é um resultado que Nobre pode guardar nas suas recordações. Como sabe quem anda nisto há algum tempo, nada fará com eles. Foi o "independente contra os partidos e o sistema" destas eleições. Outros surgirão. Façam uma boa ou uma má campanha (e Nobre fez uma má campanha), conseguirão resultados semelhantes.

 

Francisco Lopes segurou os votos do PCP. Mas ficou abaixo do partido e da votação anterior de Jerónimo de Sousa, não tendo, num cenário mais favorável, conquistado a franja de eleitores do Bloco de Esquerda que estava pouco entusiasmada com o apoio a Alegre. Esta votação não tem efeitos negativos para o PCP mas não lança Francisco Lopes para a liderança do partido. Não aquece nem arrefece.

 

José Manuel Coelho consegue 4 ,5 por cento. Um voto de protesto, dirão alguns. Se o voto de protesto dos que consideram que a política portuguesa não merece respeito é votar num Tiririca à portuguesa, a única coisa que se pode dizer é que têm a política que merecem.

 

Defensor Moura fez uma das melhores campanhas destas presidenciais. Os votos que teve, quando comparados com os de Coelho, são a demonstração de que não é por falta de seriedade que candidatos têm maus resultados.

 

Quando à abstenção, a normal numa reeleição de um Presidente da República. Os apelos à reflexão sobre o estado da nossa democracia, que se repetem, como uma entediante rotina, são, neste caso, absurdos. A reeleição de Cavaco Silva era previsível e os poderes do Presidente são os que se sabem. Se a isso juntarmos a crise económica, acho até sinal de boa saúde democrática que metade dos cidadãos tenha, num dia de frio e com as confusões com o cartão do cidadãos, saído de casa para votar.


por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos

O que fazer com umas eleições nas quais parte considerável dos cidadãos não pode votar? Sairá algum resultado legítimo, de uma votação assim?


por Sérgio Lavos
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por Ana Mafalda Nunes

 


por Ana Mafalda Nunes
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Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011
por Pedro Vieira

 

 

 


por Pedro Vieira
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por Sérgio Lavos

 

Os estudos de opinião que têm sido publicados não conseguem prever com exactidão a percentagem de abstenção para a eleição presidencial. No entanto, espera-se que seja alta. Hoje, no Público, é perguntado a várias personalidades o que acharam da campanha e se esta mudou o seu sentido de voto. Há duas correntes: os que vão votar mas insistem na pobreza da campanha; e os que não vão votar, abraçando o niilismo abstencionista por entre a amargura (Vasco Pulido Valente) e a desilusão (José Gil). São escolhas. No fim de contas, esta vai ser apenas mais uma eleição, para um cargo que confere um poder mais simbólico do que real, e seria difícil encontrar melhor ocasião para expressar descontentamento em relação à situação política actual. Mas será esta apenas mais uma eleição? Vejamos: a crise em que o país se encontra mergulhado; a pressão internacional para que sejam tomadas medidas de austeridade duríssimas; a descredibilização do Governo que foi eleito há menos de um ano. Neste panorama, grande parte da esquerda decidiu enveredar pelo apelo à abstenção, chegando muitos a mostrar mais empenhamento do que mostrariam caso tivessem um candidato em quem votar. Seria comovente, este empenhamento, se não fosse pateticamente sectarista. Todo e qualquer voto é sempre um voto útil. Um voto esclarecido é um voto que encontrou defeitos num candidato ou num partido, mas acaba por se decidir pelo menor dos males. Aquele que tenha lido o programa de um candidato ou de um partido a qualquer eleição e concorde com tudo, do princípio ao fim, que atire a primeira pedra. Não há unanimidades (sim, a unanimidade, como disse o grande reaccionário Nelson Rodrigues, é burra) nem gente perfeita; e concedo que um político, qualquer que seja ele, é ainda menos perfeito. Da mesma maneira, a decisão de não ir depositar o voto na urna pode ser tão útil como o voto no candidato - discordando de todos os candidatos, o abstencionista deixa-se ficar no calor da decisão abstencionista (na realidade, uma não-decisão), renegando o maior bem que uma democracia tem para oferecer: o voto. Um abstencionista - acreditem que sei do que falo, passei por cima de muita eleição - encontra conforto em várias coisas - na atitude de protesto, no gesto que julga de combate, na crença de que o voto é na verdade ilusório, e que nada poderá mudar. Mas a verdade é que, na maior parte das vezes, o único real conforto é o que sente ao não sair de casa, ao preferir ir à praia, o conforto burguês de quem delega nos outros decisões que devem passar por todos. Claro que há aquela minoria que diz ser contra este sistema; estão no seu direito de não votar, embora eu ache que, nesse caso, seria mais coerente a recusa da cidadania e de todas as benesses que esta traz. Uma vez mais, o conforto fala mais alto; e é muito fácil para o ser humano convencer-se de que tudo o que faz está correcto - está nos tomos de psicologia. Mesmo que o bom senso indique precisamente o contrário.

 

O único voto de protesto coerente é o voto em branco - e o nulo anda muito perto. Quem vota em branco aceitará o sistema político do país onde vive - caso contrário pediria a recusa de nacionalidade - mas recusa os candidatos ou partidos que vão a concurso. Uma escolha deste tipo seria, claro, o menor dos males. O votante em branco não se interessa por quem o governa ou preside ao país, é-lhe indiferente. E por isso tem de aceitar qualquer decisão que o poder tome. Para que não possa ser acusado de incoerência. O voto de protesto é coerente, mas será sensato? E até que ponto é produtivo?

 

O outro caminho que resta - o voto num dos candidatos - é tão útil como o voto em branco ou o voto nulo (mas mais sensato do que a abstenção, porque menos hipócrita). Não há políticos heróis, porque o herói apenas nasce quando o Homem morre. Mas a utilidade do voto reside noutra coisa: o que será melhor, no momento em que votamos, para as nossas vidas? Regressando a estas eleições, recordemos o que está em causa: a reeleição de um candidato que baseou toda a sua imagem numa pose de estadista credível, sério, competente e honesto. Cavaco, durante anos, alimentou esta imagem, viveu disto. Daí os seus silêncios, as suas ausências. A imagem de Cavaco, construída fora de palco, dependeu sempre da bondade da comunicação social. Nunca foi escrutinado, questionado, pressionado. Os seus apaniguados, presentes em todos os palanques mediáticos, foram criando uma aura mítica à sua volta, enquanto os seus amigos iam preenchendo lugares em organismos públicos, fundando empresas que bebiam da teta estatal, criando grupos económicos tão poderosos que se tornaram imunes ao poder político. E claro, os amigos mais próximos, os do coração, entretiveram-se a fundar um banco, o BPN, que serviu sobretudo para o rápido enriquecimento deles próprios. E Cavaco, na sombra de um interregno na política, foi também beneficiando deste banco laranja, sem que nunca fosse posta em causa a tal imagem séria construída ao longo de anos. Nesta campanha, tudo parece ter desabado. Por isso, é natural que a clique cavaquista que colonizou os painéis do comentarismo televisivo e jornalesco ache que foi muito fraca, a campanha. A táctica de desvalorizar o que é verdadeiramente importante numa eleição onde, não se esqueça, vamos votar numa pessoa, e não num programa partidário, vem em todas as sebentas. Para que quem vota não se interesse, concorde, não pense na importância do simples gesto de votar.

 

O que aí vem - o embate das medidas de austeridade que toda a gente vai sentir - é demasiado grave para o alheamento. O que aí pode vir - a eventual vitória de Cavaco; a provável dissolução da Assembleia; a possível vitória do PSD nas legislativas; Pedro Passos Coelho como primeiro-ministro - é a concretização do mais perfeito sonho molhado da direita liberal do nossa país: medidas de austeridade ainda mais duras; o desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, num processo regressivo que imitará o que sucedeu recentemente nos EUA, mas no sentido contrário; a prometida (ameaçada?) revisão constitucional, o que significará a derrota definitiva dos ideais de Abril; uma revisão laboral que penalizará ainda mais os trabalhadores, caminhando para a flexibilização total do mercado de trabalho, de modo a que a economia possa competir com os países emergentes, o que na prática representará uma regressão de quarenta anos; a privatização de todas as empresas públicas que ainda existem, com tudo o que isto tem de penalizante, tanto para a economia do país como para todos os cidadãos. Poderá ser de outra maneira? A única via de saída, sinceramente, será que não aconteça a tal tríade perigosa que Sá-Carneiro sonhou para o seu PPD: uma maioria, um governo, um presidente. E podemos começar por não eleger Cavaco, o patrocinador do rumo errado, omnipresente na luz ou na sombra, que o país levou nos últimos vinte anos. Votar, claro, é o mais poderoso instrumento que temos para evitar esta derrocada. Afinal, será muito mais cómodo para todos ir depositar o voto.

 

- A imagem é, claro, de Gui Castro Felga -


por Sérgio Lavos
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por Pedro Vieira

 

 

 


por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

A razão do meu voto no domingo resume-se depressa: votarei no único candidato que, podendo disputar uma segunda volta para a vencer, tem posições claras sobre o que realmente vai estar em causa nos próximos cinco anos. A saber: gratuitidade e universalidade do Serviço Nacional de Saúde; centralidade da Escola Pública no nosso sistema educativo; defesa de uma segurança social pública; oposição a leis laborais que deixem os trabalhadores entregues aos humores do empregador; e defesa dos poderes eleitos como os únicos com legitimidade democrática para determinar as nossas escolhas colectivas. Não é pouco. É, neste momento, tudo.

 

Defensor de Moura e Francisco Lopes têm posições claras sobre estas matérias, mas, como sabemos, não estariam em condições de disputar com Cavaco Silva uma vitória. E representam mais as suas bandeira partidária do que a vontade de unir o povo de esquerda num combate que marcará os próximos anos da nossa política.

 

Fernando Nobre nunca é claro sobre estas clivagens fundamentais, apostando no aproveitamento do descontentamento dos portugueses sem lhe querer dar qualquer rumo que não seja o do ódio estéril aos políticos e apresentando-se como homem providencial. Nunca candidatos com este discurso contaram com o meu voto. Não passariam a contar agora. José Manuel Coelho é entretenimento. Levo o meu voto a sério.

 

Cavaco Silva representa tudo o que a esquerda terá de combater nos próximos anos.

 

O voto em branco, o voto nulo e a abstenção são, nestas eleições, uma ajuda a Cavaco Silva.

 

O meu voto em Manuel Alegre é um voto coerente, racional e determinado. Mesmo que Cavaco fosse honesto, e ficámos com a certeza de que não o é. Mesmo que Cavaco tivesse um espírito democrático, e sempre soubemos que não o tem. Votarei Manuel Alegre porque não desisto de nenhum combate. Muito menos dos combates que determinarão muito do que será a vida concreta de cada um de nós nos próximos anos.

 

Vote em quem votar, se a esquerda ficar em casa no domingo não se poderá queixar das derrotas que se seguirão.


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

O que fará o doutor Cavaco em Belém, segundo Paulo Portas (em Outubro de 1995): "A candidatura do doutor Cavaco destina-se, pura e simplesmente, a convocar novas eleições e a devolver o poder ao PSD". Diferença que explica a evolução de Portas: e a devolver o poder também ao CDS.


Clique na imagem para ampliar e ler.


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

No dia 9 de julho de 1998, a notária Maria do Carmo Santos deslocou-se ao escritório de Fernando Fantasia, na empresa industrial Sapec, Rua Vítor Cordon, em Lisboa, para registar uma escritura especial. O casal Cavaco Silva (cerimoniosamente identificados com os títulos académicos de "Prof. Dr." e "Dra") entregava a sua casa de férias em Montechoro, Albufeira, e recebia em troca da Constralmada - Sociedade de Construções Lda uma nova moradia no mesmo concelho. Ambas foram avaliadas pelas partes no mesmo valor: 135 mil euros. Este tipo de permutas, entre imóveis do mesmo valor, está isento do pagamento de sisa, o imposto que antecedeu o IMI, e vigorava à época.

 

Mas a escritura refere, na página 3, que Cavaco Silva recebe um "lote de terreno para construção", omitindo que a vivenda Gaivota Azul, no lote 18 da Urbanização da Coelha, já se encontrava em construção há cerca de nove meses. Segundo o "livro de obras" que faz parte do registo da Câmara Municipal de Albufeira, as obras iniciaram-se em 10 de Outubro do ano anterior à escritura, em 1997. Tal como confirma Fernando Fantasia, presente na escritura, e dono da Opi 92, que detinha 33% do capital da Constralmada, que afirmou, na quinta-feira, 20, à VISÃO que o negócio escriturado incluía a vivenda.

 

"A casa estava incluída, concerteza. Não há duas escrituras." Fantasia diz que a escritura devia referir "prédio", mas não é isso que ficou no documento que pode ser consultado no cartório notarial de António José Alves Soares, em Lisboa, e que o site da revista Sábado divulgou na quarta-feira à tarde. Ou seja, não houve lugar a qualquer pagamento suplementar, por parte de Cavaco Silva à Constralmada. A vivenda Mariani, mais pequena, e que na altura tinha mais de 20 anos, foi avaliada pelo mesmo preço da Gaivota Azul, com uma área superior (mais cerca de 500 metros quadrados), nova, e localizada em frente ao mar. Fernando Fantasia refere que Montechoro "é a zona cara" de Albufeira e que a Coelha era, na altura, "uma zona deserta", para justificar a avaliação feita.

 

A Constralmada fechou portas em 2004. Fernando Fantasia não sabe o que aconteceu à contabilidade da empresa. O empresário, amigo de infância e membro da Comissão de Honra da recandidatura presidencial de Cavaco Silva, não se recorda se houve "acerto de contas" entre o proprietário e a construtora.

 

"Quem é que se lembra disso agora? A única pessoa que podia lembrar-se era o senhor Manuel Afonso [gerente da Constralmada], que já morreu, coitado..."

 

No momento da escritura, Manuel Afonso não estava presente. A representar a sociedade estavam Martinho Ribeiro da Silva e Manuel Martins Parra. Este último, já não pertencia à Constralmada desde 1996, data em que renunciou ao cargo de gerente. Parra era, de facto, administrador da Opi 92.

 

Outro interveniente deste processo é o arquiteto Olavo Dias, contratado para projetar a casa de Cavaco Silva nove meses antes de este ser proprietário do lote 18. Olavo Dias é familiar do Presidente da República, por afinidade, e deu andamento ao projeto cujo alvará de construção foi aprovado no dia 22 de setembro de 1997.

 

A "habitação com piscina" que ocupa "620,70 m2" num terreno de mais de1800, é composta por três pisos, e acabou de ser construída, segundo os registos da Câmara a 6 de agosto de 1999. A única intervenção de Cavaco Silva nas obras deu-se poucos dias antes da conclusão, a 21 de julho de 1999, quando requereu a prorrogação do prazo das obras (cujo prazo caducara em 25 de junho).

 

A família Cavaco Silva ocupa, então, a moradia, em agosto. A licença de utilização seria passada quatro meses depois, a 3 de dezembro, pelo vereador (atual edil de Albufeira, do PSD) Desidério Silva, desrespeitando, segundo revela hoje a edição do Público, um embargo camarário à obra, decretado em dezembro de 1997, e nunca levantado.

 

A VISÃO não conseguiu obter nenhum comentário do Presidente da República.

 

Na Visão


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

 

 

O último argumento de Cavaco Silva para votarem em si é não haver mais campanha, porque "os custos seriam muito elevados para a economia portuguesa". E explicou: isso aconteceria por via da contenção do crédito e pela subida das taxas de juro. Cavaco não quer apenas que os políticos se calem para não aborrecer os mercados. Quer que os eleitores votem nele depressa para não lhes desagradar. Esta frase é o melhor retrato do pensamento político de Aníbal Cavaco Silva. E ela explica porque lida o Presidente tão mal com exame público, com os debates, com a contestação e com tudo o que define a vida democrática de um País.

 

Cavaco respeita formalmente a democracia porque, felizmente, a democracia é mais forte do que ele. Suficientemente madura para alguma vez ter sucumbido ao seu espírito autoritário. Mas Cavaco Silva não é, nunca foi, um espírito democrático. E por isso trata as eleições como um mero ato administrativo. Uma coisa aborrecida, que nos faz perder tempo e dinheiro e pode aborrecer os especuladores.

 

Não é de hoje. Andámos, e com razão, nos últimos anos, irritados com as tentativas socratistas de controlar a comunicação social. Mas quem foi, como eu fui, jornalista no consulado de Cavaco Silva no governo sabe que nada se compara às pressões dos seus ministros, muitas vezes bem sucedida, para calar os jornalistas.

 

A detenção de sindicalistas, na terça-feira, causou, e muito bem, uma justa indignação. Cavaco quase ia abrindo a boca sobre o assunto, mas lá se defendeu com o seu estatuto de Presidente. Quem tem memória lembra-se que as bastonadas sobre manifestantes, fossem eles estudantes, trabalhadores ou cidadãos indignados com o aumento das portagens na ponte 25 de abril, eram quase uma rotina. O seu ministro da Administração Interna, Dias Loureiro, tinha, como se sabe, um grande apego à lei e à ordem. Coisa que, como se viu depois, manteve como conduta de vida. E quem tem memória não se esquece do enxovalho internacional que foram as imagens de polícias a carregar sobre polícias.

Cavaco Silva dizia que não tinha dúvidas. Que não se enganava. Que duas pessoas de boa-fé, com a mesma informação, só podem chegar à mesma conclusão. Que não lia jornais. Que sabe que ninguém é mais honesto, mais conhecedor, mais capaz do que ele. Muitos portugueses gostam disto. Até muitos jornalistas gostam disto, como se vê pelo blackout sem paralelo numa campanha eleitoral que vão fazendo ao que se vai sabendo sobre a sua relação com o BPN. Há uma boa percentagem de portugueses que sonha com um líder com mão firme que "ponha isto na ordem". E de jornalistas que só respeita quem não lhe dá confiança.

 

Cavaco é um símbolo. Um símbolo que nos recorda que não temos ainda 40 anos de democracia. Ela é firme e resiste a quem não se sente confortável nela. Mas este símbolo recorda-nos porque suportámos durante tantas décadas um tiranete. Porque, infelizmente, há muita gente que gosta de ser mandada. E que acha, como Cavaco, que eleições, campanhas e tudo o que define uma democracia são uma perda de tempo e de dinheiro.

 

E esta, mais do que o BPN, que as opções económicas erradas do cavaquismo, que os silêncios e omissões do Presidente, que o seu primeiro mandato cheio de episódios insólitos, é a razão porque nunca Cavaco Silva poderia contar com o meu voto. Porque só dou o meu voto a quem não o vê como uma perda de dinheiro e de tempo. E a quem não se atreve a fazer chantagem para o conseguir. Demasiados portugueses perderam a liberdade e até a vida para eu ter direito a isto. Por isso, como cidadão, exijo um respeito absoluto por este ato. Nenhuma urgência e nenhum dinheiro valem mais do que a democracia. E nenhumas eleições são um plebiscito.

 

No domingo, votarei por convicção. Uma convicção positiva: votarei em quem me garante que resistirá à ofensiva que aí vem, à boleia da crise, contra o Estado Social, o Serviço Nacional de Saúde, a Escola Pública, os direitos laborais mínimos e o apoio aos mais pobres que não se resuma à caridade e à distribuição das sobras dos restaurantes. Mas também uma convicção negativa: não quero ter como Presidente da República um homem que olha para a democracia que jura defender como uma perda de tempo e de dinheiro. Quem não compreende a essência do Estado Democrático não tem estatura política para o respresentar.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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