A história repete-se, a cada caso “dramático”, a cada “tragédia humana”. Começa por ser apenas uma notícia, o relatar dos factos, os números, as opiniões, o que verdadeiramente interessa. Mas, passados alguns minutos de outras notícias à volta do caso, a redundância começa a instalar-se: são entrevistadas personagens que nada têm que ver com o caso, jornalistas entram em directo do local sem ter nada para dizer, convida-se “especialistas”, comentadores, figuras mais ou menos públicas, e passa-se da redundância à exploração de uma notícia, ao sensacionalismo, tal como ele pode ser definido. Ao fim de quinze, vinte minutos, chegamos à caricatura de jornalismo: “populares” que nada viram mas são agressivamente questionados pelo jornalista no local, câmaras a rodopiar em estúdio fazendo reportagem sobre o trabalho dos jornalistas, conferências oportunistas de membros do governo em directo para as televisões. Tudo volta uma vez mais a acontecer: o Jornal da Tarde da RTP 1 de hoje foi um exemplo típico, como o será o Telejornal da noite. A determinada altura, houve um directo numa sala das instalações da RTP onde uma jornalista (?) falou do trabalho de colegas que cobriam os acontecimentos pós-terramoto. Depois, a conferência de imprensa do Ministro da Administração Interna, Rui Pereira, a explicar que Portugal irá enviar donativos ao povo que sofre, mantendo um hábito cultivado pelos políticos, o de explorar a miséria humana em proveito próprio. Não seria suficiente um comunicado, o pudor, o respeito, em vez do espalhafato do directo para os telejornais? E depois, a cereja no topo, o regresso à tal sala e entrevista aos trabalhadores que acompanham nos bastidores da notícia. Foi no Haiti, a tragédia, e foi apenas a repetição de um hábito; e todas as televisões se repetem, até à náusea, até a única opção possível ser desviar o olhar e não pensar no sofrimento do Outro. A hiper-mediatização da realidade funcionando em todo o seu esplendor – admirável mundo novo.
29 comentários 14 Jan 10 em Televisão29 respostas ao post “Olhar o sofrimento dos outros”
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- 3 Trackback on 31 Jan 2010 às 8:30




Admirável mesmo meu caro.
E e pior ainda está para vir. Com tanto jornal, blogue, radio, revista, televisão e jornalistas anciosos por noticias tudo irá servir para ter audiencias. E quanto mais baixo for o nivel melhor, porque o povo quer é “sangue” e espetáculo.
Ainda me lembro quando os jornais desportivos eram 2 e só saiam 3 ou 4 vezes por semana. Agora são 3 e saiem todos os dias.
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Tem toda a razão. A ’sociedade do espectáculo’ usurpa o real e age como verdade. ‘o Haiti é aqui – o Haiti não é aqui’, canta Caetano Veloso.
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Por outras palavras menos elaboradas estou farto de dizer o mesmo.
Não vale a pena, vai voltar e voltar e voltar a acontecer.
Pelo menos no “Brave New World” todos viviam e morriam felizes, até a utopia deixar de o ser.
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Para mim o maior problema reside no facto de dentro de pouco tempo, ja ninguem se preocupar com o que la se passa, desde os meios de comunicacao ‘as pessoas que ficaram horrorizadas. Como se todos os problemas se evaporassem uns dias ou semanas depois. Isso para mim sim, a cereja no topo do bolo.
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http://www.youtube.com/watch?v=AMrZxLwQB4Y
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Pão e circo…Assim é desde que somos civilização.
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Caro Sérgio Lavos, a análise é correcta e oportuna mas não é nova, longe disso.
O que interessa saber é como “se dá a volta ao texto”. Será nas escolas de jornalismo; será na Lei da comunicação social; será no Código de Trabalho, que permite às empresas de media contratar jornalistas precários e, por isso mesmo, sem independência?
Veja o tratamento noticioso que tem sido dado à questão dos “supostos Etarras”. Quem se interrogou sobre o facto de tanto o Primeiro Ministro como o Ministro da Administração Interna se terem pronunciado sobre o caso? Será que nestes casos a independência do poder judicial pode ser alvo de comentários de ministros? Poder-se-á aceitar que um ministro espanhol comunique ao seu homólogo português a necessidade de se extraditar um suposto terrorista, sem que ninguém se importe em saber se essa acção é um acto de pressão sobre o poder judicial português?
Onde estão os jornalistas a sério que levantam, ou deveriam levantar, estas questões? Eu respondo: ou se reformaram (em nome da dignidade), ou estão amordaçados.
ps: um exemplo interessante para avaliar da ética jornalística que hoje em dia grassa nas redacções, é o do “vídeo do martelo”. Todas o acharam indigno e chocante mas, no entanto, todas o passaram repetidamente – até à náusea!
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Caro Joaquim Azevedo:
eu sei que, infelizmente, isto não está a acontecer agora. E nem sei dizer se em Portugal a tabloidização dos telejornais é pior do que noutros países. Mas sim, o principal problema é que muitos jornalistas noticiam sem pensar no que é verdadeiramente notícia, onde está o limite, se a notícia nasceu numa agência de comunicação, etc. E pior, muitas vezes o que parece é que as direcções das televisões nacionais acham que “quanto pior, melhor”, é disso que o povo gosta, sem pensarem no bom uso do poder que têm. Será um problema de ética profissional? Talvez quem conheça melhor a realidade – eu sou apenas espectador – me possa responder…
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Algo está errado…Não acham que ajuda humanitária está a demorar demasiado…
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Penso que muitas vezes a culpa nem será tanto dos jornalistas que fazem a cobertura dessas notícias ou fazem as reportagens. As direcções editoriais sabem que “a clientela”, naquele momento, quer aquele tipo de “produto”, é o que “vende” no momento. Daí destacam jornalistas para essa cobertura. Acontece que muitas vezes, como hoje em algumas notícias sobre o Haiti, não há nada de mais substancial a dizer a não ser…carregar nos adjectivos para descrever a situação. O pobre jornalista no local tem então que encher o chouriço naqueles minutos em que está no ar, a maior parte das vezes para dizer coisa nenhuma. Daí a, pelo meio, sairem algumas pérolas, vai um passo.
Isto até que a opinião pública seja saciada, ou que as direcções considerem saciada, melhor dizendo.
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Caro Sérgio, dado o adiantado da hora, não me julgo em condições de me alargar muito neste preciso momento – esta é uma discussão demasiado complexa.
No entanto, deixo-lhe uma ideia que, julgo, pode ser explorada:
Mostrar, até à exaustão, as desgraças dos outros é a melhor maneira de nos conformarmos com a miséria em que vivemos – há sempre alguém a sofrer mais…
ps: se há alguém capaz de discutir verdadeiramente esta questão, esse alguém é o Daniel. Pergunte-lhe.
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LAM:
claro que são as direcções que mandam os pobres jornalistas encher chouriços, não tenho dúvidas. Acho que ajudava se reduzissem o tempo dos telejornais. Meia-hora é mais do que suficiente – nos outros países não passa desse tempo, e podiam aproveitar para preencher a outra meia-hora com reportagens, como aliás, a SIC já faz, e julgo que a TVI também.
Caro Joaquim:
boa pergunta. Pode-se aplicar a algumas situações, mas nestas, limite, julgo que não.
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É a repetição pela insensibilidade.
Das catástrofes naturais às imagens “heróicas” de guerra, destruição e matança, a tv tem hoje conteúdos de pouco ou nenhum valor positivo e construtivo para a sociedade.
Publicidade, entretenimento, (des)informação: tudo as serviço de uma lavagem cerebral colectiva.
Existem ainda programas que escapam mas infelizmente, são muito poucos.
Em vez de comunicar, aprender ou praticar desporto, fica-se sentado em frente à tv e absorve-se, aceita-se o que escolhem para nós.
A tv é um meio de comunicação poderoso.
Porquê acreditar que esse poder serve o espectador?
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Mais de 100 mil mortes…
A humanidade está de luto.
Respeitar sempre o valor da vida, em todas as circunstâncias.
Todos os dias pedimos por milagres e demonstrações de fé. Há milagre maior do que estarmos vivos?
Aflige-me o facto de que cada vez mais e que cada vez mais recorrentemente, este tipo de desastres estejam a ocorrer. Nada é ao acaso e Al Gore já há bastante que põe o dedo na ferida.
Para onde caminhamos? Para onde caminha a evolução da humanidade? E a que preço?
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Quando eu andava na escola, aprendi que o importante da notícia era o “quê”, “quem”, “quando”, “onde”, “porquê”. Tudo o mais era redundante, e não interessava para a notícia a reportar. Actualmente, os noticiários, especialmente na TV, são autênticas revistas cor-de-rosa, onde o relevante não é a notícia em si, mas os sentimentos e opiniões acerca daquela. Pessoalmente, e devido ao modo como a notícia em causa está a ser tratada, estou farto de Haiti e não consigo mais ouvir falar no assunto!
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Convenientemente o orçamento pode passar para 2º plano e depois do público estar devidamente preparado, nem as contas fazem mossa.
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Caro Sérgio Lavos,
A situação é verdadeiramente “dramática” como tal, a notícia resultante espelha esse mesmo drama. A questão que me fica é, o que é que as super potências irão fazer depois da notícia deixar de vender? Vão virar novamente as costas a um dos países mais pobres do mundo? Vão continuar a sobrepor os interesses da industria aos da sustentabilidade do planeta?
As pessoas têm que tomar consciência que estes dramas também lhes dizem respeito!
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Até à náusea, sim senhor!.. Foi o que também proferi ao ver nas TVs, logo nas primeiras horas, semelhante indecência, falta de respeito e Indignidade!..Vi por alguns segundos, aquelas imagens arrepiantes e chocantes!E, desliguei logo o televisor! Sempre que vai dar noticiário, ou desligo o aparelho ou mudo para outro canal temático da tv por cabo.
Choca-me muito mais ver tais cenas, do que um filme pornográfico.( não é o meu género de filmes, mas seria hipócrita se disse-se que nunca os vi…)
Caramba, Vale tudo!… Autentica selvajaria!
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Fado Alexandrino Reply:
Janeiro 15th, 2010 at 15:07
Hoje o dia está a correr-me excepcionalmente bem. Há dias assim.
Com o meu filho e um ex-colega fomos almoçar ao Regiões ali entre São Marcos e o IC19.
É um antigo armazem com perto de 300 lugares, bonito com um serviço impecável preço muito baixo e estava cheio.
Durante o telejonal levantaram-se mais cabeças da comida quando apareceu a notícia daqueles pretinhos que se tinham envolvido à pancada em frente ao Tribunal do que quando apareceram as horríveis imagens da barbárie que vai pelo Haiti.
Comi pataniscas com arroz de tomate.
Antonio Cunha Reply:
Janeiro 15th, 2010 at 18:04
Gosto do Regiões. Já lá fui várias vezes.
14 H.D.P. ; 17 rimf ; 18 MADALENA
Espantam-me os vossos comentários.
– Que tem o terramoto que destruiu Port au Prince com a ferida onde o Al Gore pôs o dedo?
– Que têm a ver os interesses da indústria com esta catástrofe?
– Onde está a selvajaria nas imagens transmitidas?
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rimf Reply:
Janeiro 15th, 2010 at 15:37
Caro José Sejeiro,
A mim parece-me que a indústria (e aqui quando disse indústria refiro-me aos interesses economicistas) tem tudo a ver com o agravar das catástrofes naturais nos últimos tempos… O aquecimento global é em grande parte fruto da máquina “industrial” resultante do ritmo de crescimento das últimas décadas… Por outro lado, a indústria alimentar sufocou o mercado dos pequenos agricultores , o que, no caso do Haiti fez com que muitos destes pequenos agricultores, que não tinham capacidade para fazer face à concorrência, migrasse para a cidade de Port-au-prince para viverem em condições míseras…
“…explorar a miséria humana em proveito próprio”, não será um pouco forte dizer isso? Acha mesmo o Rui Pereira um oportunistazeco malandro que se está a marimbar para o que se passa no Haiti? Pelos vistos…
Já pensou que se o governo se limitasse a transmitir um comunicado de imprensa o Sérgio provavelmente estaria a criticá-lo pela frieza e desprendimento? Safa, há sempre motivo para criticar!
E não acha que a sua análise é também ela oportunista quando ainda há vivos soterrados? Já agora…
Sim, debatamos a (má e com vícios) comunicação social portuguesa, debate já de si estafado, mas daqui a uns dias. Para já faça como eu, complemente os canais portugueses com a CNN (ou não porque é imperialista), a BBC e a AlJazeera. Dispenso a Sky pelo sensacionalismo e a FOX porque nem merecem ser chamados de canal de notícias.
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Estamos todos de luto?
Quando vejo o resultado do inquerito feito neste blog e constato que o Tsunami de 2004 foi considerado o pior acontecimentoo da “decada”, por uns miseros 12%, fico com duvidas das lagrimas de crocodilo vertidas por aqui.
Daqui a uns dias vem mais um escandalo de pacotilha dalgum “politico” e esta tudo esquecido.
Eu acredito em Deus e rezo pelos Haitianos e todos os desgracados do Mundo!
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Caro Nuno:
sim, acho que um comunicado seria suficiente, e não, não acharia insensível se fizesse apenas isso. O altruísmo e a boa-vontade não precisam de ser publicitados em directo no Jornal da Tarde. Mas talvez o ministro apenas se limite a fazer o que todos fazem. O que me preocupa é a banalidade deste procedimentos.
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Sobre jornalismo e tragedia…
http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/1105740.html
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